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The Cult: o dia em que Ian Astbury “abriu o livro” à BLITZ

Os veteranos do hard rock voltaram aos discos este mês com Hidden City. Em 2012, Lia Pereira conversou longamente com Ian Astbury sobre música, o estado do mundo e religiões comparadas. Nada ficou de fora

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Há não muito tempo disse que os Cult não voltariam a lançar um álbum. O que o fez mudar de opinião?
Tenho pensado na forma como a música é editada, hoje em dia, e no valor da música, e nas vendas de discos, que quase já não existem. E também na capacidade de as pessoas prestarem atenção: agora, já não dedicamos toda a atenção a um álbum, selecionamos antes as canções que queremos ouvir. Por outro lado, tínhamos muitas canções prontas, e o nosso público pedia-nos muito um álbum a sério, e até tínhamos interesse de editoras. por isso, decidimos fazer outro álbum. Mas podemos voltar ao outro formato [dos EPs] quando quisermos. Gosto muito da ideia de lançar duas canções novas de três em três meses. Mas dá muito trabalho, pois tens de dispensar a mesma energia para promover duas canções que para promover dez. Precisas de bastantes pessoas para te ajudarem a produzir a música e a promovêla. Precisas de uma indústria.

A indústria ainda vive...
Ai isso vive. Mas é muito diferente da indústria com que crescemos. A tecnologia mudou tudo: quando começámos [a fazer música], o formato vinil implicava que houvesse fábricas que produziam os discos propriamente ditos e que empregavam muita gente. E na promoção também havia mais gente, para trabalhar os discos na rádio e na televisão. A tecnologia erradicou isso tudo.

A tecnologia erradicou muitos postos de trabalho, mas também tem o seu aspeto positivo, ou não?
Filosoficamente, a tecnologia acelera as coisas. Ao acelerarmos a comunicação, toda a gente tem acesso a mais informação, de forma mais rápida, por isso é que agora vemos mais manifestações e revoluções. A verdade descobre-se mais rapidamente. Talvez desta forma a raça humana consiga chegar a um sítio melhor, mais depressa, do que recorrendo à comunicação convencional.

É verdade que Choice of Weapon, título do disco novo, tem um significado político?
Penso que é mais pessoal, dentro do político. Tem a ver com intenção. Se perguntares às pessoas o que significam as suas vidas, a maioria não vai saber responder-te. Não falo tanto do significado filosófico do sentido da vida. Mas enquanto indivíduos, qual é o sentido da nossa vida? A maior parte das pessoas vai dizer que não sabe, ou dão-te uma resposta muito longa e filosófica, e é a isso que Choice of Weapon se refere.

Refere-se a um indivíduo que já tem as suas ideias bem definidas, e uma intenção muito clara. A «weapon» [arma] aqui é a ferramenta de uma certa ação. O símbolo de uma ação, que pode ser uma ação violenta - cada vez vemos mais pessoas a pegar em armas para lutarem pelos seus direitos, especialmente no Médio Oriente. Todos conhecemos, também, as armas culturais. Nos anos 60 e no começo dos anos 70 o [poeta e ativista] John Sinclair, que estava ligado aos MC5, inventou a frase: «As guitarras são as armas da nossa revolução cultural». Esta ideia de escolheres o teu meio para uma revolução cultural [é-nos querida]. E numa filosofia religiosa, como o Budismo, o símbolo do «dorje», por exemplo, representa um relâmpago que trespassa o materialismo, quando a mente se altera e atinges a iluminação. É uma arma tântrica no Budismo.

Gosto da palavra «arma» porque é forte, implica qualquer coisa de imediato. Uma arma é uma coisa muito séria, não é um brinquedo. Mas o que eu gosto é da ideia de intenção. De tu escolheres a tua intenção. Penso que eu e a banda chegámos a esse ponto, temos uma intenção muito clara. Tivemos um período de sucesso comercial muito - forte tempos muito diferentes - e agora estamos a transitar para uma fase religiosa, filosófica, que é muito mais importante para nós. Damos muito valor à vida interior e isso reflete-se neste título do disco e nestas canções.

