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Tara Perdida

Rita Carmo

Tara Perdida: “Continuar a banda é também uma forma de imortalizar o Ribas”

A BLITZ de fevereiro, já nas bancas, traz um CD exclusivo da banda. Leia aqui a entrevista que o acompanha

Os Tara Perdida andam na estrada, com o apoio da BLITZ, e com a edição de fevereiro, já nas bancas, chega também, grátis, o CD exclusivo Em Acústico - Metamorfose. Leia abaixo a entrevista da banda.

Começar de Novo

Depois do luto, a mudança: a banda punk está de regresso com um novo álbum, grátis com esta edição da BLITZ, em que desliga os amplificadores para se concentrar na força das palavras. Rui Miguel Abreu encontrou-se com Ruka, guitarrista e porta-voz da banda, no seu habitat natural, o bairro de Alvalade, em Lisboa. As fotos são de Rita Carmo.

Tara Perdida em Acústico – Metamorfose é o título do novo trabalho dos Tara Perdida, grátis com a BLITZ deste mês. Depois de Luto, editado no ano passado, é o álbum em que o grupo assume uma vontade e uma necessidade de transformação. E daí o proverbial passo atrás antes dos dois que se planeia dar em frente. Rui Costa (conhecido por Ruka) explica todo o doloroso processo de despedida do ícone João Ribas e a transformação dos Tara Perdida numa banda de futuro. E nada fica por dizer na entrevista de apresentação de um álbum que conta uma história de vida.

O luto já terminou? Ou será para os Tara Perdida uma condição permanente?
Só posso falar por mim e sim, confirmo, acho que este luto me vai acompanhar para sempre. É uma dor grande, perder um amigo. É que para lá da música, a amizade era mesmo a coisa principal que a gente tinha. Agora estou mais calmo, mas esta condição vai ser eterna. Sinto que continuar a banda é também uma forma de imortalizar o Ribas. De cada vez que tivermos alguma coisa a fazer, o Ribas será sempre lembrado.

Como lidaram com as emoções da primeira vez que subiram ao palco sem o Ribas?
Foi em Santarém, com o Tim, na tournée Tara & Amigos, e foi muito difícil, muito estranho. Posso dizer que não foi só o primeiro concerto que foi complicado, foram vários: estás revoltado e parece que o mundo inteiro merece pagar por estares assim. É estar em palco sem força nenhuma – fizemos os concertos porque, sei lá, pela paixão pela música, por não sabermos outra maneira melhor de o homenagear. Não me apetece ir postar fotos no Facebook... Apetece-me é fazer músicas e falar dele nas músicas. Eu agradeço-lhe muita coisa, era o meu maior amigo. Mas não gosto muito de falar nisso... Sei que um dia vamos estar juntos outra vez...

A tocar?
Pois, e a dar pazada aos americanos e aos ingleses que estão lá em cima também. De certeza que ele está lá com toda a gente de quem gostava, o Serpa que morava ali em frente, o Joey Ramone, o Sid Vicious. Acredito nisso. Acredito que se esse sítio for como imaginamos ele estará lá, a gozar com toda a gente. Ele é mesmo assim, singular. Consigo vê-lo a virar-se para o Joey e a dizer naquele seu jeito «não vales nada». (risos)

Como está o processo da renomeação do Jardim dos Coruchéus para Jardim João Ribas?
O Jardim dos Coruchéus era a segunda casa do Ribas: ninguém estava em casa nunca, ia-se sempre para o Jardim. Passou por lá muita gente, músicos, escritores. Nos anos 80, quando a cena dos estupefacientes entrou por aí com mais força, o Coruchéus era um «hotspot». Mas um «hotspot» da Avenida de Roma, com gajos de fato também a darem nela... Era para ali que o Ribas ia com a guitarra, onde se juntavam dezenas de pessoas, a falar da vida, da arte, etc. Ainda bem que não tínhamos internet... Bem, houve uma petição, aceite pela Câmara, para que o Jardim se chamasse Jardim João Ribas. Falta meter a placa e fazer a inauguração oficial.

E os Tara Perdida tocarão na cerimónia?
Não sei. Gostaria muito, penso que faz todo o sentido. Até em acústico, mas não penso nisso. Importa que, demore o que demorar, essa homenagem seja feita.

O Tiago Afonso teve a complicada missão de assumir a voz nos Tara Perdida. Que conselhos lhe deram?
Já aqui andamos há 20 anos, somos pessoas atentas. E somos uma banda orgulhosa, que veio do nada e que tinha no Ribas, que vinha dos Ku de Judas e Censurados, a sua mais-valia. Mas sempre trabalhámos muito, mesmo a parte extramusical, de organização das coisas, fomos sempre muito empenhados, sobretudo a partir de 2002. Nós já sabíamos o que o Tiago Afonso fazia, sabíamos que era perigoso, que trazia alguns vícios. O próprio Tim dizia que deveria ser eu a assumir esse papel. Mas para mim a fasquia era demasiado alta. Chegou-me fazer o «Até ao Fim», no Luto. O Tiago sofreu um pouco depois do impacto nas redes sociais. Mas ele sabe que está a defender o legado do Ribas, mesmo que não sejam possíveis as comparações: são gerações muito diferentes, ele não passou pelas coisas que o Ribas passou... mas ele vai-se fazer um homem. Estamos ao lado dele para garantir isso. E é fã da banda desde sempre. Claro que quando ele sentiu o punch da banda no primeiro ensaio ficou um bocado impressionado, mas também percebeu que era isto que queria.

