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Começam hoje os 17 (!) concertos de António Zambujo e Miguel Araújo: veja aqui a grande entrevista da dupla ao Expresso

A partir de hoje e até ao final de março, António Zambujo e Miguel Araújo tocarão por 17 vezes nos coliseus de Lisboa e do Porto. Leia aqui a entrevista da dupla alentejano-portuense ao Expresso

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Nunca se viu nada assim. Em fevereiro e março, dois amigos ocuparão os palcos dos Coliseus de Lisboa e do Porto munidos da sua voz e das suas guitarras. António Zambujo e Miguel Araújo vão dar 17 concertos, para cerca de 48 mil pessoas, e não sabem como chegaram até aqui

Quem os vê passar a caminho do Coliseu de Lisboa, numa pacata tarde de semana, não desconfia que ali estão os recordistas de concertos consecutivos na sala nobre de Lisboa. Algo constipado e ainda a recuperar de uma lesão na mão, que o obrigou a longos meses de terapia, António Zambujo conta-nos, à entrada da porta dos artistas, como se magoou: "A jogar futebol! Chutaram a bola com tanta força que me partiram a mão. Devia pôr as mãos no seguro", brinca logo de seguida o alentejano descontraído que, além da voz doce e quebradiça, também depende da forma solta como dedilha a guitarra acústica para o sucesso dos muitos concertos que vai dando, quer em Portugal quer no estrangeiro. Depois da aventura com Miguel Araújo, por exemplo, regressa ao Brasil, país que tão bem o tem acolhido, para terminar as gravações de um disco de versões de Chico Buarque, no qual o próprio carioca tem estado envolvido. "Inevitavelmente, há de sair cá, mas a ideia é fazer um disco lá, para lá", elucida o músico que, há já oito anos, Caetano Veloso ajudou a apresentar ao público brasileiro com uma superlativa crónica publicada no seu site. Já no interior do Coliseu, sempre imponente e grandioso, mesmo quando despido de público, encontramos Miguel Araújo. O homem que durante alguns anos integrou, como guitarrista e compositor, a banda Os Azeitonas, sem que o grande público ou a imprensa se detivessem longamente sobre o seu trabalho, encontra-se agora sob os holofotes. "Cinco Dias e Meio", o seu primeiro disco a solo, revelou em 2012 um talento para as canções simples ma non troppo que emprestou inesperada popularidade a alguém que, até há bem pouco tempo, sofria de uma timidez quase incapacitante. Desde então, lançou um novo trabalho a solo ("Crónicas da Cidade Grande", 2014), continuou a trabalhar com Os Azeitonas (que também esgotaram, este mês, o Coliseu do Porto) e prepara-se para subir aos palcos dos Coliseus 17 vezes. Felizmente, já não sofre das cólicas que o apoquentavam sempre que tinha de se apresentar ao vivo, troçam tanto António Zambujo como o próprio Miguel Araújo. Mais do que colaboradores, dois amigos que prometem atacar a 'residência' de fevereiro e março com o misto de responsabilidade e alegria com que parecem encarar a vida. As salas são deles: de 17 a 21 de fevereiro e de 16 a 19 de março, em Lisboa, e de 24 a 28 de fevereiro e a 24, 26 e 28 de março no Porto.

15 Coliseus praticamente esgotados. [Depois desta entrevista, seriam marcadas mais duas datas, uma em Lisboa e outra no Porto.] Como é que chegámos aqui? Qualquer interpretação será bem-vinda...

António Zambujo - Suponho que isto chegue a uma altura em que [o fenómeno] já ultrapassa os fãs de música.

Miguel Araújo - As pessoas devem pensar: temos de ir, senão morremos burros.

A.Z. - Ou então: está tanta gente a ir a esta coisa, deixa-me lá ir também!

M.A. - Eu lembro-me de andar no liceu e de um amigo me perguntar: não queres que te compre bilhetes para não sei o quê... Acho que era mesmo para as "Conversas da Treta" [espetáculo de teatro com António Feio e José Pedro Gomes]. Eu na altura nem era consumidor de teatro, mas fui porque toda a gente ia.

