Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Vida de Estrada: David Fonseca de Bowie a “Borrow” nas Caldas da Rainha

Ex-Silence 4 está na estrada a apresentar Futuro Eu e participou este sábado no festival itinerante Às Vezes o Amor, na cidade da zona centro. Teresa Colaço continua em “digressão” para acompanhar músicos portugueses fora dos grandes centros urbanos e conta como foi

O propósito era festejar antecipadamente o Dia de São Valentim, mas David Fonseca conseguiu ser mais vezes cómico do que baladeiro no concerto deste fim-de-semana no Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha. A apostar forte no último disco (de Futuro Eu só “Mais do Mesmo” ficou de fora), o músico de Leiria não deixou de passar pelos temas mais marcantes da sua carreira.

Logo que a cortina levantou e os primeiros acordes de “Futuro Eu” (que incluiu um snippet de “Let’s Dance”, de David Bowie, lá para o meio) se fizeram ouvir, o público foi apresentado ao interessante cenário. Desta vez, há mãos gigantes a segurarem objetos igualmente aumentados (os mesmos presentes nas quatro capas diferentes a que Futuro Eu teve direito), um ecrã que se divide em cinco e por vezes se transforma em espelho e um jogo de luz notável.

As canções novas são a grande aposta da noite, e o arranque com os dois primeiros singles do último álbum poderia ser arriscado. Mas David Fonseca parece estar completamente confortável não só com as novas músicas mas também com a sua relação com as que já vêm de trás. “Não Dês Só Para Tirar” e “Deixa a Tua Voz Depois do Tom” casam bem com “A Cry 4 Love”, são filhas do mesmo pai. O resultado é um equilíbrio em todo o alinhamento, que passa por momentos ora calmos (“Someone That Cannot Love”, “Deixa Ser” e “Kiss Me, Oh Kiss Me”) ora eufóricos (“Superstars” e “Stop 4 a Minute”, esta última com David a surgir no meio da plateia para o solo de guitarra).

Entre canções, o músico mostra-se um contador de histórias de excelência, comunicando de forma cómica e descontraída com o público. Ao longo da noite, tanto divaga sobre alienígenas como conta a história ficcional da dona Elvira, que tem receio de “soltar a franga” ali no auditório perante a cidade, com medo de ser rapidamente identificada e julgada por quem a conhece como a pacata funcionária das finanças. A certa altura, David pega mesmo no telemóvel para partilhar os melhores insultos que já lhe foram ditos nas redes sociais (o vencedor envolve um gato, o cio, e um quisto numa pata). Estes momentos ajudam à descontração do público depois de momentos mais exigentes (a trilogia “Funeral”, “Hoje Eu Não Sou” e “Eu Já Estive Aqui” foi sem dúvida um deles) mas também facilitam a festa que David almeja proporcionar (“What Life Is For” e “The 80s” de rajada não deixaram ninguém sentado).

Jogada de mestre de David Fonseca que consegue ter espaço para tudo no concerto: houve ainda um lado B (“Sem Aviso”), um fã em palco para cantar “Borrow” (sim, essa mesmo) e um final em grande ao som de “Agora É a Nossa Vez”. Na canção, David canta “o teu brilho não se esconde/ segue sempre para onde vais”. É difícil discordar.

Texto e fotos: Teresa Colaço