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Bob Marley faria hoje 71 anos. É tempo de o recordar

De menino do campo a estrela planetária. Rastafari, amante inveterado e autor de hinos de revolta e paz, cantou por Jah - o Rei dos Reis - e por África. Levou o reggae ao mundo, amou o futebol, viveu intensamente e despediu-se cedo demais

O apelo saiu de improviso a meio de «Jamming». «Será que podemos juntar aqui Michael Manley e Edward Seaga?" Do palco, de frente para 32 mil jamaicanos, Bob Marley sabia que presenciava um raro momento de união, num país que o extremismo político colocara à beira de uma guerra civil. De um lado, os defensores do Partido Nacional Popular de Manley, do outro os Trabalhistas de Seaga, uma guerra política que nas ruas de Kingston se transformara em batalha de gangues. Manley, internacionalmente apoiado por Fidel Castro, e Seaga, com Ronald Reagan do seu lado, subiram ao palco, e deram as mãos ao som de um grito rastafári pela «paz».

Marley já estava longe do estatuto de «mestiço» que o acompanhou na juventude e de ser o rasta fumador de erva que os vizinhos na zona nobre da cidade o acusavam de ser. Em 1978, já era porta-voz do seu próprio género musical e, provavelmente, de um país. Com os Wailers, aos 34 anos já tinha sobrevivido a um atentado, carregava um cancro sem saber e já cumprira o seu maior objetivo: apresentar o rastafarismo ao Mundo. Pelo meio, acabava de editar Exodus, o melhor disco do século XX para a revista Time. Na noite do One Love Peace Concert, do público não saíram tiros ou gás lacrimogéneo - só aplausos.

Bob Marley completaria este ano 70 anos. Para assinalar a data, a editora Universal e a família do músico chegaram a acordo quanto à utilização do seu arquivo pessoal. Para já, a edição de um concerto em Boston e a promessa do lançamento de inéditos, assim como de reedições carregadas de extras. Passados 34 anos da sua morte, Marley dispensa ajuda no que respeita a números, se Legend já era recordista pelas semanas passadas no top da Billboard (trezentas) e o único best of a merecer um lugar entre os melhores discos da história para a norte-americana Rolling Stone, no ano passado conseguiu mais um feito: chegou ao topo das vendas no Google Play assim que ficou disponível.

O jovem Bob

Robert Nesta Marley nasceu a 6 de fevereiro de 1945 em Nine Mile, em Saint Ann, ao norte de uma Jamaica então parte do Império Britânico. Mãe negra e pai branco - um misterioso inglês, Norval Marley, ao serviço da coroa e conhecido por andar sempre a cavalo. Para o documentário Marley (2012) só lhe encontraram uma fotografia e tanto Marley como a mãe, Cedella Marley Booker, pouco mais lhe viram. Norval ainda levou o pequeno Marley para Kingston, mas rapidamente a mãe o resgatou de regresso à vida no campo. Só anos depois viria a reencontrar o pai, através de outra família mestiça e numa altura em que Norval já tinha passado de gestor de plantação para o setor da construção.

Bob voltou a ser rejeitado e acabou a cantar a história numa música - «Cornerstone» - «The stone that the builder refuse / Will always be the head cornerstone-a; sing it brother / The stone that the builder refuse / Will always be the head cornerstone». «Gostava de andar de burro, ir para o campo com o avô», recorda a mãe, no documentário Marley. Se em Saint Ann a rotina se fazia entre as plantações e o trabalho no campo, por lá os instrumentos eram tão rudimentares como o modo de vida - as guitarras em bambu e latas, a percussão improvisada em caixas de madeira -, mas também foi em Nine Mile que Marley conheceu Neville Livingston, que viria a ficar conhecido como Bunny Wailer.

A mãe haveria de se mudar, de malas, bagagens e filho, para Kingston e para o bairro que o próprio Marley haveria de celebrizar, Trench Town. Violento e marcado pela pobreza, o bairro que numa edição de 60 Minutos foi descrito como de «barracas imundas», casa dos «jamaicanos não bonitos», haveria de se transformar na capital mundial do reggae e no centro artístico do país. «Para uma criança, a vida era fácil. A nossa única preocupação era com a polícia. Se lhes dizias que eras de Trench Town estavas feito», disse Marley. Mas também há quem recorde que a vida se fazia descalço, por brincadeiras na rua, bem longe da escola e frequentemente com fome. «Um dia chegou a casa, disse-me que ia deixar a escola e dar os livros a um amigo. Foi o que fez», contou Cedella, também em Marley, sobre o dia em que soube o que o filho queria da vida.

