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Ramones: 1, 2, 3, 4! Uma das mais intensas histórias do punk

“Blitzkrieg Bop”, o primeiro single de sempre dos Ramones, faz 40 anos este mês. De Nova Iorque para o mundo, a banda de Johnny e Joey ajudou a inventar o punk e foi-lhe fiel como poucas. Rui Miguel Abreu conta como um gangue de desajustados conseguiu tornar-se uma das bandas mais influentes de sempre

Forest Hills é um bairro de Queens, em Nova Iorque, berço de muitas carreiras famosas - e algumas até fantasiosas: de Donna Karan, a notória designer de moda, a Paul Simon e Art Garfunkel, passando por Peter Parker, que o mundo conhece melhor como Homem Aranha, são muitas as pessoas que fizeram desse bairro de classe média e média-alta a sua casa. E entre as numerosas entradas na lista de residentes notáveis encontram-se os nomes de Dee Dee, Joey, Johnny e Tommy Ramone, um autêntico gangue que haveria de mudar o mundo na segunda metade dos anos 1970, mas que em finais da década que testemunhou a explosão pop liderada pelos Beatles procurava apenas uma ocupação e um escape que lhe permitisse lidar com um clima socio-económico e político muito específico.

Com a América às voltas, por um lado, com a prosperidade trazida pelo pós-guerra (com impacto direto na economia adolescente sustentada a semanadas generosas que permitiu o arranque do rock'n'roll) e, por outro, com as suas próprias convulsões (contestação social, tensão racial, Vietname) os adolescentes desenvolveram uma alienação muito própria que só precisava de uma faísca para explodir. Os Ramones haveriam de se revelar essa faísca.

«Quando se tem 16 anos e se está aborrecido, é preciso ser-se muito criativo para se criar alguma agitação», justificou, anos mais tarde, Dee Dee Ramone, remetendo para os dias em que passar o tempo em Forest Hills significava tomar drogas e alimentar fantasias enquanto se ouviam discos dos Stooges com o volume no máximo.

ESCOLA DO ROCK

Foi no «rock and roll high school» de Forest Hills que Tommy Erdelyi - emigrante que escapou com a família da Hungria em 1957, aquando da ocupação soviética - conheceu John Cummings, um dos «cool kids» do liceu, tipo de ar exótico que atraía naturalmente as atenções. Em 1966, juntamente com Tommy, Johnny começou a tocar como baixista nos Tangerine Puppets, uma banda vidrada no molde britânico de pop, apostada em copiar o som dos Yardbirds, mas alimentada por uma raiva muito própria, sobretudo de Johnny, dado a confrontos físicos até com os colegas de banda quando algo não corria bem em palco.

Doug Colvin, a quem todos chamavam Dee Dee, cresceu na Alemanha, onde o seu pai, soldado de carreira, se encontrava em missão, mas mudou-se ainda adolescente para Forest Hills usando depois a música para se aproximar de Tommy e Johnny.

«Ele disse que também tocava e começou a falar de todo o incrível equipamento que possuía, incluindo um enorme amplificador Vox», contou Tommy à Mojo, em 2008. «Foi assim que conhecemos o Dee Dee fantasioso. Ele tinha charme, estava sempre disposto a agradar e era muito criativo, especialmente no que dizia respeito aos factos. E provavelmente foi por isso que se tornou num grande escritor de canções».

Do quarteto inicial só falta mencionar Jeffrey Hyman, um miúdo alto, impossivelmente magro, que também tinha ambições musicais, tocando bateria nalgumas bandas locais que nunca descolaram. Tommy refere-se a Joey como alguém «que andou sempre por ali, esteve sempre presente». Antes da década de 1960 chegar ao fim, Joey, Tommy, Dee Dee e Johnny já se tinham cruzado e já todos tinham demonstrado interesse na cena musical, sobretudo como uma via possível para expressar uma muito específica «doença» geracional a da frustração.

