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Beach Boys: surf, carros & rock and roll

Na América dos anos 50, os Beach Boys, de Brian Wilson - que este ano atua no NOS Primavera Sound, no Porto -, foram a voz de uma geração. Recordamos o tempo em que a praia, o surf e os carros rápidos eram marcas de uma juventude irrequieta que acreditava no rock and roll

A cena não é díficl de imaginar: uma sala ampla de uma casa em Hawthorne, um subúrbio de Los Angeles, mobiliário moderno a reflectir as tendências da época, televisão, uma aparelhagem estereofónica, discos de Esquivel, Les Baxter, Frank Sinatra, Dick Hyman e Dean Martin e um jovem impressionável, de óculos, sentado no chão, maravilhado com o som que se solta das colunas. Não necessariamente com as canções, mas com o próprio som.

Brian Wilson, nascido em 1942, cresceu numa época especial - a década de 50 trouxe profundas inovações tecnológicas aos estúdios que produziam incessantemente uma banda sonora para a América pós-nuclear, dos longos carros descapotáveis, dos subúrbios primorosamente desenhados e do cinema «exótico» que sugeria novos mundos feitos de ilhas com vulcões, donzelas em perigo e deuses primitivos. A guerra no Pacífico tinha aberto os olhos americanos a novas paisagens e costumes e a cultura «tiki» invadiu os quintais da América oferecendo um toque de fantasia à vida rotineira das donas de casa.

Mas a década de 50 foi também palco de invenção de uma outra América se a prosperidade do pós-guerra permitiu aos pais a diversão através dos longos Cadillacs e das decorações exóticas, os filhos descobriram que as chorudas mesadas podiam ser usadas a transformar carros em «hot-rods» e a comprar os discos de rock and roll tocados na rádio, à noite. O génio musical de Brian Wilson parece ser o resultado directo dessas duas realidades - uma mais adulta, mais orquestral e sofisticada, aberta às sonoridades supostamente exóticas congeminadas nos estúdios de Los Angeles; e outra mais juvenil, directamente ligada ao rock and roll nascente que na segunda metade dos anos 50, precisamente quando Brian entrou na adolescência, traduziu os impulsos hormonais de toda uma geração.

No livro Ocean of Sound (Serpent's Tail, 1995), David Toop refere que numa entrevista realizada em 1986 discutiu com Brian Wilson a influência que os Four Freshmen exerceram sobre os Beach Boys. Este quarteto de harmonias vocais nasceu no circuito universitário (daí o nome que se pode traduzir por Quatro Caloiros) imediatamente após a II Guerra Mundial e adoptou um reportório de standards jazz ao seu estilo único, nascido dos chamados quartetos de barbearia que viriam a influenciar o nascimento do doo-wop na década de 50. Brian Wilson: «O que se passava era que eu não tinha uma real fonte de amor espiritual.

«O meu pai era tão hostil que de certa maneira lixou a família toda. Ele lixou as vibrações da família. Por isso eu voltei-me para a música como uma fonte de amor espiritual. Quando ouvi os Freshmen, passei-me porque gostei do som que ouvia, gostava do som deles. Aprendi a analisar as harmonias». O universo particular de Brian Wilson começou a despontar na tal sala onde se encontrava a aparelhagem: a música oferecia um escape à autoridade abusiva do pai, uma força decisiva nos seus anos formativos e no arranque da sua carreira com os Beach Boys.

DE PENDLETONES A BEACH BOYS

Toda a vida de Brian Wilson foi alvo de tensões, mas, musicalmente falando, as forças opostas no início da carreira dos Beach Boys eram notórias: não apenas entre o mundo adulto e juvenil do easy listening e do rock and roll, mas também entre a influência negra (Chuck Berry) e branca (The Four Freshmen). Numa época de profundas convulsões sociais, os Beach Boys olhavam para o mar e harmonizavam os sonhos juvenis suburbanos como se vivessem numa cápsula, alheios do resto do mundo.

E a verdade é que viviam mesmo noutro mundo. Em 1973, Ken Barnes, escrevia: «essa Califórnia particular, com aquela tremenda luz do dia e uma noite bastante iluminada, atravessada por longas e limpas alamedas, com praias e anúncios gigantes, onde os hambúrgueres eram assados na brasa dia e noite, onde a procura de diversão era praticamente o dever de todos os que tivessem menos de 21 anos - essa era a utopia diária em que habitava gente como Dick Dale, Jan Berry e Dean Torrence e os irmãos Wilson».

