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A primeira corrida dos Taxi

Há 35 anos, a estreia dos Taxi aconteceu com estrondo: o single “Chiclete” colocou-os, literalmente, nas bocas do mundo, e o primeiro concerto na Grande Lisboa foi com os Clash, numa noite mágica no Dramático de Cascais

Em Maio de 1984, António A. Duarte publicava 25 Anos de Rock n' Portugal - A Arte Eléctrica de Ser Português, ainda hoje o compêndio definitivo dos primeiros passos do rock em Portugal. Ainda a quente, o jornalista analisava a explosão de criatividade do arranque dos anos 80 com as seguintes palavras: «No boom (...) "português" em 1981, sobretudo três "fenómenos" são de salientar dentro do "fenómeno" global: a popularidade inusitada dos UHF, dos Taxi e de Rui Veloso».

Os Taxi entretanto estão de regresso com a mesma formação de sempre, têm álbum novo - Amanhã - e podem orgulhar-se de protagonizar um «comeback» quase por pressão externa: há uns anos, a remistura de DJ Riot dos Buraka Som Sistema para o tema «Chiclete» colocou os Taxi no centro das pistas drum'n'bass de todo o país; por outro lado, as frequências de rádio mais sintonizadas com a década de 80 nunca se cansaram de tocar os maiores êxitos do grupo - além de «Chiclete», «Cairo» é outro clássico que não deixou o pó assentar. Com bandas da mesma geração ainda activas - casos dos UHF ou GNR - o caminho para este reaparecimento estava aberto. Falta agora contar a história do nascimento desta banda e o seu percurso até uma mágica estreia ao vivo, na primeira parte dos Clash.

UMA BATERIA DE CAIXOTES DE BOLO-REI

«Nós tocávamos muito ao fim de semana aqui na zona de Lisboa Cascais, Estoril, Sintra e sair à sexta-feira do Porto para vir tocar cá abaixo era um pesadelo», recorda o vocalista João Grande, sentado ao lado do baixista Rui Taborda. «Demorávamos sempre cinco ou seis horas e normalmente chegávamos e íamos directos para cima do palco. Mas havia situações mais complicadas: por exemplo, quando íamos para Castelo Branco parecia ser noutro planeta, quase não havia hotéis, só havia umas espeluncas... Viseu, Águeda... era horrível chegar a esses sítios. Agora, podemos dizer que tudo melhorou imenso, nesse sentido e não só. Antigamente também tínhamos que andar com a aparelhagem às costas e isso era muito complicado e muito oneroso. As célebres sessões de segunda-feira das contas eram duras: nunca sobrava dinheiro para nada porque era tudo por nossa conta: as luzes, o som, os microfones... Uma vez um técnico lembrou-se de lavar os microfones com álcool e rebentou-os todos».

Em 2009, porém, as contas já devem compensar: «É como a diferença entre o Eusébio e, vá lá, o João Pinto: o Eusébio fartava-se de jogar e de correr, mas nunca ganhou por aí além. Um cachet nosso em 81 era para aí de 150 contos...». E mesmo essa quantia já significava um aumento de mil por cento sobre o primeiro cachet cobrado para fazerem a primeira parte dos Clash.

Viajemos no tempo. Primeira paragem: Porto, início dos anos 70. «A música nasceu naturalmente entre nós e todos começámos a gravitar para o mesmo sítio por causa disso. Lembro-me das noites no Orfeu tal como há gente que se junta no café para falar de futebol, nós encontrávamo-nos para falar de música. Lembro-me que conheci aqui o Rui [Taborda] através de amigos comuns que me falavam num gajo que tinha umas guitarras, uns pianos e uma bateria feita de tachos». Rui reforça a ideia: «A minha [primeira] bateria era mesmo feita de tachos e de caixotes de bolo-rei». «Tínhamos para aí uns 12 anos, em 72 ou 73», prossegue João Grande.

Nesse tempo, as novidades musicais descobriam-se nas lojas de discos. «Costumávamos ir comprar discos à Clave, que era quase por baixo da casa do Rui. Era toda em madeira e tinha duas ou três cabines insonorizadas», recorda o vocalista dos Taxi. Rui: «E quem trabalhava na loja - o Rogério - era o rei: era da vontade dele que dependia ouvirmos ou não os discos, durante mais ou menos tempo».