E todos na banda partilham desses ideais?
Cada um te daria uma resposta diferente, mas no geral sentimos o mesmo, porque estamos todos sujeitos ao mesmo ambiente. Quando tens uma banda e andas em digressão tens inevitavelmente uma experiência conjunta, e nós vemos muitas coisas, quando viajamos. Assistimos à viragem na cultura -enquanto banda, vivemos isso. Penso que isso fica na psique da banda. Não foi difícil explicar ao John [Tempesta] e ao Chris [Wyse] o que eu queria transmitir, e o Billy [Duffy] também é muito intuitivo. A banda está a deixar de ser um puro veículo de entretenimento para passar a ser um espaço filosófico.

Sempre foi tão curioso intelectual e espiritualmente?
Interesso-me por estas coisas desde miúdo (risos). Sempre fui fascinado pelo funcionamento das coisas e pelas moléculas da vida, sempre gostei de desmanchar coisas. Quando vivia no Reino Unido havia uma revista de animais que saía todas as semanas, chamada World of Animals, e eu aos 8 anos era obcecado por essa revista. Ficava pasmado a olhar para as fotos daqueles animais exóticos, porque vivia na Grã-Bretanha, e lá já não resta muita vida selvagem. Aqueles animais representavam outro mundo, outro reino.

Foi aí que comecei a perceber a estrutura da linguagem, as instituições, os fusos horários. Porque é que a semana tem sete dias? (risos) Porque é que as pessoas trabalham das 9h às 18h? Porque é que falamos uma certa língua, com um certo sotaque, porque é que temos certos códigos de vestuário? Eu andava sempre de um lado para o outro, porque o meu pai trabalhava em sítios diferentes, e comecei a questionar-me: os sítios [por onde passava] eram ligeiramente diferentes, e dei por mim repensar o meu ambiente. Tornei-me uma pessoa muito inquisitiva. Interessava-me muito por História, em miúdo, e pela música que havia à minha volta. A minha mãe tinha sete irmãs e o meu pai três, e todas elas gostavam muito da música daquele tempo, por isso podia ouvir David Bowie, os Stones, os Beatles, etc. E era muito novo quando comecei a ouvir esta música - era praticamente bebé quando aquelas miúdas adolescentes ouviam esses discos (risos).

Sei que quando voltou para Inglaterra, na sua adolescência e depois de uma temporada no Canadá, sentiu a falta do «otimismo da América do Norte». A Inglaterra hoje é muito diferente desses tempos de Margaret Thatcher, a que se referiu como «cínicos»?
É radicalmente diferente. A era Thatcher era uma coisa altamente distópica, tal como a visão de George Orwell da Grã-Bretanha. Havia um desemprego enorme e eu também estava desempregado. Quando és novo és muito resistente, mas dava para perceber o efeito do desemprego nas pessoas um pouco mais velhas, que tinham família. Não havia otimismo. Os ricos queriam manter a sua riqueza, explorando as classes trabalhadoras.. Nós acabámos por criar o nosso próprio ambiente, usando a nossa imaginação.

De certa forma foi bom, porque um ambiente opressivo obriga-te a criar uma realidade mais fantástica. Mas claro que tinha saudades da América do Norte, que é muito mais jovem e ainda não tinha passado pelo período que está a atravessar agora. Agora é que a América do Norte começa a conhecer o desemprego, os efeitos da globalização, da automatização, da comunicação.

E com o 11 de setembro a América do Norte perdeu o seu sonho de invencibilidade.
Sem dúvida alguma. A ideia da América do Norte como fortaleza inatacável foi perfurada. Vivi em Nova Iorque três vezes na vida, é uma cidade que me é muito querida. É uma grande parte de mim. Os verdadeiros nova-iorquinos, na sua maioria, são pessoas da classe trabalhadora, que trabalham muito e dão no duro. Depois tens as pessoas da Finança, que também trabalham muito mas fazem parte da máquina que nos está a matar a todos sem exceção.

