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Paulo de Carvalho: Com que voz

Eu, Paulo de Carvalho, o seu primeiro disco a solo, foi lançado há 45 anos. Em 2011, recordou a Rui Miguel Abreu os tempos áureos dos Sheiks, os Beatles portugueses, e o percurso que o levou até “E Depois do Adeus”, a inesquecível senha do 25 de Abril que lhe viria a marcar a carreira para sempre

Um cantor não pode nunca dizer adeus, sobretudo se deu voz ao tipo de canções que se impregnam na identidade de gerações, que se colam à história e que servem de banda-sonora a revoluções. Mas aos 64 anos e a meses de assinalar cinco décadas de entrega à música, Paulo de Carvalho reclama para si um novo tempo e confessa ter vontade de mudar de vida: «tenho agora duas crianças, com dois e sete anos, e por isso quero ter tempo para a minha família».

Depois, e dando sempre a sensação de que está a deixar qualquer coisa nas entrelinhas do seu discurso, tal como acontecia nas canções a que deu vida nos palcos do Festival da Canção, anuncia que está «a fechar um ciclo»: «São 50 anos de música e agora apetece-me tomar mais conta do meu tempo. Não será um adeus às canções, antes uma forma nova de estar nas canções», alerta, explicando que «a idade já não é a mesma de outros tempos e por isso há que saber agora controlar o tempo e não deixar que o tempo nos controle».

Se lhe atiramos com a palavra «desencanto» ao auscultar o tom da sua voz, Paulo de Carvalho responde de volta com uma questão: «Para que é que serve o facto de ser olhado como referência por meia dúzia de pessoas? Sei muito bem o que ando a fazer, não sou um falso modesto. Mas as minhas ambições nunca passaram por ser famoso e nunca planeei a minha carreira. Tenho é uma certa inquietação e por isso fui mergulhando de cabeça em áreas que se calhar não eram o que as pessoas esperavam de mim». O cantor não adianta muito mais, embora se refira quase de certeza ao fado que abraçou em meados dos anos 80 no álbum Desculpem Qualquer Coisinha. Ter dado voz a «E Depois do Adeus» poderá ter-se transformado num fardo?

BEATLES À PORTUGUESA

Paulo de Carvalho chegou à música numa época em que só a rádio permitia o acesso a alguns ecos das revoluções pop que se impunham em Inglaterra e nos Estados Unidos.

Salazar haveria de proferir a célebre frase do «orgulhosamente sós» em 1965, mas em 1962 esse sentimento podia ser partilhado por Paulo de Carvalho, Carlos Mendes, Fernando Chaby e Jorge Barreto, os «amigos de rua» que fizeram a primeira formação dos Sheiks, um dos grupos pioneiros do rock feito em Portugal.

Luís Pinheiro de Almeida, jornalista e blogger que ao longo dos anos tem dado especial atenção aos anos 60 e que assinou as notas de capa da re-edição integral da obra dos Sheiks na série «Do Tempo do Vinil», escrevia nas páginas da edição especial BLITZ 25 Anos que «à época, com uma indústria discográfica praticamente inexistente e uma televisão ainda a gatinhar, competia à rádio ser a locomotiva do desenvolvimento da música nacional». Paulo de Carvalho confirma: «Sou um produto da rádio. No início dos anos 60 programas como o 23ª Hora ou Programa dos Associados foram importantes para descobrir a música. O Em Órbita veio mais tarde. Lembro-me de ficar à noite a ouvir religiosamente a rádio».

Os passos seguintes foram os da descoberta da música na primeira pessoa: «Depois havia uns miúdos vizinhos que emprestavam umas violas para eu ir dando uns toques. Mas foi tudo acontecendo muito ao acaso, a minha história não é nada linear. As tais violas, umas latas de caramelos e lápis em vez de uma bateria... Eu acabei baterista porque não sabia tocar viola. Na altura pensavase na bateria como um instrumento menor, mas hoje sei que não é».