Johnny terá mesmo contado que chegou a ir ver os Beatles ao Shea Stadium levando um saco com pedras para atirar aos rapazes de Liverpool e assim melhor expressar o seu alinhamento espiritual com os supostamente mais rebeldes Rolling Stones.

Em 1971, Tommy, talvez o mais empenhado dos quatro amigos, já tinha alguma experiência profissional como engenheiro de som e podia orgulhar-se de já ter visto um pouco do mundo para lá de Forest Hills graças a uma viagem a Inglaterra onde descobriu os T. Rex. De regresso aos Estados Unidos, o futuro baterista dos Ramones presenciou um concerto dos New York Dolls e uma semente começou definitivamente a germinar. Mais ou menos ao mesmo tempo, Dee Dee viu a luz quando assistiu ao seu primeiro concerto dos Stooges, de Iggy Pop, tal como relatado em Please Kill Me The Uncensored Oral History of Punk (livro de 1996 da autoria de Legs McNeil e Gillian McCain). «A primeira vez que vi Iggy foi num concerto dos Stooges no Electric Circus, em St. Marks Place, em junho de 1971. Eles subiram ao palco muito tarde porque o Iggy já não conseguia encontrar uma veia onde se injetar, por ter os braços tão fodidos. Ele estava lixado, não saía da casa de banho e, por isso, tivemos que esperar».

Estes concertos, cujos relatos de época coincidentes mencionam vómitos e atitude confrontacional gratuita, surtiriam efeito num grupo de rapazes à procura de lugar num mundo em que o show business se começava a sobrepor à própria música.

«Lembram-se daquela maluqueira dos remendos nos jeans entre os Eagles e essas bandas assim?», perguntou Tommy à Mojo.

«Nós usávamos os nossos jeans com todos esses belos remendos hippies rasgados».

Tommy referia-se ao código visual que o grupo não tardou a adotar, mas a roupa básica que os Ramones elegeram como uniforme funcionava igualmente como uma metáfora para a sua atitude musical: canções sem adornos, básicas e com as cicatrizes da experiência adolescente expostas com orgulho. Por volta de 1972, o transtorno obsessivo-compulsivo que marcou Joey até ao final da sua vida começou a manifestar-se com maior gravidade, levando a constantes discussões com a sua mãe e à eventual saída de casa, quando contava apenas 22 anos. O rock'n'roll revelou-se mesmo a única perspetiva possível para Joey, que abraçou a cena glam como Jeff Starship, integrando uma banda de nome Sniper. Alan Vega, mítico vocalista dos Suicide, conheceu Joey nessa época: «houve uma banda que abriu para nós que era formada por três tipos muito normais, mas com um cantor que era uma criatura alta e magra, de luvas pretas e pequenos óculos, que parecia vir de um planeta diferente».

Essa experiência valeu a Joey o bilhete de entrada para os Ramones, grupo em que ingressou em 1974 como baterista, primeiro, antes de assumir o microfone devido à incapacidade de Dee Dee de cantar e tocar ao mesmo tempo. A passagem de Joey para o lugar de vocalista levou Tommy, que começou por ser o instigador da banda, a assumir relutantemente o lugar de baterista. Dee Dee sugeriu o nome Ramones, inspirado num pseudónimo Paul Ramon que Paul McCartney usou numa digressão com o cantor Johnny Gentle, em 1960, antes ainda de os Beatles surgirem em cena. Ramones evocava de uma só vez uma dimensão caricata, quase de desenho animado, à lá Osmonds, mas também carregava o seu quê de ameaçador, sobretudo depois de associado à icónica imagem da capa do primeiro álbum, da autoria da fotógrafa Roberta Bayley, em que Johnny, Tommy, Joey e Dee Dee parecem membros de um gangue.

