Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

CD dos Xutos & Pontapés ao vivo no Rock Rendez Vous grátis com a BLITZ de março: leia a entrevista de Tim e a apresentação faixa a faixa

Ausente do streaming e desaparecido das lojas, 1º de Agosto no Rock Rendez Vous é o álbum ao vivo da instituição rock portuguesa numa sala fulcral dos anos 80. Tim apresenta as 19 faixas do CD que a BLITZ lança agora, com som renovado, e regressa a 1986 para recordar duas noites míticas

Em 1986 o futuro estendia-se à frente dos Xutos & Pontapés, risonho, depois de um período de alguma incerteza: gravaram em 84 para a Fundação Atlântica, chegaram a abrir-se as portas da Valentim de Carvalho mas o casamento nunca aconteceu. Em vez disso, Cerco, de 1985, saiu com selo da Dansa do Som, etiqueta com ligações ao Rock Rendez Vous, onde a banda acabaria então por gravar os concertos de duas míticas noites, a 31 de julho e 1 de agosto do ano seguinte. Na sequência imediata dos concertos, o grupo assinou com a PolyGram, de Tozé Brito, que seria depois a responsável pela edição de Circo de Feras, em 1987. O ano seguinte viu a edição do álbum 88, que marcou a explosão comercial do grupo, e o registo daquelas duas noites na sala da Rua da Beneficência, em Lisboa, acabaria por não ver a luz do dia oficialmente. Só em 2000 é que o álbum foi lançado, então com o título 1º de Agosto no RRV. Esse trabalho regressa agora devidamente atualizado à luz da tecnologia sonora dos dias de hoje, com som melhorado a partir dos masters originais e pronto a ser apreciado por uma nova geração de fãs que a banda de Tim (voz, baixo), o nosso interlocutor para a conversa abaixo, Zé Pedro (guitarra), Gui (saxofone), João Cabeleira (guitarra) e Kalú (bateria) têm com tanto afinco construído ao longo de mais de 35 anos. É também Tim que, páginas adiante, nos guia pelas generosas 19 faixas de 1º de Agosto no Rock Rendez Vous, uma acompanhamento indispensável para o CD que receberá gratuitamente com a edição de março da BLITZ.

Os Xutos tiveram um arranque de carreira fulgurante e depois conheceram anos de algum impasse. O que recorda do ânimo da banda nos idos de 1986, quando esta gravação foi feita?
Tínhamos estabilizado a nossa formação, já com o Gui e o João Cabeleira, e em 1986 já levávamos mais de um ano a tocar com essa formação, por isso sentíamo-nos bem, com o nosso som estabilizado. Tínhamos arrancado para essa formação com o «Remar, Remar», na Fundação Atlântica, e depois veio o Cerco, que foi um projeto trabalhoso. Tínhamos um grande apoio do Rock Rendez Vous e do Mário Guia e do Vítor Silva, mas o disco implicou muito trabalho até sentirmos que as coisas estavam mesmo a correr bem. Por isso, no verão de 86, o nosso ânimo era forte. A banda sentia uma nova dinâmica e isso impulsionou-nos para fazermos esses concertos.

Quando surgiu a ideia de gravar um disco ao vivo, nem surgiram dúvidas quanto ao palco a eleger para o efeito...
Penso até que as coisas se proporcionaram ao contrário, foi mais o Rock Rendez Vous a colocar-nos essa oportunidade diante dos olhos do que nós a levarmos a ideia até eles. Isto aconteceu como uma consequência do Cerco, disco gravado parcialmente na sala do Rock Rendez Vous e depois terminado com o Manuel Cardoso [guitarrista dos Tantra]. Nunca ficámos satisfeitos com o resultado dessa produção e, portanto, surgiu a oportunidade de regressar ao Rock Rendez Vous – o Mário Guia e o Pita falaram com o Zé Nabo e com o [Moz] Carrapa que disponibilizaram algum equipamento – o estúdio Tcha Tcha Tcha estava a arrancar – e as coisas proporcionaram-se. Não fomos nós que escolhemos ir gravar ali, aproveitámos foi a oportunidade que nos foi apresentada. Depois desses concertos as coisas mudaram. Quando terminámos os concertos, assinámos com o Tozé Brito para a PolyGram. E aí o panorama alterou-se: quando voltámos a sentir aquele frissom foi talvez com os concertos no Restelo, em 1988.

