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Excerto da reportagem do jornal BLITZ de 16/06/91

Pixies: 12 e 14 de junho de 1991, Portugal

Os fãs acérrimos ainda não esqueceram as longínquas noites quentes de há 25 anos. Recordamos a primeira vez da banda de Black Francis em Portugal, a escassos de meses do seu regresso para um concerto no NOS Alive.

Quando subiram ao palco do Coliseu dos Recreios, a 13 de junho de 1991 (um dia depois rumariam ao Porto), os Pixies eram uma banda à beira do fim. Bossanova não só tinha ficado aquém das expectativas como assinalava o fim da frágil paz entre os quatro membros da banda. Black Francis assumira todo o controlo criativo da banda e Kim Deal até já tinha arrancado para as Breeders.

EM ESTADO DE GRAÇA

A primeira passagem por Portugal foi, contava o então semanário BLITZ, «coroada de êxito». Afinal, à parte uma ou outra crise, mais ou menos violenta, mais ou menos relacionada com drogas, o palco foi sempre o território onde a banda alimentou a sua legião de fãs. A banda já não era nova, tinha bem mais do que um disco para apresentar (Trompe Le Monde era, afinal, o quinto - se contarmos com o mini-LP inaugural, Come On Pilgrim), mas as verdadeiras conquistas demoram e os Pixies precisaram de tempo para saltar de Boston para o Mundo. O BLITZ viajou até Londres para assistir a uma «antecipação» do concerto português de «uma das poucas grandes bandas que ainda se escusam a utilizar artefactos teatrais que não sejam o poder incisivo da sua música».

E poder nunca faltou à banda que Charles Michael Kittridge Thompson IV - também conhecido por Black Francis - fundou com o amigo Joey Santiago e com quem lançou o anúncio que proclamava a necessidade de outros músicos. Na altura, só Kim Deal respondeu ao anúncio de uma banda sem nome que se dizia influenciada tanto pelos punks Hüsker Dü como pelo melodioso folk de Peter, Paul and Mary - alguém consegue imaginar a versão punk de «Puff the Magic Dragon»?

Na semana antes da chegada a Lisboa, no Crystal Palace Bowl, os Pixies tocaram para mais de vinte mil pessoas num festival em que o estatuto de cabeça de cartaz lhes permitia aparecer depois de quatro bandas e às oito da noite. Tinham tocado os Boo Radleys, os Milltown Brothers brindados com a acidez que se tornou imagem de marca do então jornal, «com bastas ausências de coerência para se tornarem significativos no que quer que seja», os Cud e os Ride, a quem era gabada «a extraordinária capacidade para construir muralhas de som consistente o suficiente para levar ao delírio qualquer audiência». Mas a maioria dos espetadores que tinha feito a viagem de trinta minutos a partir do centro de Londres estava lá para ouvir a banda que a norte-americana Rolling Stone considerava a melhor de então.

As boas noites foram dadas com «Rock Music», descrita por Miguel Francisco Cadete nas páginas do BLITZ, como «a faixa mais barulhenta do álbum Bossanova». Até ao final seriam quase trinta canções, com as inevitáveis «Here Comes Your Man» e «Where Is My Mind?» guardadas para o final, e já no encore «Head On» (versão dos Jesus & Mary Chain) e «Tame» a deixar «o público quase sem forças para abandonar o recinto».

Mas por terras de Sua Majestade o sucesso da banda não era novidade. Meses antes, em novembro de 1990, no festival de Reading tinham passado a sua prova de fogo. «Vamos ver como corre; se correr bem, então sim, acho que vamos tê-los por cá durante muito tempo», confessava à Rolling Stone Gil Norton, produtor da banda e que à época trazia os Echo & Bunnymen como a principal marca no currículo. A semana anterior tinha sido passada numa sala de ensaios em Manchester, a afinar a «setlist» mais longa da carreira - 32 músicas em 90 minutos de concerto. E antes de o grupo subir ao palco, Black Francis confessava ter «borboletas no estômago», enquanto Joey Santiago se mentalizava para «o grande espetáculo». À sua espera estavam 50 mil espetadores de um mercado musical onde não há banda que não queira entrar. O desfecho foi o que a Rolling Stone, que já em 1989 lhes havia entregue o prémio de revelação, antecipara. «Senti-me como o Bon Jovi», confessaria Francis.