O ASSALTO A NOVA IORQUE

Richard Hell (de Richard Hell and the Voidoids, Television e Heartbreakers) recorda-se da proximidade com Dee Dee logo no início dos Ramones, «para arranjar droga». «Senti uma afinidade imediata com os Ramones», recorda o músico nas páginas de Please Kill Me. «Gostava deles e não tinha reservas nenhumas em relação ao que faziam. Eles eram exatamente como sempre tinham sido. Lisa Robinson contratou-me para escrever sobre eles na Hit Parader o primeiro artigo sobre eles publicado a uma escala nacional. Todas as canções deles tinham dois minutos e eu perguntei-lhes os títulos delas todas. Eles tinham talvez uns cinco ou seis temas, na altura: "I Don't Wanna Go Down in the Basement", "I Don't Wanna Walk Around With You", "I Don't Wanna Be Learned, I Don't Wanna Be Tamed" and "I Don't Wanna qualquer coisa". E o Dee Dee disse-me: "Não escrevemos uma canção positiva até 'Now I Wanna Sniff Some Glue'"».

Com este curto reportório, os Ramones começaram a tomar de assalto o CBGB, o clube de Hilly Kristal aberto em 1973 no desolado bairro de Bowery, em Manhattan.

Pensado originalmente como um espaço para bandas de Country, BlueGrass e Blues (daí o nome...), o CBGB acabou, no entanto, por se tornar no quartel-general da cena punk nova-iorquina, programando concertos regulares de bandas como Blondie, Television, Talking Heads, Mink De Ville ou Ramones.

A banda de Dee Dee, Tommy, Joey e Johnny tocou pela primeira vez no CBGB a 16 de agosto de 1974, alguns meses depois da sua primeira apresentação, no espaço de ensaios Performance Studios. Legs McNeil, coautor do já citado Please Kill Me e fundador da influente revista Punk, em 1975, recorda no documentário End of the Century The Story of the Ramones (de Jim Fields e Michael Gramaglia) a estreia dos Ramones no clube de Hilly Kristal: «eles estavam todos vestidos com aqueles blusões negros de cabedal. Faziam uma contagem antes de cada canção... e era apenas uma muralha de ruído... O visual deles era cativante. Não eram hippies; eram algo de completamente novo».

Quando 1974 chegou ao fim, o grupo contabilizava já mais de 70 apresentações no CBGB.

Alan Betrock, ao serviço do Soho Weekly News, em 1975, testemunhou o poder primitivo dos Ramones em palco, quando o grupo já tinha angariado reportório suficiente para tocar sets de 45 minutos, ao invés dos 12 das primeiras performances: «o grupo toca canção atrás de canção mal falando uma única palavra. O intervalo mais longo entre duas canções é de 13 segundos. Cada tema é construído em cima de uns parcos e cortantes acordes, pesadamente executados por Johnny Ramone. Dee Dee e Tommy formam uma secção rítmica unificada que parece talhada para captar os três melhores riffs do rock e a utilizá-los vezes sem conta. Joey Ramone, o jovem cantor pau de vassoura, tenta fazer com que as letras se ouçam por cima da muralha, enquanto ao mesmo tempo vai ajustando os óculos na cara». Muita tensão e pouco ou nenhuma pose, portanto.

29 MINUTOS E 4 SEGUNDOS

Em meados de setembro de 1975, os Ramones registaram as suas primeiras maquetas nos 914 Studios, em Nova Iorque, com um ex-manager dos New York Dolls, Marty Thau, como produtor.

Das sessões saíram versões ainda por apurar de «I Wanna Be Your Boyfriend» e «Judy Is a Punk». E embora o material estivesse ainda longe da fórmula que seria usada no primeiro álbum, a verdade é que possuía poder suficiente para que Thau conquistasse para a sua «causa» o A&R da Sire, Craig Leon (um produtor que veria a sua carreira ligada a estreias de gente como os Suicide, Richard Hell, Blondie e Ramones, e que em 1981 editou Nommos na Takoma Records, de John Fahey, álbum que acaba de ser reeditado nos Estados Unidos). Leon, por seu lado, pressionou o presidente da Sire, Seymor Stein, afirmando acreditar que a banda seria capaz de gravar «um álbum revolucionário».

