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Eddie Vedder: um homem melhor

Há 25 anos ouvimos pela primeira vez a sua voz, em Ten. Priscila Roque explica como os conflitos com a paternidade reverberaram na trajetória profissional de um músico tão lembrado pela sua postura política nos Pearl Jam, mas que implora por um amor puro enquanto letrista ou intérprete de bandas-sonoras

Lições de vida e conflitos familiares, dois dos temas mais clichês do cinema, podem ser também assuntos inusitados quando relacionados com esta estrela rock que despontou no início dos anos 1990. Eddie Vedder, frontman dos norte-americanos Pearl Jam, criou sucessos que, na sua maioria, tratavam de questões políticas ou do sentimento depressivo e rebelde, o mesmo que dominou a temática das bandas que formaram o movimento grunge da década. Entretanto, além do grupo, que está no ativo até hoje, Vedder - ao contrário dos seus conterrâneos Kurt Cobain (vocalista dos Nirvana, falecido em 1994), Layne Staley (voz dos Alice in Chains, falecido em 2002), ou Chris Cornell (dos Soundgarden) - traçou uma carreira paralela como letrista e intérprete de bandas-sonoras. E o que ressalta desta tendência é o facto de a maioria das músicas ser dedicada a filmes que buscam mostrar os valores do ser humano.

Coração partido

Eddie Vedder, voz dos Pearl Jam desde 1991, teve uma infância perturbada e carrega consigo uma história familiar difícil de digerir. Ainda bebé foi perfilhado pelo padrasto e desconhecia quem era o seu pai biológico. Contudo, mesmo sem saber, já o tinha visto uma vez. E, como nos filmes, descobriu que o homem era seu pai somente após a morte deste, causada por esclerose múltipla. Eddie era, então, adolescente. O homem era Edward Louis Severson Jr, um músico de San Diego, Califórnia. Pouco antes da morte do pai, Eddie - que adotou o apelido Vedder da sua mãe - recebeu a primeira guitarra. Influenciado pelas músicas dos The Who, passou a dedicar-se ao instrumento, que dizia ser o seu único companheiro à época.

No final dos anos 1980, integrou a banda Bad Radio, com quem gravou «Better Man» - canção que se tornaria hit dos Pearl Jam em 1995, single do álbum Vitalogy. Durante as gravações do programa VH1 Storytellers, o músico revelou que escreveu a letra da canção quando ainda estava na escola. Em vários concertos dos Pearl Jam, afirmou também que se tratava de uma composição dedicada ao homem com quem a sua mãe se havia casado. «Voltam lembranças de quando ela era corajosa e forte / E esperando que o mundo se junte / Ela jura que o conheceu, agora jura que foi embora / Ela mente e diz que está apaixonada por ele, que não encontra homem melhor», retrata um dos trechos. Em 1983, Vedder envolveu-se com Beth Liebling, com quem se casaria onze anos mais tarde. Há quem diga que esse relacionamento também rendeu forte inspiração para o seu trabalho nos Pearl Jam. Porém, as letras de amor não tinham grande destaque na carreira do grupo até então. Em 2000, o casal separou-se e, aí sim, foi possível perceber uma intensa diferença nas letras e no estilo do músico.

No meio de composições políticas, que os Pearl Jam nunca deixaram de parte, Eddie, à época do divórcio, começou a tocar o instrumento havaiano uquelele (nada mais que o cavaquinho, levado por portugueses para o Havai) e, assim, compôs algumas canções que marcariam uma nova etapa do grupo e de sua vida. Vieram «Can't Keep», que em 2002 entraria no disco Riot Act, dos Pearl Jam, e «Broken Hearted», lançada no seu segundo trabalho solo, Ukelele Songs, de 2011. Nesta, o sentimento da separação é visível: «Eu estou bem, é só uma noite / Não posso desempenhar esse papel / Estou bem, está tudo bem / É apenas um coração partido».