«Os discos eram muito caros», conta João Grande, «e eu lembro-me que adorava duas canções o "Reach Out I'll Be There" dos Four Tops e o «Winchester Cathedral», já não me lembro de quem [The New Vaudeville Band gravaram a versão original em 1966] e eu andava a juntar dinheiro para eles. Até que encontrei pelo Quinteto Académico um EP que incluía as duas canções [disponíveis no álbum Train Integral 1966-1968 editado o ano passado na série Do Tempo do Vinil]». Rui Taborda continua: «Além da Clave havia a Vadeca que tinha auriculares para ouvir os discos e a Arnaldo e Trindade, em Santa Catarina. Comprava-se um disco single ou EP de 3 em 3 meses. Era complicado».

Ainda como Pesquisa, no estúdio da Rádio Triunfo, em 1977

Ainda como Pesquisa, no estúdio da Rádio Triunfo, em 1977

Arquivo Pessoal João Grande

STICKY FINGERS À MODA DO PORTO

«Quando nos conhecemos resolvemos logo formar uma banda. Naquela altura dizíamos conjunto, porque a palavra "banda" associávamos mais às filarmónicas», explica João Grande. «E começámos logo a ensaiar, tudo com as guitarras ligadas ao mesmo amplificador. E essa paixão acho que ainda hoje nos define. O conjunto chamava-se Sticky Fingers. Na altura tinha saído o álbum Sticky Fingers [editado em Abril de 1971] com a célebre capa do Andy Warhol do fecho éclair. Nós só tocávamos versões. Era uma altura em que não se passava nada cá e nós, como qualquer outro grupo, começámos a tocar música para festas, para bailes». O fio da meada vai-se desenrolando, e Rui Taborda recorda que o primeiro concerto aconteceu quando tinha 13 anos, na Granja. «Ainda ele tocava órgão», adianta João.

«Nos Sticky Fingers eu era guitarrista e o Rui era teclista», explica a voz de «Chiclete». «E depois havia um grupo rival que eram os Pesquisa, com o Henrique [Oliveira] como guitarrista, com um baterista também muito mau. Os Sticky Fingers tinham um vocalista que também era muito fraquinho e eu às vezes ia cantar em vez dele. Um dia o Henrique convidou-me para eu ir cantar com eles. Depois o baixista dos Pesquisa morreu e como o Rui era pau para toda a obra convidámo-lo para o grupo. E aí já estávamos os três. O Rodrigo [Freitas] na altura era técnico de qualquer coisa talvez de luzes mas também dava uns toques na bateria. Certo dia resolvemos despedir o tal baterista muito mau e convidá-lo a ele. Na altura tínhamos teclas também, que era o Luís Ruvina [da casa de instrumentos Ruvina], que de vez em quando ainda toca connosco. Depois o Luís saiu e nós resolvemos mudar de nome e começar a escrever originais. Foi aí que tudo começou».

Pelo meio, houve tempo ainda de acrescentar ao grupo um guitarrista que também haveria dar que falar, quando o boom do rock português soou com maior estrondo. «Durante um bocado ainda chegámos a tocar com o Alexandre Soares. O primeiro concerto dele connosco foi na Madeira. E depois ele saiu para formar os GNR e nós arrancámos praticamente ao mesmo tempo como Taxi».

Antes ainda dos Taxi surgirem, no entanto, os Pesquisa inscreveram definitivamente o seu nome na galeria das bandas «setentistas» com a auto-edição de um single: «Em 1977 gravámos o nosso primeiro single [«Dude's Serenade»/«Fool Dream»] como Pesquisa às nossas custas. Viemos para Lisboa para o Estúdio da Rádio Triunfo e depois andámos nós a distribuir os discos pelas discotecas. Nós queríamos mesmo muito fazer algo no mundo da música», sublinha João.

Os Pesquisa ainda tentaram contactar editoras antes da edição do single, mas as reacções nem sempre foram as melhores, como recorda Rui Taborda: «Lembro-me de irmos à Valentim de Carvalho mostrar as gravações e disseram-nos "Pois, isto está muito bonito, mas gravem isto antes com uns bombos e uns adufes e nós fazemos qualquer coisa"».

ALMOÇOS GRÁTIS EM LONDRES

João Grande: «A transição para os Taxi significou uma grande mudança. O nosso som nos Pesquisa era muito condicionado pelos teclados: fomos dos primeiros a usar o Mini Moog, tínhamos o Hammond, tudo isso era muito importante no nosso som. Depois tivemos dois guitarristas. A partir do momento em que ficámos só nós os quatro, reduzidos à expressão mínima do baixo, guitarra e bateria, as coisas alteraram-se. A nossa preocupação com o nome Taxi era que fosse universal, porque foi sempre um objectivo nosso tentar singrar lá fora. Eu odiava aqueles nomes dos anos 70: Pesquisa, Perspectiva, Pentágono... tudo com P...».