O primeiro disco viria pouco depois. Através de Desmond Dekker, com quem trabalhava como soldado, Marley haveria de conseguir lançar um single - «Judge Not» - que, no entanto, haveria de falhar comercialmente. À época, à Jamaica apenas chegava a música de conjuntos norte-americanos e a solo ninguém deu pelo jovem que assinava o single - música e letra - como R.Marley. Na companhia de Neville, haveria de se lançar em busca do elemento que faltava ao trio. «Encontrámos um tipo alto, negro e, diziam alguns, bonito chamado Peter. Dizia que sabia alguma coisa da guitarra, afinou as quatro cordas que tinha na dele e começou a tocar. E pronto», recordou Bunny Wailer.

A ensaiar na First Street de Trench Town, o trio começou por responder como The Juveniles e por se apresentar como «os irmãos do Gueto», mas rapidamente Wailers foi adotado como nome para a banda. Com Joe Higgs como agente e já com a bênção de Clement Coxsone Dodd, fundador e dono do histórico Studio 1, haveria de chegar em 1964 o primeiro single, «Simmer Down», gravado com os Skatalites como banda de apoio. Na Jamaica, o sucesso, comprovado com a escalada ao topo da tabela de vendas, seria imediato. No entanto, a vida do trio não se tornaria mais fácil.

Depois de a mãe ter rumado aos Estados Unidos, aos 17 anos Marley chegou a viver nos estúdios da Studio 1; Coxsone até lhe daria um gira-discos e uma simpática coleção de música norte-americana, mas o ordenado da banda não aumentava. E entre os três aspirantes a músicos o ambiente haveria de se tornar cada vez mais tenso. «Esperávamos dinheiro no Natal, mas só nos deu seis libras quando já tínhamos tanto sucesso. Por isso, larguei tudo e fui viver com a minha mãe», contou Bob Marley numa entrevista de 1975, citada por Vivien Goldman em The Book of Exodus.

Mas o Bob que a 12 de fevereiro de 1966 aterrava em Delaware, nos Estados Unidos, era bem diferente do adolescente que a mãe deixara em Kingston. Aos 21 anos, o penteado aprumado tinha-se transformado num imponente ninho de rastas, sinal da religião adotada, e até era um homem casado. Na véspera de embarcar, Marley casara com Rita, mas nem seria isso que encurtaria a primeira estadia nos Estados Unidos. A trabalhar entre a equipa de limpeza de hotéis e como soldador na fábrica local da Chrysler, Marley nunca esqueceu a Jamaica e o sonho de fazer carreira na música.

«Na América pensava se seria aquilo o meu futuro. Jah, Deus, apareceu-me numa visão e deu-me um anel de ouro. Ele era uma pessoa normal com um chapéu de pelo e um casaco castanho. Um casaco e uma capa, mas não uma capa da chuva como usam os jamaicanos», contou. Segundo Vivien Goldman, a partir desse momento Marley passou a encarar a música como a verdadeira missão de vida. Inicialmente, depois de partilhar a visão com a sua mãe, até recebeu um anel de ouro que o pai tinha deixado, mas devolveu-o. «Não quero usar qualquer anel ou relógio de ouro. Quero continuar a ser a pessoa que sou. Quando começar a adorar o ouro, algo [mau] estará a acontecer». Não era o ouro que o interessava, mas sim o modo de vida Rasta. E esse teria de ser vivido na Jamaica e sempre com os olhos postos em África.

Com um surgimento durante os anos 30, o rastafarismo defendia uma visão pan-africana do mundo, reclamando o regresso dos negros ao continente, e apontava Haile Selassie I (1892-1975), Imperador da Etiópia, como a reencarnação de Deus, descendente dos reis Salomão e David. Com as rastas e o espírito militante, viria um modo de vida que Marley nunca abdicaria e que passaria a promover pela música. «Bob encontrou um sítio onde pertencia. Nem branco, nem preto: era Rasta», lembra Rita Marley. Fora das leis convencionais, apologista da felicidade e liberdade.