Como é a vida da banda? Concertos ao fim de semana, ensaios durante a semana?
Ao fim de 20 anos é impossível estarmos juntos todos os dias, o pessoal faz filhos... E depois tem as suas prioridades. Viver a banda dos 20 aos 30 é uma coisa e dos 30 aos 40 é outra. Hoje não estamos sempre juntos, mas gostamos quando estamos. Nunca deixamos coisas por dizer e tratamos tudo como se fôssemos uma família. O Tiago e o Alexandre [Morais] são os novos elementos e perceberam logo a nossa dinâmica. O Tiago Ganso é meu companheiro desde sempre e o Pedro [Rosário] tem dez anos de Tara Perdida com entradas e saídas – precisou de viajar e arejar as ideias, mas quando voltou tinha a porta aberta.

O que é um bom ano para os Tara Perdida em termos de concertos?
Depende muito: nem sempre tocar mais significa que o ano é melhor em termos de cachês. Se fizermos um ano de Queimas sempre temos cachês diferentes e outras condições. Mas pronto, diria que um ano com 30 concertos já é bom. Claro que gosto de tocar mais. Na verdade, os Tara Perdida com 20 anos de carreira nunca tiveram um verdadeiro manager. O mais próximo foi em 2005 quando trabalhámos com o Miguel Gomes: trabalhou no álbum Lambe Botas, fez o DVD que temos em Almada. Ao fim de 20 anos e de tudo o que nos aconteceu, que nos obrigou a procurar novas pessoas para a banda, comecei a ficar sem forças para tudo o resto que não fosse música. O outro lado das coisas começou a ser mais massacrante para mim. Foi aí que fomos à procura de um manager e batemos à porta do Paulo Ventura. Também trocámos de agência. E a primeira consequência dessas mudanças é este disco acústico, que foi feito em três semanas. Uma ideia que se arrastou durante 10 anos, mas que depois foi colocada em marcha muito rapidamente, gravado no [estúdio] Namouche. Tivemos cinco ensaios, dois deles mais sérios. E depois fomos três dias para o Namouche. Tara Perdida vive bem na pressão.

Desligar a corrente não é complicado?
Um acústico para nós era quando a gente resolvia gozar com as músicas: na nossa atitude punk, quando pegávamos numa guitarra acústica era para gozar. Numa certa idade nunca admites que uma canção pode soar de outra maneira. As nossas canções nasceram sempre elétricas e logo à cacetada. Quando fizemos o primeiro Coliseu pensámos que duas horas de eletricidade ia ser um abuso e veio-nos à cabeça a ideia de fazermos um interlúdio acústico. Resolvemos fazer, meter um piano e tudo, e a verdade é que aquilo fomos nós a viver e a descobrir. E não é que toda a gente adorou essa parte? A partir daí ficámos convencidos que as canções até resultavam nesse registo e as pessoas iam-nos perguntando quando é que voltávamos a fazer uma coisa assim. «Um dia destes»... Depois, quando tivemos a reunião com o nosso manager – uma reunião bem rock and roll, com o Stairway Club vazio, só para podermos falar – ele disse-nos muitas coisas, falou-nos da nossa mensagem e atirou-nos a ideia do acústico para o colo. E em três semanas tudo aconteceu porque acreditamos muito no que fazemos.

E o futuro? Veem-se a atingir as marcas de longevidade dos Xutos ou dos Stones?
Eu olho para o futuro e vejo-me a fazer o que eu gosto. Eu olhava para o Lemmy [Kilmister, dos Mötorhead] e pensava que se chegasse à idade dele com aquele power iria continuar a querer fazer o mesmo, a sentir a madeira da guitarra e a pedrada do PA. Isto é coração, o que se vai fazer em relação a isto? É algo que está dentro de mim, não sei explicar. Do futuro o que me deixa estragado mesmo é saber que o Ribas não está cá para vê-lo. Mas se ele um dia me aparecer à frente eu vou abraçá-lo, não vou ter medo.

Olhamos para as notícias e percebemos imediatamente que há muita coisa errada no mundo...
O mundo está doente...

É um bom tempo para se ser punk e para se gritar a plenos pulmões?
A minha maneira de ver estas coisas é muito particular: eu acho que o punk está na cabeça. Sou um thrasher, venho do metal e do punk, sou a mistura de ambos. Do que gosto mesmo é de música e de sentir coisas. Não vou comprar o disco da Adele, mas não fico indiferente quando a ouço cantar. Por isso, o mundo está doente, sinto que ainda vai piorar, mas toda a música tem que reagir a isso e dar algo às pessoas.