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Rage Against the Machine: Contra os canhões

Foi há 25 anos que Zack de la Rocha, mexicano e aspirante a rapper, se cruzou com Tom Morello, negro, guitarrista e estudante de arte em Harvard. Filipe Garcia recorda o primeiro embate: o álbum de estreia dos RATM.

A madrugada de 3 de março de 1991 foi trágica para a Califórnia. Depois de uma perseguição, a polícia espancou o negro que tinha recusado parar. A agressão a Rodney King foi o rastilho para os motins mais violentos da história de Los Angeles.

E este cenário de tensão social foi o pretexto que Zack de La Rocha, mexicano, e Tom Morello, negro, precisavam para pôr mãos à obra. Com a imagem de um monge budista a arder contra a guerra do Vietname na capa e um single com a palavra «fuck» repetida dezassete vezes, Rage Against the Machine não era o disco mais fácil de promover em 1992. Para complicar, Zack de la Rocha, Tom Morello, Tim Commerford e Brad Wilk não pareciam confortáveis com a promoção.

Internamente, a discussão era se assinar pela gigantesca Sony tinha sido uma traição aos ideais anticapitalistas e não se aceitariam fazer uma versão de «Killing in the Name» que pudesse passar na rádio. Inevitavelmente, não só recusaram editar o single como ainda aproveitariam o festival Lollapalooza para um protesto contra a «Parental Music Resource Center», a organização que zelava pela linguagem cuidada nos discos editados. Nesse dia, subiram ao palco nus, com fita adesiva na boca, mãos atrás das costas e com a sigla da organização pintada no peito. Um protesto radical, mesmo para uma banda assumidamente contestatária.

Se nas ruas a cor da pele era motivo de confrontos, nos ensaios foi a misturada cultural a garantir os ingredientes do sucesso. Com os discos de Stooges, MC5, Public Enemy e Run DMC a darem balanço à guitarra de Morello, os movimentos antiglobalização a alimentarem a fúria de Zack De La Rocha e o baixo de Comerford a explosão foi imediata. «Estávamos muito entusiasmados com a ideia de tocar hip-hop com instrumentos ao vivo, para conseguir fundir a música de que tanto gostávamos. Não há uma forma de explicar porque juntámos os sons ou porque o fizemos, foi natural», recordaria Zack de la Rocha. Mesmo sem promoção, o disco de estreia rapidamente chegaria a tripla platina, mas precisaria de esperar pelo Natal de 2009 para subir ao primeiro lugar das tabelas de pop.

E sempre em protesto. Em Inglaterra, contra o domínio do programa X Factor no top natalício, dois ingleses decidiram apelar à compra online de «Killing in the Name» como forma de protesto. «Nunca tínhamos chegado ao número um numa tabela de pop», reconhece Morello que não deixa de enaltecer o feito. «Sem promoção, vendemos 500 mil discos e foi uma maneira engraçada de apertar com o sistema. Também mostrou o que as pessoas podem fazer quando se organizam e agem solidariamente», defende. No final, 17 anos após o lançamento do disco, a banda acabou por entrar no Guinness por ter o single com mais downloads em menos tempo - 502.672 numa semana - e por doar 200 mil euros a instituições de caridade.

Com o álbum de estreia, os Rage Against The Machine (RATM) também começaram a definhar com as disputas entre Morello e Zack de la Rocha a minarem o ambiente na banda sempre alinhada na hora de protestar, mas sempre com o mínimo convívio possível quando afastados dos amplificadores. Depois de uma pequena digressão com os Beastie Boys, logo na gravação de Evil Empire, o segundo disco, a banda esteve próxima do fim. «Toquei sempre a pensar que seria o último concerto e qualquer disco poderia ter sido o último», reconheceria Morello, pouco depois de a banda se separar em 2000. Mas se para serenar os ânimos e concluir Evil Empire a banda chegou a ter reuniões de treze horas, em Battle of Los Angeles, o último disco de originais, Morello e Rocha já mal partilhavam o estúdio.

Pelo caminho, Zack de la Rocha passou pelo México para «mandar uma mensagem clara ao governo americano». Lado a lado com guerrilheiros do movimento Zapatista - sobre quem escreve em «People of the Sun» - o vocalista assumiu estar a tentar «fazer uma ponte entre os resistentes e os miúdos lá de casa que estão completamente iludidos com o sistema de dois únicos partidos». Mais tarde, em agosto de 2000, a luta da banda passou a ser na política nacional.

Com Battle of Los Angeles a chegar às lojas, atacaram a convenção democrata. Para a história, ficaria a nomeação de Al Gore no interior do Staples Center, enquanto, no exterior, a polícia tentava, com a ajuda de cavalos, balas de borracha e bombas de gás lacrimogéneo, controlar uma multidão acelerada ao ritmo da banda que, do palco, colocava «democratas, republicanos e as grandes empresas» no mesmo saco e que denunciava «um rapto da democracia». Por insistirem em enfeitar um amplificador com uma bandeira norte-americana invertida e em cantarem todos os versos de «Killing in the Name», já tinham sido expulsos do célebre Saturday Night Live, mas nunca tinham motivado cargas policiais e tão pouco estado presentes num protesto que, garantem os analistas norte-americanos, ajudou a condenar ao fracasso a corrida de Gore à Casa Branca.