Stein, cuja esposa, Linda, haveria de assegurar em conjunto com Danny Fields o management dos Ramones durante os primeiros anos da sua carreira, organizou uma audição privada em janeiro de 1976 e assinou de imediato contrato com a banda. Os Ramones entrariam no Plaza Sound, situado no famoso Radio City Music Hall, em Nova Iorque, em fevereiro de 1976 para gravar o álbum de estreia, produzido por Craig Leon, e editado a 23 de abril desse mesmo ano.

A fatura entregue pelo Plaza Sound à Sire foi de apenas 6 mil e quatrocentos dólares, preço que se ficou a dever ao facto de por esta altura, e com tamanha rodagem de palco, os Ramones estarem mais do que prontos para gravarem os 29 minutos e 4 segundos do seu primeiro LP: «só demorámos alguns dias para gravar o primeiro álbum dos Ramones», conta Dee Dee em Please Kill Me. «Pensei que os Ramones fossem estar algum tempo em estúdio, mas passados três dias eles disseram: "ok, já terminámos". E eu pensei: "bem, isto foi fácil"», recordou no mesmo livro Arturo Vega, companheiro da banda, recentemente falecido, que entraria para a história ao desenhar o seu icónico logótipo. «Nessa época», conta, por sua vez, Joey, «havia álbuns que custavam meio milhão de dólares e que demoravam três anos a serem gravados, como os discos dos Fleetwood Mac e de outras bandas do género. Fazer o disco numa semana e por apenas 6 mil e quatrocentos dólares era algo inédito, especialmente para um disco que mudou o mundo. Deu início ao punk rock e começou tudo aquilo - incluindo nós».

«Blitzkrieg Bop» e a sua intro de «Hey! Ho! Let's Go!» dispararam a direito e causaram mossa.

Nick Kent escreveu sobre Ramones nas páginas do NME em maio de 1976, auscultando o que se dizia do grupo do lado de lá do Atlântico. «Os Ramones - caso tenham estado de férias na Tailândia - são a cause célèbre do punk neste momento, os campeões do concurso Blank Generation da New Wave de Nova Iorque. Um tal de Robert Christgau, o decano dos críticos de rock, declarou que a banda faz "o mais claramente conceptualizado show de rock de Nova Iorque que há para ver... da última vez que os vi fui para casa pedrado", enquanto a revista Circus se atira ao ângulo do músculo, sublinhando o pendor da banda para "acordes de adrenalina tocados a uma velocidade incrível. Os Ramones estão apostados em fazer reviver as raízes do rock maltratando-as"». Kent concluía depois que «mais do que nunca precisamos de gente como os Ramones para nos religar a nós, pobres miúdos brancos, com as nossas raízes». O punk como regresso à essência e os Ramones como o expoente desse movimento.

Apesar de tudo, os Ramones mantinham-se como um fenómeno de Nova Iorque, não conseguindo sequer impressionar o público de Nova Jérsia, ali mesmo ao lado. Daí que Inglaterra soasse melhor estrategicamente aos ouvidos de Danny Fields e Linda Stein.

O primeiro concerto do grupo em Inglaterra aconteceu a 4 de julho de 1976. Os Ramones tocaram primeiro no Roundhouse, como banda de suporte dos Flamin' Groovies, e no dia seguinte num pequeno clube. Aí conheceram membros dos Sex Pistols e dos Clash, ajudando a galvanizar o espírito punk britânico.

Arturo Vega conta como Johnny Rotten lhe pediu para entrar pela porta de trás no Roundhouse: «ele perguntou-me: "se eles não gostarem de mim vão dar-me porrada?". Ele pensava que eles eram mesmo um gangue» (risos).