Anos antes, tinha sido Mortimer Planno a apresentar-lhe a religião que defende, nas palavras de Marley, como «propósito da vida, ser feliz, viver em união, paz e amor». As rastas, marca da sua identidade, eram vistas como um sinal de compromisso à causa que trazia consigo um espírito militante. Também trazia uma relação - espiritual, dizem - com a marijuana. E se em Delaware usava o quintal da mãe para plantar, na terra natal a indiferença à proibição em vigor tornar-se-ia ainda mais descarada. «[As leis que proíbem o cultivo da marijuana] são leis ilegais como são todos os Governos desta terra. Só há uma lei, a de Deus», defendia numa curta entrevista ao programa televisivo norte-americano 60 Minutos. O tema era recorrente. Em Come a Long Way, outro dos documentários sobre a sua vida (televisionado em 1979), também não fugiu ao tema. «Quem não aceita a erva não aceita os rastafáris. É importante. Não é algo que te faça ter ânsias. É uma planta e essas são boas para tudo. Porque dizem os governos que não a devemos usar? Porque te fazem rebelar e contra quem?», dizia, sem nunca se cansar de citar referências bíblicas, do Livro da Revelação, ao consumo e partilha de erva.

A ganja, o reggae e as mulheres

Se a lenda diz que Marley fumava, normalmente, meio quilo de erva por mês, certo é que álcool nunca o viram consumir - «Não te faz meditar, só te torma bêbedo, enquanto a erva te dá consciência», explicava a Dylan Taite, autor de Come A Long Way - e até final da carreira conseguiu sempre evitar problemas com as autoridades. Marley explicaria que a maioria das pessoas com quem se cruzava não via problemas no consumo de erva e nas alfândegas haveria de ser o estatuto de estrela que lhe permitia o salvo-conduto. Discos, pósteres e autógrafos eram, conta um dos membros da entourage em Marley, frequentemente utilizados como distração para entrar num novo país. E a ligação entre Marley e a ganja tornou-se emblemática ao ponto de agora chegar a negócio. Rita, principal detentora dos seus direitos de imagem, assinou recentemente um acordo com um produtor legal de marijuana, a Privateer Holdings, para este ano fazer chegar ao mercado norte-americano a Legend, estirpe jamaicana da planta preferida de Marley.

Mas nem só o perfume diferenciava os rastas e em Marley a música seria sempre encarada como uma missão. «O reggae é a música do povo. Funciona como as notícias. Conta o que não te querem contar», definia numa entrevista em 1976. E o primeiro passo, no regresso dos Estados Unidos, foi mesmo a constituição de uma editora, a Wail'n Soul'm, e a reconstituição do original trio dos Wailers. Logo depois chegaria o contacto com o homem que muitos dizem ser o verdadeiro responsável pelo nascimento do som de Marley, Lee «Scratch» Perry.

«[Bob] era abençoado, muito talentoso, mas não tinha controlo e não sabia para onde ir com a música. Na minha ótica, o ska era música para dançar e beber cerveja e não uma música espiritual», conta o produtor. E, por isso, a música mudou. No reggae, foi dado ênfase ao baixo e à bateria e na guitarra banalizou-se algo que poucos faziam - as cordas passaram a ser tocadas de baixo para cima. «No Livro da Revelação falam de uma música que todo o mundo dançará. Que outra música pode ser?», pergunta Bunny Wailer em Marley.

Em 1965, The Wailing Wailers marcaria a estreia de Marley em estúdio, seguindo-se Soul Rebels (1970). Em 1971, Soul Revolution e The Best of the Wailers consolidariam o estatuto de estrelas de Marley, Tosh e Bunny na Jamaica. Em 1973, porém, mais não eram que desconhecidos em Londres. Ainda assim, a passagem da banda pelo Reino Unido haveria de chegar aos ouvidos de Chris Blackwell, da Island Records, que rapidamente os desafiou a gravar um disco. Com quatro mil libras no bolso, os Wailers haveriam de lançar Catch a Fire, o primeiro disco com uma produção digna desse nome. Burnin' seria editado nesse mesmo ano, mas seria em 1974, com Natty Dread e o single «No Woman No Cry» que Marley chegaria a estrela planetária.

