Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Radiohead: há uma banda antes de “Creep”

A banda que este verão regressa a Portugal para um concerto no NOS Alive teve na canção de 1993 o seu primeiro sucesso. Mas o êxito demorou a descolar e alguns meses antes nem sequer havia Radiohead: os cinco de Oxford chamavam-se On a Friday e faziam pela vida

O ponto zero da história dos Radiohead remonta à segunda metade dos anos 80, num liceu em Oxford, mas se procurarmos um primeiro vestígio público palpável, movemo-nos inevitavelmente para a discografia. A primeira edição comercial de Thom Yorke e comparsas dá-se em maio de 1992, há vinte anos, e tem como título Drill.

Nove meses antes da estreia em formato LP (Pablo Honey sai em fevereiro de 1993), este EP de quatro canções (pouco mais de 10 minutos) abria caminho a um percurso que, inicialmente, não pode ser considerado fulgurante.

Lançado em maio de 1992, Drill é visto a esta distância o típico cartão-de-visita «envergonhado» de uma banda que até há bem pouco tempo tinha outro nome: On a Friday. Aliás, na altura da gravação de Drill (na verdade, uma maqueta editada comercialmente), a banda que regista, por exemplo, «You» (que, retrabalhada, viria a ser single) chama-se ainda On a Friday - o nome Radiohead surgiria apenas em março do mesmo ano. Com uma edição limitada de 3 mil cópias, Drill não conhece grande impacto nas tabelas inglesas (não chega ao top 100), apesar de vir com a chancela da Parlophone (que, por estes dias, tinha nos Blur uma esperança mais sólida).

Ainda em 1992, os recém-batizados Radiohead voltam a estúdio. Numa sessão com os produtores Sean Slade e Paul Q. Kolderie, o grupo resolve interpretar, sem aviso, uma canção que não está na ordem de trabalhos, anunciando-a apenas como «a nossa canção à Scott Walker». Os produtores percebem, erradamente, que é uma «canção [da autoria] de Scott Walker» e ficam convencidos de ter ouvido uma versão.

Depois de tentarem, sem sucesso, trabalhar nas canções «a sério» que os levavam - banda e produtores - a estúdio, é pedido à banda que toque «Creep» outra vez, como forma de «desbloquear» o restante material. O que sucedeu em seguida está espelhado nos 3 minutos e 55 segundos que conheceríamos, alguns meses mais tarde: em apenas um take, a versão de Scott Walker que, afinal, não era bem uma versão de Scott Walker (tinha mais parecenças com «The Air That I Breathe», dos Hollies) quebrou o enguiço e, desfeito o engano, levou Kolderie a pedir à EMI que considerasse «Creep» como o sucessor do EP Drill na ainda escassa lista de edições dos Radiohead.

Apesar de imediatamente se ter sentido que havia em «Creep» algo de distinto, um sintoma do sucesso que haveria de vir, o guitarrista Jonny Greenwood não foi, literalmente, na cantiga. A história, que já é de enciclopédia, é esta: quando a canção passa dos versos ao refrão, Greenwood faz ecoar três «trovões» (em notas «mortas» de guitarra) como manifestação de descontentamento, procurando sabotar a canção que Thom Yorke compôs no final dos anos 80, quando estudava na Universidade de Exeter. O guitarrista explicou a reação ao Chicago Sun Times, em 1993, num lacónico «descarreguei com toda a força na guitarra».

Ed O'Brien, o outro guitarrista, reconhece que «aquele é o som do Johnny a tentar dar cabo da canção». O resultado foi, sabemo-lo hoje, o inverso: não se concebe «Creep» sem aquele falso arranque antes do refrão.

Considerada demasiado depressiva pela rádio britânica aquando da primeira edição em single (setembro de 1992), a canção versa - diz Yorke - sobre um homem que tenta atrair a atenção do seu alvo amoroso, seguindo-o para todo o lado (mas, no fim, sem coragem para enfrentá-lo).

Jonny Greenwood encontra-lhe uma certa resignação («é sobre o reconhecimento de quem és, na verdade»), mas Yorke, autor da letra, parece reclamar-lhe um caráter autobiográfico. «É um problema ser homem nos anos 90», declara ao Boston Globe em 1993. «Não é fácil assumir a masculinidade sem parecer que estamos numa banda de hard rock».

Sem o «empurrão» radiofónico, «Creep» pena nas tabelas inglesas (posição 78, 6 mil cópias vendidas) e a banda lança, depois, «Anyone Can Play Guitar», procurando uma melhor promoção para Pablo Honey, o primeiro LP.

A mudança de «espírito» começa em Israel, onde «Creep» roda incessantemente no final de 1992, tornando-se um êxito à escala nacional e levando os Radiohead a dar alguns concertos num território não propriamente prioritário para o sucesso de uma banda rock. Os países escandinavos e a Península Ibérica «acordam» pouco depois e, na primeira metade de 1993, a costa oeste norteamericana adiciona a canção à «playlist» das rádios locais. Pressionados pela editora para relançar «Creep» no país natal, os Radiohead primeiro torcem o nariz para, depois, anuir.