Hoje, aos 47 anos, é pai de duas meninas, Olivia (nascida em 2004, aparece no DVD Imagine in Cornice) e Harper (apelido «emprestado» por Ben Harper, grande amigo de Eddie, nascida em 2008), e selou oficialmente a sua união com a modelo Jill McCormick. Aquilo a que se pode chamar de «segunda fase» do músico, iniciada no começo deste século, rendeu uma nova identidade aos Pearl Jam e várias contribuições para bandas-sonoras.

Enquanto o seu nome era lembrado por canções em Vida de Solteiro (de Cameron Crowe, 1992), que retratava a rotina jovem de Seattle, ou Grito de Revolta (de Scott Kalvert, 1995), inspirado na contestação punk de Jim Carroll, Vedder marcou uma divisão partindo para filmes como I Am Sam (de Jessie Nelson, 2001) que conta o relacionamento entre um pai deficiente mental e a sua filha, ou O Grande Peixe (de Tim Burton, 2003) que fala da aproximação entre um pai e um filho.

Sobreviventes de um estilo

O grunge nasceu no final dos anos 1980, mas tornar-se-ia popular no início da década seguinte. Bandas como Melvins, Mudhoney, Green River e Mother Love Bone, que abordavam a rebeldia em letras negras e pouco otimistas (por vezes privilegiando a força de uma única palavra) sob um som sujo e pouco trabalhado, corriam no sentido contrário de forças do hard rock, popular nos anos 1980, que se pautavam pelo visual glam (roupas apertadas, cabelos armados, maquilhagem) e mesclavam composições entre o amor e as orgias o caso de Kiss, Whitesnake, Mötley Crüe e Bon Jovi.

Após a morte (na sequência de uma sobredose de heroína) de Andrew Wood, vocalista dos Mother Love Bone, o baixista Jeff Ament e o guitarrista Stone Gossard juntaram-se ao vocalista Chris Cornell e ao baterista Matt Cameron, dos Soundgarden, e fundaram um projeto musical de homenagem ao amigo falecido, os Temple of the Dog. Eddie Vedder aparece neste momento, indicado por Jack Irons, à época baterista do Red Hot Chilli Peppers, juntamente com o jovem guitarrista Mike McCready. A sintonia foi assinalável, de tal forma que, após o lançamento do único álbum deste grupo, em 1991, os integrantes dos Soundgarden voltaram para a estrada e os demais formaram, então, os Pearl Jam.

As três canções que marcam a fundação da banda são «Alive», «Once» e «Footsteps». Sem letra, foram enviadas a Eddie Vedder como «teste de admissão». Reza a lenda que Vedder terá saído para surfar e voltado com as letras, extremamente pessoais, já prontas. Quando questionado sobre as impressões que tiveram das primeiras gravações do vocalista, o resto da banda ecoa uma mesma resposta: Eddie é intenso. Cantava traumas familiares, ora em sussurro, ora em grito, como se a dor viesse de dentro.

Estas três composições integram a sua própria história com a de um assassino em série, formando uma única trama. Entretanto, mesmo aprovadas, não entraram de maneira sequencial no primeiro álbum da banda, intitulado Ten. «Once» abriria o disco, enquanto «Alive» foi escolhida como primeira música de trabalho, e «Footsteps» consta somente como lado B do single «Jeremy».

Em Zurique, durante um espetáculo da banda no ano de 1992, Eddie Vedder explicaria à plateia a forte ligação entre as três canções que culminaram numa trilogia intitulada Mamasan. «Vou contar-vos uma história sobre essas três músicas. Nós nunca as tocamos juntas, mas elas caminham lado a lado. É uma só história. Querem saber algo que nunca contei a ninguém? Não pretendo danificar qualquer interpretação que já tenham feito dessas músicas, mas [as canções] são sobre incesto, assassinato... A terceira música passa-se numa cela de cadeia. Esta é a nossa pequena ópera».