O vocalista dos Taxi explica que o grupo procurava estar a par de tudo o que acontecia na música «mesmo antes de começarem a normalizarem as importações de discos.Já em 75 sabíamos quem era o Bowie, os T-Rex. Éramos umas esponjas completas e sorvíamos toda essa música. Frequentávamos todos os concertos que havia: viemos ver os Genesis a Cascais e, claro, víamos os concertos uns dos outros. Nós tocávamos muito com os Hossana, com os Salada de Frutas... E como havia pouca coisa íamos a tudo até ao festival de Jazz de Cascais que foi sempre mais do que um festival de jazz. Vimos lá o Miles Davis, o Muddy Waters que foi fabuloso. Vimos os Can também».

Para João Grande, houve também um pouco de sorte no timing da formação do grupo. Os tempos eram outros e as perspectivas eram mais amplas: «Poucos grupos no início dos anos 70 conseguiram sobreviver por causa do serviço militar... Os Psico, os Pop Five... eles iam para África para aí uns 5 anos, vinham de lá todos avariados e já não dava. Nós beneficiámos daquela fase em que não havia serviço militar».

Quando começaram a trabalhar em canções de sua lavra, os Taxi nem pensaram duas vezes na língua com que se iriam exprimir: «Tudo o que nós ouvíamos era em inglês e nunca pensámos sequer em cantar noutra língua». De certa forma, fazia tudo parte de uma estratégia que traduzia a ambição internacionalista do grupo, como esclarece Rui Taborda: «Com o Aníbal Miranda, que era o nosso manager, resolvemos ir a Londres mostrar a nossa maqueta a editoras. E houve algum interesse por parte de um funcionário da Warner. Não era o maioral, não era do quinto andar, mas era para aí do segundo ou do terceiro eu sei é que ele já nos pagava almoços e jantares. Mas estivemos lá quase um mês, o dinheiro a acabar-se, e nada de concreto acontecia e nós viemos embora. Isto foi em Outubro de 1980».

De regresso a Portugal. «O nosso manager era muito amigo do Tozé Brito e fartou-se de nos falar da Polygram. O Tozé Brito e o António Pinho foram ver-nos a tocar no Colégio Alemão». João Grande continua: «Isto foi complicado porque a proposta deles era cantarmos em português, só que a hipótese de Inglaterra ainda não estava fechada. Mas pronto, lá decidimos agarrar a hipótese da Polygram e o António Pinho ajudou-nos muito com a passagem das letras para português».

O ESTRONDO DO BOOM

«Ttivemos uma noção muito clara da era excitante que estávamos a ajudar a despertar. Sentimo-nos no olho do ciclone, com tudo a acontecer ao mesmo tempo. Parecia que estávamos a viver um sonho: de um momento para o outro começou a consumir-se música portuguesa como nunca tinha acontecido antes». «E essa agitação também se sentia na rádio», continua Rui Taborda, «com muitos programas a aparecerem e a darem voz a estas novas bandas. O Rock em Stock, por exemplo. Como é que hoje seria possível um programa daqueles?»

João Grande não esconde a emoção ao falar «daqueles tempos»: «É verdade: programas de rádio como a Febre de Sábado de Manhã que juntava 30 ou 40 mil pessoas num estádio... eram momentos muito excitantes. E isto apesar de não haver nada. Não havia salas, nem PAs, nada. Tínhamos um amigo finlandês que fez à mão uma mesa de mistura, construiu-nos as colunas, era tudo muito artesanal. Chegámos a comprar material a bandas que vinham cá e depois fomos a Londres com uma carrinha para comprar coisas e ficámos com o material apreendido. Enfim, eram tempos excitantes, mas complicados».