O chefe do clã Wilson, Murry, seria outra fonte de tensão na vida de Brian: oriundo da classe operária, mas com uma profunda frustração por não ter conseguido ele próprio lançar-se solidamente no mundo da música, foi, ainda assim, uma inspiração na casa dos Wilsons. Foi a observá-lo a tocar piano que Brian aprendeu ele próprio a executar as suas melodias. Quando completou 16 anos, Brian recebeu um gravador de bobines e logo aí começou a ensaiar os irmãos Dennis e Carl, ensinando-lhes harmonias inspiradas nos temas que descobria pela noite dentro na rádio.

Mike Love, primo de Brian, rapidamente se juntou a este círculo e começou ele próprio a cantar e a tocar com os Wilsons. No quarto de Brian, espécie de câmara mágica onde os Beach Boys começaram a tomar forma, rapidamente surgiu também Al Jardine, colega de escola que tocava guitarra e já tinha alguma experiência em bandas.

No grupo agora formado por Brian, Carl, Dennis, Mike e Al, só mesmo Dennis é que sabia o quão difícil era conseguir equilibrar-se numa das longas pranchas que rasgavam as ondas do Pacífico que banhavam a costa da Califórnia. Ainda assim, havia desde cedo a ideia definida de injectar essa cultura californiana nas canções de um grupo cujo primeiro nome, The Pendletones, foi sugerido por Mike.

Nas páginas de Catch a Wave (Rodale, 2006), Peter Ames Carlin faz um retrato agudo de Murry Wilson e de como ele via os seus filhos como a última hipótese de chegar a algum lado. Segundo Carlin, a Califórnia era uma espécie de utopia em construção que atraía gente como Murry, vinda do Midwest, para trabalhar e construir o proverbial sonho americano. «Foi aí que os filhos Brian, Dennis e Carl, começaram a perceber a necessidade que o pai tinha de eles darem um pontapé no traseiro do mundo. Queria tanto para eles. Queria tanto para ele mesmo. Da pior maneira possível, pode dizer-se». Al Jardine, que tinha um passado recente de ligação a grupos mais folk, trouxe um tema tradicional para o grupo, «Sloop John B», que Brian ensaiou até à exaustão para uma audição arranjada pelo seu pai com Hite e Dorinda Morgan.

Os Morgans não ficaram impressionados com a interpretação desse tema, mas quando Dennis lhes disse que Brian estava a trabalhar numa canção de título «Surfin'», o casal ficou suficientemente intrigado para os querer ouvir uma segunda vez. «Surfin'» era exactamente aquilo de que os Morgans andavam à procura e as gravações para o single avançaram rapidamente.

No entanto, os Pendletones teriam uma grande surpresa quando desempacotaram a primeira remessa, vinda directamente da X Records dos Morgans: um jovem empregado tomou sozinho uma importante decisão, deixando cair o nome Pendletones e criando uma nova identidade bem mais adequada a um single que incluía um tema de título «Surfin'» no lado A e outro chamado «Luau» (a tal cultura «tiki» a mostrar-se) no lado B - The Beach Boys! Segundo as próprias memórias de Brian em Wouldn't It Be Nice, My Own Story (Bloomsbury, 1992), a reacção do grupo não foi das melhores e o próprio Murry Wilson protestou junto do casal Morgan, mas a editora era pequena e imprimir novas etiquetas sairia do orçamento. O nome Beach Boys ficou e «Surfin'» tornouse um hit regional em finais de 1961.

Gene Sculatti, escrevia na Let It Rock em 1973 acerca da cena surf do início da década anterior, que «pela primeira vez na Califórnia, os miúdos ligavam os rádios e ouviam outros miúdos que soavam como eles a cantar acerca de como era fantástico viver na Costa Oeste». O «way of life» californiano tinha, finalmente, a sua própria banda sonora, distinta dos hinos pop criados em Nova Iorque, Memphis ou Detroit.

Brian Wilson

Brian Wilson

O SOM DO SURF

Murry Wilson ainda alimentou esperanças de alcançar sucesso através dos Beach Boys, desejando que eles viessem a interpretar as suas canções. Por isso mesmo não teve problemas em afirmar que não gostava de «Surfin'», mas Murry era um homem inteligente e percebeu que o seu sustento poderia vir dali. Na véspera do ano novo de 1962, arranjou-lhes um concerto numa noite em que Ike e Tina Turner eram cabeças de cartaz. Começava aí a intensa vida na estrada que Brian não suportaria por muito tempo.

Em Junho de 1962, Murry levou os rapazes para estúdio para gravarem uma nova maqueta. Era imperativo que solidificassem o sucesso alcançado com «Surfin'»: dessa sessão sairiam «Surfer Girl», «409» e «Surfin Safari», nem de propósito canções sobre os três vectores principais do início da carreira dos Beach Boys raparigas, carros e surf! Nessa sessão sublinhou-se igualmente a tensão entre Murry e Brian: o pai queria desesperadamente que os seus filhos gravassem algumas das suas canções, facto que viria a provocar tumultos em sessões de gravação dos anos seguintes.