Em casa, tudo mudara e o dinheiro deixara de ser problema. De Trench Town, Marley mudou-se para a zona fina da cidade, comprou uma casa para a família e outra, no número 56 de Hope Road, bem próximo das residências oficiais dos Presidente e primeiro-ministro jamaicanos, para ensaios e para reunir amigos. Além dos ensaios, Marley começava os dias com corridas pela praia, mergulhos - nunca faltavam sumos naturais e refeições de peixe fresco. Como hobbies preferidos, o futebol e a sua equipa amadora, The House of Dread, e as namoradas.

Publicamente, Marley sempre negou ser casado (apesar de nunca se ter divorciado de Rita) e se na Jamaica viviam em casas diferentes, quando saiam em digressão - que Rita integrava como elemento membro do coro - a mulher ficava num quarto à parte. «Tornei-me no seu anjo da guarda e ultrapassei o estatuto de mulher. Eu sabia como ele era, estávamos numa missão e eu não via as digressões como diversão. Éramos quase evangelistas a levar Jah às pessoas», conta em Marley. «Não discutíamos sobre mulheres. Ele contava-me o que fazia e o que ia acontecendo. Era a mim que chamava quando era preciso tirar alguma do quarto». No final, Marley deixaria 11 filhos de sete mulheres diferentes.

Mas se a agitada vida amorosa nunca se revelou um obstáculo, as opções políticas quase se revelavam trágicas. Com o país dividido entre os comunistas do Partido Nacional Popular e os conservadores do Partido Trabalhista, Marley nunca assumiu um lado e manteve ligações a ambos os lados da barricada. E na Jamaica, em meados dos anos 70, a luta política era mesmo travada na ruas, fosse com pedras, tiros ou bombas. Assim, em dezembro, quando o convite de Manley chegou para que Marley desse um concerto sobre o título Smile Jamaica, o músico não pensou duas vezes e aceitou. Só depois da data acordada, dia 15, Manley - então Primeiro-ministro - marcou a data das eleições para o dia 22 desse mesmo mês; o que Marley encarara como um concerto de beneficência tinha acabado de se transformar em ação de campanha eleitoral.

A noite de 3 ficaria para a história: por volta das nove da noite, com a casa cheia e em intervalo no ensaio, um carro parou à porta e do interior saíram disparos de metralhadora em direção da casa. «Levei quatro tiros, fui declarado morto à chegada ao hospital. Nem tivemos tempo para ter medo. Quando chegou o medo já tínhamos sido baleados», contaria o manager Don Taylor.

Rita seria ferida na cabeça enquanto Bob escaparia com um arranhão no peito e uma bala alojada no braço. «Ouvi dizer que um deles se chamava Shabba e que pouco depois foi ter com o Bob para lhe pedir perdão. Aparentemente, falaram durante horas e, tendo conhecido o Bob, não me custa a acreditar que o tivesse perdoado», conta o manager em The Book of Exodus, onde lembra o fim de Shabba, «morto a tiro».

Sobre a tentativa de assassinato a Marley, até hoje, são mais as teorias que os factos. A identidade dos atiradores nunca foi conhecida e sobram as teorias mais ou menos conspirativas. Teria sido um dos partidos jamaicanos? Resultado de uma guerra entre os traficantes queMarley sempre tivera por perto? Nem falta quem aponte o dedo à CIA, célebre por ser avessa a vozes pró-independência, e no caso do autor de «Get Up, Stand Up», cada vez mais, pro-marxistas. E houve ou não um raide de vingança pelas ruas de Kingston? Timothy White, em Catch a Fire, garante que sim. «Um dos últimos mortos em vingança pela tentativa de assassinato foi Carl "Byah" Mitchell, um segurança do partido trabalhista metido no tráfico de droga em Kingston Oeste (deram-lhe droga a comer até que o coração parasse)», escreve.

A vida eterna

Com cinco horas de atraso, sob escolta policial e com o público bem afastado do palco, na noite de 15 de dezembro Marley haveria de contrariar os mais cautelosos e subir mesmo ao palco. Sem que ninguém soubesse, seria uma despedida. Dias depois, aterrava em Londres bem a tempo de assistir a outra explosão, o punk. Instalado numa moradia em Chelsea, rapidamente reuniu uma banda e a inevitável equipa de futebol. Pelo meio, haveria de ter o seu romance mais mediático, Cindy Breakspeare, jamaicana, Miss Mundo em 1976 e mãe de Damian Marley.