«Quando a música começou a tocar nas rádios, lembro-me que mandámos fazer umas t-shirts a dizer "Taxi". E quando elas chegaram, vesti uma e fui para a rua... nunca mais o fiz. As pessoas abordavamnos nos centros comerciais, chamavam-nos "paneleiros" e essas coisas. O impacto foi grande e imediato», reconhece João. A palavra de novo a António Duarte, em 1984: «Os Taxi conseguem ser a banda que até ao momento vendeu mais cópias de um álbum. (...) Encontraram um "som" e uma "receita" (referências ao ska, ao reggae e à pop britânica) e exploram a "descoberta" com êxito, servida por textos acessíveis que entram facilmente no ouvido». E, ao que parece, não saem, mesmo tendo já passado quase três décadas da estreia com «Chiclete».

Conclui João Grande: «Eu sabia que quem apostasse em nós iria fazer um bom negócio. Antes da Polygram aparecer, eu fartava-me de dizer aos meus companheiros: "quem nos assinar vai dar-se bem". E assim foi. A Polygram fartou-se de fazer dinheiro e nós também».

Os Táxi com os Clash

Os Táxi com os Clash

Arquivo Pessoal João Grande

UMA NOITE COM OS CLASH

A 30 de Abril de 1981, os Taxi abriram o concerto dos Clash no Pavilhão Dramático de Cascais. Ganharam 15 mil escudos (75 euros) e um encontro com a banda inglesa. João Grande faz o filme da noite, na primeira pessoa:

O nosso primeiro disco tinha acabado de sair e o tema «Chiclete» tocava com toda a força na rádio. Foi o nosso primeiro concerto na zona de Lisboa; começar logo para 9 mil pessoas na primeira parte dos Clash? Íamos ser trucidados.

A manhã começou no Estoril com uma equipa da RTP, a filmar um videoclip do «TVWC» para o Vivámusica. Depois de almoço fomos logo para o Dramático, não sem antes irmos comprar 2 garrafas de vinho do Porto, para presentear os técnicos de som, que iam ser os dos Clash. Deu resultado; ainda hoje nos lembramos do som fabuloso em cima do palco.

Por volta das 5 da tarde, chegaram os Clash muito bem dispostos, e com o Mick Jones às cavalitas do Paul Simonon. Do sound-check não me lembro de nada, a não ser que acordei a Pearl Harbour [vocalista dos Pearl Harbour & The Explosions e companheira de Paul Simonon] a dormir atrás do palco, e conversei um bocado com ela.

Jantámos no pavilhão, vi «catering» pela primeira vez, e comemos quase nada, uma vez que estávamos borrados de medo. Até que finalmente chegou a hora. Entrámos em palco completamente desinibidos e muito confiantes, arrancámos com o «TVWC» e quase sem parar continuámos com «Vida de Cão», e a noite estava ganha. Nunca tínhamos ouvido o rugido de milhares de pessoas a aplaudir.

Continuámos com «É-me igual» e «Rosete» e acabámos com «Chiclete» já com tudo a cantar. Saímos a correr para os camarins, e para grande surpresa nossa, o pavilhão inteiro pedia encore. No nosso camarim havia um espelho enorme, e olhámos para a nossa imagem reflectida no espelho e uns para os outros, completamente histéricos, questionando-nos se não estaríamos a sonhar. Voltámos a correr para o palco e demos-lhe o que eles queriam, nova dose de «Chiclete». A partir daí a noite foi como um sonho em câmara lenta, não parei de beber cerveja, e assisti à actuação dos Clash a divagar pelo pavilhão sem destino.

Graças ao meu estado de espírito achei que tinha acabado de ver o melhor concerto que tinha presenciado até à data, mas a crítica dos dias seguintes bateu-lhes sem dó nem piedade, tendo a mesma crítica sido muito positiva para connosco. Acabado o concerto, fomos todos para os camarins dos Clash que também estavam eufóricos, pelo menos o Joe Strummer e o Mick Jones, que não parava de tirar fotografias a tudo e a todos.

O nosso produtor António Pinho e o co-produtor Aníbal Miranda estavam connosco. Este último tinha vivido nos últimos 5 anos em Londres e meteu logo conversa com eles, que quiseram saber o nosso nome, se já tínhamos gravado alguma coisa, se havia amigas para lhes apresentar, e o próprio Joe Strummer deu-nos os parabéns: pela primeira vez na tournée deles, um grupo de suporte tinha tido direito a encore. O Paul Simonon, estava noutra sala na marmelada com a Pearl Harbour e o baterista estava muito sossegado a beber uma cerveja. Escusado será dizer que a erva rolava por todo o lado.

Só muito mais tarde fomos jantar, não me lembro onde; só sei que não acabámos a noite sozinhos.

Originalmente publicado na revista BLITZ de setembro de 2009.