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Michael Jackson: a estrela sem cor

Esta semana, a reedição de Off The Wall trará como bónus um documentário de Spike Lee sobre o caminho da estrela norte-americana desde os tempos da Motown até ao mítico álbum de 1979. Essa é, precisamente, a história que aqui se conta

O arranque dos anos 70, a indústria discográfica ainda tentava medir o alcance do fenómeno pop. Elvis Presley provou em finais dos anos 50 que havia um mercado teen, diferente dos segmentos até aí explorados pelas editoras que lançavam jazz, música popular ou música erudita. Nos anos 60, Beatles e tecnologia fizeram o calendário rock avançar umas valentes páginas. Em 1969, a estreia dos Jackson 5 na mítica editora Motown abria caminho para a conturbada mas triunfal ascensão de Michael Jackson.

Em 1969, quando os Jackson 5 se estrearam no catálogo da Motown com o furacão «I Want you Back», a arte de esculpir canções pop de três minutos em estúdios capazes de assegurar o futuro e até a eternidade já estava praticamente dominada. Os anos que se seguiram trariam muitas mais inovações técnicas, mas testemunharam igualmente a progressão geométrica de uma indústria que então experimentava novas formas de gerir os seus activos. E o pai Joseph, líder do clã Jackson, era um homem atento que do alto das gruas de Gary, no Indiana, há-de ter aprendido a ler todos os sinais que conduziam ao sucesso.

«Joseph Jackson estava sempre de olho na concorrência», escreve J. Randy Taraborrelli em Michael Jackson (A Esfera dos Livros, 2009), «nomeadamente nos Osmond Brothers, um grupo familiar de Salt Lake City, Utah. Em Junho de 1971, a MGM Records lançou “Sweet and Innocent” pelo membro mais jovem do grupo, Donny Osmond, a solo. A gravação foi um sucesso, garantindo-lhe o estatuto de teen-star nas revistas para adolescentes predominantemente brancas. Por causa da sua cor, os Jackson 5 nunca poderiam ser vistos como ídolos adolescentes nessas revistas, apesar do seu sucesso e boa aparência. Embora os Jackson aparecessem ocasionalmente em revistas como 16 e Fave, os Osmond e outras estrelas brancas como eles dominavam as páginas desse tipo de publicações. Isso desgostava Joseph, que o via como racismo».

A construção de estrelas pop negras, em 1971, ainda era uma missão do domínio dos sonhos, com muitos obstáculos sociais que a Grande Sociedade lançada por Lyndon B. Johnson ainda não tinha conseguido derrubar. Para promover um novo tipo de estrela eram por isso mesmo necessários novos tipos de veículos. E foi a pensar quase exclusivamente nos membros da família Jackson que em 1971, mesmo a tempo da estreia a solo de Michael, nasceu a revista Right On! (que se manteve até aos dias de hoje com a mesma orientação editorial), desenhada precisamente para o segmento de mercado teen e afro-americano. A máquina que transformaria Michael na maior estrela pop do planeta estava em marcha.

Osmond vs Jackson

Foi então com o sucesso de Danny Osmond que Joseph motivou Berry Gordy para o arranque da carreira a solo de Michael Jackson. «E assim podemos todos ganhar mais dinheiro», concluiu Joseph. «Got to Be There» foi o primeiro lançamento integrado nessa estratégia, estreia oficial a solo de Michael que vendeu bem para lá do milhão e meio de cópias e que imediatamente deixou claro que o Top 5 estava ao alcance de uma criança. «Essa canção de amor de ritmo intermédio, de produção e orquestração luxuosa, foi o veículo perfeito para lançar a carreira de Michael a solo», argumenta Taraborrelli. «É certamente uma das mais bonitas canções do catálogo da Motown. Na altura, fez inveja a muitos artistas cujas carreiras em declínio poderiam ter sido recuperadas com um tema tão versátil e bem estruturado. Em vez disso», conclui o biógrafo de Michael Jackson, «serviu para reforçar o enormemente popular vocalista dos Jackson 5».

Aproveitando as férias de Natal de 1971, os Jackson 5 fizeram uma digressão pelo sul dos Estados Unidos. E as invasões de quartos de hotel com fãs histéricas a gritarem o nome de Michael começaram a ser comuns. Os irmãos atribuíam isso à estreia recente de Michael a solo e pensaram inicialmente que a Motown iria também apresentá-los como artistas individuais. Na verdade, «Got to Be There» continha já a semente da dissolução do grupo.

O álbum com o mesmo título do single de estreia foi lançado em 1972, o primeiro de quatro registos de longa duração que antecederam o fecho da década com a verdadeira chave de ouro que foi Off The Wall. Hal Davis e Willie Hutch foram os experientes produtores de serviço, módulos de uma bem oleada máquina de fabricar estrelas que não deixava nada ao acaso. A concorrência, afinal de contas, estava muito perto. Tal como Donny Osmond tinha escolhido para o seu segundo single uma versão de um tema dos anos 50, o clássico «Puppy Love», também os produtores de Michael elegeram uma versão de um tema da mesma época, «Rockin Robin», popularizado originalmente por Bobby Day. Curiosamente, ou talvez não, tanto Michael como os Jackson 5 ganharam as renhidas lutas a Donny e aos Osmonds, quando os seus respectivos temas conseguiram ter uma posição de vantagem sobre os artistas brancos de Salt Lake. Algo parecia estar a mudar.

Em «Got To Be There» estava ainda incluída uma incrível versão de «Ain’t No Sunshine», original do enorme Bill Withers que é um clássico da soul de adultos e a que a voz do jovem Michael conferiu uma nova dimensão. Se dúvidas tivessem existido em relação ao potencial futuro do jovem Michael, a sua entrega nesse tema maior teria sido capaz de as desfazer totalmente.

Um rapaz e um rato

O segundo álbum de Michael Jackson, Ben, surgiu em 1972, alguns meses depois dos Jackson 5 lançarem o seu quinto registo de originais, Lookin’ Through The Windows. O tema título era igualmente parte da banda sonora de um estranho filme do mesmo nome que relatava uma delirante história que envolvia uma criança e um rato. O filme Ben, com um plot que em nada remete para o universo Disney, mesmo tendo em conta a criança e o rato, tem na canção de Michael, que simplesmente fala de amizade, o seu único ponto memorável. Com um só single, (o tema homónimo, claro), o álbum Ben correspondeu apenas a uma recolha de temas dispersos para facturação imediata. A ficha técnica deixa isso claro, com seis produtores diferentes e outro batalhão a tomar conta das composições. E Berry Gordy, claro, a supervisionar o registo.

A máquina da soul

Neste álbum há, no entanto, que assinalar a presença de temas como «My Girl» (com que os Temptations registaram um assinalável sucesso em 1964), «Everybody’s Somebody’s Fool» (de Connie Francis) e ainda «Shoo-Be-Doo-Be-Doo-Da-Day» (single para Stevie Wonder quatro anos antes): calculado ou não, o industrialismo pop da Motown produzia clássicos marcantes. O disco foi recebido com críticas mistas, com, por exemplo, Vince Aletti da Rolling Stone a dar a Ben somente duas estrelas em cinco possíveis. Ainda assim, o disco foi mais longe nas tabelas de vendas do que o seu predecessor, sublinhando que a curva na carreira de Jackson era definitivamente ascendente. E isto mesmo se, mais para a frente, a estratégia da Motown ainda se viesse a traduzir nalguns desaires comerciais.

Em Dezembro desse mesmo ano de 1972, os Jackson 5 embarcaram numa digressão no Velho Continente que arrancou com uma actuação perante a Rainha de Inglaterra. Havia alguma preocupação com o sucesso da digressão, devido ao declínio de vendas de discos dos Jackson 5 na Europa, «contudo», explica J. Randy Taraborrelli uma vez mais, «enquanto artista a solo, Michael estava a ir longe. (…) Por isso, mesmo que o grupo estivesse a vender pouco entre o público inglês, esperava-se que graças à popularidade de Michael a tournée tivesse público. E assim foi, e em grande». A recepção aos rapazes no Aeroporto de Heathrow em Londres, escreveu-se na altura, fez lembrar a beatlemania. Afinal, só a escala de um fenómeno pode ajudar a explicar outro fenómeno.

Em 1973, Michael estava a completar 15 anos e atravessar as inevitáveis transformações físicas que conduzem à idade adulta. Outro motivo de agitação na sua vida pessoal era o tumulto que se vivia em sua casa, com a mãe Katherine a ameaçar divórcio devido às infidelidades de Joseph, que aconteciam de forma cada vez mais descarada. A agitação passava também pelo casamento dos seus irmãos Tito e Jermaine e pela cada vez mais dura vida na estrada, complicada adicionalmente com as tensões causadas por irmãos crescentemente insatisfeitos com a concentração de atenções em Michael.

Music & Me foi lançado em Abril de 1973, mas teve pouca promoção, devido a uma digressão mundial em que Michael e os seus irmãos estavam envolvidos. Ainda assim, a versão de Michael para o tema «With a Child’s Heart», cantada originalmente por Stevie Wonder, ainda conseguiu furar o Top 15 dos singles de R&B da Billboard. O disco era, uma vez mais, uma manta de retalhos, com canções assinadas por gente tão diversa quanto Smokey Robinson, Oscar Hammerstein II e Jerome Kern, Freddie Perren e Leon Ware. Pouco material original, nada apropriado para um jovem que, inspirado por Stevie Wonder e Marvin Gaye, queria começar a expressar as suas próprias emoções. Berry Gordy, porém, não estava nada interessado nisso, uma vez que a sua fórmula continuava a render dividendos.

É nesta altura que a gestão de carreira promovida por Joseph Jackson começa a entrar em choque com as ideias do patrão da Motown, que se opõe a que o patriarca leve os Jackson 5 para Las Vegas. Na cidade do deserto do Nevada, mais casos de infidelidade causaram agitação no seio do clã Jackson e levaram mesmo a um confronto verbal entre Michael e o pai na sala de casino do MGM Grand. As perspectivas de Michael pareciam cada vez mais negras. O desempenho do seu álbum seguinte, Forever Michael, também não ajudaria.

O adeus à Motown

«Em Janeiro de 1975, a Motown lançou o quarto álbum a solo de Michael Jackson, Forever, Michael. Não foi um sucesso, chegando apenas ao número 101 das tabelas, oito lugares mais abaixo do que o álbum Music and Me. Nenhum dos álbuns chegou sequer ao Top 50 no Reino Unido e também venderam pouco no resto da Europa. “Já chega!”, decidiu Joseph. “Ele não vai gravar mais nenhum álbum a solo para o Gordy. Aquele homem vai arruinar o Michael!”. Joseph ficava cada vez mais perturbado com a falta de promoção da Motown e a opinião de Berry de que o grupo não tinha potencial para escrever ou produzir a sua própria música». Randy Taraborrelli introduz assim o capítulo da vida de Michael que conduziu à dissolução do contrato com a Motown e, de certa maneira, ao final de uma era e início de outra, ainda mais gloriosa.

Com temas como «We’re Almost There», «One Day In Your Life» ou «Just a Little Bit of You», Forever, Michael parecia viver apenas de uma espécie de velocidade de cruzeiro ou torpor, sem nunca atingir o verdadeiro potencial que Michael provaria anos mais tarde ser capaz de produzir. Em meados dos anos 70, quando a música anunciava mudanças, sobretudo a pop negra produzida nos Estados Unidos, Berry Gordy parecia continuar preso a uma imagem infantil de Michael e dos próprios irmãos que, sob supervisão de Joseph, acabaram por negociar a saída da Motown. Segundo Taraborrelli, Berry terá perguntado a Michael: «O que te faz pensar que consegues escrever ou produzir o teu próprio sucesso?». «Sei e pronto», foi a resposta rápida de Michael.

Nos quatro anos seguintes, o miúdo de Gary, no Indiana, lidou com os seus problemas pessoais, o fim da adolescência, a mudança de editora, de voz e de físico, experimentou o grande ecrã com The Wiz, conheceu Quincy Jones e reapareceu em disco em 1979 com um espantoso Off The Wall, álbum que mudou a face da música pop e colocou Michael no que caminho que o conduziria ao maior trono da pop.

Originalmente publicado na edição especial "Para Sempre Michael Jackson" de junho de 2010.