A.Z. - Há uma coisa que é boa. Isto será sinal de que há pessoas que gostam realmente daquilo que vamos fazer. Mas 15 Coliseus [agora 17], ninguém imaginava. Nós a brincar até dizíamos: ainda vamos aos dez! Mas sempre a gozar.

M.A. - Houve um dia em que isto se tornou muito assustador. No dia em que fomos à Rádio Comercial e o concerto esgotou em duas horas.

A.Z. - Eu só me lembrava que essas coisas só aconteciam com a Madonna ou os U2.

M.A. - Quando o pessoal acampa à porta!

A.Z. - Foi uma loucura, das dez da manhã até ao meio-dia esgotaram os bilhetes de Lisboa.

Mencionaram as "Conversas da Treta", precisamente a peça recordista no que toca a espetáculos consecutivos no Coliseu. Mas, na música, não há memória de um fenómeno como o vosso. A Daniela Mercury fez cinco Coliseus...

A.Z. - Menina! [risos]

M.A. - E acho que o Pedro Abrunhosa fez sete no Porto e quatro em Lisboa.

O mais curioso é que o vosso espetáculo nem será propriamente uma produção exuberante. Está a ser anunciado como uma noite de duas vozes e duas guitarras...

M.A. - Nada exuberante! E nem foi muito promovido. No início, foi-o mais através do Facebook...

A.Z. - E até mesmo a nossa decisão foi tomada da maneira mais natural, à conversa... A seguir ao Coliseu dele, no Porto [em novembro de 2014], fomos almoçar. Esse concerto teve uma banda gigante: piano, bateria, acordeão... músicos por todo o lado! E alguém comentou - talvez a Ana [mulher de Miguel Araújo] - que era giro fazer o oposto disto. Só mesmo voz e guitarra.

M.A. - Tu é que disseste: vamos fazer um coliseuzinho. E ficámos a pensar: mas será que não é grande demais? Não temos disco, não temos nada... mas vamos arriscar.

O António até terá dito que, se não enchesse, davam uns convites para compor a casa...

A.Z. - Sim! Convidávamos umas pessoas, para parecer uma coisa mais acolhedora. A reação [à procura de bilhetes] é de surpresa total, de parte a parte. O pessoal das agências de ambos, e das nossas editoras, também está meio burro com esta cena toda.

Essa procura avassaladora de bilhetes levou-vos a repensar os concertos que vão dar, a torná-los uma produção mais complexa ou visualmente espampanante?

M.A. - Tivemos o bom senso de nos lembrarmos que, lá por serem mais datas, não quer dizer que sejam as pessoas todas, as 30 e tal mil pessoas, a ver o concerto de uma vez. Serão pessoas diferentes em cada noite. No fundo, são concertos seguidos, como fazemos a vida toda, no verão, só que todos no mesmo sítio. Não temos de ficar overwhelmed.

A.Z. - E a ideia do concerto não mudou nada, nem pode. Vai ser exatamente aquilo [que foi prometido]: duas guitarrinhas. O Miguel vai tocar outras coisas: piano, ukulele, se calhar um baixozito.

M.A. - As pessoas à nossa volta acagaçaram-se! "Se calhar agora tem de ir uma megabanda", disseram-nos. "Vamos surpreender!" Mas nós não nos deixámos acagaçar, o que é fixe.

Cantarão as canções um do outro, apresentarão novas versões das mesmas? O que pode o público esperar?

A.Z. - Vamos recriar algumas coisas que já tocámos. No ano passado, fizemos um concerto no São Jorge [em Lisboa], num evento de storytellers [Grant's True Tales Festival]. Foi mais curtinho - uns 45 minutos - e teve, também, mais conversa, mas é giro falar de algumas músicas que influenciaram a nossa forma de tocar. Tem também a ver com a nossa origem enquanto músicos. Há espaço para tudo. Obviamente, nos Coliseus vamos tocar mais músicas nossas...

