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As mais bizarras, luxuosas e extravagantes exigências dos artistas

Do que eles precisam na estrada: de bodes brancos a sanduíches em forma de pentagrama

Iggy Pop
Sete anões

O «rider» (lista de requisitos) da velha «iguana» faz escola. São 28 páginas escritas pelo seu «stage manager», Jos Grain, e contém algumas preciosidades. Na sua última digressão, em 2012, Iggy pediu aos promotores sete anões vestidos como no filme Branca de Neve, da Disney, e um imitador do comediante norte-americano Bob Hope, pedido já antigo mas poucas vezes atendido. Se não houver nem anões nem imitador, Iggy sugere uma dançarina do ventre. No que toca a comida, a coisa é simples: nos camarins tem de haver bacon, queijo fatiado, rosbife, presunto, peru e uma garrafa do molho mais picante que se arranjar. Para acompanhar, café e chá fortes, chocolates, uma dúzia de cervejas e água mineral.

A equipa não é esquecida: pedem-se pizzas grandes sobretudo para quando estiverem a carregar o material de volta. Iggy faz questão de se deslocar num Mercedes Classe S, com vidros escuros e sempre - mas sempre - água mineral à disposição. Os motoristas não podem pedir autógrafos a Iggy (dentro da viatura), nem passar qualquer música; estão igualmente proibidos de olhar para trás. Da lista de excentricidades aponte-se ainda um baralho de cartas de poker, vinhos de Bordéus (de anos e marcas selecionadas), chocolates belgas, 18 toalhas de banho gigantes - que não podem ser novas! - e gelo, muito gelo.

Marilyn Manson
Careca desdentada

O polémico «anticristo» do rock gosta de extravagâncias e do seu «tour rider» (de 8 páginas) destaque para o pedido de uma prostituta careca e desdentada... algo que alguns promotores resolveram recorrendo a uma boneca insuflável. Quanto ao resto, Manson é de paladar apurado: queijos de alta qualidade, chocolate de refinada qualidade, champanhe de topo (Moët ou Crystal), e duas garrafas de absinto. Gomas, Doritos e cereais com 2 por cento de leite completam a lista de exigências. Não esquecer que o ar condicionado do seu camarim é «REALLY important» e tem de estar sempre ligado.

Ozzy Osbourne
Seringas e injeções

Ao contrário do que seria de esperar, Ozzy Osbourne, o príncipe das trevas, não reclama morcegos. O seu modesto «rider» é de apenas uma página e a saúde vem primeiro. Imprescindíveis são três garrafas de oxigénio sempre prontas para acionar, e um «real doctor» de ouvidos, nariz e garganta para o observar à chegada ao recinto. Ozzy pretende também que o médico seja capaz de lhe administrar injeções de B-12 (vitaminas) e Decadron (antiinflamatório). Tudo o resto é tratado com a mulher, Sharon Osbourne.

Mötley Crüe
Jiboia e metralhadora

Se há banda que sabe divertir-se, ela chama-se Mötley Crüe... mesmo longe dos tempos do estrelato. Agora que estão «limpos», Tommy Lee e comparsas fazem questão de se encontrarem com os Alcoólicos Anónimos dos locais que visitam (para que estes possam testemunhar a conversão?), mas depois há todo um deboche: nos camarins, querem pelo menos uma jiboia de quatro metros, uma metralhadora (para o caso de haver algum incidente com a cobra?) e, numa nota mais ligeira, manteiga de amendoim e mostarda francesa.

Peter Gabriel
Massagem às 18h20

Respeitável personagem do showbiz, o ex-Genesis é um britânico dos sete costados... pelo menos no que à pontualidade diz respeito. Nas cinco páginas de exigências da digressão americana de 2003, Peter Gabriel explicava que queria, às 18h20 em ponto, uma massagista («no man»), pronta para uma massagem (e não um tratamento) de uma hora, em «hippie style» (ignora-se se com «final feliz»), num ambiente perfumado de incenso. A ideia, realça, é ter um artista feliz e, consequentemente, um espetáculo melhor. Peter Gabriel sublinha ainda, em letras garrafais, que em palco não tolerará qualquer comportamento agressivo por parte dos seguranças locais.

Rolling Stones
Cada cabeça, sua sentença

Além de miúdas vestidas «de forma atrevida» para servir canapés no seu «lounge», reclamadas na digressão de 1997/98, os Stones são das bandas com a logística mais «pesada» do Mundo. Na Bigger Bang Tour, de 2005, os Stones tinham um espaço para cada elemento. Exemplos: o «Cotton Club», de Charlie Watts; «Recovery», para Ron Wood; «Camp X-Ray» no caso de Keith Richards, numa alusão à área assim denominada na prisão de Guantánamo. Como bom inglês, Jagger tinha também televisão por satélite no seu camarim para acompanhar e gravar os jogos de críquete, e um espaço para correr com dez metros de comprimento por três de largura, devidamente camuflado. Além de camarins individuais, os Stones tinham ainda um espaço comum para receber convidados, com uma mesa de snooker que eles mesmos transportam. É aqui que entram as miúdas vestidas de forma atrevida.

