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Tó Jó, o jovem músico de death metal que matou os pais à facada em 1999, teve saída precária da prisão

António Jorge Santos, vocalista dos Agonizing Terror, beneficiou esta semana da primeira saída precária da cadeia de Coimbra. Há 17 anos, o jornal BLITZ acompanhou o caso e esclareceu equívocos

António Jorge Santos, que em 1999 matou os pais com 33 facadas, teve esta semana a primeira saída precária do Estabelecimento Prisional de Coimbra, onde se encontra detido. Hoje com 40 anos, Tó Jó - assim era conhecido o jovem de Ílhavo, vocalista da banda Agonizing Terror - cumpriu até agora 16 anos da pena máxima (25 anos) a que foi condenado. Até hoje não lhe tinha sido concedida qualquer saída temporária da cadeia.

António Jorge terá sido um recluso pouco problemático. Educado, "mas muito fechado", trabalha na biblioteca do Estabelecimento Prisional de Coimbra e fez parte de um grupo musical, tendo-se afastado na sequência de divergências com outros elementos - refere o Correio da Manhã na sua edição de hoje. Estudou Direito, mas desistiu.

O crime remonta a 12 de agosto de 1999, quando Jorge Machado dos Santos, médico de clínica geral no centro de saúde de Ílhavo, e a sua esposa, Maria Fernanda Rodrigues Santos, foram encontrados sem vida em casa. O casal evidenciava marcas de dezenas de facadas e a cena de crime mostrava vestígios de uma tentativa de causar uma explosão (foram abertas todas as botijas de gás da casa).

Dias depois, a Polícia Judiciária de Aveiro deteve o filho do casal, António Jorge, de 23 anos, a sua esposa, Sara Matos, e um amigo de ambos, Nuno Lima, atribuindo-lhes a suspeita do duplo homicídio. Apenas António Jorge seria condenado.

Tó Jó e Sara eram, respetivamente, vocalista e baterista da banda de death metal Agonizing Terror, fundada em 1993. Teoria desenvolvida pela Judiciária de Aveiro defendia que os crimes de deveram a um ritual satânico. A ligação de António e Sara à banda death metal foi considerada relevante, mas também indícios na cena de crime foram vistos como tendo feito parte de práticas satânicas. Igualmente a data em que o crime ocorreu foi notada: a 12 de agosto teve lugar o último eclipse solar antes da viragem do milénio.

O Tribunal de Ílhavo daria como não provada a teoria do ritual satânico, atribuindo o móbil do crime a razões de ordem económica.

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Na sua edição de 17 de agosto de 1999, o então semanário BLITZ trazia o assunto às suas páginas, esclarecendo alguma inexatidão por parte da generalidade da comunicação social, que começou por designar os Agonizing Terror como uma banda de black metal (logo, aludindo a magia negra e práticas ocultas). A sonoridade praticada pelo grupo, escrevia José Miguel Rodrigues, foi definida pelos próprios como "brutal death metal com passagens pelo grind", e as letras enquadravam-se dentro do espírito de crítica social característico das bandas de hardcore ou grindcore.

Cita-se uma entrevista de António Jorge à fanzine My Putrid Spittle: "[as letras] são uma forma de desabafar certas coisas que sentimos, assim como o modo como nos revoltam certas coisas no mundo: fanatismo religioso, opressão, violação dos direitos humanos e animais, o nojo que é a maior parte da sociedade e a falta de oportunidades na vida".

Em comum com o black metal, os Agonizing Terror tinham - assinala-se - uma visão bastante negativa da religião católica. São mencionadas declarações do vocalista à fanzine Pentagram: "ocorrem-me duas ideias quando penso na Igreja Católica: primeiro, o enorme poder que sempre teve e continua a ter; segundo, as atrocidades que foram cometidas em nome da merda de um deus".

Na mesma ocasião, António Jorge refere-se também à ideologia nazi ligada a algumas bandas de black metal na Escandinávia, e a crimes em nome da mesma perpetrados no início da década de 90: "todo o pessoal devia boicotar totalmente todo e qualquer trabalho com ideologias desse género. Não podemos deixar, de forma alguma, que esses cresçam na cena".

Os Agonizing Terror deixaram duas maquetas, Disharmony in God's Creation (1995) e Ways of Existence, que o jornal BLITZ considera terem sido bem recebidas no circuito underground nacional. Avança-se que o grupo estaria a preparar a edição do primeiro CD, Forthcoming Plague.

No BLITZ refere-se ainda que a relação do músico com os pais "não era das mais saudáveis" e que as desavenças familiares - aos 16 anos, o jovem teria fugido de casa e não voltado durante dois anos - seriam a causa mais provável do crime.

Veja um vídeo dos Agonizing Terror, ao vivo em Castelo Branco, um ano antes do crime: