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Queen: Animais de palco

Há 25 anos, os Queen lançavam Innuendo, o último disco de originais no tempo de vida de Freddie Mercury. Agora que regressam a Portugal (com Adam Lambert) para um concerto no Rock in Rio-Lisboa, é altura de recordar a vida da banda inglesa debaixo das grandes luzes

A noite tinha tudo para ser esquecida. Em Truro, pequena cidade ao Norte de Inglaterra, Brian May, à guitarra, Roger Taylor, na bateria, e Tim Staffell, entre o baixo e o microfone, subiram ao palco num evento de caridade para a Cruz Vermelha. Ao fim de dois anos de banda, tinha chegado a hora de se despedirem como Smile, formação que esteve longe de merecer atenção no final dos anos 60 na cena da música inglesa. Nessa altura, o nome do grupo, diz-se, já teria oficiosamente mudado para Queen sob influência de um certo amigo da banda, Freddie Bulsara, opção precipitada pela saída de Staffell no início da primavera (ainda que tivesse estado em palco na despedida).

Da estreia não anunciada dos Queen ninguém guardou boas recordações. Quarenta anos mais tarde, Taylor recordaria a rudeza do som e a falta de ensaio nos arranjos dados aos clássicos de blues e restantes «standards» a que a banda dedicou o «set» a 27 de junho de 1970. Menos de um mês depois, já com Mercury entre a equipa de palco e com o novo nome escolhido, os Queen davam o que Brian May viria a considerar o «primeiro concerto a sério», no Imperial College em Londres. «Já lá tinha visto todo o tipo de artistas. Como estudante tinha feito parte da Associação de Estudantes e nessa altura todos os sábados contratávamos alguém. Chegou a ir lá o Jimi Hendrix», contaria May, anos mais tarde.

Mas esse seria apenas um dos mais de 700 concertos - a contagem oficial é de 705 espetáculos entre 1970 e 1986 -realizados até à morte do mais carismático dos seus membros. Quase no final, em 1985, uma passagem pelo Estádio de Wembley, no mega-espetáculo de beneficência Live Aid, onde uma curta atuação de 20 minutos foi, mais que uma vez, considerada a melhor da história do rock. Dez anos antes, a primeira digressão no Japão, capaz de gerar histeria só equiparada à da receção aos Beatles. A carreira dos Queen, ainda hoje uma das bandas de maior sucesso de sempre, fez-se de discos, mas também se fez de estrada, de exibições gloriosas de Mercury, May, Taylor e John Deacon (o baixista definitivo desde 1971) perante dezenas ou centenas de milhar de espectadores e de músicas muitas vezes feitas a pensar na hora de apelar à participação do público que cedo começou a esgotar concertos.

Conquista global

Como em Liverpool o Cavern Club havia sido para os Beatles, por Londres o Imperial College seria um dos marcos nos primeiros tempos da vida dos Queen. Nesse palco universitário, ainda em agosto de 70, Barry Mitchell (outro baixista anterior a Deacon) faria o primeiro dos seus onze concertos com a banda e onde começavam a conquistar os mais leais dos fãs. Nessa altura, recordaria Mitchell, já o convívio com o público se começava a revelar crucial com os ensaios a serem frequentemente realizados em festas privadas, o cenário ideal para descobrir os segredos do controlo de uma multidão. Em breve, os números multiplicariam de forma a ainda hoje fazerem corar de embaraço as maiores das bandas. Seis anos depois seriam entre 150 e 200 mil os fãs a assistir ao concerto grátis no Hyde Park - um recorde para o mais célebre dos parques londrinos, mas nem perto do maior concerto da banda.

Com A Night At The Opera nos topes, a ideia de organizar um concerto gratuito nasceu, reza a lenda, como forma de agradecimento aos fãs. No dia do sexto aniversário da morte de Jimi Hendrix, um dos autores mais frequentes nos tempos de covers da banda - e com Richard Branson, fundador da Virgin Records, na produção - seria num palco herdado dos Rolling Stones que os Queen conquistariam o seu lugar entre a nobreza da música britânica. «Foi um concerto importante para nós. Houve muito afeto e se nessa altura já éramos grandes em vários países, em Inglaterra ainda não sabíamos bem se éramos aceites. Foi muito bom ver aquela multidão reagir assim», lembrou Brian May. Ainda assim, nem tudo foi bom no primeiro, verdadeiramente, grande concerto de Mercury e companhia em casa. Se durante a banda de abertura os espectadores se tinham mantido sentados, ao ouvir os versos «Is this the real life? / Is this just fantasy?» (os primeiros de «Bohemian Rhapsody») responderam levantando-se.