The Killers
Uísque e vodca no Meco

A banda de Brandon Flowers regressa a Portugal a 19 de julho como cabeça de cartaz do segundo dia da edição 2013 do festival Super Bock Super Rock. É uma sexta-feira. E por que razão é importante dizer que é sexta-feira? É que num «rider» de apenas duas páginas, Brandon Flowers e companhia fazem exigências para cada dia da semana. Sexta-feira rima especialmente bem com uísque Maker's Mark e vodka Absolut. Tal como às segundas e quartas-feiras. As terças, quintas e sábados são de gin e Jack Daniels; domingo é dia de whiskey irlandês Jameson e tequila. No que toca a fruta, também há calendarização: segundas e quintas-feiras são dias de alperce, às quartas, sextas e sábados serve-se geleia de framboesas vermelhas, e às terças e domingos a ementa anuncia morangos. Independentemente do dia da semana, antes de cada concerto, os Killers querem ainda 96 cervejas, 24 garrafas de cidra, e duas garrafas de vinho tinto (castas Merlot, Syrah...).

Van Halen
M&M, lubrificante e karaté

Quando em 1982 com David Lee Roth ao microfone pediram M&M coloridos mas sem os de cor castanha, os Van Halen testavam também a atenção dos promotores. Da lista de pedidos de então faziam parte outros requisitos, tais como arenque com natas e tubos de lubrificante K-Y Jelly (hum?). De então para cá a banda cresceu e as exigências aumentaram. Passaram a etapa dos copos, com exigências de tequila («a melhor que conseguirem arranjar»), Jack Daniels («Black Label»), e rum Bacardi, mas na digressão de 2008 de novo com David Lee Roth nada de álcool nos camarins. E o de Roth não pode ter tapetes ou alcatifa. Esquisitice? A explicação convence: «o senhor Roth pratica artes marciais no camarim e por isso este não deverá ter carpetes ou tapetes de qualquer espécie». Apesar de nada de álcool nos aposentos, o «rider» de 2008 lembra que no palco deverão estar distribuídas várias «mini bottles» de vinho Gallo Twin Valley (casta Cabernet Sauvignon) para o guitarrista Eddie Van Halen.

Foo Fighters
Sopa contra os gases

Quando saíram para estrada em 2008, Dave Grohl e os seus Foo Fighters levavam um «tour rider» de 26 páginas capaz de ombrear com o de Iggy Pop. O documento está recheado de anedotas e piadas sobre flatulência e comentários sobre os «roadies». A pensar neles, os Foo Fighters pedem que lhes seja fornecida comida de imediato logo que chegam aos recintos, de modo a que ganhem energias para «o seu árduo trabalho de 70 a 90 minutos diários». E para os «roadies gordos» há sopa vegetariana, para evitar a produção de gases malcheirosos. Da longa lista, destaque ainda para a enorme quantidade de café requerida, muito dele diretamente para as mãos de Dave Grohl. Cereais, vinhos de qualidade e uísque canadiano são também bem-vindos.

Slayer
Abelhas vivas e bodes para abater

Os Slayer são das bandas mais avassaladoras do Mundo e o seu «tour rider» é dos mais insanos jamais vistos. Em 2011, no Fun Fun Fun Fest, um festival de música e comédia em Austin (no Texas), o quarteto pediu 50 mil abelhas vivas, 100 bodes brancos para abater (não se faz menção como), guarda-chuvas à prova de sangue, uma enorme sanduíche confecionada em forma de pentagrama, e ainda uma caveira humana recheada de Red Hots (rebuçados de canela). Comparado com isto, o resto é para meninos: uma mesa de pingue-pongue, quatro bolas de ioga pretas, DVD de Hogan's Heroes, série de televisão dos anos 1960 e 70, e «duas caixas de sapatos para escondermos os [prémios] Grammy (não escrever Grammy na caixa)».

Mariah Carey
Cuidado com os trambolhões

A curvilínea senhora do R&B/soul faz questão de ser tratada como uma diva e exige até um recipiente próprio para colocar pastilhas elásticas mastigadas. Mas há mais: champanhe Crystal, uma garrafa de vinho de pelo menos 200 dólares, chá servido às 20h00, uma caixa de palhinhas para bebidas, um frasco de mel, dois purificadores de ar, duas dúzias de rosas brancas e - pasme-se - um técnico só para testar as escadas por onde passa, não vá a senhora cair ao descê-las.

Rufus Wainwright
Ovos caseiros

O canadiano é particularmente exigente com o que não quer: pão, pasta, carne, açúcar, manteiga, chocolate, água Evian, ou qualquer espécie de álcool. O «rider» do músico, ex-viciado em metanfetamina, é ainda bem claro quanto à alimentação: o peixe é para ser grelhado em azeite e não manteiga, as saladas não podem conter queijo, e os ovos e galinhas não podem ser de aviário.

Jane's Addiction
Mortalhas cor de laranja

A banda de Perry Farrell e Dave Navarro, que há dois anos atuou no Optimus Alive, tem as suas excentricidades. A começar por um médico, presente desde a chegada até à partida da banda, com acesso privilegiado a um hospital próximo para o caso de emergência. Reclama-se ainda um médico da garganta, um quiropata e uma massagista. Para o transporte pedem-se duas limusinas pretas, e os camarins têm de obedecer a determinadas «atmosferas» (aveludada, contemporânea...). O pedido mais insólito, porém, é o de duas caixas de mortalhas Zig Zag, mas apenas as de embalagem laranja, e uma caixa de Ginseng («líquido ou em cápsulas»). No final dos concertos, a banda quer ainda comer uma refeição «ligeira», que inclua frango grelhado, peixe, vegetais, arroz e salada.

Texto: Luís Figueiredo Silva

Originalmente publicado na revista BLITZ de maio de 2013.