No início da carreira, os Pearl Jam lançaram quase um disco por ano. Ten (1991), Vs (1993) e Vitalogy (1994) marcaram a primeira fase do grupo, com composições que retratavam a realidade, até mesmo política, sempre em toada de revolta. «Even Flow», que consta no disco de estreia, fala sobre a vida na rua. «Quero ensinar-vos algo sobre a educação das ruas enquanto vocês ainda estão com a mente aberta. Ali do outro lado da rua existe uma pequena comunidade de sem-abrigo que mora debaixo da ponte. Saibam que essas pessoas não são malucas e, às vezes, [tudo o que lhes aconteceu] nem sequer é culpa delas», diria Vedder antes de encetar «Even Flow», no Bayfront Amphitheater, Miami, em 1994.

Vitalogy inaugurou uma nova linguagem que viria a ser uma constante na forma que a banda encontrava para apresentar o seu trabalho: o recurso a encartes com uma arte mais trabalhada que complementava o conteúdo das músicas. O disco em questão foi inspirado num antigo «livro da vida», sendo fiel até mesmo ao formato, trazendo, entre rabiscos de corpos e receitas caseiras, o terceiro álbum de originais dos Pearl Jam na sua última página.

Os momentos nucleares seguintes aconteceriam com intervalos de dois em dois anos: os lançamentos de No Code (1996), de Yield (1998) e de Binaural (2000). Todos possuem artes gráficas sofisticadas em embalagem digipak. Aqui, a banda deixou-se apoderar pelo experimentalismo, distanciando-se dos conterrâneos de Seattle. O folk, o blues e a world music «contaminaram» algumas composições que, contudo, ainda carregavam nas guitarras.

«Do the Evolution», lançada em 1998, trouxe a banda novamente aos topes, mais uma vez com palavras duras sobre a realidade da sociedade, antecipando o problemático início do século XXI: «Eu estou à frente, eu sou avançado / Eu sou o primeiro mamífero a fazer planos / Eu rastejei pela terra, mas agora estou mais acima / (...) É a evolução!».

Riot Act, o sétimo disco, chegou às lojas em 2002 e trouxe novidades para a banda. O teclista Boom Gaspar foi convidado para integrar os Pearl Jam e Eddie Vedder adotou o uquelele em diversas composições. «Love Boat Captain» inaugura no grupo uma forma mais aberta de se falar de amor. A letra é dedicada aos nove fãs que morreram esmagados na audiência de um concerto dos Pearl Jam no festival de Roskilde (em 2000). Num trecho, Eddie canta: «Há dois anos perdemos nove amigos que nunca conheceremos». No final é «All You Need Is Love», dos Beatles, que é evocada: «Eu sei que já foi cantado antes / Mas nunca é demais dizê-lo / O amor é tudo o que precisas / Tudo o que precisas é de amor». Em entrevista ao The Baltimore Sun, em 2002, o vocalista explica: «é estranho falar sobre amor tão abertamente, mas se não puder fazê-lo agora, quando será possível? O amor é um recurso que as empresas não conseguirão monopolizar. O que significa que ainda há esperança para os seres humanos».

Os oitavo e nono álbuns dos Pearl Jam, editados em 2006 e 2009 respetivamente, fazem parte da fase independente do grupo. As letras politizadas contêm discursos contra guerra e contra o governo de George W. Bush. «World Wide Suicide» (2006) é uma provocação: «É uma pena acordar num mundo de dor / O que significa quando uma guerra toma posse? (...) / O mundo acabou/ É um suicídio mundial».

Em entrevista ao jornal italiano La Repubblica, em 2009, Eddie Vedder afirmou que o último disco da banda, intitulado Backspacer, teve letras inspiradas nas eleições norte-americanas de 2004. «Na noite em que Obama foi eleito, queria dançar na rua. O dia seguinte foi especial. Seattle estava sem chuva, céu limpo, pessoas felizes e os poucos que não tinham votado nele eram reconhecidos ao primeiro olhar: triste, dececionado, patético», contou o vocalista; a esperança encontrada orientou as composições do disco, como denota o refrão de «The Fixer»: «Lutar para tê-lo de volta».

O assunto «bateristas» também é um capítulo à parte na trajetória da banda. Até chegar a Matt Cameron, que entrou no grupo em 2000, vindo dos (separados) Soundgarden, «desfilaram» Dave Krusen, Matt Chamberlain, Dave Abbruzzese e Jack Irons.