M.A. - E os velhos êxitos! Juntando os dois patrimónios, já dá para aí meia hora de velhos êxitos. [risos]

Têm conhecimento de pessoas que vão a mais do que um concerto?

A.Z. - Já ouvimos dizer que sim. Até houve a história de uma senhora que ofereceu o bilhete a outra pessoa. No Facebook, um senhor disse que estava desempregado e não podia comprar bilhete, e uma senhora comentou: tenho um bilhete a mais e tenho muito gosto em oferecer-lho, venha ver o concerto no dia tal. Foi uma história muito engraçada, e essa senhora vai a três.

M.A. - Mas os concertos não vão ser todos iguais, nem pensar. Como é só voz e guitarra, dá para cantarmos, de repente, alguma coisa que não estejamos a planear. Vai compensar muito ir a todos. Vai compensar comprar o pack. [risos] Há quem diga: o concerto para o qual comprei já é o nono, já vão estar sem voz! Isso é falta de noção das pessoas: a nossa vida é isto, nós cantamos dias de seguida...

As reações dos vossos fãs não foram só de entusiasmo. Muitos queixaram-se de terem apresentado os concertos como ocasiões únicas, quando agora há datas múltiplas, entre outras teorias mais ou menos mirabolantes...

A.Z. - As pessoas dizem as coisas da boca para fora. O Facebook é uma coisa que não tem filtro. Essa é uma das razões pelas quais eu deixei de ter Facebook.

M.A. - O que eu mais curti foi um gajo que disse: António Zambujo e Miguel Araújo acabam de esgotar dez Coliseus - nunca ouvi falar de nenhum dos dois! Mas achei fixe, porque espelha o que são as coisas hoje em dia: já não há estrelas.

A.Z. - As pessoas perderam a noção do ridículo. Deixaram de se ver ao espelho. Se se vissem ao espelho, não diziam metade do que dizem, hoje em dia. Se se colocassem no lugar dos outros, a ofensa gratuita, a crítica barata, o snobismo [não eram tão frequentes].

M.A. - O Facebook são as pessoas a falar alto. É como se andassem na rua e visses os seus balões de pensamento.

A.Z. - Dizem: agora já é muito conhecido, já não gostamos dele.

M.A. - Não faço ideia se havia gajos que me curtiam antes de eu ser famoso e agora já não curtem...

A.Z. - Eu acho que a maior parte dos gajos nunca te curtiram. [risos]

M.A. - Mas tu sentes isso em relação a ti?

A.Z. - Um bocadinho. Há uma grupeta da cena meio indie...

M.A. - Ficaste um vendido?

A.Z. - Primeiro era a malta do fado. Esses mataram-me, crucificaram-me. Agora é a malta mais alternativa, mas não é grave. Malta que gostava e já não gosta.

M.A. - Noutro dia estava à mesa com uns amigos e perguntam-me: "Então e o teu concerto? Quem é esse António Zambujo?" Nenhum dos gajos sabia quem ele era. Quem não liga à música [já não conhece os artistas]. Deixou de haver mainstream em tudo, principalmente na música. O meu pai nunca ouviu falar na Taylor Swift ou na Katy Perry, que são as duas [cantoras] que mandam na cena mundial. Amigos meus, da nossa idade, nunca tinham ouvido falar do António. Está tudo a leste, não fazem ideia.

A.Z. - Eu noutro dia fui fazer uma escritura a Cascais e uma funcionária de lá conhecia-me, mas a senhora do notário não. E a colega: "Não sabe? Este senhor é músico!" E a senhora: "Não sei quem é, peço desculpa." E eu: "Não tem que pedir desculpa, eu também não sei quem é a senhora!" [gargalhada] Ninguém é obrigado a saber quem somos.

