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Hinds ao vivo no Musicbox, em Lisboa: acreditem no hype

Sala lisboeta esgotou na sexta-feira para receber o quarteto espanhol do momento. Houve moche, crowdsurf e muitos “abrigados”. Alek Rein, na primeira parte, surpreendeu. Teresa Colaço esteve lá

Se o facto de os dois concertos das madrilenas Hinds no nosso país terem esgotado não fosse prova suficiente de que há um hype à volta de Leave Me Alone, o álbum de estreia, a vista à porta do Musicbox, uma hora antes da hora marcada para o início do concerto, trataria de o comprovar. A fila para entrar na sala de espetáculos dificultava a passagem pela Rua Nova do Carvalho e apresentava uma média de idades mais baixa que o esperado, com jovens de cartaz na mão e mochila às costas.

Responsável pelo primeiro ato da noite estava Alek Rein, nome claramente desconhecido da maior parte dos presentes (houve quem, na página do evento no Facebook, tivesse implorado pela presença dos Modernos, que abririam as hostes no concerto das Hinds no Porto, no dia seguinte). Apesar da estranheza inicial, o público que já enchia a sala não demorou a aprovar entusiasticamente o heterónimo criado por Alexandre Rendeiro (e quem lhe dá voz), autor do EP Gemini, de 2010. Em palco e com banda (Guilherme Canhão no baixo e Luís Barros na bateria), a folk psicadélica presente na gravação cresce para um rock a cheirar a anos 70, sem perder o psicadelismo e com inspirados momentos, principalmente à guitarra. Com poucas palavras (um ou outro tímido “obrigado” entre canções), o concerto foi uma sucessão de temas aliciantes, onde reconhecemos “River Of Doom” e “Charlene”, esta última em homenagem à ativista Charlene Teters. Plateia aquecida e algo espantada, objetivo cumprido. Segundo as redes sociais de Alek, o longa-duração está prestes a sair e, a partir desta pequena amostra, diríamos que terá tudo para correr bem.

Entre concertos, o burburinho da sala foi ganhando volume por culpa dos gritos mais ansiosos de quem, bem lá à frente, fazia questão de mostrar a sua admiração sempre que alguma das Hinds pisava o palco para preparar equipamento. Não demorou muito, no entanto, até que as quatro entrassem definitivamente em cena e arrancassem com “Warning With The Curling”, tema de quando ainda eram Deers. Começo algo apreensivo: a canção é pouco conhecida e não permite grandes cantorias a um público claramente à espera das melodias descontraídas e refrões explosivos de Leave Me Alone, o disco de estreia das espanholas, lançado no mês passado. Mas não foi preciso esperar muito. “Trippy Gum”, tema do novo disco, acertou o ritmo para o resto da noite: melodia leve e refrão que transpira diversão por todos os lados.

Logo depois, os problemas na bateria de Amber Grimbergen obrigaram a que Carlotta Cosials (voz e guitarra) iniciasse conversa com o público: “Em Portugal nunca sabemos se havemos de falar espanhol ou português. Em Espanha aprendemos português nas caixas de cereais!”, revelou. A gargalhada geral, alimentada ainda pelas tentativas de Ana Perrote (voz e guitarra) pronunciar algumas palavras na língua de Camões, tornou o ambiente ainda mais familiar. Com a demora na resolução dos problemas da bateria de Amber, Ana lança-se sozinha numa melodia familiar à guitarra. Era “Catamaran”, tema dos norte-americanos Allah-Las, prontamente reconhecido pelo público e acompanhado pela guitarra de Carlotta e o baixo de Ade Martin.

De volta ao garage rock despreocupado, “Warts” proporcionou as primeiras cantorias por parte do público, que até as melodias da guitarra fez questão de cantar. “Between Cans”, “Chilli Town” e “Easy” continuaram a demonstrar o balanço perfeito de que vive o quarteto espanhol: melodias calmas cantadas à vez por Carlotta e Ana, cujas vozes se vão sobrepondo, de modo quase aleatório, em letras que chegam a ser cantadas ora num quase sussurro ora a plenos pulmões. Pelo meio, uma versão de “When It Comes To You”, dos canadianos Dead Ghosts, que acalmou um pouco os ânimos. A certa altura, Ana, entre agradecimentos ao público, explicou que a vinda das Hinds a Portugal esteve quase para não acontecer. “Nós tínhamos uma tour em janeiro e uma tour em fevereiro e íamos tirar 10 dias entre as duas, para descansar, dormir… Mas recebemos muitas mensagens a pedir para virmos a Portugal, por isso desistimos dos dias de descanso e aqui estamos!”.

O esforço parece ter compensado, porque quando Carlotta anuncia “Bamboo”, a sala reage com uma euforia (quase) controlada: há moche, há crowdsurf, há um Musicbox inteiro de braço no ar a berrar I want you to call me by my name when I’m lying on your bed. A trilogia final ficou a cargo de “San Diego”, “Garden” e “Castigadas En El Granero”, que foram elevando cada vez mais os ânimos até a banda sair de palco de sorriso rasgado. Para fechar a noite de vez, as Hinds despediram-se da sala lisboeta com “Davey Crockett” (original dos Thee Headcoats), canção muito pedida pelo público, que acabou por invadir o palco para a festa final (veja o vídeo do YouTube no final).

Noite ganha para as espanholas, que claramente já têm uma relação especial com o público nacional (à saída da sala havia nova fila, desta vez para os autógrafos e merchandise). As madrilenas provaram que já não são um segredo bem guardado e parecem confortáveis com o estatuto de grande promessa. Festivais de verão à vista?

Texto e foto: Teresa Colaço