O sucesso na América é fulcral: «validado» por um público mais grunge (a estética rock dominante à época), «Creep» chega, agora, à sétima posição no top de singles inglês e a segunda metade do ano cimenta o estatuto do grupo como uma das mais promissoras forças do novo rock inglês (apesar de Yorke nunca se ter sentido confortável com a demanda popular de «Creep», temendo a ofuscação do restante repertório). Um ano depois dos primeiros discos - e, recordemos, da assunção de um novo nome -, os cinco de Oxford (os irmãos Jonny e Colin Greenwood, Thom Yorke, Ed O'Brien e Phil Selway) experimentavam assim o sabor do sucesso - não sem o ardor dos inconformados.

Os cinco na sala dos fundos

Recuemos um pouco. No verão de 1991, então com 22 anos, Thom Yorke dissolvia os Headless Chickens, projeto que formara na universidade, em Exeter, e acumulava com a «banda de casa», os On a Friday, com quem só ensaiava nas pausas escolares. Regressava a Oxford com um curso de Artes e convencia os restantes On a Friday, exceto Jonny Greenwood (mais novo dois anos, ainda com estudos por «resolver»), a partilharem uma casa perto do centro da cidade. Na bagagem coexistiam «Creep», do repertório dos On a Friday, e «High and Dry», dos Headless Chickens, que anos depois viria a tornar-se um êxito dos Radiohead, integrada no segundo álbum do grupo.

Os futuros Radiohead conseguiam, assim, encontrar uma base comum para desenvolver uma cumplicidade nascida meia década antes, numa sala de música na Abingdon School, em Oxford. O nome On a Friday nasce da uma inevitabilidade: os amigos só podiam ensaiar à sexta-feira nesse «cubículo» de Abingdon. O mais velho, Phil Selway (19 anos em 1986), foi resgatado à cultura «bully» e, antes de pegar nas baquetas, tinha tornado a vida escolar um bocadinho mais difícil a Colin Greenwood (baixista, 17 anos) e ao irmão mais novo deste, Jonny (guitarrista, 15 anos). Ed O'Brien (guitarrista, 18 anos), amigo de Colin, conhecia Thom Yorke (vocalista, 18 anos) através da sua irmã (pela qual Yorke teve uma paixoneta).

Jovem problemático («algo violento», assume, mas longe de ser antissocial), Yorke encontrava naquela pequena sala de ensaio um refúgio de eleição. Filho de um vendedor de equipamento para a indústria química, teve uma infância itinerante (fez parte do ensino primário na Escócia) com poucos amigos. «Há uma solidão que sinto desde o que dia que nasci», admitiria. Com uma deficiência na pálpebra do olho esquerdo, cedo foi sujeito a um número de operações cirúrgicas incompatível com a manutenção de uma estabilidade emocional - chegou mesmo a usar uma pala durante algum tempo. Na escola, era conhecido como «Salamandra» e respondia às ofensas com recursos de pugilista («não vencia, mas era agressivo, gostava de lutar», assume). O talento artístico era reconhecido: antes de sair para a faculdade, ganhou prémios e atuou, com uma guitarra acústica, na festa de encerramento do ano letivo 1986/1987.

No início dos anos 80, encontrou em Colin Greenwood um cúmplice: o amor pelos Joy Division aproximou-os; juntos formariam a fugaz banda punk TNT, também em conjunto transitariam para os On a Friday, assim batizados em 1986, à qual se juntariam os restantes elementos que hoje compõem os Radiohead (incluindo um muito jovem mas bastante talentoso Jonny Greenwood). Yorke assumia a liderança, como compositor principal, e a sua influência seria fulcral para a marcação do primeiro concerto, em 1987, no pub Jericho's Tavern, da cidade-natal.

A banda evoluiria ao ritmo de um calendário ditado pelos afazeres escolares dos seus elementos e, repetimos, encontraria uma base quatro anos depois, numa casa «típica de estudantes» onde, por fim, os (em breve) Radiohead podiam parar para criar, e onde um financeiramente depauperado Thom Yorke não tinha sequer um quarto para dormir (a cama do vocalista estava instalada na sala de estar). Aí nasceria a primeira maqueta do grupo (com «You», «I Can't» e «Thinking About You», entre outras), aí se apurariam também canções como «Creep».

No final de 1991, quando os On a Friday voltam a tocar no Jericho's Tavern, há casa cheia e A&R de editoras prontos a tomar o pulso à sensação de Oxford, cidade com parca tradição pop/rock. Assinam pela EMI, que coloca uma condição: esta banda tem de mudar de nome. Ao concordarem com as demandas da indústria (expediente que, daí para a frente, seria cada vez mais raro), nascem os Radiohead. A tempo de «Creep», mais do que a tempo de tudo o resto.

Originalmente publicado na revista BLITZ de julho de 2012.