M.A. - Mas são caras que já não são conhecidas - o focinho do pessoal. Dantes, quando só havia um canal de televisão e meio, era o contrário. Sabiam quem era a Xana dos Rádio Macau e não conheciam nenhuma música. Agora, se trauteares a 'Lambreta', dizem: ah, já sei, é aquele que canta aquela música. Mas nos anos 80 e 90, era impossível qualquer pessoa do planeta não saber quem eram as grandes estrelas da música: Madonna, Michael Jackson, os anos da Pepsi... Se ele passasse na rua da minha avó, ela diria: olha, passou aí o Michael Jackson. Agora, se passasse a Rihanna, a minha mãe não ia dizer nada, porque nunca ouviu falar dela. A música perdeu o seu lugar no mainstream.

O primeiro dos 17 concertos acontece hoje, no Coliseu de Lisboa, pelas 21h30

O primeiro dos 17 concertos acontece hoje, no Coliseu de Lisboa, pelas 21h30

Rita Carmo

[Nesta altura, Miguel Araújo lembra-se de um meme que viu online na véspera, onde se alinham as caras de estrelas como David Bowie e Freddie Mercury com o comentário: isto era o que tínhamos quando pagávamos pela música. Agora temos isto, seguindo-se as figuras de Justin Bieber e outras estrelas mais recentes. Na galhofa, a conversa segue para a versão - que também se tornou viral - apenas com as pistas de voz de 'Under Pressure', de Freddie Mercury e de David Bowie, desaparecido nessa semana, e da acusação de plágio que Vanilla Ice enfrentou ao usar a mesma linha de baixo no seu êxito 'Ice Ice Baby'.]

M.A. - Nesses casos, o juiz tem de tomar uma decisão, provavelmente seguindo a opinião de um especialista. O George Harrison também foi acusado de plágio: o 'My Sweet Lord' era muito parecido com uma música dos anos 60, "he's so fine..." [trauteia 'He's So Fine', de Ronnie Mack, de 1963]

Mas pode dar-se o caso de as canções serem semelhantes, sem ter havido intenção de plagiar...

A.Z. - Até pode acontecer uma coisa de que estávamos a falar há bocado: tu fazeres a mesma música, a mesma melodia. Há um livro do João Tordo, julgo que é "O Ano Sabático", que fala disso: em dois sítios diferentes, duas pessoas fizeram a mesma música. Um dos gajos era contrabaixista e não era conhecido, tocava em clubes, e o outro era um artista mainstream, que fez uma música exatamente igual. Eles nunca se viram na vida e é impossível qualquer um deles ter copiado o outro. É uma cena que pode acontecer!

Já alguém vos acusou de plágio?

A.Z. - Com o 'Pica do Sete' [canção de Miguel Araújo incluída no último álbum de António Zambujo, "Rua da Emenda"]. Mas não chegou a acusação. Diziam que era uma cópia do 'Hino da Lousã', dos anos 30 ou 40.

Que vocês passam a vida a ouvir...

A.Z. - Claro! Aliás, a minha maior influência são os hinos da Lousã, que anualmente ouço com muita atenção. [risos]

Ambos admiram muito o Chico Buarque, um músico que, tal como vocês, não tem uma postura extrovertida em palco. Isso serve-vos de inspiração?

A.Z. - O caminho para seres carismático é seres fiel à tua natureza. Não seres um fantoche ou um palhaço.

M.A. - Se o mundo do espetáculo exigisse grande extravagância em palco, tinham de chamar outra pessoa, não podia ser eu. Então o Chico Buarque serve-me de inspiração na sua postura. Não é um gajo excêntrico, e é bom saber que também se pode [ser assim]. Antigamente não se podia, nos anos 40 ou 50...

A.Z. - Antigamente havia aqueles cursos de preparação de artistas, da Emissora Nacional, com aulas de linguagem corporal. [gesticula de forma exuberante]

M.A. - Ainda bem que já não há!

A poucas semanas desta grande aventura nos Coliseus, o que está mais presente: o entusiasmo ou o medo?

M.A. - Eu ainda não fui atacado pelo medo.

A.Z. - Eu tive uns pesadelos, com pessoas a pedir o dinheiro de volta.

M.A. - Mas era muita gente?

