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“Vinyl”: tudo sobre a série de Mick Jagger e Martin Scorsese que junta música, sexo e drogas na Nova Iorque dos anos 70

A ideia é do vocalista dos Stones e foi Martin Scorsese quem se encarregou de a pôr em prática. A indústria da música em Nova Iorque nos anos 70 é o pano de fundo para uma das maiores apostas da HBO, que por cá passa por TV Séries.

Vale a pena googlar ‘New York 1970s’. Abre-se instantaneamente uma caixa de Pandora, garantia para largas horas de cliques de deleite visual. Com um enquadramento mais sofisticado, pode ler-se na revista “New York” mais de 11 mil caracteres dedicados ao desmancho de um equívoco — “O que toda a gente percebeu mal sobre a Nova Iorque dos anos 70” —, reclamando-se a releitura (ou a reescrita) de uma história contada tantas vezes de “forma estandardizada e a deixar tanto de fora”. Siga o cliché a abater: os anos 70 foram a época “em que Nova Iorque era real, quando as rendas eram baratas e os taxistas brancos, e não era preciso saber tocar para se ser uma estrela”.

Na demanda do porquê da tendência revivalista, o “New York Times” pergunta, sem vergonha, “por que razão não conseguimos parar de falar da Nova Iorque do final dos anos 70”? Escreve, com a mira bem afinada, Edmund White: “Há uma corrente forte de nostalgia em torno da Nova Iorque de final dos anos 70 e início dos 80, mesmo entre aqueles que não a viveram — essa era a altura em que a cidade era perigosa, quando as mulheres transportavam Mace [spray de autodefesa] nas carteiras, quando até homens feitos pediam ao taxista para que este esperasse até que eles atravessassem os quatro metros e meio do carro até à porta do prédio, quando um apagão fazia com que bairros inteiros fossem saqueados.”

Este foi, assinala-se, “o derradeiro período na cultura americana em que a distinção entre highbrow [a elite cultural] e lowbrow [o polo oposto] prevalecia, quando escritores, pintores e pessoas do teatro ainda queriam ser ‘mártires pela arte’”. Ao mesmo tempo, esta era também a ‘dirty old New York’ dos ricos e dos pobres, dos diletantes e dos trabalhadores, que Sidney Lumet encapsularia de forma magistral na sequência inicial de “Um Dia de Cão”, em 1975, ao som de ‘Amoreena’, de Elton John. E uma Nova Iorque a que Martin Scorsese também concederia iconografia — é no filme com o mesmo nome (um flop) que um ‘hino’ futuro da cidade, ‘New York, New York’, interpretado por Liza Minelli e depois por Frank Sinatra, se apresenta. Agora, Scorsese volta à Nova Iorque de “Taxi Driver” e “Os Cavaleiros do Asfalto”: estamos em 2016, mas a máquina do tempo aponta para o início dos anos 70 e o ponto de chegada chama-se “Vinyl”, uma das séries de televisão mais esperadas dos últimos anos.

Vira o disco

São, para já, 10 episódios e o primeiro terá estreia em Portugal, no canal TV Séries, de domingo para segunda às 2h da manhã (em simultâneo, portanto, com a première nos Estados Unidos), alojando-se depois no horário nobre de segunda-feira às 22h45. Com a assinatura de Scorsese, Mick Jagger (vocalista dos Rolling Stones) e Terence Winter (produtor de “Os Sopranos” e “Boardwalk Empire”), “Vinyl” passa-se na década de 70 numa Nova Iorque onde o punk se prepara para realizar uma fenda no ‘monstro’ rock, o disco sound se instala — entre pingos de suor e hedonismo — como força inescapável e as primeiras sementes do hip-hop são lançadas.

Richie Finestra (Bobby Cannavale) é o proprietário da American Century, uma editora à espera de uma reinvenção e que o carismático empresário tenta salvar. Para tal, percorre o submundo dos bares perigosos de Nova Iorque em busca da ‘next big thing’ que encontrará em Kip Stevens, vocalista dos Nasty Bits (uma banda punk ficcionada da geração dos bem verdadeiros New York Dolls), interpretação a cargo de um tal James Jagger — sim, filho do produtor-executivo Mick Jagger.

