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Rui Veloso, 35 anos de carreira: Como tudo começou

Está a festejar 35 anos de carreira na estrada. Mais do que um disco de estreia, Ar de Rock foi também o rastilho de um “boom” que mudou para sempre a forma de se fazer e ouvir música em Portugal. Rui Veloso e alguns dos que assistiram ao nascimento desse álbum recordam como nasceu um clássico

«Deve ter sido na viola do meu pai que eu comecei por meter as mãos», afirma Rui Veloso, quando questionado sobre como tudo começou. Rui fala à BLITZ numa sala cheia de guitarras - contamos mais de 30, só ali! - com o seu iPhone silenciado e uma das suas amadas guitarras a postos, pousada nos joelhos. Ao longo da conversa, vão saindo notas do instrumento eleito para o acompanhar naquele momento, como se as memórias fluíssem melhor com banda-sonora. Para Rui Veloso, amar as guitarras é um sintoma de amar a música. E tê-las por perto é guardar as margens da memória. «Está ali a viola do meu pai. Ainda existe. Foi feita cá em Portugal e por acaso é boa, gosto imenso dela. Tem mais de 60 anos, seguramente, e está ali impecável. Foi com aquela guitarra que eu comecei a querer tirar uns acordes, nem sei bem porquê». É para isso que cá estamos.

BILHAR, FUTEBOL E CIGARRADAS

A música está presente na vida de Rui Veloso desde sempre. «Ouvia muita música», diz-nos, sem surpresas. «Mas daí até dar o passo para pegar num instrumento, não sei o que é que terá levado de uma coisa à outra. Eu ouvia música sobretudo na rádio. Na altura, com 12 anos, em finais dos anos 60, ainda não havia muito acesso a discos. Por isso íamos gravando umas coisas e trocando. Ainda tenho aqui bobines de quatro pistas, duas pistas stereo para cada lado. Ora eu chegava a gravar as bobines em mono e na velocidade mais lenta para ter as quatro pistas disponíveis e assim conseguir gravar muito mais horas de música. Como as bobines eram caras, eu tinha que fazer render o peixe».

O desenrolar do novelo prossegue: «Era miúdo de rua. Rua. E café: muito bilhar, muito snooker. E futebol, cigarradas, bicicleta», explica, para sublinhar uma ideia de normalidade. Depois dos primeiros toques na viola do pai, veio o desejo de comprar uma guitarra eléctrica. «Foi mesmo ao lado de casa que comprei a primeira guitarra eléctrica. Havia um grupo lá no Porto chamado Sonda que ensaiava lá no bairro. E eu comprei a guitarra ao José Carlos Amoroso, uma guitarra do tempo do Sonda. Era uma guitarra eléctrica Hagstrom que ainda tenho. Está ali também. Foi com essa guitarra que eu toquei com o BB King. Comprei essa guitarra e um pedal de distorção. Para aí um conto e quinhentos, tudo. Foi em 74. Em 76 já peguei na Gibson. Tive sorte». A sorte, ao que parece, procura-se.

«O que me levou para o rock, para os blues, terá sido um conjunto de circunstâncias: discos que o meu pai tinha música clássica, alguma coisa, muito pouco, de jazz e depois o Adriano Correia de Oliveira, Zeca Afonso; a rádio, importantíssima para mim. Mas não havia muitos discos mesmo, o mercado do disco mais massificado apareceu depois dos anos 80. Naquele tempo o efeito dos discos era reduzido, porque eram muito caros, difíceis de arranjar, havia uma ou outra discoteca "super" porque tinha os discos que queríamos. E as edições nacionais não tinham a mesma qualidade das estrangeiras: o vinil era pior, as capas eram piores. Mas pronto, havia alguns amigos que tinham música, alguns tinham discos, e somando tudo. foi como eu fui ter à música».

O ENCONTRO COM TÊ E O MICROFONE DE PLÁSTICO

«A questão da composição é uma coisa que se descobre e nem se dá bem conta. Eu nem percebi como comecei a fazer as primeiras coisas. Sei que comecei a tentar fazer músicas por cima de letras que via no Mundo da Canção [revista da época]. Letras que estavam para lá do Rod Stewart, sei lá, letras de que eu não conhecia as músicas. Foi aí que eu descobri que conseguia fazer música. Pronto, não eram coisas totalmente originais porque as letras já existiam». Faltava o reverso da moeda. «O Carlos Tê», recorda Rui, «conheci-o depois em 76 e tudo aconteceu mais ou menos rápido. Eu comecei a dar os primeiros toques na guitarra de 72 para 73. E em 76 estava a compor com o Tê. Já tinha uma Gibson e tocava blues. E ao ouvir as coisas que eu tenho para aí gravadas dessa época, a conclusão a que eu chego é de que, nesse curto espaço de tempo, devo ter passado muitas horas de volta da guitarra, porque o nível a que eu tocava não anda muito longe daquele em que eu toco hoje».