DAS RUAS PARA AS CANÇÕES

Apesar do sucesso em Nova Iorque, pelo menos à microscópica escala do punk, e apesar do material com claro apelo pop, os Ramones não conseguiram chegar à rádio na sua estreia e nenhum dos singles do primeiro álbum, «Blitzkrieg Bop» e «I Wanna Be Your Boyfriend», conseguiu entrar nas tabelas de vendas, sobretudo porque a rádio, muito mais sintonizada com os sinuosos grooves do disco que Manhattan parecia exportar para toda a América, ignorava os esforços do quarteto de Forest Hills.

As fricções dentro do grupo não tornaram a vida mais fácil. Johnny era um confesso «control freak», adepto de resolver qualquer questão interna de forma física, entrando frequentemente em choque com Dee Dee, o mais instável membro do grupo, sobretudo devido ao seu intenso uso de drogas, facto aliás que o ajudou a manter-se envolvido com a prostituta Conny durante algum tempo, numa espécie de versão paralela de outro notório romance punk - o de Nancy Spungen e Sid Vicious. Na Mojo, Arturo Vega, que a dada altura cedeu espaço no seu loft para Joey e Dee viverem, relata o momento em que, após uma séria discussão, Conny acabou por fazer as malas e abandonar a casa: «corremos todos para a janela para ver se ela ia mesmo embora. Ela olhou para cima e gritou: "Odeio-te, sacana!". Dee Dee respondeu: "I'm Glad to See You Go". Depois sentou-se e escreveu aquela canção ali mesmo».

Parte do interesse dos Ramones passava precisamente pela sua capacidade de transformar pedaços de vida em canções, transportando a tão propalada realidade das ruas para as letras, oferecendo uma outra perspetiva ao rock'n'roll. «Glad to See You Go» haveria de aparecer no segundo álbum dos Ramones, Leave Home, editado em janeiro de 1977. Dois singles, «I Remember You» e «Swallow My Pride», não registaram qualquer atividade nas tabelas de vendas. O segundo álbum dos Ramones em 1977, Rocket to Russia, que chegou às lojas em novembro, já se comportou um pouco melhor, muito graças ao forte apelo pop de «Sheena Is a Punk Rocker» e «Do You Wanna Dance», dois singles que conseguiram pela primeira vez furar o Top 100 empurrando as vendas do álbum até números consentâneos com uma discreta entrada no Top 50.

Em dezembro de 1977, o mítico crítico Lester Bangs publicou uma série de artigos sobre os Clash no New Musical Express, resultado do acompanhamento da banda britânica numa digressão americana. «O ponto alto do primeiro dia no mini-autocarro ocorreu quando, casualmente, mencionei que tinha uma cassete com o novo álbum dos Ramones. A banda inteira praticamente saltou para me estrangular: "porque é que não nos disseste antes? Coloca-a a tocar agora!" Foi o que eu fiz e daí a nada estavam todos a saltar na carrinha ao som de "Cretin Hop". Daí em diante, Rocket to Russia tornou-se a banda sonora do resto da minha presença na digressão».

Para as bandas punk mais importantes, é fácil perceber o impacto que tiveram em gerações posteriores de músicos, mas talvez só os Ramones juntamente com os Sex Pistols possam reclamar a capacidade de terem influenciado diretamente os seus pares.

Tanto Leave Home como Rocket to Russia contaram com produção de Tony Bongiovi (primo em segundo grau de Jon Bon Jovi que produziu nomes como Talking Heads, Aerosmith ou Ozzy Osbourne) e de Tommy Ramone que após esse álbum decidiu abandonar o lugar de baterista «para não enlouquecer» e concentrar-se no trabalho de estúdio e na produção.

Tommy, que seria substituído por Marc Bell (anteriormente nos Voidoids de Richard Hell), agora Marky Ramone, assegurou a produção de Road To Ruin, trabalhando mais tarde com bandas como os Replacements ou Redd Kross.

