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Quando David Bowie era invisível

Antes de Space Oddity, dez singles e um álbum passaram a leste das atenções. Há um ano, Nuno Galopim revisitou os primórdios do artista que demorou o seu tempo a encontrar a chave do sucesso, mas conseguiu fazê-lo a tempo de se tornar um ícone

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Quando, em julho de 1969, a emissão especial da BBC que acompanhava a chegada da Apollo XI à Lua apresentava «Space Oddity» no seu genérico muitos descobriam o nome de uma voz até então desconhecida da maioria.

David Bowie? A verdade é que não só era um músico já com dez singles e um álbum editados mas cuja primeira sessão em estúdio, com a sua primeira banda, onde era o saxofonista, acontecera sete anos antes. Um saxofone fora presente de Natal em 1959. David Jones (o seu nome real), então com 12 anos, teve oito aulas com um jovem saxofonista proeminente, lembrando-se anos depois de chamar o «velho» professor para gravar o solo de saxofone em «Walk on the Wild Side», de Lou Reed.

O primeiro concerto de David Bowie teve uma multidão de quase quatro mil pessoas por perto. O número foi divulgado pelo Kentish Times, se bem que se imagine que apenas uma pequena fração terá assistido a uma das atuações de novas bandas integradas na festa que a escola Bromley Tech organizava naquele dia 16 de junho de 1962. Com «Love Me Do», dos Beatles, ainda a uns meses de surgir em single, os Kon-Rads subiam ao palco para apresentar uma mão-cheia de versões das canções da moda. O grupo já existia como um trio de colegas quando David, e o amigo George Underwood (que tinham como experiência musical comum a passagem pelo coro da igreja e canções cantadas em acampamentos de escuteiros) os abordaram. George era agora o vocalista e David o saxofonista. A saída de George e uma cena de pancada envolvendo o cantor que o substituiu levaram David ao lugar de vocalista.

E assim correram por palcos de clubes, salões de baile e festas de igreja, entre 1962 e 63, chegando mesmo a passar por um estúdio onde registaram «I Never Dreamed» (fita que há alguns anos chegou a ser vendida em leilão mas continua inédita em disco). Data desta etapa o famoso soco (dado por George) que gerou uma pupila dilatada que seria mais tarde notada como característica distintiva quando o mito Bowie ganhou forma. Os Kon-Rads nunca foram para David mais que uma banda de escola. Chegaram a fazer estrada e gravaram até um single («Baby's Too Late Now», em 1965), já bem depois de terem seguido caminhos separados.

Durante o verão de 63, e inspirado pelo encontro com um álbum de John Lee Hooker, Davie e George formaram um pequeno grupo em clima R&B, com o qual chegaram a atuar num hotel e numa universidade. Chamavam-se The Hooker Blues. Um emprego numa agência de publicidade obrigou, contudo, David a gerir tempo (e disponibilidade) de outra forma. E é ainda sob heranças dos blues que os dois amigos formam, em 1964, os King Bees. São um quarteto e, sob alusões ao sucesso dos Beatles, entusiasmam Leslie Conn, que assim se torna o primeiro manager de David. Foi Conn que lhes conseguiu uma audição para a Decca, da qual resultaria um acordo para gravar um single. Assim nasce, em junho de 1964, «Liza Jane», que, passando a leste das atenções, dita assim o fim do episódio.

A banda que se segue na história já tinha, como os Kon-Rads, uma vida antes da chegada de David, assim como já colecionara uma série de nomes. Chamava-se The Manish Boys e, com David agora em trajes mod, deixou na sua história um segundo single «I Pity the Fool» (1965) e uma primeira presença com visibilidade na TV, todavia para defender a visibilidade dos cabelos compridos... Em abril de 1965, depois de uma discussão por causa do nome com o qual a banda se apresentava, está já à frente dos Lower Third, com os quais edita o single «You've Got a Habit of Leaving», que, como os anteriores, acaba ignorado.

Desta etapa datam, porém, duas decisões marcantes. Sob sugestão de Kenneth Pitt (que pouco depois seria o seu novo manager), David, que nos dias dos Kon-Rads se apresentara pontualmente como Dave Jay, trocara de nome e era agora David Bowie. Ao mesmo tempo os colegas apercebiam-se de que era dele o talento autoral, os dotes performativos e o centro das atenções. Era natural que o grupo se dissolvesse e David pudesse avançar por si.

E nunca mais se dissolveria numa banda até, em 1989, criar os (não muito bem sucedidos) Tin Machine, exceção feita para o breve episódio, entre março e maio de 1967, no qual integrou os The Riot Squad, banda com a qual se apresentou em cerca de 20 concertos onde deu pela primeira vez conta da sua admiração pelos Velvet Underground, apresentando uma versão de «Waiting for the Man».

Music hall e vaudeville

Finalmente a solo, mas ainda em clima mod, David Bowie edita ao longo de 1966 três singles (pela Pye Records). São eles «Can't Help Thinking About Me», «Do Anything You Say» e «I Dig Everything», o primeiro dos quais tendo sido recuperado para concertos ao vivo na curta digressão que assinalou o lançamento de Hours, em 1999. Sem maior impacte que os anteriores, o trio de singles não proporcionou um aprofundar das relações com a editora. E, quando a 18 de outubro de 1966 regressa a estúdio para gravar «The London Boys» (que fora rejeitada pela Pye), «Rubber Band» e «Please Mr Gravedigger», já o faz tendo em vista um novo contrato, que uma semana depois é assinado com a Deram, uma etiqueta da Decca que recentemente tinha chamado Cat Stevens ao seu catálogo. Com um avanço de valores que até aí não conhecera, Bowie grava, em sessões que se prolongam até fevereiro de 1967, um primeiro álbum.

