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Lena d'Água: a bomba do boom

Foi uma das maiores estrelas do boom do rock português, símbolo sexual de uma geração pop que nos anos 80 se sintonizava com a nossa língua e com o nosso público. Há 35 anos, com a Salada de Frutas, irrompia no primeiro lugar do top de vendas com o refrão “Olh'ó Robot”. Na primeira pessoa, a filha do histórico jogador de futebol José Águas recordou os dias dourados da sua carreira

A-dos-Ruivos. É este o nome da aldeia onde actualmente Lena d'Água vive, rodeada de animais e de memórias. Na divisão de entrada da sua casa, modesta, há um piano sobre o qual repousam dois troféus do seu pai José Águas, atribuídos pelo Benfica - a que é mais imediatamente associado - e do Futebol Clube do Porto. Há também várias fotos pelas paredes que contam uma história de família de que Helena Maria de Jesus Águas, ou Lena d'Água como o país a reconhece, tem visível orgulho.

É nessa história que encontra o seu próprio princípio: «A telefonia estava sempre a tocar na minha casa. O meu pai viajava muito com o Benfica e também com a selecção e trazia discos - daqueles de 78 rotações que eu ainda aí tenho. Ele não tinha nada a ver com o fado, por isso eu também nunca entrei por esse lado», revela, quando questionada sobre o início da sua relação com a música. «Decisivo foi também o período em Viena [Áustria], quando eu tinha seis ou sete anos, e onde vi ao vivo os Pequenos Cantores, essa pequena maravilha, feita de crianças da minha idade», adianta a cantora. «Isso teve um tremendo impacto em mim. Em três tempos aprendi a falar a língua e punha-me em cima de um banco a cantar como aqueles Pequenos Cantores».

BOB DYLAN A CAMINHO DA CATEQUESE

A primeira ligação séria à música apareceu por volta de 1970, na adolescência, quando uma canção de Bob Dylan a apanhou desprevenida, num jardim de Benfica. «Quando chegou a altura de acabar o 5º ano do liceu [actual 9º ano], o meu pai disse que me dava um presente para me premiar pela bela média de 15. Ora, eu era catequista - a mais jovem catequista da paróquia de Benfica. E um dia ia eu para a catequese com a minha mãe - que também era catequista - e vimos num largo do bairro de Santa Cruz um rapaz, mais velho do que eu, sentado no chão a tocar guitarra. Lembro-me que estava a tocar o "Lay Lady Lay". Aquilo apanhou-me e soube logo que era o que eu queria». Seguiram-se as canções aprendidas nos discos de gente como Melanie Safka, voz da geração hippie que ensinou a Lena d'Água os acordes de «Ruby Tuesday» - «a primeira canção que tive coragem de cantar na presença de outras pessoas», revela.

A época que viu Lena d'Água crescer foi palco de muitas transformações - na música, no mundo e nos comportamentos. «Lembro-me do fim dos Beatles», explica a voz de «Robot». «Na altura o meu pai treinava uma equipa em Matosinhos e eu andava num liceu misto. Eu era muito tímida, mas dava nas vistas por ser uma miúda de Lisboa, por de vez em quando meter umas collants roxas ou uma saia acima do joelho». E depois veio o 25 de Abril. «Quando se deu o 25 de Abril eu estava na Faculdade. E de repente já não havia aulas, houve quem não se importasse de fazer o curso com passagens administrativas, mas aquilo para mim não era vida. Eu logo em 74 entrei num grupo de teatro independente e fiz uma peça, Viagem à Íris, que me aproximou ainda mais da música», explica, reforçando logo depois essa vontade de transformação.

