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Quem é Axl Rose?

Maníaco-depressivo, líder autocrático, menino do coro e professor de catequese: todos estes títulos já serviram para descrever Axl Rose. Lia Pereira tenta desvendar o mistério do vocalista dos Guns N'Roses, que hoje faz 54 anos

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Quem atravessou o estertor dos anos 80 e a alvorada da década de 90 em ambiente liceal dava de caras com ele várias vezes ao dia: em posters que cobriam as paredes próprias ou as dos amigos, a forrar cadernos de escola ou a aterrorizar pais e demais defensores dos bons costumes, com os popularíssimos vídeos de «November Rain» ou «Don't Cry», Axl Rose estava sempre lá. Até ao momento em que, inexplicavelmente, deixou de estar. Da omnipresença mediática, o vocalista dos Guns n' Roses passou à reclusão. No apogeu do grunge, os calções obscenamente justos de Axl Rose e a sua badana rebelde, a segurar uma lustrosa melena ruiva, eram uma memória relativamente distante e até embaraçosa. Em 1993, ano em que os Guns n' Roses davam o último sinal de vida até hoje, com o álbum The Spaghetti Incident?, já não era exactamente «cool» gostar da trupe de Los Angeles.

Durante anos, as t-shirts com o literal logótipo da banda (rosas e espingardas em alegre convívio) repousaram sossegadas no fundo da gaveta dos pijamas. Mas em 2008, já não causa surpresa ver gente de cara fresca e que não era nascida na primeira encarnação dos Guns n' Roses a passear-se com t-shirts do grupo e a proclamar aos sete ventos que os autores de «Paradise City» são uma das bandas da sua vida. É a altura ideal para tentar responder à pergunta que anos de especulação não resolveram: quem é, afinal, AxlRose?

Uma infância dos diabos

Pode não explicar tudo, mas há-de ajudar: a infância de Axl Rose, nascido William Bruce Bailey há 46 anos, não foi pêra doce. A mãe, adolescente quando engravidou, sempre lhe escondeu que o homem a quem chamava pai era, na realidade, o seu padrasto. O verdadeiro pai deixou a família quando o filho tinha apenas 2 anos e, até esse dia, não fora um progenitor exemplar. Numa entrevista à Rolling Stone, citada na biografia não autorizada W.A.R., Axl Rose explica que, já em adulto, se submeteu a um tipo de terapia que lhe permitiu desenterrar memórias reprimidas e aceder aos seus sentimentos na infância... e até no útero materno.

«O meu verdadeiro pai era lixado. Eu não gostava da forma como ele me tratava antes de nascer, por isso quando saí, só queria que o cabrão morresse», garantiu. Noutras ocasiões, Axl acusou o pai biológico de abuso sexual e o padrasto, um pastor da Igreja Pentecostal, de maus tratos. «A minha igreja estava cheia de hipócritas, gente que se fazia passar por virtuosa mas maltratava e abusava de crianças», denunciou. «Tinha de ir à igreja entre três a oito vezes por semana. Cheguei a dar aulas de catequese numa altura em que [o meu padrasto] me batia e a minha irmã era molestada».

A pressão acumulada por Axl durante esta juventude tumultuosa explodiria quando, aos 17 anos, a futura estrela encontrou, na papelada lá de casa, os documentos que provavam que o seu pai não era quem ele pensava. Foi então que adoptou para si o apelido do pai biológico, «Rose», e começou a causar estragos de grande monta, sendo detido numerosas vezes. Antes dos 18 anos, já Axl deambulava pelo país, geralmente à boleia de estranhos; aos 20, abandonou definitivamente a casa dos pais, no estado do interior do Indiana, e partiu para Los Angeles com a intenção de se tornar uma estrela rock.

Dotado de um carisma com o seu quê de demente, mas também de conhecimentos musicais que, paradoxalmente, adquirira na igreja dos pais, onde cantava no coro e tocava piano, W. Axl Rose (que é, desde 1986, o seu nome legal) atingiu o estrelato com relativa rapidez. A banda nasceu em 1985 e em 1987 chegava Appetite For Destruction, o álbum de «Welcome To The Jungle» ou «Sweet Child o' Mine», que até hoje permanece como o quarto álbum mais popular de sempre nos Estados Unidos, com mais de 27 milhões de cópias vendidas.

Os lucros deste disco e dos álbuns que se seguiram, bem como das monstruosas digressões mundiais, terão permitido a Axl Rose comprar uma bela mansão em Malibu, na Califórnia, onde alegadamente tem vivido «como um recluso». Mick Wall, jornalista da Mojo e Classic Rock que assina a contestada biografia do cantor, garante que é esse o termo a aplicar a Axl, e que um dos mais incendiários performers do seu tempo pouco tem saído de casa nos últimos anos.

O próprio Axl dá a entender que é (quase) um rapaz pacato: «Só se for a um clube de strip é que escrevem sobre mim; eu não ando atrás dos paparazzi», diz este fã de cinema e literatura. Ainda estamos a falar da mesma pessoa?

A culpa não é dele

Uma das explicações para o comportamento de Axl Rose ao longo dos anos é a sua alegada bipolaridade. O próprio músico afirmou, em tempos, à Rolling Stone que, por ser «muito sensível e emocional», recorreu a uma clínica onde o mandaram fazer um teste de 500 perguntas e lhe diagnosticaram doença maníaco-depressiva.

Apesar de ter sido mandado para casa com uma receita de sais de lítio, um poderoso medicamento contra distúrbios psiquiátricos, Axl parece desprezar a suposta doença e não tem poupado na quota de excentricidades.

Em 1990, quando pediu a primeira mulher em casamento, fez-se acompanhar de uma arma e acrescentou que, se Erin Everly (a inspiração de «Sweet Child o' Mine» e protagonista do respectivo vídeo) não casasse com ele, se suicidava. Mais recentemente, a famosa reclusão impediu que ouvíssemos falar de mais incidentes rocambolescos, apesar de, há apenas dois anos, Axl ter aproveitado a passagem pela Suécia para, aparentemente embriagado, morder um segurança de hotel e passar uma noite na esquadra.

Há quem não ache graça nenhuma a estas diatribes. «Aquele cabrão não faz um disco há 13 anos e toda a gente lhe dá atenção», queixou-se em 2006 Jon Bon Jovi, rival de tempos que já lá vão. «Continuam a falar dele por ser um freak, um recluso». A extravagância de Axl desagradava, por outros motivos, a Kurt Cobain: «O papel que ele desempenha existe há anos. Há um Axl Rose desde que existe o rock, e para mim é uma seca total. Para ele é fresco porque lhe está a acontecer a ele e, sendo tão egocêntrico, acha que o mundo inteiro lhe deve alguma coisa», criticou o malogrado líder dos Nirvana.

Para Axl Rose, é simples: não vai mudar e, acima de tudo, a culpa não é dele. «Sou muito perturbado e não digo isso para terem pena de mim», afirma, citado na biografia W.A.R. «Sou um produto do ambiente que me rodeou, e foi isso que os Guns atiraram à cara de toda a gente. Não gostam de nós? Azar! Foram vocês que nos criaram!». Os próximos meses dirão se o tempo lhe amaciou os modos ou se um dos mais lendários espalha brasas do rock está de volta ao circo onde já brilhou com intensidade.

Publicado originialmente na revista BLITZ de dezembro de 2008.