A.Z. - Ainda era uma grupeta boa! [risos]

M.A. - Ficava meia sala! [risos]

A.Z. - Mas eu penso pouco nisso, as pessoas é que me falam muito. Quando vou tomar o pequeno-almoço, quando vou treinar ou almoçar - há sempre alguém que me fala nos concertos. Em todo o lado há sempre alguém a comentar a cena dos Coliseus. Que não consegue bilhete ou que já tem bilhete.

O Miguel tocou também com os Azeitonas no Coliseu do Porto, em janeiro. Como é que se arrumam estas coisas na sua cabeça?

M.A. - São coisas paralelas umas às outras. Eu tenho papéis completamente diferentes nos dois projetos, por isso não tenho qualquer dificuldade [em conciliá-los]. Nos Azeitonas, sou só guitarrista; canto uma ou duas músicas, estou ali ao lado. É outra personalidade minha que faz aquelas canções, um alter ego meu. São duas facetas da minha personalidade que se conjugam pacificamente. A solo não tem nada a ver: sou o vocalista principal, o frontman, algo que não estava nada habituado a ser e a que me custou a habituar. Nestes últimos três anos já me habituei.

A.Z. - Ele borrava-se todo, nesse tempo!

M.A. - Sei lá, os nervos iam-me para essa zona abdominal... Mas já me passaram. Acho que nos Coliseus vou estar nervoso. Tu com a Ana Moura não estavas nervoso? [referindo-se aos concertos que António Zambujo deu com a fadista em 2015]

A.Z. - Eu nunca estou nervoso.

Estes concertos terão algo em comum com os que o António deu, também nos Coliseus, com a Ana Moura?

A.Z. - Não, nada. Ele não vai estar de vestido e não vamos dançar, de certeza absoluta. E esse concerto teve arranjos, duas bandas, preparámos o repertório... Este vai ser mais livre. Na verdade, nem nós sabemos ao certo o que vai ser.

M.A. - Ainda não fizemos ensaios. Mas vai haver muito ensaiozinho, ninguém vai sair defraudado. Não vai ser por falta de ensaio que não vai valer a pena. Também ainda não escolhemos o repertório, mas algumas já sabemos que vamos tocar, claro. E há músicas a ser feitas neste preciso momento.

A.Z. - Estamos a pensar apresentar originais.

António, como é possível nunca ficar nervoso?

A.Z. - É a minha natureza.

Natureza de alentejano?

A.Z. - Pode ser isso, também. Mas já fiquei.

M.A. - Tu tremias do caraças das mãos!

A.Z. - Houve uma cena que me ajudou muito: o teatro [integrou o elenco do musical "Amália", de Filipe La Féria]. O facto de ter de me apresentar todas as noites, a forma de pisar o palco, de encarar o público, de vestir a pele de uma personagem... Apesar de eu ser um canastrão e não ter formação de ator. Mas tens de criar técnicas para pareceres outra pessoa, outra personagem. E esse processo de mentalização acabou por me ajudar nos meus concertos a solo. A forma como entro no palco é muito mais descontraída e sai tudo muito mais natural.

M.A. - Não há nada a que uma pessoa não se habitue. A mim também me passaram os nervos completamente. Agora, estar aqui [sentado no bar do Coliseu] e estar no palco é igual. E eu era o gajo mais encaralhado do mundo. Cheguei a ponderar se tinha perfil para esta profissão, porque não conseguia! Na escola tinha vergonha de ir ao quadro, de ser chamado - uma timidez louca. E de ser o centro das atenções. São duas facetas concorrentes: uma pessoa com perfil para escrever e compor será, à partida, uma pessoa mais observadora, mais introvertida. E um tipo que vai para o palco cantar é um extrovertido. Ir para um palco, para mim, era impensável. Cantar era absolutamente impensável. Comecei a cantar com os Azeitonas, mas em puto já tinha feito parte de bandas e tinham de me ir buscar. Começava a fugir quando era hora de ir para o palco, tinham de ir atrás de mim, e eu a correr, agarrado à barriga... pirava-me!