Avesso a bares e discotecas, Marley passava as noites em casa, mas se a ideia era estar a sós com Cindy e fugir à atenção mediática que o namoro gerava o destino era o apartamento da modelo ou o luxuoso Claridge Hotel. «Ele tinha um exterior áspero e tinha de manter a tropa e os soldados em linha, nos ensaios a horas e no autocarro. Também tinha um lado doce, brincalhão e vulnerável, mas nem o mostrava muito. Tinha demasiado que fazer», conta Cindy em The Book of Exodus, onde recorda a chegada a casa dos ensaios. «Punha sempre a cassete com as gravações do dia e dançava durante todo o tempo».

Exodus seria lançado em junho de 1977 e rapidamente chegaria ao número 1 na Jamaica, Inglaterra e Alemanha. Dos Estados Unidos chegaram pedidos para uma nova digressão e só uma lesão num pé, feita a jogar futebol, forçaria o seu adiamento. Mas se nunca tinha gostado de estar parado, aos 32 anos nem o diagnóstico de melanoma o fez cancelar os concertos. Em Londres, recomendaram a amputação da perna, outros recomendaram que se ficasse pelo dedo e só quando encontrou um médico para quem bastava cortar a unha ferida acedeu. Confiou em Jah.

1978 seria o ano de Kaya, feito com músicas gravadas durante a edição de Exodus e do regresso à Jamaica com estatuto de salvador. Com o país à beira da guerra civil e com direito a missão diplomática do Governo a pedir a sua participação, Marley voltou a ignorar as recomendações. Desde o atentado que não atuava na terra natal e muitos temiam uma reincidência da violência. «A minha vida não é importante para mim, a dos outros é. A minha só interessa se conseguir ajudar outros; se só estiver preocupado com a minha segurança não valho nada», disse numa entrevista de promoção. Na noite do One Love Peace Concert, a 22 de abril de 78, no Estádio Nacional, Marley haveria de se valer do estatuto de cabeça de cartaz para conseguir o histórico aperto de mão entre as fações que dividiam a Jamaica. Entrou num campo de onde sempre fugira: a política.

Com uma digressão mundial em mente seguiu para África onde acabaria por dar o seu concerto mais polémico. Depois de uma passagem pela Nigéria, foi Marley quem tocou na tomada de posse de Robert Mugabe (em março de 80, celebrava-se o nascimento do Zimbabué e o fim da inglesa Rodésia e Mugabe apresentava-se com estatuto de herói). A história revelar-se-ia bem diferente da cantada em Survival, álbum de 1979.

Uprising, de 1980, é lançado quando Marley tinha já perdido a energia. E em setembro desse ano, durante uma série de concertos a abrir para os Commodores no Madison Square Garden, o corpo cedeu. Na véspera, em palco tinha estado perto de desmaiar e na manhã de 21 de setembro colapsou mesmo a meio de uma corrida pelo Central Park, tendo o artista acabado internado no Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, em Manhattan.

Marley ainda contrariaria os médicos uma última vez - interrompeu a quimioterapia e saiu do hospital assim que o rumor da sua doença chegou às rádios mas desta vez não havia como disfarçar: o cancro era irrecuperável, estava no fígado, pulmões e cérebro e a previsão era que não chegasse vivo ao final do ano. Até as rastas tinha perdido.

Na companhia de Rita e Cindy, ainda procurou cura na Alemanha, em Rottach-Egern, pequena vila nas margens do então gelado lago de Tegernsee. A sorte não mudou e ao fim de três meses de tratamentos o vaticínio foi o mesmo. Bob Marley celebrou os 36 entre um pequeno grupo de amigos na clínica, mas em maio, já depois de um AVC lhe ter roubado a mobilidade do lado esquerdo, seguiu para Miami num avião privado. Da Jamaica, depois de ter reunido os onze filhos de Marley, Marley despediu-se a 11 de maio de 1981.

Não viveu para ver o seu disco mais vendido, a coletânea Legend (25 milhões até hoje), ser considerado pela Rolling Stone um dos 50 melhores álbuns de sempre (em 2014 foi o quinto vinil mais vendido nos Estados Unidos, à frente de Turn Blue, dos Black Keys, e de Sgt. Pepper's..., dos Beatles) ou para cumprir o sonho de ver «a humanidade junta, negros, brancos e chineses». Deixou o reggae e a palavra de Jah. A vida eterna que tanto ansiava?

Texto: Filipe Garcia

Originalmente publicado na revista BLITZ de fevereiro de 2015.