«Há muito mais variedade neste álbum do que estávamos acostumados a ouvir antes nos Ramones», garantia Kris Needs em dezembro de 1977 nas páginas da ZigZag. «Tem a canção mais lenta que alguma vez fizeram "Here Today, Gone Tomorrow", uma pequena história mórbida de amor perdido, bem como uma das mais rápidas e poderosas canções jamais escritas, a absolutamente magnífica "Surfin' Bird", que é tão potente e devastadora como um trator V12 com Captain Sensible ao volante».

A PAREDE DE SOM

Depois de Road to Ruin, que uma vez mais voltou a situar-se abaixo da «linha de água» do Top 100 americano, apesar de contribuir para o cancioneiro clássico da banda com «I Wanna be Sedated» (e de incluir uma versão do clássico «Needles and Pins», cantando pelos Searchers, entre outros grupos), os Ramones sentiram que precisavam de uma mudança. Tommy já havia pressionado nesse sentido ao introduzir no som do grupo instrumentos como a guitarra acústica e ao levá-los a gravar a sua primeira canção acima dos três minutos, «I Wanted Everything».

Mas as vendas continuavam a não aparecer, pelo que Tommy foi preterido a favor de Ed Stasium, que trabalhou com os Ramones na banda sonora de Rock and Roll High School, o filme de Roger Corman que levaria a banda até Los Angeles. Foi aí que o grupo conheceu o mítico produtor Phil Spector, responsável por algum do melhor «bubblegum pop» da década de 60 («Be My Baby» das Ronettes é um exemplo notório) e por uma técnica de produção batizada como «wall of sound», marcas do seu génio que se revelaram como influências determinantes para os Ramones. Depois de Rock and Roll High School, Spector manifestou interesse em trabalhar com os homens de «Blitzkrieg Bop», algo que faria com End of the Century, o álbum que os Ramones editaram em 1980.

«O Phil queria realmente fazer este disco», relata Ed Stasium em End of the Century, o já citado documentário dos Ramones. «Estava convencido de que este haveria de ser o maior disco da carreira dos Ramones e da sua própria carreira. Ele chamou-me ao seu escritório, olhou-me nos olhos e disse: "Ed, este vai ser número 1, o maior disco de sempre"».

A história, claro, acabou por se revelar bem diferente. Johnny, em End of the Century: «por esta altura eu bebia, o Phil bebia, o Dee Dee metia-se nas drogas».

Por isso mesmo, as sessões acabaram por ser assombradas pelo lendário mau-feitio de Spector, que obrigou Johnny a tocar um único acorde durante horas enquanto praguejava violentamente. E, claro, outra história mítica envolve armas e o grupo a ser retido contra a sua vontade na mansão do produtor. Rock'n'roll? Certamente. O disco tornar-se-ia o mais bem-sucedido da carreira dos Ramones até aí, chegando ao número 44 das tabelas americanas, mas ainda assim a quedar-se bem longe dos delírios de grandeza antecipados por Phil Spector.

Os álbuns seguintes Pleasant Dreams (1981) e Subterranean Jungle (1983) mantiveram o grupo no escalão mais baixo do Top 100, embora com resultados artísticos diferentes. Pleasant Dreams foi produzido por Graham Gouldman, dos 10cc, e levou alguma imprensa a recorrer ao termo heavy metal para descrever o som da banda (embora Marky tenha confessado à BLITZ que os Ramones nunca estiveram perto de ser um grupo de metal porque «Johnny não tocava o suficiente para isso»). Já Subterranean Jungle soava a Ramones, mérito de Ritchie Cordell, o produtor eleito e o homem que escreveu clássicos como «Mony Mony» e que produziu «I Love Rock and Roll», de Joan Jett. Cynthia Rose, no NME, descreveu Subterranean Jungle como a terceira obra-prima dos Ramones, depois do álbum de estreia e de Rocket to Russia.