A.Z. - Lá ia ele borrar-se todo...

M.A. - Morria de medo. Tinha um medo doentio do palco. Nos Azeitonas continuava a ter. E só comecei a cantar lá porque não havia ninguém para cantar. No início éramos quatro a cantar, dois já não fazem parte da banda, mas ninguém era cantor. Eu era de longe o que cantava menos mal, ainda assim, por isso é que comecei a cantar.

A.Z. - O Marlon [vocalista principal] é da formação original?

M.A. - É, ele era um desastre. Melhorou muito, e eu também. Na faculdade, uma vez organizaram [um espetáculo] em que eu ia tocar piano e uns gajos cantavam. E eu: que horror, que coisa sinistra! Não dormia de noite a pensar naquilo. E como é possível ter-me passado? Parece um milagre!

Duas vozes e duas guitarras serão o cerne dos espetáculos

Duas vozes e duas guitarras serão o cerne dos espetáculos

Rita Carmo

Há artistas a quem esse medo de palco nunca passa, como a Cat Power, por exemplo...

M.A. - Eu tinha uma cena que era: está tudo a delirar no concerto, mas há um cabrão de trombas. Ia-me abaixo por causa de um filho da puta. Para isso já aprendi a marimbar-me.

Mas conseguem ver as reações de cada pessoa quando estão em palco?

M.A. - Às vezes, caio na asneira de abrir os olhos.

A.Z. - Estávamos a falar disso ao almoço. O Miguel diz que é uma cena de energias, eu não percebo nada disso.

M.A. - São gajos que não estão a curtir, e a má onda nota-se. Ainda não abri os olhos e já sei que há qualquer coisa ali daquele lado.

A.Z. - Às vezes vou-me abaixo com essa cena. Desconcentra-me, incomoda-me.

M.A. - O que mais me desconcentra é ver pessoas desconhecidas. Dá vontade de parar e dizer: então, tá tudo? [acena, entre risos]

Ambos têm dois filhos. Eles também vão assistir aos concertos nos Coliseus?

A.Z. - Tal como já aconteceu nos da Ana Moura, vamos fazer um concerto no Dia do Pai. Em Lisboa, o meu filho João foi ao palco levar-me um presente que tinha feito na escola e depois ficou lá sentado, não queria sair do palco e ficou lá até ao fim. O João, ou os dois, irão ver vários concertos, cá em Lisboa. E o Diogo já disse que queria ir ao Porto, também.

M.A. - Tem de ser, não lhe podes fazer essa maldade de não o levares aos concertos fixes! [risos]

A.Z. - Por acaso há muitos amigos meus do Alentejo que não vêm a Lisboa e vão ao Porto, porque nunca lá foram e ouvem falar do ambiente do Coliseu de lá.

Voltando ao segredo do vosso sucesso...

A.Z. - Há uma coisa que é inevitável comentar, também. A nossa beleza! Principalmente, os nossos narizes. [risos]

M.A. - E eu que fui operado ao nariz na semana passada, ainda estou fanhoso por causa disso.

Mas são rapazes simpáticos, com quem as pessoas engraçam. Isso também ajuda ao vosso êxito ou não?

A.Z. - Há pessoas que não simpatizam! Que nem podem ouvir falar do meu nome! Vão tomar banho logo a seguir ou escovar os dentes. Zambujo, arggghhh.

M.A. - Havia um gajo do PNR que me queria matar. Mas queria matar meio mundo da música. Também queria matar os Gift.

A.Z. - Naquela altura do Porto [na sequência de uma mensagem no Facebook sobre o Futebol Clube do Porto], recebi ameaças de morte.

E é mais fácil acreditar num elogio ou numa crítica negativa?

A.Z. - É igual, tens de ter poder de encaixe para as duas coisas. Há elogios que não são honestos, tal como há críticas que não são honestas. Há elogios para te lamber as botas, ou com algum interesse, e críticas para te deitar abaixo só porque sim. Mas enquanto fizeres as tuas coisas e tiveres pessoas que te queiram ouvir, as boas e as más críticas são bem-vindas.