«Vivi esse tempo intensamente porque, mesmo não vindo de uma família ligada ao partido comunista, sentia-se directamente o clima de perseguição: se estavam três ou quatro pessoas a conversar numa paragem de autocarro logo aparecia um polícia a mandar "dispersar". E eu era completamente apaixonada pelo Zé Mário Branco, pelo Sérgio Godinho, pelo Zeca... o Fausto veio mais tarde, era mais difícil de tocar (risos)». «Algumas das primeiras canções que aprendi a tocar na viola eram deles. Lembro-me de uma vez ligar para a rádio, perto do 25 de Abril, para pedir uma música do Zeca ou do Zé Mário, já não me lembro muito bem, e foram-me sempre dizendo "não há, não há", mas eu tanto insisti que lá do programa de discos pedidos acabaram por me dizer "esses senhores não são portugueses"».

Mas eram, e depois do 25 de Abril transformaram-se num símbolo da liberdade recém conquistada: «A seguir ao 25 de Abril», concorda, «os discos dos meus "tios" - o Zeca, o Sérgio, o Zé Mário - começaram a poder ser comprados às claras e a ser tocados na rádio. Antes do 25 de Abril eu ainda comprei alguns na Ulmeiro, na Avenida do Uruguai, num alfarrabista que os tinha lá escondidos».

A PRIMEIRA PAIXÃO E OS BEATNICKS

«Em Janeiro de 75 vieram tocar ao Monumental uns tipos chamados String Driven Thing. Eu fui ver e estava à espera de uns amigos à porta, vinda dos ensaios do teatro. E vi um tipo muito giro na porta ao lado, que também estava à espera de alguém. Ele tinha umas barbas grandes e cabelo comprido. Era bonito, com um ar pacífico. Depois desapareceu e não o vi mais». Lena d'Água recorda assim a primeira vez que encontrou Ramiro Martins dos Beatnicks, com quem viria a casar. «No Carnaval, houve uma festa no Parque de Campismo de Lisboa. Um dos meus amigos de infância estava com um problema de droga muito sério. Quando ele desapareceu naquela festa - e eu sabia o que se estava a passar - fiquei tristíssima e desatei a chorar sozinha no meio das máscaras e das serpentinas. O Ramiro ia a passar com umas cervejas, viu-me, parou e veio falar comigo. Passadas duas ou três semanas começámos a namorar, foi uma paixão enorme e casámos - fui mãe da Sara no final desse ano, estava eu a fazer o Magistério Primário, porque não deixei de estudar».

A paixão conduziu a uma ligação aos Beatnicks, grupo que tinha tido uma primeira encarnação ainda na década de 60 com uma grafia ligeiramente diferente - Beatniks. Depois do 25 de Abril, e superados os obstáculos colocados pelo serviço militar, o grupo regressou ao activo. «Comecei a ir aos ensaios dos Beatnicks, aprendi as canções e muito naturalmente fui entrando na banda. O meu primeiro concerto foi em 76, alguns meses depois de a Sara nascer, numa festa de finalistas em Sintra, numa sala tão cheia que as paredes escorriam [água]», recorda Lena d'Água.

«Lembro-me de ir a um festival nos Açores em 77. Tivemos que estar à espera até à última hora na ilha Terceira porque a aparelhagem era tão fraquinha que tiveram que pedir material a outras ilhas e as colunas vieram de barco. É uma pena nunca ter chegado a gravar com eles, mas soube recentemente que este concerto dos Açores pode ter sido gravado», explica a cantora que nos confessa que utiliza o Facebook para se ir mantendo em contacto com alguns antigos companheiros de banda. Ramiro Martins, entretanto, faleceu há uma década. «O que se sentia nos Beatnicks, e até mais tarde, com os Salada de Frutas, era que quem fazia rock naquela época era um bocado olhado como "lacaio do imperialismo" pelo poder entretanto instituído», explica Lena d'Água sobre o clima do rock na época da canção de intervenção.