O PRINCÍPIO DO FIM

O que restou dos anos 1980 para os Ramones depois da edição de Subterranean Jungle foi, realmente, uma antecâmara do fim do grupo. O primeiro sinal foi dado com a saída de Marky Ramone, alegadamente devido a problemas com o consumo de álcool. Marky foi substituído por Richard Reinhardt que adotou o pseudónimo de Richie Ramone, tornando-se no mais interventivo dos bateristas dos Ramones em termos criativos: compôs e até cantou alguns temas como voz principal, sendo para isso encorajado por um muito generoso Joey.

Too Tough to Die (1984), de novo produzido por Tommy e Ed Stasium, Animal Boy (1986), com produção de Jean Beauvoir, dos Plasmatics, e Halfway to Sanity (1987), com produção de Daniel Rey (das lendas punk Manitoba's Wild Kingdom) foram os discos gravados por Richie, que abandonaria a banda por discordar da gestão dos proveitos com as vendas de merchandising e a porta voltou a abrir-se para Marky, que já tinha resolvido os seus problemas com o álcool.

Esta é igualmente a época em que se cava um fosso entre Joey e Johnny devido a Linda Ramone, a proverbial namorada que começou por andar com o vocalista antes de se apaixonar e casar pelo guitarrista. Joey reagiu escrevendo «The KKK Took My Baby Away». Os dois companheiros de grupo, no entanto, nunca falaram sobre o assunto diretamente.

Daniel Rey assegurou boa parte da produção de Brain Drain, o álbum com que os Ramones se despediram dos anos 80 e de Dee Dee, facto que levou o produtor a recrutar Andy Shernoff, dos Dictators, que tocou baixo nalguns temas (Bill Laswell e o próprio Daniel Rey tomaram conta do resto). Dee Dee tentou ser rapper, sob identidade Dee Dee King, mas não tardou a voltar a assumir as suas credenciais punk.

Dee Dee foi substituído por Christopher Joseph Ward que assumiu o nome de C.J. Ramone.

Até ao final, os Ramones ainda gravaram Mondo Bizarro (1992), Acid Eaters (um álbum de versões de 1993) e ¡Adios Amigos! (1995), o trabalho de despedida onde se incluía uma versão de «I Don't Wanna Grow Up», de Tom Waits, uma apropriada mensagem para um grupo que nunca logrou alcançar os graus de sucesso de alguns dos seus contemporâneos, como os Talking Heads ou Blondie.

Joey refere-se a essa frustração eterna do grupo no documentário End of the Century: «os pioneiros nunca alcançam a glória total. São as bandas que aparecem depois e que fazem as coisas um pouco diferentes, comprometendo o som, que atingem o sucesso». Estranhamente, os Ramones despediram-se da sua carreira usando a face mais visível da reconquista rock da primeira metade dos anos 1990 como trampolim: o festival Lollapalooza. O último concerto aconteceu a 6 de agosto de 1996, no Palace, em Hollywood, com convidados como Eddie Vedder, dos Pearl Jam, Lemmy, dos Motorhead, Chris Cornell, dos Soundgarden, e Tim Armstrong e Lars Frederiksen, ambos dos Rancid.

«Foi muito estranho, aquele nosso último concerto», admite Johnny em End of the Century, confessando que nem se despediu dos membros da banda quando saiu da sala. «A tragédia», escreveu Barney Hoskyns em 1996, «foi que os Ramones não acabaram quando deviam, depois do brilhante End of the Century, produzido por Phil Spector em 1980. Ter ido da sagacidade nerdy de Ramones à algazarra de cabedal de Too Tough To Die (1984) é o que o crítico de música Jon Savage apelidaria de crime contra a pop». O quase sempre certeiro Hoskyns, no entanto, enganava-se na conclusão do seu texto para o britânico Independent, quando expressava uma até justificável dúvida: «suspeito que, como tantos outros rockers que se estão a retirar, eles vão achar difícil manterem-se afastados desta já tantas vezes percorrida estrada». A vida, ou a morte, não o permitiria.