Nas notas de capa de Missing You - Integral 1965 1967, a compilação que organiza a totalidade do catálogo dos Sheiks na Valentim de Carvalho, Luís Pinheiro de Almeida descreve a entrada de rompante deste grupo na cena musical portuguesa: «A primeira formação dos Sheiks fonética de shake, ritmo então em voga, e não, como se poderia imaginar, reis da Arábia compreendia Carlos Mendes, Paulo de Carvalho (que trocou os juniores do Benfica pela bateria), Jorge Barreto e Fernando Chaby. Num ápice gravaram o primeiro êxito do conjunto, como então se dizia, "Summertime", um dos três discos mais vendidos em Portugal em 1965, a seguir a "Help!", dos Beatles, e "O Fado Mora Em Lisboa", de Mariema ».

«Os Sheiks», prossegue Paulo de Carvalho, «eram um grupo de amigos de rua. Alguns andavam no liceu francês e eu já trabalhava numa companhia de seguros. Havia uma certa diferença até a nível social, embora isso nunca tenha importado. Os Sheiks queriam basicamente imitar as bandas anglo-saxónicas que ouviam em disco e na rádio. Era assim que aprendíamos as músicas, de ouvido, que depois tocávamos nos espetáculos que fazíamos. Até chegava a acontecer aprendermos as músicas no tom errado porque a rotação do gira-discos estava avariada e ouvíamos tudo mais rápido».

As memórias, extremamente nítidas, vão-se desenrolando: «Éramos muito miúdos e não estávamos a levar aquilo muito a sério: alguns de nós ouviam umas bocas na rua por terem o cabelo mais comprido, mas tínhamos a banda para nos divertirmos, para tocarmos e arranjar miúdas. A única real preocupação que tínhamos era chegar ao final do mês com dinheiro suficiente para a prestação dos instrumentos. Mas aí as festas nas faculdades, que aconteciam com frequência, chegavam para ganharmos algum dinheiro. E acho até que chegámos a ter na altura uma fama bem comparável à que hoje têm os Xutos ou os GNR».

Depois das primeiras gravações com Moreno Pinto nos estúdios da Rádio Renascença, para o 23ª Hora, veio a Valentim de Carvalho que soube orquestrar o sucesso do grupo da melhor forma. Nas notas de capa de Missing You, Luís Pinheiro de Almeida refere-se à «segunda fase» da banda, logo depois da estreia discográfica, recordando as típicas informações que as adolescentes adoravam ler nas revistas da época.

«Após as férias desse verão de 1965, e com Edmundo Silva, ex-Conjunto Mistério, no lugar de Jorge Barreto, que preferiu outras vidas, arquitetou-se a formação clássica, de êxito, do grupo: «Carlos, 16 anos, voz e guitarra-ritmo, gosta de andar bem vestido, de mousse de chocolate, leite, louras, Ferraris, Beatles e Beach Boys; Paulo, 16 anos, voz e bateria, gosta de leite, do Porsche Super 90, do Tamba Trio, Shadows e Beach Boys e adora louras de cabelo comprido; Fernando, 17 anos, viola-solo, prefere fatos escuros, adora raparigas com longos cabelos, não importa a cor, gosta de leite e de Dinky Toys e é admirador dos Beatles e dos Beach Boys; e Edmundo, 23 anos, "o avô", viola-baixo, não gosta de gravatas, mas aprecia bife com batatas fritas, leite, prefere o azul e o vermelho e o Giullieta Sprint».

O sucesso dos Sheiks em Portugal levou-os até França em 1966 para uma temporada no Bilboquet, clube que lhes deu uma amostra da cena musical internacional, mas apesar de «Missing You» ter na época furado o Top 10 gaulês, a aventura não teve grandes consequências.

«Olhando para trás», admite Paulo de Carvalho, «acho que cantávamos muito bem, mas éramos fraquinhos como músicos. Houve convites para ficarmos por Paris, mas o Carlos Mendes queria ir acabar o curso de arquitetura e havia o serviço militar. Por isso, não é possível perceber agora até onde poderíamos ter ido. Mas havia a sensação de que o futuro acabava ali à frente. As bandas raramente pensavam no futuro. Mas em França eu ainda não tinha descoberto que era capaz de cantar sozinho; se já soubesse, provavelmente teríamos lá ficado e o Carlos ter-se-ia vindo embora para acabar o curso». Os Sheiks acabaram por regressar a Lisboa e implodiram em 1967, depois de gravarem um «That's All» que tinha mesmo sabor de ponto final.