Caminho paralelo

«É um mistério para mim / Possuímos uma avareza com a qual concordamos / E quando queres mais do que precisas / Até que tenhas tudo / Não serás livre / Sociedade, és uma espécie louca / Espero que não te sintas sozinha / Sem mim». É com estas palavras que Eddie Vedder canta, em Society, a sua versão da história de Christopher McCandless, um jovem de vinte e poucos anos que batia de frente com os valores da sociedade no auge de uma juventude vivida no início dos anos 1990. O seu ideal passava por encontrar um lugar em que o homem e o animal vivessem plenamente em harmonia com a natureza. O objetivo era sobreviver somente com aquilo que as suas mãos lhe poderiam oferecer. Produzir sem sacrificar o outro, sem destruir para construir. O caminho curto que escolheu como seu inspirou o livro O Lado Selvagem, escrito por Jon Krakauer, em 1998, e, posteriormente, o filme de mesmo nome dirigido por Sean Penn e que chegou aos cinemas em 2007.

Ligado a Vedder por uma forte cumplicidade, Penn elegeu o amigo para compor e produzir a banda-sonora para esta longa-metragem. As palavras do rocker funcionaram não somente como uma nova narração da história, como também para o material do seu primeiro álbum a solo. O reconhecimento por Into The Wild veio naturalmente. Eddie Vedder conseguiu firmar-se como letrista de bandas sonoras, mas não deixou de respingar o estilo musical que adotou no álbum seguinte da banda, Backspacer. Por lá, a canção «Just Breath» carrega melodias muito parecidas com «Tuolumne» e «Guaranteed». Todas elas começam com um leve dedilhado de guitarra, recurso que vem do trabalho em Into The Wild.

No início de 2010, uma canção chamada «Better Days» surgiu, sem aviso, na internet. Não se sabia, na ocasião, de onde teria surgido e se poderia ser, eventualmente, um lado B do último disco do Pearl Jam. A resposta veio mais tarde, com a divulgação de um clipe promocional de Comer, Orar, Amar (de Ryan Murphy, 2010). O filme protagonizado por Julia Roberts e Javier Bardem é baseado no best-seller de Elizabeth Gilbert do mesmo nome que trata sobre o prazer da gastronomia, o poder da oração e o equilíbrio do verdadeiro amor. «O meu amor está guardado para o universo / Olha para mim: estou a explodir / Um só planeta, tantas voltas / Mundos diferentes (...) O futuro terá dias melhores», diz a canção principal desta banda-sonora. A temática foge do que já era conhecido nos Pearl Jam. Contudo, evidencia uma ligação curiosa com os assuntos dos filmes em que Eddie Vedder aceitou participar ao longo da sua carreira: lições de vida.

A sua estreia como letrista de bandas-sonoras está bem distante da temática amorosa. Em 1992, colocou duas músicas dos Pearl Jam em Vida de Solteiro «State of Love and Trust» e «Breath». Eddie até entrou no filme, desempenhando o papel do baterista de uma banda grunge de Seattle.

Aí, as composições veiculam todo o estilo do grunge, tanto na composição quanto na melodia, por se tratar de um filme que contava uma história parecida com as que os Pearl Jam já viviam como estrelas rock. Ou seja, rebeldia, depressão e suicídio. «O gatilho treme apontado diretamente à minha cabeça / Não me salvarás?», diz uma das canções.

Grito de Revolta não foi diferente. O filme de 1995 é uma espécie de revolta punk inspirada na autobiografia de Jim Carroll. Como contribuição, os Pearl Jam regravaram um dos maiores sucessos de Carroll, «Catholic Boy», com um andamento visivelmente influenciado pelas Runaways, com guitarras sujas e vocalização gritada vinda diretamente do final dos anos 1970 e do início dos 80. Até aqui, a relação da banda com os filmes era estritamente musical, já que os argumentos giravam em torno da vida de outros rockers.