O homem que diz ter ganho todo o seu dinheiro a ser odiado é secundado por uma equipa composta por Zak Yankovich (Ray Romano), seu confidente e chefe da promoção da American Century; Julian Silver (Max Casella), responsável por artistas e repertório (A&R) da editora; Scott Leavitt (P. J. Byrne), representante legal; Skip Fontaine (J. C. MacKenzie), chefe de vendas; Clark Morelle (Jack Quaid), o A&R júnior; Lester Grimes (Ato Essandoh), antigo cantor e ex-colega de Richie; e Jamie Vine (Juno Temple, filha do realizador do mockumentary punk “The Great Rock ‘n’ Roll Swindle”, Julien Temple) no papel de uma assistente ambiciosa. Ao lado de Finestra, Devon (Olivia Wilde), a sua atraente mulher

“Vinyl” é uma aspiração antiga do vocalista dos Rolling Stones, homem para quem os anos 70 americanos estão longe de ser matéria estranha. A ideia original, que remonta aos anos 90 e desde logo partilhada com Scorsese, era ambiciosa: um filme que cobrisse quarenta anos de indústria discográfica. “Encontrámo-nos de anos a anos e sempre que falávamos sobre o assunto a coisa ficava maior. Foi de filme a filme épico e daí para uma série de televisão”, acrescenta Martin Scorsese numa sessão de perguntas e respostas divulgada pela HBO, canal que produziu “Vinyl”.

A série terá começado a tomar forma numa altura em que o crash económico de 2008 fez com que os estúdios de Hollywood virassem as costas ao projeto e chamado a racionalizar a empreitada foi o produtor Terence Winter. Em 2011, a HBO — que já tinha ‘testado’ a parceria Scorsese/Winter em “Boardwalk Empire” — entrou em cena e deu início ao casting de uma série que viria a fixar em Bobby Cannavale a figura do protagonista Richie Finestra, um patrão de uma editora de meados dos anos 70 a braços com uma crise de meia-idade.

O episódio-piloto da série é realizado por Scorsese (que, estando envolvido na produção executiva, admite voltar a dirigir mais episódios) e define, em duas horas, a toada de “Vinyl”: estaremos perante uma luxuosa série de época em que tanto o vestuário como o linguajar foram alvo de uma recolha aturada — o realizador terá, inclusive, incluído filmagens que não acabaram no final cut de “Taxi Driver” (1976) numa cena em que Finestra conduz o seu carro na cidade. Da música, diz-se que um breve trecho de uma canção dos Led Zeppelin terá custado uma pequena fortuna em pagamento de direitos de autor.

“É um projeto que me é muito querido”, afirma Scorsese ao diário inglês “The Independent”. “Queria fazê-lo há muito tempo e mantive-me muito envolvido na primeira temporada, supervisionando a produção, trabalhando no tom e na música”, acrescenta. Por sua vez, Mick Jagger não se refreou no desfile de memórias, partilhando histórias, sugerindo cenas. “Sabíamos que queríamos ter pessoas reais como David Bowie ou os Led Zeppelin em paralelo com as personagens ficcionais, mas a questão era como integrá-las”, afirmou.

Logo no primeiro episódio, vemos Finestra a tentar convencer um jovem Robert Plant a assinar um contrato, e outros atores a desempenharem os papéis de Bowie e dos New York Dolls — dos quais se assiste uma interpretação alucinante de ‘Personality Crisis’, um dos ‘sintomas’ de que a música (e o rock, em particular) estava, naquela altura, em mutação. Prometem-se ‘aparições’ dos jovens Patti Smith, Lou Reed e Alice Cooper, bem como de Andy Warhol (que se vê num dos trailers).

Auxiliar indispensável para a contextualização da série é o site “Vinyl Cuts” (www.vinylcuts.nyc), que se anuncia como “um guia semanal” para “Vinyl”. No número 0, além de um prefácio que se completa com o trailer, vemos um videotestemunho de Mick Jagger sobre a sua visão dos anos 70, um “behind the scenes” sobre direção artística, um portefólio de Nova Iorque naquela década (a poluição, uma festa de Halloween em midtown Manhattan, um casal hip de Greenwich Village, as sex shops de Times Square…) e, entre outras featurettes, um mapa interativo da cidade naquele tempo — da Factory, de Warhol, ao bar Max’s Kansas City, onde Debbie Harry foi empregada de mesa.

Num festim que não virará costas ao sexo desregrado e às drogas (cocaína, o combustível oficial dos anos 70), a música está no centro: da playlist apresentada constam Elton John, David Bowie, The Who, Stevie Wonder, Led Zeppelin ou os Rolling Stones. Pousemos a agulha.

Vinyl estreou-se na madrugada de segunda-feira, no TV Séries. Repete às 22h45

Originalmente publicado na revista E, do Expresso, de 13 de fevereiro