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Rock em Portugal nos anos 70: elétricos & revolucionários

Antes do “boom” nos anos 80, preparou-se em Portugal uma revolução com guitarras, amplificadores e cabelos compridos: foram assim os anos 70 do rock tuga, uma história que ainda hoje permanece quase secreta

Musicalmente falando, o final da década de 60 em Portugal foi extremamente rico e entusiasmante, graças às movimentações de grupos como o Quarteto 1111, Psico, Pop Five Music Incorporated e Objectivo. Na música desses grupos encontravam-se algumas das mais significativas sementes que marcariam boa parte da produção de 70, uma década com um cariz revolucionário que não se limitou ao plano político.

O clima em Portugal, no arranque dos anos 70, não era o mais propício ao livre desenvolvimento de culturas juvenis. Por isso mesmo, o eco de inovações internacionais na música - sobretudo as que eram personificadas pelo eixo Black Sabbath/Led Zeppelin que liderava o contingente mais pesado do rock - chegava a Portugal mas o seu impacto era limitado. Júlio Pereira, um dos nomes incontornáveis da música popular portuguesa, que na década de 70 deixou a sua marca em grupos como os Petrus Castrus e os Xarhanga, refere que a missão rock no Portugal pré-25 de Abril era praticamente impossível: «Estar no rock nesse tempo era difícil porque muitas vezes acarretava desavenças com a família, com a escola, com os vizinhos e... sobretudo com a polícia...».

De facto, logo em 1970, o extremar de posições das autoridades em relação à música ficou claro. No Verão desse ano, um festival em Oeiras, onde deveriam apresentar-se grupos de rock e alguns cantores como Zeca Afonso, mereceu das autoridades policiais uma forte repressão. Zeca envolveu-se de corpo e alma no movimento sindicalista que tinha sido despoletado pela «Primavera marcelista» e tinha acabado de editar Traz Outro Amigo Também, álbum gravado no início de 1970, em Londres, e que motivou o Prémio de Honra da Casa de Imprensa, que reconhecia na sua obra um forte estímulo para a renovação da música popular. Para as autoridades, tudo isto era sinónimo de problemas. Por isso mesmo, e para tentar impedir a realização do festival que tinha levado alguns milhares de jovens até à vila de Oeiras, foi ordenada uma carga policial. A história provou, no entanto, que não se podia parar o tempo e, no ano seguinte, Vilar de Mouros recebeu o primeiro Festival de Rock do nosso país e provou que havia uma nova geração a vibrar com este pulsar eléctrico.

Na génese de um Portugal sintonizado com os caminhos mais duros do rock encontra-se obrigatoriamente o grupo Chinchilas de Filipe Mendes, também conhecido por Phil Mendrix, um verdadeiro ícone da «arte eléctrica de ser português». Os Chinchilas tiveram uma existência efémera e editaram muito pouco, mas foram a primeira plataforma para o talento de Filipe Mendes que havia de formar os míticos Heavy Band no início dos anos 70. «As minhas influências foram os Beatles e os Stones e mais tarde os Cream e o Jimi Hendrix», revela Filipe Mendes, que continua activo e que até tem um disco novo. Inovador na forma de abordar a guitarra e com um estilo próximo do de Jimi Hendrix (razão pela qual ganhou a alcunha Phil Mendrix), Filipe Mendes tornou-se um verdadeiro militante da causa rock em Portugal.

Com os Chinchilas editou em 1971 o single «Barbarella», que Filipe Mendes ainda hoje considera o melhor dos seus registos na década de 70, explorando o formato de power-trio que continuaria com a Heavy Band, grupo que criou em 1972 com Zé Nabo e João Heitor. Esta formação ganharia mesmo estatuto mítico, por causa de distantes relatos de incendiários concertos e também porque os dois singles que gravaram só tiveram edição em Angola, factor que contribuiu para uma certa raridade e consequente procura. Filipe Mendes reconhece que os Heavy Band surtiram algum efeito no panorama musical português: «eu tenho noção que tive seguidores, desde o estilo de música até ao tipo de aparelhagem que usava. Muitas vezes entrei em casas de música em que os gerentes me diziam que havia muita procura de amplificadores como o meu. Na altura, recebi muitas ofertas, quer a nível nacional quer internacional, para comprarem as minhas próprias guitarras e amplificadores».

Filipe Mendes faria ainda parte da única formação dos Psico que ficou registada para a posteridade (com a edição do single «Al» em 1978) e dos Roxigénio, que editariam já depois do virar da década, em 1980. Mais ou menos contemporâneos dos Chinchilas são os Beatniks de João Ribeiro e, mais tarde, Rui Pipas, Mário Ceia e José Diogo (nesta fase acrescentaram um «c» e passaram a ser os Beatnicks). Ao esforço de contracultura dos tempos que precederam a revolução, os Beatnicks acrescentaram uma certa reverência psicadélica pelo lado mais «druggy» da cultura beat e dos seus reflexos no rock.

Em 1971, o seu single «Christine Goes To Town» espelhava a influência pesada dos Black Sabbath e obrigava as longas cabeleiras que ocorriam aos seus concertos a abanarem-se em perfeita sincronia com as descargas de poder eléctrico. Os Beatnicks foram uma das presenças mais discretas em Vilar de Mouros mas também uma das mais pesadas. Filipe Mendes não hesita mesmo em incluir os Beatnicks - juntamente com os Objectivo de Zé Nabo - no grupo das bandas mais pesadas do Portugal de 70.