M.A. - É normal embirrar com músicos. Eu embirro com o John Mayer: faz caras a cantar, não o curto de maneira nenhuma. A voz dele, tudo no gajo me irrita. E dizem-me que sou parecido com ele, musicalmente ou fisicamente até.

Pensam oficializar esta vossa parceria num disco conjunto?

M.A. - Eu toco no 'Pica do Sete', ele canta no 'Romaria das Festas de Santa Eufémia' [do álbum "Crónicas da Cidade Grande"]. Vamos gravar estes concertos e, se ficar fixe, editamos.

A.Z. - Ainda temos muitas músicas do nosso projeto conjunto, Os da Cidade. Dá para ir fazendo partilhas de tempos a tempos. Provavelmente, no meu próximo disco de originais vou gravar mais alguma coisa [desse grupo], e sempre que gravarmos juntamo-nos para tocar ou cantar.

É inevitável perguntar o que sentiram com a partida de uma figura como David Bowie [a entrevista decorreu na mesma semana da morte do músico britânico].

A.Z. - É a morte de mais um ícone da música. Como o Miguel estava a dizer há pouco, era o que existia nos anos 80 e hoje não existe: à medida que estes [artistas] forem morrendo... Começo sempre a pensar nos meus ídolos. O David Bowie era um músico que admirava, mas não era um fã incondicional. Não conhecia todas as suas músicas. Mas começo a pensar nos meus - que o Tom Waits já tem 70 anos, o Chico Buarque, o Caetano Veloso, o João Gilberto... esse então! Faz-me uma certa confusão. Perder [essas referências] é como perder o norte.

M.A. - Morrendo esse pessoal todo, deixa de haver ícones musicais. O século XXI não gerou ícones musicais. Nunca fui muito seguidor do David Bowie, nunca comprei um disco dele nem nada. Sou é mais fã da tola do homem. Vi uma entrevista dele em 2000, a falar de como ia ser o mundo hoje por causa da internet... top!

A.Z. - Li um depoimento do Álvaro Costa muito forte. Disse que é como se morresse alguém que acompanhou o teu crescimento. E [essa presença] ajuda na tua formação, educa-te.

M.A. - Lembro-me de quando morreu o Freddie Mercury, eu era chavalo e grande fã! Também teve contornos [semelhantes], porque ele só anunciou que tinha sida dois dias antes, e morreu logo a seguir. Isto em 1991, tinha eu 13 anos, fiquei escandalizado. E depois deram o tributo a Freddie Mercury, em Wembley, na semana a seguir. Em seguida passou no Cidade Live Concert [imita sotaque brasileiro], na Rádio Cidade. Eu tinha um daqueles despertadorzinhos da Sony, brancos, e domingo à meia-noite dava sempre concertos!

E depois desta grandiosa aventura nos Coliseus, o que se segue nas vossas vidas?

A.Z. - Vamos continuar a fazer as mesmas coisas.

M.A. - Cada um volta à sua vidinha.

A.Z. - Eu a seguir tenho de ir para o Brasil, para acabar o disco que estou a fazer lá, de versões do Chico Buarque, e depois regresso a Portugal, para mais concertos. A vida não para. Quanto ao disco, está quase terminado. Provavelmente, sairá no final do ano, primeiro no Brasil e inevitavelmente cá. Mas a ideia é fazer um disco lá, para lá.

M.A. - Se voltarmos a fazer alguma coisa juntos será só daqui a uns anos largos, para não defraudar [as pessoas]. "Comprei bilhete para aquela porcaria e agora os gajos juntam-se todos os anos? Parecem os Trovante!" [gargalhadas]

António Zambujo e Miguel Araújo tocam de 17 a 21 de fevereiro e de 16 a 19 de março em Lisboa e de 24 a 28 de fevereiro e a 24, 26 e 28 de março no Porto

Publicado originalmente na revista E, do Expresso, a 30 de janeiro de 2016