A Última Caminhada (1996), dirigido por Tim Robbins e protagonizado por Susan Sarandon e Sean Penn, começa a dar algumas pistas para entendermos como foi o início da carreira de Eddie Vedder nas bandas-sonoras, de maneira efetiva. Ele, que é amigo de Tim, Susan e Sean, foi convidado para compor especificamente para o filme passado na Louisiana, que mostra uma freira (Sarandon) a tornar-se guia espiritual de um homem (Penn) prestes a ser executado por ter assassinado dois jovens. Nesta obra, Eddie Vedder contribuiu com a faixa «Long Road» e ainda foi intérprete de «Face Of Love», escrita pelo músico paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan. O frontman dos Pearl Jam nunca se considerou poeta, mas diz que é sensível ao ponto de perceber o que o rodeia de forma a transformá-lo em música. «Long Road» é como um relato de alguém que vê a sua vida quase a chegar ao fim. «Percorrerei a longa estrada? / Todos percorreremos a longa estrada...», canta no final, deixando o conforto de que um dia todos terão o mesmo fim.

Curioso é perceber que «Long Road» foi ainda escolhida como pano de fundo para outras duas ocasiões. Após os atentados às torres gémeas de Nova Iorque, em 2001, alguns músicos reuniram-se para produzir o programa Tribute to Heroes e angariar fundos para aqueles que sofreram com a tragédia. Eddie Vedder esteve presente e cantou «Long Road» ao lado de Neil Young, incidindo sobre aqueles que pagaram o ataque com a própria vida; Long Road também foi solicitada pelo realizador Ryan Murphy para fazer parte de Comer, Orar, Amar.

A amizade entre Eddie Vedder e Tim Robbins resultou até numa brincadeira engraçada. Em 1999, Vedder foi convidado a gravar uma música com Susan Saradon em América Anos 30 (de Tim Robbins, 1999). A história, que se passa nos anos 1930, reflete-se diretamente no estilo da música do dueto, «Croon Spoon».

Assuntos relacionados com paternidade sempre estiveram presentes na vida do músico. Antes dos anos 2000, composições do Pearl Jam confirmavam-no. Após o início do novo milênio, Eddie Vedder tornou-se pai. Nesta mesma época, recebeu o convite de Jessie Nelson, o realizador de I Am Sam, para gravar uma versão de «You've Got Hide Your Love Away», dos Beatles. Coincidentemente, o enredo trata da história de um pai deficiente mental, vivido por Sean Penn (outra vez ele!), que luta pela guarda da filha. A música, de John Lennon (mas assinada Lennon/ McCartney como era hábito nos Beatles), ganhou uma nova interpretação neste filme. «Se ela se for, não poderei continuar / a sentir-me rebaixado / As pessoas olham em todo o lado / Todos os dias / Vejo-as a rirem-se de mim / E ouço-as falar» essas poderiam ser, facilmente, palavras do protagonista, excluído pela sociedade.

Em 2003, o assunto permeou novamente a vida de Eddie Vedder. Tim Burton, também amigo próximo do músico, mostrou-lhe uma primeira montagem da sua mais recente produção, O Grande Peixe. Depois, encomendou uma música ao Pearl Jam. O filme causou intensa comoção ao vocalista, por debruçar-se sobre a aproximação entre um pai no fim da vida e o filho. Eddie Vedder isolou-se por dois dias, compôs a canção e encontrou-se com a banda já com tudo pronto. O resultado foi «Man Of The Hour», que «embala» os créditos, após a cena final do filho segurando o corpo de seu pai. Uma despedida perfeita: «E a estrada que o velho abriu mostra remendos ao longo do caminho / Placas enferrujadas deixadas só para mim / Ele guiava-me, com amor, à sua maneira / Agora o homem do momento está a receber o aplauso final / Enquanto as cortinas se fecham / Sinto que este é só um breve adeus». A música causou tanto impacto na vida de Vedder que, anos mais tarde, levou-a para os palcos após a morte de um grande amigo, Johnny Ramone, guitarrista dos Ramones. Antes de tocá-la, Eddie fez menção ao músico e trocou a palavra «pai» por «Johnny».