«Nessa altura», diz-nos Carlos Tê ao telefone, «ainda pairava aquele ar revolucionário que nos fazia acreditar que tudo era possível. Até fazer canções». Tê desenvolveu o que se pode classificar como uma relação simbiótica com Rui Veloso. Tornou-se um importante escritor de canções e tudo começou por uma idêntica paixão pela música, que o levou a aproximar-se do guitarrista: «A minha filiação era mais anglosaxónica: tudo o que eu ouvia e gostava vinha da América ou de Inglaterra. Era isso que eu tentava copiar», explica o letrista.

«Estava sedento de começar a fazer coisas inteiramente nossas, sem as letras da revista», prossegue o homem de «Chico Fininho». «Era um processo de muita adrenalina. O Tê dava-me cinco ou seis letras e eu dois dias depois tinha as seis músicas feitas para aquilo. Eu fazia aquilo de rajada. E nós sempre demos dicas um ao outro». E tudo acontecia ali, numa cave que pertencia a outra dimensão: «a malta curtia era estar ali no escuro a ouvir os Pink Floyd à uma da manhã. Tinha o quarto pintado de cor de laranja e preto e o logo dos Dr Feelgood pintado na parede pelo meu irmão. E eu também pintei um pôr-do-sol, tipo Texas, vermelho. Não havia nada daquelas coisas tipo "droga, loucura e morte" que as pessoas costumavam pintar nas paredes na altura».

«As primeiras maquetes que fiz foram gravadas na cave da minha casa, com um microfone daqueles de plástico. Eu arranjava para lá umas soluções, com pilhas de livros, para encontrar o sítio indicado para o microfone, e depois tocava inclinado. Enfim, era o que havia», relata Rui Veloso. As maquetes, no entanto, serviam para documentar a evolução e não havia propriamente uma ambição de as levar às editoras. «Nem eu nem o Tê, que me lembre, gastámos sequer dois minutos a pensar nas editoras ou que a nossa música pudesse interessar a alguém. Quem pensou nisso, de facto, foi gente externa, pessoas que estavam à nossa volta: a Gabriela Schaaf [cantora luso-suiça radicada, à época, no Porto, que popularizou «Homem Muito Brasa»] foi uma das pessoas que pensou nisso», admite.

«Agora, volvidos todos estes anos, dou conta de que à volta das sessões de blues lá na cave, onde nos juntávamos e ficávamos a tocar e a ouvir música pela noite dentro, já havia uma certa notoriedade. Aquilo já era conhecido. Já havia gente que sabia que em casa de um tal puto Rui, se junta uma malta que toca. Aquilo era todos os dias: a minha mãe dizia em entrevista há uns tempos que a partir de uma certa hora a campainha não parava, que era a malta a entrar lá para a cave. E depois era aos sábados, com a malta a ir do café para lá, à tarde, para as sessões de blues. Até ficava gente de fora, a fumar, a beber cerveja, ali sentada nas escadas exteriores».

É assim que estas coisas começam. Depois, Rui foi viajar com uns amigos pela Europa, e a mãe fez-lhe o tantas vezes relatado favor de ir levar as maquetes à loja da Valentim de Carvalho: «Fomos numa carrinha de um amigo, levei a guitarra claro. Quanto a miúdas, vimos muita mulher bonita, mas nessa viagem não nos calhou nada. Íamos acampar, foi uma viagem de tesos, com dinheirinho contado para o gasóleo e para a comida».

No regresso, a surpresa: «Quando voltei não percebi logo que a minha mãe tinha lá ido levar as maquetes. Não soube durante muito tempo. E penso que foi em casa da Gabriela Schaaf que soube mais. Ela disse-me que eu tinha que ir a Lisboa porque conhecia lá um fulano, o António Pinho [membro fundador da Filarmónica Fraude, da Banda do Casaco e, à época, profissional do departamento de Artistas e Repertório da Valentim de Carvalho]. E tenho a ideia que ela me pôs a falar com ele e que ele me disse "eh pá, venha cá abaixo e traga umas coisas suas". E eu assim fiz, fiz uma selecção de coisas que tinha aqui e gravei para uma cassete. E realmente, boa parte das coisas que eu gravei para a cassete ele já tinha ouvido, em bobine. Pediram-me para voltar no dia seguinte, fui para casa dos meus tios e quando lá voltei é que disseram que estavam muito interessados e que íamos fazer um disco. Depois é que veio a coisa do português».

