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Rita Carmo

Dave Matthews: A banda dele vive na estrada

Estiveram em Portugal no final do ano passado, para um memorável - e gigantesco - concerto em Lisboa. Lia Pereira recorda esta maratona, e outras noites passadas com a Dave Matthews Band, uma instituição de palco nos Estados Unidos, onde agora regressa para celebrar 25 anos de vida com uma longa digressão

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

A chuva foi caindo toda a tarde, num daqueles domingos ideais para preguiçar em casa. Pouco antes das oito da noite, porém, a agitação na zona oriental de Lisboa era bem notória - afinal, o reencontro do público nacional com a Dave Matthews Band (DMB) estava marcado para a hora dos telejornais e, entre o contingente de fãs da superbanda americana, ninguém queria chegar atrasado. As filas à porta da MEO Arena - onde o grupo se estreou em 2007, quando a sala ainda se chamava Pavilhão Atlântico - adiaram o começo do espetáculo cerca de quinze minutos. Quando, por fim, as luzes se apagaram, não houve como não arrepiar: o clamor vindo do público que quase esgotou o enorme recinto indicava que, ao contrário do que amiúde acontece em festivais, a plateia estava ali, em peso, para ouvir a música. E assim o fez, durante 210 inesquecíveis minutos.

De forma discreta, quase tímida, Dave Matthews e os seus rapazes - o mais jovem dos quais, Stefan Lessard no baixo, completou em junho 41 anos - entraram em palco pelas 20h15, para uma maratona que acabou depois da meia-noite. O público sabia, à partida, que deste serão constariam dois sets distintos, mas desconhecia que canções fariam parte do espetáculo, uma vez que o concerto em Lisboa foi o primeiro da tournée europeia.

No verão passado, nos Estados Unidos, a digressão «A Very Special Evening with Dave Matthews Band» apresentou uma secção acústica e outra elétrica, mas em Lisboa a divisão das águas não foi tão clara.

É verdade que, depois de um intervalo de meia hora, Dave Matthews voltou a palco sozinho, para partilhar as novas «Black and Blue Bird», à viola, e «Death on the High Seas» ao piano, assim como «Bartender», na guitarra com o amigo e colaborador de longa data Tim Reynolds. Mas seguiu-se eletricidade com fartura, numa segunda parte tão frenética como a primeira, onde as canções do segundo álbum da banda, Crash (1996), fizeram a diferença: «#41», «So Much To Say» e «Too Much» ainda ressoarão na memória dos espectadores que, ao longo de três horas e meia de «tempo útil de jogo», não se cansaram de incentivar a banda. Particularmente comunicativo, ainda que para isso «apenas» precisasse de tocar ou distribuir baquetas pelos fãs das primeiras filas, o baterista Carter Beauford foi um dos rostos do contentamento da DMB, neste feliz regresso aos palcos nacionais.

Curiosamente, e para provável desânimo de quem acorreu à Meo Arena esperando ouvir radiofónicos temas recentes, o alinhamento deu especial destaque aos três primeiros álbuns da banda: Under The Table and Dreaming, de 1994, Crash, lançado dois anos depois, e Before These Crowded Streets (1998). E em meados da década de 90 - lembramo-nos porque estávamos lá - era complicado encontrar, em Portugal, quem conhecesse a DMB, cujos álbuns eram raras vezes avistados nas lojas de discos. O que terá acontecido para que, nesta noite outonal de 2015, canções emblemáticas mas antigas qb como «Dancing Nancies», «Satellite» ou «Ants Marching», que fechou com estrondo a maratona, estejam na ponta da língua e dos pés de tantos melómanos felizes? Há quem diga que o primeiro concerto do grupo por cá, naquela mesma sala, há oito anos, ajudou a espalhar o rastilho.

Quem lembre o virtuosismo de Matthews, Beauford, Lessard, Reynolds, Boyd Tinsley (violino), Jeff Coffin (saxofone) e Rashawn Ross (trompete) como trunfo para atrair ouvidos mais atentos à arte de «tocar bem». Quem palpite que o passa-palavra ergueu a DMB ao altar de um discreto mas sólido culto em Portugal.

Eis uma boa altura para voltarmos a 2009, ano em que, a propósito do concerto dos autores de «Crash Into Me» no Alive, encontramos Dave Matthews num hotel de luxo de Lisboa, para uma descontraidíssima entrevista. Entre jornalistas e fãs em êxtase por chegarem à fala com tão acessível herói, discorria o músico nascido em Joanesburgo há 48 anos: «penso que fomos crescendo lentamente, graças ao passa-a-palavra. No fundo, um pouco como nos Estados Unidos, mas nos Estados Unidos tocávamos mesmo muito. Andávamos sempre metidos num autocarro», lembrou, referindo-se à fama de gigantes de estrada que o seu grupo tem na América do Norte. Tocar deste lado do Atlântico acaba por ser, defendia então, «uma forma de nos rejuvenescermos: é muito divertido tocar para um público novo, um público diferente. Nos Estados Unidos é divertido, porque o nosso público é cada vez mais novo; aqui é divertido porque há sempre pessoas "novas", independentemente da idade».

