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De volta à New Wave of British Heavy Metal: uma história de peso

Protagonistas de um dos concertos mais aguardados deste ano, os Iron Maiden foram um dos pesos-pesados da NWOBHM. Em 2010, Rui Miguel Abreu contou a história dos blusões de cabedal, calças de ganga rasgadas, vozes estridentes e guitarras ao rubro da cena que marcou o início dos anos 80

A 8 de Maio de 1982, o jornalista Paul Morley - longe do seu «habitat» musical natural, que se estendeu do punk aos Frankie Goes to Hollywood - escrevia sobre os Iron Maiden para o NME, a pretexto de um concerto de estádio em Offenbach, na Alemanha. Nesse artigo, Morley descreve o clássico retrato rock, fruto do sucesso que a banda estava então a conhecer depois de anos de militância subterrânea: «tour bus» de luxo, fãs histéricos, sessão de fotos numa casa de banho de azulejos imaculadamente brancos e o palco montado num estádio.

Um concerto noutro planeta não os poderia colocar mais longe do clube londrino Soundhouse que testemunhou os seus primeiros passos. A verdade é que em 1982 - como três anos mais tarde, no primeiro Rock In Rio -, os Iron Maiden já tinham superado a apertada cena que os vira nascer. Como se escreve logo no ponto 7 das famosas «101 Regras da New Wave of British Heavy Metal» do site Metalstorm, «Iron Maiden depois de Killers não é NWOBHM»! Mas foi como parte integrante desta localizada e influente cena rock que os Iron Maiden deram os seus primeiros passos, ao lado de bandas como os Saxon, os Def Leppard ou os Diamond Head.

Por um brevíssimo período, uma sala de espectáculos, uma publicação, um DJ com visão e um conjunto de bandas com sede de futuro ensaiaram uma nova visão para o heavy metal, impondo o género definitivamente depois da ameaça à espécie protagonizada pelo punk e assegurando assim as fundações de um sucesso que transformaria definitivamente a face da década de 80.

UMA REVISTA, UMA SALA DE ESPECTÁCULOS, UM DJ

Os Iron Maiden surgiram em 1975 e, à época, os Led Zeppelin dominavam o mundo controlando um circo rock maior do que a vida que se traduzia em jactos privados, destruição de suites em hotéis de luxo e uma «entourage» constante de super-modelos.

Pelo contrário, a vida dos Maiden de Steve Harris tinha o botão de glamour rock no mínimo: concertos em pubs regados a cerveja e más condições técnicas, cachês mínimos e uma sucessão de músicos no período que os conduziu à edição de estreia em finais de 1979 - o famoso EP The Soundhouse Tapes - eram degraus numa longa escada que eram forçados a subir.

A explosão punk de 1977 e o consequente corte radical com a música da geração anterior deu-lhes a força necessária para romper igualmente com o passado e assim criar uma música menos devedora dos riffs de blues que tinham alimentado a chama rock dos Zeppelin, dos Deep Purple e dos Black Sabbath. O punk proporcionou, no entanto, muito mais do que um simples impulso foi - quase um modelo para a criação da New Wave of British Heavy Metal (NWOBHM).

Uma figura agregadora, como o punk teve em Malcolm McLaren, foi encontrada em Neal Kay, DJ de uma discoteca do norte de Londres, a Soundhouse, que em finais dos anos 70 descobriu que obtinha do seu público reacções muito mais entusiásticas quando tocava maquetas dos Iron Maiden do que discos de bandas já impostas como os Judas Priest ou os Black Sabbath. O público do Soundhouse - como o Bromley Contingent que seguia os Pistols - era igualmente uma parte importante da equação deste novo metal.

Ganga rasgada e suja, crachás de bandas obscuras e, a dada altura, uma verdadeira loucura iniciada pelo ícone Rob Loonhouse: para melhor interpretar os seus dramáticos solos de «air guitar», este «headbanger» construiu uma guitarra de cartão que empunhava religiosamente no Soundhouse e com que assinava os mais espantosos «solos». De repente, a moda pegou e as filas à porta do Soundhouse eram pontuadas por fãs com guitarras de papelão ou contraplacado, adereços essenciais para a sua entrega às profundezas eléctricas do metal e um sinal claro que estavam ali para «rockar» forte e feio.

Outro elemento essencial na imposição da NWOBHM foi a exposição mediática liderada, sobretudo, pela já extinta publicação Sounds, um semanário a dada altura conduzido por Geoff Barton, o jornalista que, logo em 1981 - em plena era NWOBHM - criou a Kerrang!.

Foram os contínuos artigos do Sounds e a sua cobertura da cena particular desenvolvida em torno do Soundhouse que expuseram esta nova geração de bandas cujo nome - New Wave of British Heavy Metal - se deve mesmo à imaginação de um editor dessa publicação, Alan Lewis. A dada altura, aliás, Neal Kay começou mesmo a publicar no Sounds uma respeitada tabela compilada a partir dos pedidos que lhe chegavam à cabine de DJ. Uma boa posição na tabela do Soundhouse traduzia-se efectivamente no impulso na carreira de qualquer jovem banda.

Foi como reconhecimento desse impulso que os Iron Maiden deram ao seu EP de estreia o título The Soundhouse Tapes. Além dos Maiden, grupos como os Saxon, Praying Mantis, Angel Witch ou Samson também deram os seus primeiros passos com o apoio de Neal Kay, sem dúvida o pai espiritual da NWOBHM.