Rui Veloso (música) e Carlos Tê (letras)

Rui Veloso (música) e Carlos Tê (letras)

CHICO FININHO NÃO É BEM PORTUGUÊS

«O Tê estrebuchou um pouco com o escrever em português. As primeiras letras que ele escreveu são as que estão no disco. E ainda há duas letras do António Pinho, porque o Tê não tinha mais letras. E como havia pressa de gravar aquilo, foi mesmo assim. O Pinho arranjou duas letras, eu musiquei-as e vai disto», adianta Rui Veloso. As memórias de Carlos Tê vão no mesmo sentido. «Na altura havia uma certa perplexidade. O "Chico Fininho" que eu tinha escrito em 77 era uma música que eu nunca imaginei que pudesse ser gravada, mas foi essa a canção que chamou a atenção aos tipos da editora: "Arranjem mais nove como esta". E eu pensei "Como é que eu vou fazer isso?". É que de certa maneira, eu tinha escrito aquela música exactamente para provar que não se podia escrever aquele tipo de coisas em português», confessa Carlos Tê.

«Ao princípio ainda houve uns ensaios com os irmãos Castro [Pedro e José, dos Petrus Castrus] que não resultaram e depois lá cheguei ao Ramon [Galarza] e ao Zé [Nabo] por sugestão do António Pinho. Claro que eu já sabia quem eles eram», sublinha Rui. «O Zé Nabo era um tipo conhecido na minha zona, que de vez em quando ia lá ao nosso café. E era mais velho, ele tem quase mais dez anos do que eu. E o Ramon também era conhecido, filho do Shegundo Galarza, tinha uns projectos mais rock. Para nós, eles tinham o estatuto de alta cavalaria. Tinham tocado no 10 000 Anos Depois Entre Vénus e Marte, do José Cid, tudo muito bem tocado, o Zé Nabo tinha o Tempo, o Objectivo, aqueles grupos de que um gajo ouvia falar lá no Norte, mas que não conseguia ir ver porque ainda não tinha idade para ir aos bailes onde eles de vez em quando tocavam».

Rui partiu para todo este processo com um enorme cepticismo, sem saber muito bem como se enquadrar no processo que estava a atravessar. «Houve um período de ensaios, estive sempre muito intimidado a trabalhar com eles porque estava a dar os primeiros passos e achava que aquilo não tinha importância. E depois punha-me a pensar: "Quem sou eu para tocar com estes gajos?". Mas houve ali colaboração, eles ajudaram-me a chegar ao lado prático das coisas, ajudaram-me na concretização das minhas ideias. Eu já tinha ideias do que queria. Nem sei bem como, com certeza devido à muita música que tinha ouvido», remata.

«Os ensaios decorreram no Rock Rendez Vous, em obras ainda, com trolhas à volta e tudo. Foi o Mário Guia que era muito amigo do Ramon que nos arranjou isso. Depois mais tarde fui eu que abri o RRV», revela Rui Veloso. «Depois a gravação e mistura foram 70 horas. Muitas das coisas que se ouvem no álbum são primeiros ou segundos takes. O primeiro dia que fomos para estúdio foi passado a fazer as ligações da máquina: é que era a primeira vez que se estava a gravar em 24 pistas em Portugal. A primeira máquina foi para o RPE, estúdio ali no Alto de São João, e os técnicos não dormiram nessa noite, nomeadamente o Zé Fortes. Depois, o dia seguinte, foi para fazer testes».

DO ESTÚDIO PARA A CARRUAGEM

«No álbum usei a minha Gibson Les Paul Custom preta, que era a guitarra que eu tinha na altura. O Tozé Brito emprestou-me uma Ovation, porque eu não tinha uma guitarra acústica decente. E nem sequer gosto dessa guitarra, mas na altura era o melhor que me podiam emprestar. E tinha um amplificador Marshall de transístores, que não era grande coisa», explica Rui, puxando pela memória.

«Quando terminei, o meu sentimento era de insegurança, de incerteza. Tinha uma sensação de que faltava ainda fazer coisa, duvidava que o que estava feito estivesse bem feito. É que numa situação daquelas, todas as limitações vêm ao de cima: não só as limitações físicas - será que um gajo tocou o suficiente? - mas também as outras. Um gajo nem conseguia ter duas guitarras boas». Rui refere estes exemplos, para justificar uma certa ausência de nostalgia.