ATÉ QUE A MORTE OS SEPAROU

Joey foi o primeiro dos membros originais dos Ramones a desaparecer, a 15 de abril de 2001, após prolongada batalha conta um linfoma que lhe havia sido diagnosticado em 1995. Mas Joey, na verdade, toda a vida se viu num campo de batalha: com a desordem obsessiva-compulsiva que sempre o marcou, com os companheiros de banda, com a indiferença do mercado pop. No final, como contaria à Mojo, Joey encontrou conforto em entender que o contributo dos Ramones para a causa rock era parte de um esforço mais alargado que tinha servido para manter uma chama viva: «fizemos algo novo, mas estávamos apenas a tentar manter algo vivo e conseguimos. Isso continua». Só Marky visitou Joey no hospital.

Na reta final, Joey descobriu um amigo em Bono, confesso admirador dos Ramones. E Joey retribuiu a admiração descobrindo a música dos U2. Mickey Leigh, o irmão do vocalista dos Ramones e autor de I Slept With Joey Ramone, revelou que a última música que se ouviu no quarto de hospital antes do respirador de Joey ser desligado foi «In a Little While» dos U2.

Em 2002, o reconhecimento que Joey sempre procurou chegou finalmente na forma da cerimónia de entrada no Rock and Roll Hall of Fame a que compareceram Dee Dee, Johnny, Tommy e Marky. O primeiro baterista dos Ramones evocou o nome de Joey, afirmando o quanto essa distinção teria significado para ele. E com os Green Day a prestarem tributo interpretando «Blitzkrieg Bop» e «Teenage Lobotomy» cumpriu-se a ideia de Joey de que o que os Ramones tinham começado de alguma forma perdurava.

Dois meses depois da cerimónia do Rock and Roll Hall of Fame, a 5 de junho, Dee Dee faleceu na sua casa de Hollywood, vítima de uma sobredose de heroína. Johnny, que nunca falou publicamente, ou aos seus amigos, do cancro na próstata que há muito combatia, faleceria a 15 de setembro de 2004, em Los Angeles, pouco depois do lançamento de End of the Century, o documentário em que se conta a história da carreira dos Ramones.

Retrospetivamente, muito do que os Ramones desejavam foi-lhes finalmente atribuído. Em 1985, Joey explicava que, ao contrário dos Kiss, nunca quis ser reduzido à condição de «cartoon character»: «somos pessoas multidimensionais e somos pessoas sérias», defendeu. Na verdade, muito do suposto primitivismo atribuído aos Ramones é hoje encarado como sinal de uma refinada inteligência pop e reconhece-se ao grupo uma certa erudição rock, na forma como foram sabendo escolher as versões certas para assinarem, na capacidade que demonstraram ter de transformar as sinfonias pop desenhadas por artistas como Phil Spector no início dos anos 60 em assaltos sónicos que aspiravam a uma certa pureza rock. «Só alguém tão burro como os Ramones são sempre acusados de serem, poderia ficar ofendido quando eles cantam "I'm a Nazi schatze" ou quando nos dizem que a primeira regra é obedecer às leis da Alemanha e depois seguem isso com uma frase como "eat kosher salami"».

Lester Bangs via muito à frente do seu tempo, e foi dos primeiros a perceber a subtileza, o humor e o refinamento do discurso dos Ramones que foram sempre mais do que inicialmente as suas músicas davam a entender. Quase quatro décadas depois de se terem formado em Nova Iorque, Ramones tornou-se num sinónimo de pureza rock, um grupo que provavelmente vendeu mais t-shirts do que discos, exatamente por se ter tornado um símbolo muito maior do que a sua própria carreira.

Originalmente publicado na revista BLITZ de setembro de 2013.