«O meu casamento não resistiu e por isso acabei por sair dos Beatnicks. Casámos muito cedo, com 19 e 20 anos. Ele ajudava o pai num negócio de família, de distribuição de leite, e depois tinha o estúdio da Reboleira onde se faziam os ensaios e onde bandas como os Rádio Macau gravaram as primeiras demos. Mas as coisas não correram bem e eu acabei por fazer a minha despedida dos Beatnicks num concerto em que fizemos a primeira parte do Jim Capaldi, dos Traffic, no Coliseu», prossegue Lena d'Água. «Tenho pena de não ter ficado nada gravado desta minha passagem pelos Beatnicks. Eu fazia as segundas vozes, umas harmonias muito bonitas. Aquilo que dá uma ideia mais aproximada do meu trabalho nos Beatnicks é a minha colaboração no álbum dos Petrus Castrus, Ascensão e Queda, em 1978».

DE MARCO PAULO AO HARPIC LÍQUIDO

«Na visita aos Açores foram também vários jornalistas e um produtor que se chamava António Moniz Pereira [fundador do Conjunto Mistério e do Quarteto 1111] que me ouviu cantar e me propôs fazer vozes de apoio para vários discos. Gravei coros em discos de Paulo de Carvalho, António Calvário, Carlos do Carmo... Eu cantei no original do "Eu Tenho Dois Amores", de Marco Paulo. Fiz a vozinha alta no "dai-li, daili dou, papagaio voa" [dos Gemini, de Tozé Brito]. Ganhava 1950 escudos por sessão», explica. «Foi através desse trabalho de estúdio que eu conheci o Luís Pedro Fonseca e o Zé da Ponte, que tinham um pequeno estúdio de publicidade. Gravei coisas para a TAP, Harpic Líquido ("... limpa e desinfecta num instante, WC brilhante..."). Eu, a Formiga (mulher do Luís Pedro), o Luís Pedro e o Zé fazíamos um bloco de vozes fantástico e fizemos dezenas de jingles. Depois, claro, o Luís Pedro apaixonou-se por mim e aquilo descambou para o lado mais emocional».

Desta época, quando nos bastidores se desenhava a explosão que teve o principal rastilho em «Chico Fininho» de Rui Veloso, Helena ainda assinou um disco para crianças, substituindo à última hora outra voz que haveria de marcar os anos 80. «Depois apareceu um disco destinado às crianças com adivinhas da Maria João Duarte [jornalista, mãe de Pedro Rolo Duarte]. Não era para ser eu a fazer aquilo. Era para ser a Adelaide Ferreira, mas por alguma razão aquilo não deu. E um dia recebi um telefonema a pedir-me para ir para o estúdio e acabei eu por gravar o disco».

A experiência correu bem, porque a relação estreitou-se e os Salada de Frutas nasceram para assegurar lugar no arranque sério da cena rock nacional: «O Zé da Ponte e o Luís Pedro acabaram por me convidar para fazer uma banda "isto soa tão bem, temos canções originais, vamos mas é fazer uma banda", disseram. Mas não senti que isto acontecesse por causa do Rui Veloso ou fosse de quem fosse. O disco dele saiu no Verão, o nosso em Novembro. As coisas já estavam em andamento. Foi um momento muito propício a que se semeassem coisas novas», sublinha.

«O Luís Pedro e o Zé faziam as canções. O Luís Pedro fazia as letras e eu dava-lhes um jeito. Mas o Luís Pedro é que tinha tudo na cabeça. Ele era o "doutrinador". E de facto soube pôr em canção e de forma muito simples algumas preocupações que mais ninguém manifestava, coisas ligadas à ecologia, ao nuclear», aponta a cantora que, ainda assim, não esconde uma certa desilusão, mesmo depois de 30 anos. «Mas enfim, foi tudo uma aldrabice. Nem um disco de prata dos Salada de Frutas tenho. Ganhávamos sete contos por concerto cada um. A Salada de Frutas comigo, com o Luís Pedro, o Zé, o José Moz Carrapa e o Guilherme Inês, nem chegou a durar um ano. Editámos o Sem Açúcar no final de 1980 e depois o "Olh'ó Robot" em Maio de 1981. No lado B tinha o "Armagedom", sem dúvida o melhor tema dos Salada de Frutas "entre as forças de Deus e do Diabo/um encontro derradeiro ficou marcado.". Tudo muito gótico», recorda, enquanto canta.