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UM REI NA AVENIDA DA LIBERDADE

«A minha grande fase de baterista foi a seguir aos Sheiks quando fui tocar com o Thilo's Combo. Aprendi muito, afinal de contas eu era um miúdo de 20 anos a tocar com músicos de 40, com muita experiência», conta Paulo de Carvalho. O Thilo's Combo, liderado por Thilo Krasmann, gravou uma série de EPs carregados de balanço e funcionou como grupo de sessão para algumas estrelas da canção nacional, como Simone de Oliveira, por exemplo. No quartel-general do grupo na lisboeta Avenida da Liberdade, a «boite» Galeria 48, o Thilo's Combo foi entretanto assumindo uma formação fluida e sempre aberta aos sons mais modernos que chegavam dos Estados Unidos.

Para Paulo de Carvalho, isso significou uma maior liberdade criativa: «Eu nos Sheiks estava sempre a levar porrada, eram sempre três contra um na hora de escolher os covers para ensaiar. Beach Boys, por exemplo, era muito difícil convencer os Sheiks a ensaiar temas deles porque eram muito complicados ao nível das vozes, sobretudo harmonicamente. Outro tipo que eu adorava e que nunca ensaiámos, o Steve Winwood e as coisas dele com o Spencer Davis Group. Com os Sheiks então fazíamos umas covers de Beatles e tinha que ser das mais fáceis. Curiosamente, nunca tocámos nada dos Stones - musicalmente aquilo era muito primário, mas eles imprimiam uma tal energia nas músicas que tornavam muito complicado tocar coisas dele como deveria ser».

Paulo de Carvalho ingressou na fase final do Thilo's Combo, em 1968, um ano antes de o grupo desaparecer, mas a agenda carregada do coletivo liderado por Krasmann permitiu-lhe gravar em discos de gente como Ruy Mingas, por exemplo, e garantir o cachet de duzentos escudos por noite a tocar na Galeria 48. A passagem de Paulo pelo Combo foi ainda marcada pela experiência de músicos americanos como Van Dixon e Tyree Glenn Jr, que insuflavam soul nas noites de Lisboa.

«Eu tinha uma voz muito aguda, tinha desenvolvido isso nos Sheiks. Nos concertos do Thilo's Combo eu cantava três ou quatro músicas, coisas da Aretha Franklin, sobretudo», conta Paulo de Carvalho. «Uma noite entrou um "black" na sala e um dos músicos americanos que tocava connosco cumprimentou-o muito efusivamente. Acho que foi o Tyree Glenn, que era filho do trombonista do Louis Armstrong. Ora bem, o tipo entrou e não sei se o Thilo fez de propósito, mas pediu-me para eu cantar um blues da Aretha Franklin. Na banda tocava também o José Luís Simões, grande músico que tocava guitarra e dobrava também em trombone. Nesse tema, ele estava no naipe de sopros e deixou a guitarra de lado. E o tal tipo que entrou na sala, começou a entusiasmar-se e levantou-se e pegou na guitarra».

Tyree Glenn Jr ainda é vivo e plenamente ativo na música, a partir da Alemanha que adotou como lar. O seu sítio oficial na internet facilitou a comunicação e bastou um simples «o que recorda do tempo em que viveu em Portugal?» para que a sua memória o transportasse até à mesma noite descrita por Paulo de Carvalho: «O grande saxofonista King Curtis, já desaparecido, era meu amigo e em 1968 veio tocar no Estoril, numa festa privada», explica Tyree Glenn, referindo-se a um dos famosos eventos do milionário Antenor Patiño que trouxe até Portugal muitos aristocratas europeus e estrelas de Hollywood.

«Quando soube que ele estava em Lisboa, liguei-lhe para o hotel e disse-lhe que estava a tocar na Galeria 48 e ele prometeu-me que passaria lá depois do seu concerto. Estávamos nós a tocar com o Thilo e lá pela meia-noite ele apareceu, juntamente com o Georgie Fame!», exclama o músico, ainda espantado por Curtis surgir na Avenida da Liberdade acompanhado por uma estrela da cena musical inglesa. O saxofonista explicou a King Curtis, que conhecia do circuito de clubes de Nova Iorque, que estava a viver em Portugal, a tocar com Thilo e ainda a jogar basquete no Benfica, emblema que representou por dois anos e meio e que ainda hoje descreve como o seu clube do coração.