O Rock Rendez Vous tinha uma magia particular?
Era um misto. Por um lado para nós aquilo era quase uma sala de ensaios, um sítio onde íamos muitas vezes. Mas por outro lado era um espaço de partilha, de convívio. Era mesmo um clube, um sítio onde as pessoas mais diferentes se encontravam para falar das mesmas coisas. É algo que existe em tudo o que é cidade deste mundo. Aconteceu com o punk e com todas as correntes urbanas depois disso. O Rock Rendez Vous foi a casa do João Peste e de tanta outra gente. Compreendo o estatuto mítico que hoje se lhe confere, mas na altura aquilo era um espaço vivo, importante para muitos projetos.

Essa época marca um período de transição na música em Portugal, com a chegada da chamada música moderna…
Exato, havia ali uma vibração em que entravam lojas de discos, novas editoras, as bandas tinham vontade de fazer estreias com posicionamentos particulares, como aconteceu com os Mler Ife Dada ou os Pop Dell’Arte. As pessoas queriam mesmo apresentar ideias novas. E quem formava uma banda em Lisboa até podia ter como um dos objetivos ir tocar, sei lá, ao Cacém, mas esse não seria o objetivo principal. O principal era fazer um concerto que ficasse na memória das pessoas que iam ao Rock Rendez Vous. Isso é que traria mística, traria fotografias no BLITZ. Passámos de uma geração que se calhar não sabia bem o que andava a fazer, talvez mais rock, para outra com gente cheia de ideias, com vontade de fazer coisas novas e diferentes. Era algo que nasceu com a semente do punk e se desenvolveu com a new wave.

Muitas destas canções continuam vivas e fazem parte dos concertos dos Xutos & Pontapés no presente. O que é que garante longevidade a algumas canções e condena outras ao desaparecimento?
Acho que as canções que duram são as que têm mais pontos de interesse, que as tornam marcantes: um bom título, uma letra memorável, um grande riff, a atitude da música. Às vezes tem-se a certeza em relação a algumas canções, mas o público também tem uma palavra a dizer. Aí, o Rock Rendez Vous foi importante. Quando lá chegámos, aquele reportório já tinha muita estrada em cima, foi sendo afinado e, por isso, aquelas canções estavam na sua forma final, eram aquilo e não havia mais volta dar. Quando um ano e tal mais tarde chegámos ao Pavilhão do Restelo, essas músicas estavam na sua forma perfeita e foram muito importantes porque seguravam o nosso som, o nosso público e eram elas que nos carregavam. Claro que mais tarde apareceram outros temas, «Contentores», por exemplo, mas as «Homens do Leme» da vida, as «Avé Maria», tudo isso passou por muito concerto até chegar aquela forma. Passámos por diferentes épocas, poderíamos ter tido vontade de explorar outras coisas – talvez o tenhamos feito um pouco nos anos 90 quando nos aproximámos de um rock mais Guns N’ Roses – mas o nosso som, a nossa identidade, ficaram feitos nesse tempo. E as pessoas muitas vezes começavam por tomar contacto com as nossas músicas não na rádio ou em disco, mas ao vivo. E isso ajudava a que as canções ficassem, porque depois as pessoas associavam-nas a momentos particulares.

Os Xutos & Pontapés hoje assinam algumas das maiores produções que o nosso país está habituado a ver por bandas nacionais. Esta escala mais íntima dos tempos do Rock Rendez Vous deixou saudades?
Não tenho saudades simplesmente porque nunca abandonámos totalmente essa escala. Aqueles músicas continuam vivas e quando as toco elas trazem a sua própria bagagem e muitas vezes evocam essa escala do Rock Rendez Vous. Já cantei essas canções em muitos sítios e um dos meus truques foi sempre não permitir que o sítio estrague a canção. Não quero ser obrigado a dar vivas ao Benfica ou a ter que fazer 100 metros barreiras para dar dois beijos a umas miúdas e voltar para trás e com isso não conseguir cantar a música. Isso teve o seu tempo. E agora as músicas têm a sua força e eu tento respeitar isso, mantê-las o mais próximo possível da atitude original. Não mudo se for tocar num pavilhão ou no Rock in Rio.