Júlio Pereira pode ter assumido lugar de destaque na geração que partiu à descoberta das raízes tradicionais da música portuguesa - mas, muito antes de insuflar nova vida no cavaquinho, era com uma guitarra eléctrica que o podiam encontrar. «Praticamente só ouvia rock. E gostava de tocar o que na altura se designava por Hard Rock. Formação "clássica": baixo, guitarra e bateria. Só perto dos 20 anos descobri o jazz e outras músicas», revela o músico quando questionado sobre o início da sua carreira. Júlio Pereira fez parte dos hoje históricos Petrus Castrus, grupo que em 1970 editou um dos marcos da década, o LP Mestre, obra carregada de rock e política com um famoso poema de Ary dos Santos, «SARL», a servir de mote para pesadas deambulações eléctricas de Júlio Pereira.

O poder instituído não gostou e o grupo foi mesmo pressionado pela censura que, como diria José Cid, silenciou alguns dos seus trabalhos. Júlio Pereira só participou na formação que gravou Mestre e saiu pouco depois para criar os Xarhanga, grupo que deixaria dois singles para a posteridade: «Acid Nightmare»/«Wish Me Luck» e «Great Goat»/«Smashing Life». Na altura cantava-se em inglês, com bastante peso e alguma medida. O 25 de Abril estava próximo e traria enormes mudanças.

«O 25 de Abril foi um marco importante na vida dos portugueses. Mas para o rock trouxe uma regressão porque as pessoas associaram o estilo de música anglo-americana ao imperialismo», afirma Filipe Mendes. Júlio Pereira tem outra visão da revolução de 74: «até lá odiava música popular. E não havia em casa o hábito de ouvir fado. O 25 de Abril proporcionou-nos a possibilidade de conhecer muitos sons de instrumentos e vozes da nossa tradição musical».

Outra das coisas que a Revolução dos Cravos proporcionou, pois claro, foi liberdade - valor sem o qual, garante JC Serra, membro fundador dos Aqui d'El Rock, o punk nunca teria acontecido em Portugal: «IMPOSSÍVEL. É preciso que isto apareça mesmo em maiúsculas. Antes do 25 de Abril, um grupo como os Aqui d'El Rock não poderia existir. Só a conquista de liberdade em 74 tornou possível o aparecimento de um grupo como o nosso. Antes, isso não poderia ter acontecido porque qualquer músico que se preze não poderia conviver com a censura do seu trabalho». O primeiro single dos Aqui d'El Rock, datado de 1978, tinha por título «Há Que Violentar o Sistema» e foi uma das primeiras consequências da chegada dos revolucionários ventos punk a Portugal.

Os Aqui d'El Rock foram um óbvio resultado da cultura rock existente em Portugal desde meados da década de 60. Serra e Fernando Gonçalves, outro dos membros fundadores, tocavam juntos em bandas da zona do Bairro do Relógio, em Lisboa, desde pelo menos 1972. «Qualquer um dos elementos que integraram os Aqui d'El Rock tinha uma forte cultura rock, alimentada desde adolescência. Alguns já tinham tido experiências noutras bandas, onde tocavam material dos Led Zeppelin, Black Sabbath ou Deep Purple», revela JC Serra, baterista original da banda. Apesar de existir uma cultura rock, não se podia propriamente falar numa «cena» organizada. Júlio Pereira afirma igualmente que, se havia algo de que sentisse fazer parte, era «do mundo», renegando assim a hipótese de ter alinhado por um qualquer «movimento rock nacional».

Serra adianta que essa comunidade, que havia depois de ganhar momento com a definição de um «boom do rock português», só começou a ganhar forma na época em que surgiram os Aqui d'El Rock: «acho que, nesse contexto e nessa altura, se podiam classificar como bandas do género - além dos Aqui d'El Rock - os Faíscas, UHF, Xutos & Pontapés, Minas e Armadilhas. Foi aí que se começou a definir uma cena, a tal que ganhou a designação de "boom do rock português"».

É importante perceber que, durante algum tempo, se tentou atribuir ao chamado «boom do rock português» um peso idêntico ao do Big Bang na história do universo: a década de 70 representava o vazio, mas os alvores dos anos 80 testemunharam a incrível explosão de talento e electricidade que rendeu inclusive um pai para o rock português. A história é, claro, muito diferente. Quando Ar de Rock, de Rui Veloso, chegou às lojas de discos em 1980, já Filipe Mendes levava mais de uma década de solos tresloucados, já Sérgio Castro tinha abandonado os Psico para formar os Arte & Ofício, que precederam os mais conhecidos Trabalhadores do Comércio, já o punk tinha arranhado o ainda fresco verniz da sociedade portuguesa pós-25 de Abril.

Houve de facto um «boom» nos anos 80, mas um «boom» de edições e de sucessos comerciais. As raízes criativas dessa geração, no entanto, estão firmemente enterradas na década em que o rumo de Portugal se alterou graças a uma revolução política e a muitos décibeis eléctricos.

Originalmente publicado na revista BLITZ de janeiro de 2007.