NÃO HÁ AMOR COMO O PRIMEIRO

Sete meses depois em Lisboa, não havia nervos. Os Pixies sentiam-se em casa nas salas fechadas, bem mais adaptadas ao seu som e à quase inexistente produção em palco, e nem o facto de a lotação estar esgotada os impediu de confirmar a previsão de quem via o concerto como o mais marcante do ano. Porquê? Porque por essa altura era raro «ver tanta energia» nos palcos em Portugal, garantia o BLITZ.

Sobre o género musical escreveu-se que andava próximo do heavy metal e que o novo disco confirmaria a aproximação ao mundo onde os Metallica reinavam à custa do disco homónimo, o célebre «álbum preto», que tinham acabado de lançar. Um erro que, através do alinhamento, os Pixies não deixaram de denunciar. No departamento das canções novas, tocaram «Planet of Sound» e «Motorway to Roswell», duas das músicas que acabariam em Trompe Le Monde, o disco que seria editado em setembro desse ano. Os pontos altos da noite não fugiriam às regras que ainda hoje acompanham a campanha dos Pixies.

«Rock Music» serviu de tema de arranque - mesmo que as luzes da sala estivessem por apagar e a aparelhagem da sala ainda fizesse barulho -, passou-se pelos inéditos e a sala veio previsivelmente a baixo com temas como «Monkey Gone to Heaven», «Holiday Song» e «Vamos». Se agora o mais provável será ver o Coliseu iluminado por ecrãs de telemóveis, a filmar, a fotografar ou a partilhar vídeos e imagens por Facebooks e Instagrams, há doze anos foram os «inevitáveis isqueiros» que ajudaram Black a cantar «Where Is My Mind?». Nessa altura, os Pixies foram recebidos por uma «delirante assistência» durante uma passagem por Lisboa «coroada de êxito». Um dia depois, a euforia repetir-se-ia sem menor intensidade no Porto.

Na capa do BLITZ, com promessas de disco novo, os Delfins davam uma entrevista que antecipava um concerto no Pavilhão Carlos Lopes; no horizonte apenas uma visita internacional, os Level 42. Rui Veloso apresentava o primeiro single de «Auto da Pimenta», o sétimo disco do «pai do rock português», e elogiava-se o «vigor e emoção» do concerto dos Mão Morta na Universidade da Covilhã na semana anterior. Se por cá o panorama mudou, lá por fora as mudanças não foram mais meigas. Na semana em que Black Francis se estreou nas visitas aos Coliseus, os fãs dos Guns N' Roses lamentavam mais um adiamento na saga Use Your Illusion - era então anunciado que Axl Rose tinha acabado de escrever mais três músicas que queria incluídas nos discos.

No percurso dos Pixies seguir-se-ia, como previsto, Trompe Le Monde e, um ano depois, o adeus. Uma notícia que Black Francis anunciou ao mundo da mesma forma como o fez aos colegas de banda numa entrevista de rádio à BBC. Era o adeus que os fãs temiam, mas que o tempo transformaria num intervalo de onze anos. Da mesma forma que apareceram no seu próprio ritmo, em 2003 os Pixies reapareciam numa altura em que as receitas dos discos já começavam a escassear. Se Black Francis tinha passado a Frank Black para uma carreira a solo, Joey Santiago andava em pequenos concertos, acompanhado pela mulher, e David Lovering pouco rendimento conseguia da carreira encaminhada para a magia. Kim Deal, essa, celebrava a saída da desintoxicação. E a história, contada no documentário Loud Quiet Loud, só estava a recomeçar.

Texto: Filipe Garcia

Originalmente publicado na revista BLITZ de novembro de 2013.