Tens a comunicação social e os artistas, os teatros. Há muitos músicos que vivem lá, agora mais em Brooklyn, que é onde está a cena boémia. É uma cidade que está sempre a mudar e a arquitetura e a energia [fazem dela] um sítio muito excitante, acredito. E há tantas culturas e comunidades diferentes em Nova Iorque: adoro o multiculturalismo daquela cidade. Adoro a forma como está organizada. O caso do trânsito, por exemplo: acredita que eu costumava fazer a Sexta Avenida de bicicleta? É espetacular andar de bicicleta em Nova Iorque. Sentes que tens a tua vida nas mãos! (risos)

Adora Nova Iorque mas também adora os Himalaias.
Sim, são dos sítios mais sagrados do mundo, para mim. Como disse, sempre fui curioso, desde criança. Interessei-me pela cultura tibetana através do meu interesse pelos índios americanos, que começou quando emigrei para o Canadá aos 11 anos e conheci a cultura indígena. A partir daí, apercebi-me das semelhanças entre os indígenas norte-americanos, os mongóis e os tibetanos, em termos das suas filosofias religiosas e espirituais, e até do seu visual, que é muito parecido. Li um livro sobre os nómadas tibetanos e fiquei obcecado pela estética, e depois pela religião, e a partir daí pela filosofia.

Depois deparei-me com os ensinamentos de um professor tibetano, Chögyam Trungpa, autor do livro Cutting Through Spiritual Materialism, que me disse muito. Li-o para aí nos anos 80, teria uns 25 anos, e as ideias desse livro deixaram-me abismado, pois era tudo tão diferente daquilo que me tinham ensinado, em termos de valores espirituais e filosóficos! Mas como tinha 25 anos ainda tinha aquele estilo de vida muito acelerado da banda. Às vezes era bastante autodestrutivo, mas tinha algum juízo. Só depois de muita auto-exploração, muitas viagens e muita contemplação é que lá cheguei.

Este álbum chega depois de uma fase negra para mim, de um período de pessimismo, em que senti que já tinha dito tudo o que queria dizer, enquanto artista. E de um período em que me senti incrivelmente deslocado da cultura. Voltei uma segunda vez aos Himalaias, mas senti que também não pertencia lá, por causa da língua, da cultura. Sendo natural do Noroeste da Europa, podia ser muito feliz lá, mas ia sempre haver qualquer coisa a puxar-me para o Ocidente. Tenho cá filhos e amigos, tenho ligações à cultura ocidental, ainda tenho muito amor pela música e pelo cinema. Não me pareceu que já tivesse dito tudo, afinal. Acabei em Nova Iorque, onde passei um período muito difícil, a nível pessoal, e foi aí que escrevi algumas destas canções.

Mas depois houve uma viragem, na altura em que o Obama foi eleito. Havia a sensação generalizada de que as coisas estavam cada vez mais distópicas, mas que havia um novo potencial. Especialmente naquele dia em que ele foi eleito, na cidade de Nova Iorque, sentia-se em todo o lado um sentimento espetacular de otimismo. Para mim, esse foi o real ponto de viragem: estava na rua com os meus amigos e havia muita celebração; neste disco há uma canção chamada «This Night In The City Forever» que é sobre a minha experiência dessa noite, a energia e as conversas que tive com as pessoas. Para mim, foi uma redenção pessoal. Foi aí que mudei de atitude e decidi voltar à tona. Comecei a fazer canções outra vez, iniciei o projeto Capsule, envolvi-me em filmes e encontrei uma nova voz para mim.

E para os fãs portugueses, atualmente às voltas com a crise, o que gostaria de dizer?
O público português é sempre magnífico, cheio de paixão. Adoro a cultura, as pessoas, a comida. Mas quando as pessoas no Ocidente dizem que os seus países se estão a desmoronar, eu digo: não entrem em pânico, vão à Índia e vejam como é que funciona lá! Podem não ter riqueza material, mas a riqueza espiritual vem ao de cima. O mundo interior enriquece-se quando és obrigado a mudar completamente o teu sistema de valores. Eu era um músico de sucesso mas não era verdadeiramente feliz; encontrei a libertação viajando para regiões do mundo como a Índia e o Tibete. Esqueçam a bancarrota! (risos) Em Portugal ao menos têm a sorte de viver numa zona muito bela do mundo.

Originalmente publicado na revista BLITZ de julho de 2012.