Em Portugal, país onde em 2009 acabaria por ficar uma semana de férias, no Alentejo, a DMB começou tardiamente, mas com o pé direito, a espalhar a sua palavra. «[O concerto no Atlântico, em 2007] foi um dos maiores concertos da carreira da banda, de todos os tempos», assegurava-nos o seu timoneiro há seis anos. «Nessa altura, a banda estava a renascer. As nossas amizades estavam a florescer novamente, a nossa ligação uns aos outros e à música estava cada vez mais forte e fresca. Quando tocámos em Portugal e encontrámos um público que respondia de forma tão explosiva à nossa música, foi espetacular. Pensámos: "OK, passámos por uma década complicada, mas ainda estamos todos juntos". E descobrimos uma razão para tocarmos juntos outra vez», garantiu, recordando ainda o amigo e companheiro de banda que acabara de perder. «Encontrar um público assim foi uma grande inspiração; um momento que irei sempre recordar como um ponto alto da nossa carreira. Também porque ainda cá tínhamos o nosso amigo LeRoi [saxofonista], que partiu [em 2008], e ele ainda conseguiu ver isso: nós a termos uma grande receção na Europa, em Lisboa. Nunca me hei de esquecer».

Dave Matthews em Portugal, 2015

Dave Matthews em Portugal, 2015

Rita Carmo

MEDO DOS PALCOS

Além de Carter Beauford, o herói da bateria em cuja cave decorreram muitos dos primeiros ensaios da DMB, LeRoi Moore foi um dos primeiros «convocados» para a equipa do sul-africano que se mudou para Charlottesville, na Virgínia, aos 19 anos. Na altura, Dave Matthews não pensava em recrutar um saxofonista, mas não resistiu a convidá-lo para tocar consigo, depois de o ver ao vivo e se apaixonar pela forma como se entregava à música. De igual forma, Boyd Tinsley, um dos mais carismáticos elementos da banda e protagonista, invariavelmente, de vários pontos altos nos concertos, juntou-se ao grupo apenas para tocar violino em «Tripping Billies», uma das primeiras canções do grupo, acabando por permanecer de pedra e cal na sua formação até aos dias de hoje.

24 anos se passaram sobre a fundação, espontânea e despreocupada, da DMB no sul dos Estados Unidos, e de certa forma a naturalidade e o instinto que assistiram à sua criação continuam a nortear o seu rumo, pelo menos no que ao seu habitat natural os palcos diz respeito. Curiosamente, numa entrevista recente à Rolling Stone, Dave Matthews confessa sentir, ainda hoje, uma «mistura saudável de medo e excitação», sempre que tem um concerto para dar.

«O que quero é que as pessoas saiam da sala a sentir que receberam mais do que estavam à espera. A minha esperança é que haja sempre alguma coisa no ambiente [do espetáculo] que ultrapasse as suas expectativas e as incentive a voltar».

Conhecida pelo imenso catálogo ao vivo, a DMB começou a editar concertos para responder à sede dos colecionadores pelos chamados bootlegs, ou seja, gravações amadoras dos espetáculos da banda. Reconhecendo que, antes do apoio dos media e das editoras, foi esta troca de gravações, sobretudo no circuito universitário, que fez crescer a sua popularidade, os homens de «Don't Drink The Water» nunca penalizaram os «piratas», encorajando mesmo a gravação das suas atuações, desde que sem fins lucrativos.

A ideia de comunidade é cara à banda, que de momento se encontra a trabalhar, calmamente, num novo disco. «A certa altura havemos de o lançar», afirmou Dave Matthews à Rolling Stone, antes de, com notável pragmatismo, reconhecer: «não estamos nos anos 80, ou nos 90, ou nos 70, onde essas coisas eram importantes. Sempre deixámos as pessoas gravar a nossa música, por isso provavelmente hão de acabar por arranjar algumas das canções se gravarem os concertos ou se nós lançarmos algum disco ao vivo».

Atualmente a viver em Seattle, o cantor e compositor que em 1991 criou, com apenas quatro canções em carteira, uma das bandas mais bem-sucedidas da atualidade reconhece que o seu estilo se alterou com a idade. Em 2012, refletia: «quando somos novos, temos menos medo e somos menos críticos em relação ao que fazemos. Com 20 ou 25 anos temos uma certa sensação de imortalidade», afirmou ao San Diego Union Tribute. «E independentemente das obsessões que tenhamos, temos acesso às nossas emoções sem muita análise. Hoje, talvez tenha de me esforçar mais para atingir aquele tipo de vulnerabilidade que, na juventude, não nos importamos de mostrar».

À BLITZ, antes do aplaudido concerto no Alive, em 2009, a temática das canções de um homem cuja vida tem sido marcada pela tragédia - no ano em que lançou o primeiro disco viu a irmã ser assassinada pelo marido - esteve também em cima da mesa. E, tal como diz não ser tão «normal» como a opinião pública faz crer, Dave Matthews defende a densidade das suas criações. «Não acho que escreva coisas bonitinhas e simpáticas. Acho até que as minhas canções são mais negras do que a maior parte das canções, só que encaixo-as em música que não é negra de uma forma muito óbvia, o que se calhar as torna ainda mais negras», defendeu, concretizando: «penso que canto mais sobre a morte e a obsessão do que a maior parte dos músicos; que canto sobre a obsessão física de uma forma mais agressiva do que ouço por aí».

Da próxima vez que abanarmos o pé ao som de «Ants Marching», lembremonos das palavras do seu autor: «Não acho que a minha música seja feliz; acho que é alegre. Não sei se é uma distinção só da minha cabeça, mas tocar música com alegria não significa que a música seja sobre coisas felizes e sorridentes. Pode ser sobre sofrimento, tristeza, solidão». Ao vivo, contudo, o entusiasmo do grupo em palco acaba por contagiar mesmo os mais céticos, como com humor contou à Rolling Stone: «Outro dia estava na mercearia e um rapaz veio falar comigo. Parecia um hipster, com piercings e barba, e disse-me: nunca comprei um disco teu, mas no verão passado o meu amigo convenceu-me a ir a um concerto vosso e foi incrível. Nunca pensei. E eu pensei: é verdade, somos do caraças».

Originalmente publicado na revista BLITZ de novembro de 2015