Que movimentações há agora no universo dos Xutos?
Estamos numa fase de olhar para a frente. O álbum Puro fez um ótimo percurso, deu bastantes concertos, deu bastante material para os concertos – continuamos a tocar 5 ou 6 músicas desse alinhamento. Foi um álbum que foi muito bem aproveitado. Entretanto fizemos o acústico e isso já está arrumado: ensaios feitos e reportório escolhido, está tudo fechado. Este ano parece que se perspetivam alguns momentos, há o aniversário do Moto Clube de Faro, haveremos de ir a Newark outra vez. O ano está definido e isso dá-nos liberdade de começar a juntar as peças para fazer mais músicas. Esse é o plano.

Xutos & Pontapés
Ao Vivo no Rock Rendez Vous

Um clássico renovado, faixa a faixa.

1. Som da Frente
Este tema foi uma encomenda do António Sérgio para o programa dele. Fizemos esse «temazeco» que passou a ser a nossa abertura de concerto durante anos.

2. Esquadrão da Morte
Estes dois temas vinham sempre juntos, eram a nossa entrada em palco e funcionavam quase como a nossa assinatura. Nem os separávamos, para nós era «Som da Frente/Esquadrão»...

3. Barcos Gregos
Uma música extremamente ligada na minha memória às passagens pelo Rock Rendez Vous. Era um som que eu identificava com aquela era e aquele sítio, que falava de emigração, um tema que continua atual.

4. Se Me Amas
Este tema é outro que voltámos a tocar. Vejo-o como outra canção daquele tempo, algo guerreira, bem rock and roll, que evoca bem aquelas tardes «apunkalhadas» em que costumávamos tocar.

5. O Homem do Leme
Este tema apresentado desta maneira é para nós a «versão Rendez Vous», com aquela batida e aqueles pormenores. Foi uma canção que se impôs aos Xutos. Gostávamos mais do «Barcos Gregos», mas esta acabou por se agarrar a nós. Até acabou por ser single.

6. Sémen
Esta foi a nossa primeira canção, ainda com letra do Zé Leonel. Fui eu que a cantei, mas tinha sempre na memória a interpretação do Zé.

7. Conta-me Histórias
Foi a nossa primeira canção de amor. E é outra canção que fomos recuperar para o concerto acústico. É mais uma canção do lote do Cerco, do lote Rendez Vous.

8. Remar Remar
Vem do máxi que fizemos para a Fundação Atlântica. Foi o tema que fizemos já a pensar no Cabeleira. Foi aí que começámos a deixar espaço para ele ter solos. Foi essa a música com que começámos a ter essa preocupação, de fazer coisas com outro fôlego.

9. À Minha Maneira
Era com este tema que a coisa começava a acelerar. Este tema surgia no concerto no momento em que a coisa começava a abrir.

10. A Minha Aventura Homossexual com o General Custer
Lá está: esta já fazia parte daquela fase do concerto em que estávamos mesmo a abrir. Esse título foi uma daquelas palermices que eu às vezes invento.

11. Quero Mais
Esta é uma canção de que os Xutos sempre gostaram muito. Na altura já tinha uns cinco anos, mas continuávamos a tocá-la ao vivo.

12. Mãe
Tema do primeiro álbum, muito feita a pensar no estúdio, quando fomos gravar o 78-82.

13. Submissão
Este era aquela punkalhada do Zé Pedro a que ele se entregava com grande força.

14. Avé Maria
Esta era talvez uma das mais fortes. Tinha aquela entrada e era um tema muito particular no nosso concerto. Era no palco que ela ganhava a sua máxima força.

15. Casinha
Essa canção nasceu ali, nas sessões do Rendez Vous. E tornou-se, como se viria a perceber, uma coisa muito grande.

16. Morte Lenta
Um tema da nossa fase seminal, mesmo o princípio do princípio. Um tema que sempre tocámos no Rendez Vous.

17. Sexo
Mais um 78/82, que representava o arranque da nossa carreira.

18. Sou Bom
Este tema, o «A Minha Aventura…» e o «Casinha» tiveram o seu momento de glória um par de anos mais tarde quando saiu a cassete single que vendeu uma catrefada de cópias.

19. 1º de Agosto
Foi uma das primeiras músicas que escrevi, juntamente com a «Quero Mais». E está muito ligada a essa era do Rendez Vous. Tínhamos sempre que a tocar lá.

Originalmente publicado na BLITZ de março de 2016, já nas bancas, ao preço de €3,90 (inclui CD grátis)