«A primeira vez que ouvi as gravações, numa cassete, foi num carro e depois num bar em Cascais, A Carruagem, onde costumávamos ir um bocadinho ao fim de semana, para beber uma cerveja antes da [discoteca] 2001. Foi engraçado ver as reacções das pessoas que lá estavam quando perceberam que aquilo era em português e começaram a comentar. E eu caladinho».

Sobre o produtor do álbum, António Avelar Pinho, que vinha da Banda do Casaco e que haveria de ter papel de relevo no boom do rock nacional, Rui Veloso tem as melhores memórias: «O Pinho é um homem cheio de ideias que não pára nem a dormir. Contribuiu muito no disco, desde o início, desde [o repto] para que cantássemos em português», refere.

«Passei um bocado ao lado da chegada do disco às lojas, estava preocupado com outras coisas. Estava preocupado com o facto de estar desenraizado, de estar quase no meio do "inimigo", cá em Lisboa. Vivi com os meus tios e depois fui uns meses largos para casa do Zé Carrapa que fez o grande favor de me acolher. Eu era o gajo do Porto em Lisboa. E nessa altura sentia muito isso: era difícil chegar cá, nesse tempo as equipas lá de cima não contavam para nada, era só Sporting e Benfica, e depois havia a pronúncia. sentia-me um bocado perseguido, pensava que qualquer coisa que dissessem era sempre para me atingir. Saí de casa dos pais e de repente estava a fazer as primeiras partes dos Police. não estava nada preparado para isso».

E, DE REPENTE, FEZ-SE BOOM!

«Com o Rui Veloso entrou o social e saiu a política da música popular», explica-nos Francisco Vasconcelos, administrador da Valentim de Carvalho, a editora que viu em Rui Veloso o futuro da música portuguesa. «Com o Rui Veloso», prossegue o executivo que na época desempenhava funções no gabinete de Artistas e Reportório da VC, «deixámos de ouvir e passámos a sentir (e dançar) a música feita em Portugal. O sucesso do Ar de Rock foi possível porque, em 1980, Portugal era um país que queria desesperadamente mudar. Como diziam os GNR, a Europa era ainda uma miragem, mas a presença dos retornados já estava a mexer com a sociedade, nomeadamente na comunicação social, que ficava de dia para dia mais dinâmica e aberta. Num país bafiento, bastou abrir as janelas para entrar o ar de rock e de um momento para o outro tudo ficou mais arejado».

E depois da conquista das rádios, Rui Veloso fez-se à estrada: «O meu agente na altura era o Carlos Gomes, que tinha uma empresa que era a Concerto, com o José Nuno Martins», conta Rui Veloso. Carlos Gomes esteve envolvido na primeira edição do Cascais Jazz e foi pioneiro na inclusão de Portugal nas rotas das grandes bandas internacionais, trazendo ao nosso país, ainda na década de 70, grupos como os Procol Harum, Supertramp e Genesis. «O Rui gostava pouco de ir para o palco», recorda Carlos Gomes. «Mas recebia muitos pedidos para espectáculos. Queria era ser sempre o primeiro a tocar, para se despachar mais depressa». Mas com um investimento cada vez mais sério no profissionalismo e no equipamento, algo começa a mudar. Carlos Gomes recorda também que um cachê na época, «com luzes, som, palco e tudo», podia chegar aos «300 contos» (cerca de mil e quinhentos euros).

Mas mesmo assim, Rui foi o último a acreditar: «Durante muitos anos, a minha sensação foi a de que estava na música a prazo. Pensava mesmo, "um dia destes lixo-me e vou fazer outra coisa". Mas, curiosamente, a música ocupava-me tanto tempo que eu nem sequer pensava em alternativas. Tinha algum jeito para línguas... Fiz o propedêutico e poderia ter ido para Direito ou Línguas, mas não me estava a ver professor de ninguém. Só em 1986 é que me convenci que a música tinha futuro», confessa a estrela em tempos relutante.

«Esse cepticismo», justifica Rui, «tinha também a ver com a falta de condições. Não havia um mercado de discos. Se bem me lembro, o Chico Vasconcelos pensava que vender entre cinco a seis mil discos era atingir uma marca excepcional. Vendeu 30 e tal mil, mas nem sequer chegou a Platina. Foi Disco de Ouro, mas vá lá, superou as expectativas. Ainda assim não me convenci logo. Andei muitos anos, muito famoso, a ganhar pouco dinheiro. O meu primeiro cheque de royalties, de 180 contos, deu para comprar uma aparelhagem. Que era a única coisa que eu tinha em casa. Andei meses a dormir no chão». O futuro, sabemo-lo agora, haveria de ser mais generoso.

Originalmente publicado na revista BLITZ de maio de 2010.