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Ian Astbury sobre Bowie: “O céu caiu, o sol apagou-se. Ele era o meu pai”

O vocalista dos Cult, que têm um disco novo, deu uma entrevista na qual aborda a sua relação com David Bowie

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Ian Astbury deu uma entrevista ao site Consequence of Sound na qual fala do impacto que a vida, a obra e também a morte de David Bowie tiveram em si.

"É tão profundo que tenho amigos que já não estão connosco e eram devotos do Bowie, e apetece-me ir ter com eles à campa e dar-lhes a notícia. Sei que, mesmo na campa, iam chorar".

Sobre as críticas à reação "infantil" à morte de David Bowie, Ian Astbury discorda: "Não, cabrões. O céu caiu. O sol apagou-se. Sintam o peso disto. Ele era uma sentinela, explorando a condição humana - o espírito. A ciência e Nietzche levaram-nos a encarar a nossa experiência de forma muito distinta, mas a igreja e a ciência não conseguiam explicar tudo. Então cá estamos nós na nossa sociedade moderna, nos nossos edifícios de vidro e cimento, a pensar: o que se passa? O que é isto? Que saudade é esta que eu sinto?".

"O Robert Blythe disse bem: 'quando os homens e as mulheres perderam o contacto com os animais selvagens, foi quando as coisas começaram a correr mal'. Se não sentes o peso disso, não tens coração. E [Bowie] era o artista que liderava uma parada de indivíduos que sentiam isso e que nos davam um texto para seguimos na vida. Eu fui criado por David Robert Jones. Era o meu pai, o pai de muitos nós. Inspirou as nossas crenças espirituais, a forma como nos vestimos, as nossas filosofias de vida. Talvez um ano depois de ouvir 'Life on Mars?', estava na escola com o cabelo pintado de azul, a ser expulso da aula".

Astbury diz ainda ter ouvido" Life on Mars" vezes sem conta - "Não tinha drogas, mas tinha aquilo" - e ter visto David Bowie pela primeira vez em 1983 ou 1984. Em 1987, conheceu-o quando os Cult abriram para o britânico em Paris.

"Estávamos a tocar para oito mil pessoas, e eu era um miúdo. Tinha 24 anos. O público não queria saber de nós, eu também não quereria. Estava a trepar para cima de coisas, e às tantas baixo as calças e mostro o rabo ao público. E ele [Bowie] estava ali, atrás do palco, a rir-se. Debruçado sobre si mesmo a rir-se", recorda, contando que depois do concerto falou com o seu herói. "Estive a falar com o David. Não com uma das suas personagens icónicas. Estava a falar com uma pessoa que falava comigo como uma pessoa. Foi o primeiro artista da sua estatura que conheci que realmente tinha interesse nos meus pensamentos e sentimentos e ideias", diz.

"Para mim, enquanto músico jovem, foi muito importante, porque naquela altura a imprensa britânica era muito dura comigo, com o meu visual. (...) Quando tocámos com o Bowie, senti que tinha sido visto por alguém que admirava. Ele retribuiu uma energia que me fez sentir que estava no lugar certo, no caminho certo".

O novo álbum dos Cult, Hidden City, sai hoje, 5 de fevereiro.