O SUCESSO, AS PAIXÕES E A ATLÂNTIDA

«Nessa Primavera e Verão fizemos muitos concertos. Entrámos na festa do Se7e no Campo Pequeno. E um dos problemas era esse sempre que tocávamos em algum lado, no jornal metia-se uma fotografia da vocalista. Eles não lidavam bem com isso e então resolveram fazer uma Salada só com bigodes! A separação aconteceu em Setembro, na Festa do Avante. O Luís Pedro ainda os questionou, mas eles não souberam dar uma explicação e ele resolveu sair comigo. Fizemos então o grupo Lena d'Água & Atlântida com o «Vígaro Cá, Vígaro Lá» e o «Labirinto», o primeiro single, e depois o álbum Perto de Ti». Lena d'Água tem a memória afinada, por orgulho, mas também por uma certa mágoa que se adivinha nas palavras e no tom com que desfia o novelo da história.

«Com a Banda Atlântida o ego era o do compositor e director musical, o Luís Pedro. Mas aí ele fazia as canções a pensar em mim. Só que depois, as coisas também não ficaram muito bem resolvidas, houve coisas foleiras. Não chegou ao nível [de violência de Ike e] Tina Turner, mas pronto. Eu também me apaixonava por tudo o que era músico.».

Com Luís Pedro Fonseca, que haveria de produzir Fado Bailado de Rão Kyao, Lena d'Água fez alguns dos mais bem sucedidos momentos pop dos anos 80, com a ajuda de um produtor inglês de renome que os descobriu no único sítio onde os ingleses descobrem o que Portugal tem para oferecer. «Fizemos o Perto de Ti, o Lusitânia e Terra Prometida. Trabalhámos com o Robin Geoffrey Cable [que trabalhou com toda a gente, dos Moody Blues a Carly Simon, Elton John e Leonard Cohen], um tipo fantástico, super-profissional em estúdio, sabia como trabalhar. Ele tinha um currículo fantástico. Conheceu-nos no Algarve e foi ele que quis trabalhar connosco».

Apesar de tudo, Lena d'Água surpreende no momento de escolher o seu título favorito da década de 80. «O meu disco favorito desse tempo foi o que eu fiz com o António Emiliano, o Aguaceiro. Foi uma maneira muito diferente de estar em estúdio. Foi nesse álbum que eu gravei o "Estou Além" do [António] Variações. Eu queria gravar o "Anjinho da Guarda", mas foi o António Emiliano que me sugeriu o "Estou Além" que depois se transformou no que se sabe», relembra a cantora, que conheceu Variações de perto.

Apesar das convulsões, profissionais e pessoais, Lena d'Água tem uma memória cândida dos seus anos 80. «Nunca cheguei a sofrer com a fama», assegura. «Eu era uma menina do bairro, a filha do Águas, levava a minha filha ao infantário, saía à rua. Ser famosa era uma coisa a que as pessoas achavam graça, mas nunca me afectou... mais tarde sim, mas não naquele tempo».

Mais do que as agruras da fama, Lena recorda a importância do amor na sua relação com a música. «Foi por amor que o meu pai me deu a primeira guitarra. O meu pai foi o grande amor da minha vida. E o meu marido também. Separei-me do único homem que realmente me amou. Mas sem dúvida que o amor foi o fio condutor da minha vida. Por amor entrei nos Beatnicks, por amor entrei nos Salada de Frutas e por amor saí para formar a Atlântida. Faz sentido, porque vim de uma família onde o amor foi sempre muito importante. Apesar de tudo, claro, que eu também não era nenhuma santinha e ainda levei uns chapadões».

Originalmente publicado na revista BLITZ de junho de 2010.