Mas as polémicas não ficariam por aí. Três meses depois, na cerimónia de entrega de prémios da MTV para os melhores vídeos, Jennifer Lopez ainda entregou aos Limp Bizkit o prémio da categoria rock, mas Commerford chamou a si as atenções. Do público, o baixista saiu acompanhado de um segurança, seguiu para os bastidores e escalou ao cenário do palco. Em direto, Fred Durst ainda lançou o desafio para um stage dive e sugeriu um salto, mas Commerford não só se deixou ficar imóvel até ao intervalo publicitário como acabaria por passar a noite na prisão. «Olhava à minha volta e parecia que estava na Disneylândia. Até hoje ninguém me convenceu que eu tenha feito algo errado», defendeu anos mais tarde.

Zack de la Rocha não gostou e pouco depois, a 18 de outubro, com Renegades pronto a ser lançado, ligou a Commerford e a Morello a anunciar a decisão de se retirar da banda. No comunicado oficial, o motivo apontado era a falência do «processo de decisão entre a banda».

Para a despedida, deixaram um disco de versões entre Bruce Springsteen, MC5, Rolling Stones, Afrika Bambaataa e Bob Dylan com cada elemento a ter direito a impor uma música. Commerford escolheu «How Could I Just Kill a Man», dos Cypress Hill. «Em 1991, quando íamos de carro para os ensaios, na maior parte dos dias tocavam os Cypress Hill no leitor de cassetes», recorda.

Com Rocha a votar em «Renegades of Funk», de Afrika Bambaataa, de fora ficaram os Public Enemy, a banda que tinha atraído o vocalista para o hip-hop. «Em miúdo ouvia Hendrix, um pouco de Charlie Parker e jazz. Depois comecei a tocar guitarra», lembrou Zack de la Rocha que, no entanto, nunca esqueceu o dia em que a sua vida mudou. «Lembro-me da primeira vez que ouvi os Public Enemy. Vinha num carro de um amigo e ele pôs a banda-sonora do Less Than Zero (título português: A Última Viagem a Beverly Hills). Entre a Madonna e outra foleirice qualquer dos anos oitenta, passou a "Bring the Noise". Tive aquela vontade de parar tudo, fiquei a ouvir como se fossem notícias de última hora», contou.

Depois da edição de Renegades, a banda ainda tocaria mais dois concertos no Grand Olympic Auditorium em Los Angeles, para a gravação de um CD/DVD na companhia do produtor Rick Rubin.

Mas nessas noites a fúria em palco era de despedida e a separação duraria quase sete anos. Entretido com projetos a solo mais ou menos obscuros, Zack de la Rocha desapareceu do radar enquanto Morello, Commerford e Wilk decidiram continuar a tocar entre as grandes multidões. Com Chris Cornell, ex-Soundgarden, formaram os Audioslave e reduziram o tom dos protestos a uma música sobre as trágicas inundações em Nova Orleães apontada à administração de George W. Bush («Wide Awake»). Mas os Audioslave estavam condenados, não pelo temperamento peculiar de Cornell, mas porque ao fim de três discos o apelo de uma reunião com o vocalista original seria demasiado forte para recusar pelos seus três membros. Em 2007, separavam-se de Cornell e os RATM voltaram aos palcos para encabeçar o cartaz no palco principal de Coachella.

A um ano do fim do mandato de George W. Bush, a banda que em 2000 tinha obrigado Wall Street a fechar mais cedo por querer, sob direção de Michael Moore, gravar o vídeo para «Sleep Now In The Fire», estava de regresso para o que deveria ter sido um concerto único. No entanto, desta vez a notícia não seria um protesto, uma zanga ou um motim. Para gáudio dos fãs, a idade tinha amainado os ânimos dos guerrilheiros do funk e dos bastidores chegavam notícias de harmonia.

«Mudámos muito com a idade, as tensões e os rancores ficaram para trás. A nossa relação está melhor do que alguma vez foi. Éramos demasiado novos e demasiado burros para saber mostrar o quanto gostávamos uns dos outros», oficializou De la Rocha após o aguardado regresso.

De um concerto, os RATM passaram para oito datas nos Estados Unidos e, consequentemente, para uma pequena digressão internacional, com passagens pela Austrália, Nova Zelândia e Europa (Portugal incluído).

Sem alinharem numa digressão de grande escala, desde então os Rage já foram proibidos de tocar pela polícia num protesto em Minnesota, juntaram-se ao movimento Ocuppy Wall Street, promoveram um boicote ao Arizona em resposta à implementação de leis que autorizavam a polícia a identificar pessoas consoante a cor da pele, e participaram em várias ações contra as torturas em Guantánamo. Sem nunca manifestarem o seu apoio a qualquer candidato presidencial e com mais de 16 milhões de álbuns vendidos, vão resistindo ao ritmo do baixo de Commerford, da inconfundível guitarra de Morello e com a eterna fúria de Zack de la Rocha sempre profícua no protesto.

Contra a indústria do armamento escreveram «Bulls On Parade», pelos direitos dos imigrantes cantaram «Without a Face», contra o sistema financeiro lançaram «Testify», recorreram a palavras alheias para, em «Ghost of Tom Joad» denunciar injustiças sociais, em «Voice of the Voiceless» gritaram por Mumia Abu-Jamal (ativista pelo direitos dos negros condenado por assassinar um polícia), e por Leonard Peltier (ativista índio e condenado a duas penas perpétuas por assassinar dois polícias) lançaram «Freedom».

Hoje, como sempre, o futuro dos Rage Against the Machine é uma incógnita. Nas raras entrevistas que dão, garantem que o ambiente é ótimo, mas afastam a ideia de se trancarem durante meses a gravar num estúdio. Os fãs continuam em suspenso. Motivos para gritar não faltam, mas se, como José Mário Branco cantou, a cantiga é uma arma, o regresso será inevitável.

Texto: Filipe Garcia

Originalmente publicado na revista BLITZ de dezembro de 2012.