«Experimentem David Bowie. Ele é qualquer coisa de novo». A frase lia-se no final de um pequeno texto publicado na Disc & Music Echo, em junho de 67, no qual se valorizava o facto de o músico, com apenas 19 anos, ter assinado todas as 14 faixas do disco, prenunciando sucesso se tiver «os singles certos». David Bowie era um alienígena no mapa musical do tempo em que surgiu em cena. Apesar das eventuais afinidades narrativas das canções para com os contadores de histórias da folk de então, com a invulgaridade dos caminhos traçados pelas letras (e músicas) de Syd Barrett para alguns temas dos Pink Floyd (nomeadamente «The Gnome») e dos paralelos que podemos encontrar entre ecos de referencias «retro» com o contemporâneo Sgt. Pepper's', dos Beatles (lançado no mesmo dia), o álbum David Bowie era um ovni entre o panorama pop/ rock do seu tempo.

Numa altura em que o psicadelismo e os caminhos da folk estavam entre os mais visíveis na ordem do dia, a presença de traços do vaudeville e de formas de orquestração mais habituais no teatro musical do que na pop abriam o alinhamento do álbum a um espaço de estranheza que, no entanto, acabou por não conquistar adeptos.

Se o artigo no Disc & Music Echo profetizava um futuro risonho, alertava desde logo para a escolha de «bons singles» como condição necessária. «Rubber Band» e «Love You Till Tuesday» não colheram entusiasmos. Tal como o não fez o bizarro «The Laughing Gnome» (não incluído no alinhamento do álbum mas gravado nas suas sessões), a história de um encontro com um gnomo, com uma voz manipulada a garantir a teatralidade do diálogo, que se tornou um dos temas mais embaraçosos da obra de Bowie. O disco foi mais um fracasso de mercado. E Ken Pitt criticaria a editora pelo mau trabalho de promoção. Mike Vernon, o produtor, corroborou esta ideia, ao reconhecer que a editora «não sabia o que era a música rock».

O álbum foi ainda injustamente criticado como mera incursão pelos terrenos mais populares de um Anthony Newley e do music hall, quando na verdade é um disco com uma dimensão cénica e narrativa que traduz uma vastidão e invulgaridade de interesses e prenuncia um desejo de liberdade para além dos caminhos mais povoados do rock. David Bowie só seria devidamente (re)descoberto mais tarde mas não deixou nunca de ser um caso à parte. As reedições em série da obra nunca o contemplaram, mas a antologia editada em 2014 Nothing Has Changed, que recua a «Liza Jane» e outros temas pré-Space Oddity, não passou ao largo do alinhamento deste álbum (inclui «Silly Boy Blue»). Com edição em mono e estéreo logo na origem, conheceu uma reedição em 2010 com um disco extra com temas inéditos, uns gravados em sessões na BBC, outros resultando de misturas alternativas.

A caminho do espaço

O calvário de tiros ao lado não acabaria, contudo, aqui. Um quarto single seria ainda editado pela Deram em 1968, incluindo os temas «In The Heat of The Morning» e «London Bye Ta Ta». O disco, que assinalou o encontro em estúdio com o produtor Tony Visconti (que de então em diante, e entre umas pausas mais curtas, outras mais longas, seria o seu mais recorrente colaborador), traduz uma aproximação mais evidente aos caminhos que a música pop então experimentava. Mesmo assim não conheceu um destino diferente dos anteriores, ditando o fim do relacionamento com a Deram.

Bowie semeara entretanto ideias e relacionamentos que lhe valeriam trunfos poucos anos depois. Do trabalho com Visconti a uma performance como mimo que apresentaria em Londres (e na qual lança uma das primeiras bases para a criação de Ziggy Stardust), o futuro tinha ali alicerces numa altura em que muitos certamente não veriam mais que uma carreira imaginativa, esforçada, mas até então praticamente invisível.

Seria com uma das suas composições mais invulgares que David Bowie assinalaria, em 1969, o seu primeiro momento de sucesso. Com 2001: Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, como primeira fonte de inspiração e uma visão de ficção científica feita canção, «Space Oddity» marcou o momento em que Bowie emerge como uma força maior no mapa dos acontecimentos da cultura popular.

Foram estas as memórias que em tempos Bowie quis revisitar num álbum que chegou mesmo a gravar no ano 2000, contando com Lisa Germano entre as colaborações chamadas a estúdio. Chamar-se-ia Toy e deveria apresentar novas versões para temas da etapa pré-Space Oddity como «Liza Jane», «The London Boys» ou «Uncle Floyd», mas, como o produtor Tony Visconti depois revelou, foi recusado pela editora e acabou na prateleira numa altura que Bowie se mudou então para a sua própria etiqueta, a ISO. Com o tempo alguns dos temas de Toy foram surgindo entre lados B e extras de reedições.

Habitualmente ausente de antologias e campanhas de reedição (facto que a ligação a outras editoras nesta fase pode ajudar a explicar), a música que Bowie fez antes de 1969 teve recentemente direito a uma sala na exposição David Bowie Is e alguns temas, tanto das sessões de Toy como de discos pré-Space Oddity, surgiram no alinhamento de Nothing Has Changed, o best of lançado em finais do ano passado. Apesar do título, algo tinha mudado. Pelo menos na relação com estas memórias.

Originalmente publicado na revista BLITZ de março de 2015.