«King», prossegue Tyree, «pegou na guitarra e começou a tocar "Hey Joe" e nós fomos seguindo o que ele estava a fazer. Depois o Paulo, que só cantava temas de R&B de Aretha Franklin e Wilson Pickett, começou a cantar. Ele tinha, e ainda tem!», sublinha o músico, «uma voz soul tremenda. Com isto, King voltou-se e começou a olhar para aquele cantor, sentado na bateria. É preciso perceber que as canções que o Paulo estava a cantar foram, algumas delas, originalmente tocadas por King Curtis - o solo de sax em "Respect", por exemplo, é dele. E ele nem conseguia acreditar no que estava a ouvir uma voz fantástica de um baterista português! A noite não terminou sem que o King Curtis tenha convidado o Paulo a ir para os Estados Unidos».

Paulo de Carvalho recorda o episódio de forma coincidente: «O King Curtis teve um grande êxito com o Memphis Soul Stew que nós também tocávamos. Ainda me lembro do break de bateria que eu fazia para o resto do pessoal entrar. Bem, aquilo acabou e o King Curtis ficou muito admirado por ver um tipo branco a cantar daquela maneira e fez-me uma proposta para me levar para os Estados Unidos, mas eu tinha acabado de ter um filho, tinha o serviço militar pela frente, não tinha passaporte e por isso não fui em loucuras».

«UMA ÉPOCA MARAVILHOSA»

«Eu recebi um convite em 1970 para ir cantar ao Festival da Canção, convite do Pedro Osório, numa altura em que só havia dois tipos de música: aquela que se mostrava e a outra que era escondida, o Zeca, o Adriano, e todos os outros que se vendiam por debaixo do balcão. A alternativa era o Festival da Canção, onde a dada altura também se começou a escrever nas entrelinhas. E eu lá fui cantar o "Corre Nina"», explica Paulo de Carvalho, uma vez mais dando a ideia de que a sua carreira mais não é do que um somatório de acidentes mais ou menos felizes. Sobre a época, o cantor não tem dúvidas e assume a ausência de um pensamento político da sua parte: «sabia que as coisas estavam mal à minha volta, sabia que algumas das cantigas a que eu dava voz tinham segundos sentidos, mas nunca fui um lutador antifascista, nunca estive preso nem nada disso».

Ainda assim, os primeiros discos que registou a solo, a partir de 1971, para «a casa de um visionário», que é como Paulo de Carvalho descreve Arnaldo Trindade, homem do leme da excelente Orfeu, são peças de época incríveis que cruzam jazz, ecos de soul e de, à falta de melhor expressão, «cançonetismo» português de uma forma que permanece original. «Eu ouvia coisas como os Chicago, Blood Sweat & Tears e tudo isso refletia-se no que eu fazia», explica o cantor. Estes álbuns foram sobretudo gravados em Madrid, com muitos músicos espanhóis e arranjos de José Calvário. «Uma época maravilhosa», recorda Paulo de Carvalho.

Até 1974, Paulo de Carvalho editou três álbuns com títulos que simplesmente referenciavam o seu nome. Em 1975, nos dias quentes que se seguiram à revolução, lançou Não de Costas Mas de Frente A Música em que Vivemos, a que se seguiu M.P.C.C. e Paulo de Carvalho nos dois anos seguintes.

Esse material clássico da Orfeu, que antecedeu a sua passagem para a PolyGram ao lado de Tozé Brito, em 1979, continua, de forma algo inexplicável, por re-editar e é hoje material só ao alcance de colecionadores.

Paulo de Carvalho ainda teve a experiência da cooperativa Toma Lá Disco, onde se editavam discos da noite para o dia que comentavam os tempos quentes que se viviam. Carlos Mendes, Fernando Tordo e Paulo de Carvalho editaram alguns registos importantes na Toma Lá Disco e viviam nessa época tempos de um idealismo em estado puro, acreditando que a música podia mudar o mundo: «Ainda acredito, como dizia o Zé Mário Branco, que a cantiga é uma arma. Pode fazer muita mossa ou pouca mossa, mas há sempre alguém que é afetado, a quem a mensagem chega. Nós, os cantores, temos uma responsabilidade enorme». Sobretudo a responsabilidade de continuar a cantar.

Originalmente publicado na revista BLITZ de abril de 2011.