O PUNK E O METAL DE MÃOS DADAS

A estreia dos Iron Maiden com o vocalista Paul Di'Anno funciona igualmente como uma espécie de síntese perfeita da ética e da estética NWOBHM: há uma clara influência do punk, não apenas nos vocais gritados de Di'Anno e no seu corte de cabelo, mas igualmente na capa simples do EP, totalmente devedora do grafismo fotocopiado do punk, e na opção pela auto-edição, tão ligada ao espírito indie e «do it yourself» que emanou da explosão contra-cultural de 77. As deficiências técnicas da gravação e a valorização da energia e do empenho sobre o virtuosismo técnico são outras marcas que são distintivas da geração NWOBHM.

Em Newcastle surgiu em 1979 uma editora que funcionaria como casa espiritual desta nova cena metálica, a Neat Records que chegou a pertencer a Jesse Cox, vocalista dos Tygers of Pan Tang, outra banda-chave da geração NWOBHM («Gangland» é um clássico!). Entre as primeiras bandas que a Neat Records lançou contam-se, entre outros, os Venom, pais da corrente black metal que haveria de surgir uns anos mais tarde.

Aliás, o olhar retrospectivo que três décadas volvidas proporcionam permite identificar na NWOBHM o embrião de cenas variadas que levaram o metal para novas paragens. Os Metallica, por exemplo, já por diversas vezes confessaram a sua enorme dívida às bandas da NWOBHM: regravaram temas dos Blitzkrieg (editados na Neat Records) e dos Diamond Head («Am I Evil») e tentaram emular outros clássicos, como «Stormchild» dos Jaguar (outra banda da Neat Records), que Lars Ulrich terá confessado ser a inspiração directa para «Whiplash». Anthrax e Megadeth são, claro, outras bandas que beberam directamente do grande livro de ensinamentos da NWOBHM.

No site oficial dos Diamond Head encontra-se mesmo um artigo assinado por Robert Shore onde se menciona o caso dos obscuros Girl - que editaram o hoje ultra-coleccionável single «My Number» - que se vestiam de forma a fazer valer o seu nome e que, talvez por isso mesmo, não tiveram grande longevidade. No entanto, o seu vocalista, Phil Lewis, haveria de ingressar nos americanos L.A. Guns e o guitarrista, Phil Collen, passaria para os Def Leppard logo em 1982. Ou seja, de forma algo lateral, até uma ligação entre a geração da NWOBHM e a cena glam metal de Los Angeles pode ser encontrada. Se não esquecermos nesta «árvore genealógica» a importância dos Venom no surgimento de formas mais extremas de metal, começará a perceber-se o total alcance desta geração.

E A HERANÇA É... IRON MAIDEN

A história da NWOBHM é, muito objectivamente, a história da chegada de uma nova era ao metal: se a primeira geração -Sabbath, Zeppelin, Purple - que adicionou peso e volume à fórmula herdada dos blues em plena década de 60 nunca se chegou realmente a afastar das suas origens, por muitos amplificadores que empilhasse por trás dos seus guitarristas, a verdade é que a segunda geração, personificada em meados dos anos 70 em bandas como Judas Priest ou Mötörhead, também nunca negou a dívida que tinha para com os seus predecessores.

O clima político e social da segunda metade dos anos 70, porém, era propício a cortes radicais. E por isso mesmo, esta nova geração, liderada sem sombra de dúvida pelos visionários Iron Maiden, procurou no corte com esse passado o caminho para uma música mais apoiada nos riffs, mais simples nos seus enunciados musicais iniciais, mas também mais complexa em termos de imagética: já não apenas o misticismo pagão de Page, Osbourne e companhia, mas a guerra, a política, a influência dos media, os jogos «arcade» e o próprio futuro que servia como fonte de inspiração.

Antes dos álbuns e da experiência de estúdio começarem a transportar a ingenuidade destas bandas para outros patamares, a sua energia singular foi capturada em singles - o catálogo de singles da Neat, por exemplo, é impressionante - e numa mítica compilação concebida por Neal Kay, Metal for Muthas. Editada em 1980 e profeticamente encabeçada pelo tema «Sanctuary» dos Iron Maiden, esta compilação representa, de facto, a primeira aparição de material do grupo de Steve Harris num álbum.

Nem todas as bandas incluídas no alinhamento - Sledgehammer, E.F. Band, Toad The Wet Sprocket, Praying Mantis, Ethel The Frog, Angel Witch, Samson e Nutz - conseguiriam agarrar-se ao futuro e nenhuma deixaria uma marca tão profunda na história do metal como os Maiden, mas todas conseguiram capturar o momento de viragem que 1980 anunciava. Que os Iron Maiden toquem, até aos dias de hoje, temas dos seus primeiros dois álbuns - clássicos como «Running Free», «Sanctuary», «Phantom of The Opera», «Iron Maiden» ou «Wrathchild», todos de Iron Maiden (1980) e Killers (1981) - é prova clara da impressão que esses primeiros álbuns deixaram não apenas nas mentes colectivas do público metálico de todo o planeta, mas nos próprios Maiden que apesar das mudanças na formação nunca se desviaram um milímetro da sua missão de trazer metal em estado puro e mais pesado do que o chumbo para o centro do palco e do estúdio.

Originalmente publicado na revista BLITZ de abril de 2010.