Quem estava atrás não gostou de deixar de ver o palco e rapidamente começaram a voar latas, garrafas e outros objetos. Mercury apelou à calma e o concerto seguiu para só no final a tensão se voltar a instalar, por ausência de encore (ordem da polícia). Uma novidade para quem há mais de um ano tinha aprendido a dominar multidões em histeria, não em fúria.

Os Queen fizeram-se grandes primeiro no «resto do mundo» e só depois na sua Inglaterra natal. E se só perante a multidão de londrinos se convenceram que tinham chegado ao topo, no Japão, em 1975, perceberam que a sua música e a figura do carismático vocalista tinham gerado uma legião de fãs. Em Tóquio, a cidade do seu primeiro concerto em terras do Oriente, a noite de 19 de abril haveria de lhes ficar na memória.

Em vez da prometida audiência sentada e sossegada durante o concerto, May recordaria que ao som dos primeiros acordes o público respondeu com uma correria até à frente do palco. Por mais do que uma vez Freddie Mercury tentaria, em vão, mandar calar a audiência. «Estou a dar um concerto só para mim? Sentem-se e acalmem-se antes que alguém se magoe. Têm de ouvir», apelou o cantor, indiferente ao facto de no público serem poucos os que percebiam inglês. Mas se durante o concerto só os títulos das canções garantiam uma resposta, o efeito da música era indiscutível e o ambiente sempre demasiado próximo do de um motim. Os Queen tinham entrado na era das multidões, o terreno em que Mercury melhor se movimentava.

Se em 1981, em São Paulo, deram dois dos seus maiores concertos, ambos com mais de 120 mil pessoas a assistir, seria na primeira edição do Rock in Rio, em 1985, que os Queen bateriam todos os recordes - com 250 mil em cada concerto.

Nesse ano, teriam ainda a oportunidade de sonho para se baterem com as maiores bandas do Mundo. No Live Aid, em Wembley, alinharam com os U2 na disputa pela atenção dos fãs que assistiam às reuniões dos Led Zeppelin, dos Who, dos Crosby Stills Nash & Young ou aos Dire Straits que, com «Money for Nothing», se apresentavam como a banda do momento.

Uma missão impossível? Só para quem não tinha Mercury como mestre de cerimónia. A «Bohemian Rhapsody», seguiu-se «Radio Ga Ga», o single mais recente, «Hammer to Fall», a dançante «Crazy Little Thing Called Love» e «We Will Rock You» já em jeito de preparação para o final apoteótico com «We Are The Champions». A imprensa da época haveria de assinalar a falta de afinação dos Zeppelin, a enérgica exibição dos homens de Bono, a parceria de Sting com a banda de Knopfler e a participação de Elton John com os Wham. Da prestação de David Bowie poucos se aperceberam - atuou depois dos Queen.

Adeus sem aviso

No ano seguinte, em Stevenage, no parque Knebworth, seria batido um novo recorde o maior concerto pago dos últimos dez anos do Reino Unido, com mais de 120 mil pessoas a assistir a um espetáculo que inicialmente nem fazia parte do plano de digressão. No entanto, em julho, a passagem por Wembley tinha levado a que os bilhetes esgotassem e a impossibilidade de reservar mais noites no mítico estádio de futebol tinha forçado à procura de alternativas. Knebworth acabaria por ser o final de digressão e simultaneamente a última noite em que os Queen se apresentaram com Mercury, Brian May, Roger Taylor e John Deacon.

Novamente, o ambiente esteve longe de ser o mais pacífico. Os Status Quo, banda que serviu de aquecimento, foram alvo do arremesso de garrafas e confrontados com o duro facto de que ninguém estava ali para os ouvir. Mas nessa altura, os Queen estavam no auge da sua força, tinham esgotado duas noites em Wembley, tinham ganho o jogo no Live Aid, sabiam como controlar uma multidão. «Isto é enorme, mesmo para os nossos padrões. É lindo e assustador», partilhava Mercury antes de se lançar num coro de milhares para cantar «A Kind of Magic». Também emocionado, May haveria de assumir em palco que a digressão tinha sido «a maior e melhor coisa que lhe tinha acontecido».

Com milhões de discos vendidos e digressões esgotadas por todo o Mundo, nada fazia prever o fim dos Queen, mas essa noite de agosto haveria mesmo de marcar a sua saída de cena. No final, Mercury despediu-se com «amor» e a desejos de «bons sonhos», mas só depois saberia das más notícias: tinha morrido um fã, esfaqueado depois de ter caído de um poste para cima do público. «Se as pessoas têm de morrer para nos ver nunca mais toco ao vivo», disse. A frase revelar-se-ia, tragicamente, premonitória. Mercury, acredita-se, saberia pouco depois que era seropositivo e nunca mais voltaria a subir a um palco com os seus Queen. Restam as saudades.

Texto: Filipe Garcia

Originalmente publicado na revista BLITZ de setembro de 2014.