Contra a guerra, pelo surf

Lições de vida, como a homenagem a um grande amigo ou a história de alguém que sofreu com a guerra, foram constantes na carreira de Eddie Vedder. Em 2007, foi convidado a gravar «Love, Reign O'er Me», dos The Who, para o filme Em Nome da Amizade, do realizador Mike Binder. A canção, por dar nome ao filme, surge nas versões das duas bandas, reforçando a temática sobre o amor. Na história, os atentados de 11 de Setembro voltam a tocar Vedder, já que uma das personagens sofre por ter perdido a sua família na tragédia e encontra no amigo uma nova razão para viver. Neste mesmo ano, Eddie conheceu Tomas Young, um jovem soldado que foi atingido por um tiro no Iraque, ficou paralítico e teve a sua história de difícil adaptação ao «novo corpo» contada no documentário Body Of War (de Phil Donahue e Ellen Spiro, 2007).

Inspirado por esse acontecimento, Vedder escreveu «No More», uma música de protesto: «Eu converso com um homem que arriscou a vida por esta terra / E levou uma bala nas costas como pagamento / Derramou o seu sangue na sujidade e na areia / Está de volta para nos contar / Que o que viu é difícil de acreditar / E não basta apenas rezar / Ele pediu-nos para aguentar / Devemos pôr um fim nesta guerra hoje / A sua cabeça diz "Nunca mais!" / O seu coração diz "Nunca mais!" / A sua vida diz "Guerra, nunca mais!"».

A estrada trilhada pelo rocker, paralelamente à dos Pearl Jam, não passou apenas por esses assuntos. Longe da guerra ou de crises familiares, as lições de vida que lhe são gratas, Eddie Vedder também contribuiu com bandas-sonoras relacionadas com o surf, uma das suas maiores paixões. Aqui entram as canções «Goodbye», feita especialmente para o documentário A Brokedown Melody (de Chris Malloy, 2004), interpretada inteiramente ao uquelele, e «Big Wave», gravada pelos Pearl Jam para o oitavo álbum da banda, cedida à animação Dia de Surf (de Ash Brannon e Chris Buck, 2007).

Não Estou Aí (de Todd Haynes, 2007) teve uma contribuição de Vedder. Para este filme, que é uma biografia sui generis de Bob Dylan, Eddie regravou «All Along the Watchtower», música que teve versões de diversos artistas, além de Dylan, mas que ficou conhecida com Jimi Hendrix.

Há ainda três filmes que contaram com músicas dos Pearl Jam, não se tratando, porém, de temas inéditos; foram apenas cedidas para as bandas-sonoras dos respetivos filmes. São elas: «Not For You», para o documentário Hype! (sobre a cena de Seattle nos anos 90, de Doug Pray, 1996), «Who You Are» e «Hard To Imagine», para Chicago Cab (de Mary Cybulski e John Tintori, de 1997), e «Go», para Lembra-te de Mim (de Allen Coulter, 2010). Essas canções não tiveram grande relevo nos filmes, não mais do que aquele que obtiveram nos discos para os quais foram gravadas originalmente.

Observando estes 21 anos de carreira profissional de Eddie Vedder, é possível perceber que aquela velha história do pai, aparentemente perdida num passado distante, é mais presente do que se possa imaginar. Na última década do século XX, Eddie mostra intensa revolta com o assunto paternidade; depois é nítida a mudança e a maturidade alcançada, quando a dor se transforma em amor. E é algo que tanto se pode testemunhar na natureza das próprias músicas como na dos filmes para os quais as engendrou.

Texto: Priscila Roque

Priscila Roque nasceu em 1982, é luso-brasileira, pós-graduada em Jornalismo Cultural. Aos 13 anos, descobriu os Pearl Jam. Desde então, soma 14 concertos vistos em diversas cidades do mundo, como Rio de Janeiro, São Paulo, Berlim, Lisboa e Londres.

Originalmente publicado na revista BLITZ de agosto e 2012.