Ainda assim, Murry sabia o que tinha em mãos e levou a maqueta à Capitol, em Los Angeles, que prontamente assinou contrato com a banda, reconhecendo-lhe o óbvio talento e a capacidade de liderar uma onda que se começava a formar na Califórnia. Em Novembro de 1962 era editado o primeiro álbum, Surfin' Safari, dominado sobretudo por composições de Wilson e com uma fantástica versão de «Summertime Blues», o standard rock and roll de Eddie Cochran. Cruzando as harmonias vocais aprendidas nos Four Freshmen com a energia rock de Chuck Berry ou Little Richard, Brian capturou o espírito do momento e durante um bom bocado manteve-se na crista da onda: entre 1962 e 1965 os Beach Boys tiveram 16 singles de sucesso.

Em 1963 os Beach Boys editariam mais três álbuns Surfin' USA, Surfer Girl e Little Deuce Coupe que marcariam simultaneamente o auge e o final da fase mais assumidamente surf do grupo. Wilson pressentia a chegada de novos ventos criativos em 1964, ano da entrada dos Beatles em força no mercado americano e, por isso, as canções começaram a adquirir um apelo mais amplo, focando as suas letras no que significava ser adolescente na América: «Be True To Your School», «Don't Worry Baby» (uma resposta directa a «Be My Baby» de Phil Spector, um dos heróis de Brian), «Fun Fun Fun» ou «I Get Around» são exemplares pedaços de sunshine pop em que Wilson evidencia o seu talento especial de melodista.

Shut Down Volume 2, All Summer Long, The Beach Boys' Christmas Album (com cinco originais, sete standards e quase de certeza inspirado em A Christmas Gift For You From Phil Spector, do ano anterior) e Beach Boys Concert foram os resultados da produção de 1964, ano importante por marcar uma viragem na história do grupo: em 23 de Dezembro desse ano, Brian teria um ataque de ansiedade num voo para Houston atribuído ao stress da vida na estrada, facto que o levou pouco tempo depois a anunciar que se iria retirar dos palcos e concentrar-se no trabalho de estúdio.

UM ÁLBUM CHAMADO PET SOUNDS

Mil novecentos e sessenta e cinco foi o ano que conduziu à obra-prima Pet Sounds, que elevou Brian Wilson até um patamar isolado do artesanato pop. Para aí chegar, foi essencial mergulhar nos mistérios do estúdio em que, no mesmo ano, editou mais três álbuns: The Beach Boys Today!, Summer Days (and Summer Nights!!) e Beach BoysParty!. Brian estava a percorrer um longo caminho: em Summer Days (and Summer Nights!!) há uma versão de «And Then I Kissed Her», de Phil Spector, e em Beach Boys Party! os rapazes atiram-se a «The Times They Are A-changin'» de Bob Dylan, sinal claro de que as ideias e até os horizontes estéticos estavam a transformar-se. Ainda antes de Pet Sounds chegar, tiveram tempo para editar o single «The Little Girl I Once Knew», um brilhante pedaço de orquestração onde o silêncio, uma secção de metais, teclados e vozes incrivelmente arranjadas anunciam o futuro que 1966 revelaria.

Como profusamente documentado, no período que se seguiu à edição de Pet Sounds, Brian retirou-se para um mundo crescentemente interior e refugiou-se na solidão e nas drogas. Smile, o disco com que procurava responder ao desafio colocado pela obra dos Beatles, acabou por ser colocado de lado em 1967, alimentando lendas durante décadas. Nada que no entanto abalasse as certezas quanto ao génio de Brian Wilson.

Em 1976, em entrevista à mítica revista Creem, Brian Wilson admitiu que depois do período experimental, o grupo tentou recapturar a essência dos dias de surf com um single em 1968: «recuperámos o nosso desejo de regressar àquele sentimento com "Do It Again". Mas não era apenas o surf; era o ar livre, os carros, o sol; é a sociedade da Califórnia; é o estilo da Califórnia, não penso que isso tenha desaparecido. Fomos palermas ao negligenciar esse aspecto. Hoje relaciono-me mais com isso do que na época porque estou mais atento à beleza desse tipo de conceito social. Aquele tipo de discos, de ideias. Quero dizer, aquilo era ouro, ouro puro, e era a esse tipo de coisas que os Beach Boys se deveriam ter dedicado».

Pouco tempo depois, a pop adquiriu uma vibração mais global, sintonizandose psicadelicamente com o Oriente, com África, com o cosmos. Mas por um breve período, antes da invasão britânica, a Califórnia produziu música que não poderia ter sido feita em qualquer outro lado. E os Beach Boys foram os principais surfistas pop.

Originalmente publicado na revista BLITZ de agosto de 2008.