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Alice Cooper faz hoje 68 anos e quer morder o seu pescoço

Vicent Furnier, isto é, Alice Cooper, está de parabéns. Em 2011, aquando da sua entrada na Rock and Roll Hall Of Fame, Rui Miguel Abreu falou com “o vilão do rock” e “pai” dos Kiss ou Marilyn Manson sobre tudo: sangue, fogo e degolações. Vamos vê-lo este ano com os Hollywood Vampires, no Rock in Rio-Lisboa

No site oficial do Rock and Roll Hall of Fame sublinha-se que antes de existir Ozzy Osbourne, Marilyn Manson ou Kiss havia Alice Cooper, «o auto-proclamado e original vilão do rock». Completamente verdade. Numa época em que ainda se definiam as regras que atualmente regem o espetáculo rock, Alice injetava teatralidade no palco, entendendo os concertos como uma experiência total, com decibéis, claro, mas também com luz, sangue, fogo e encenações de decapitações.

Tudo para mexer com as emoções, para abalar as pessoas, para, afinal de contas, entreter o seu público. Antes de os anos 60 terminarem, a Alice Cooper Band lançou Pretties For You, com uma sonoridade mais psicadélica, mas já com as sementes do peso elétrico que lhes definiria o som e os transformaria em fenómeno por alturas de Billion Dollar Babies, de 1973, o primeiro número 1 da banda. A entrada agora no Rock and Roll Hall of Fame distingue o sucesso, o pioneirismo e o endurance de uma figura que ajudou a pintar a face do rock and roll.

«Não éramos os Grateful Dead»

A biografia de Vincent Damon Furnier, verdadeiro nome de Alice Cooper, coloca-o nos bancos da escola primária quando o rock and roll começou a dar os primeiros passos. Nascido no seio de uma família com nítidas inclinações musicais - o pai era músico de jazz e discos era coisa que não faltava em casa - o futuro «papão» do rock and roll começou desde logo a conviver com música e discos e tinha a idade certa quando a «Invasão Britânica» levou até aos Estados Unidos bandas como os Kinks, Rolling Stones e Beatles, uma das suas primeiras paixões sérias. Foi dessa correria da escola para as lojas de discos e daí para casa que nasceu a vontade, partilhada com amigos, de subir aos palcos: «Não demorou muito para percebermos que era exatamente aquilo que queríamos fazer, tocar numa banda. Foi aí que formei a minha primeira banda», explica o cantor, ao telefone, revelando-se um conversador nato.

Começou com os The Earwigs, certo?
Exatamente. Tempos divertidos...

E faziam playback com temas dos Beatles. O que é que o fascinava nos «Fab Four»?
Eles eram tão diferentes de tudo o que havia na América que podemos dizer que foram revolucionários. No princípio, até podiam ser muito arranjadinhos, mas a música deles era tão enérgica, tão para cima, tão nova que nos apanhava. Eles tinham um ar diferente, usavam botas e fatos... tudo neles era novo. Gostávamos disso, especialmente depois de descobrirmos que as pessoas mais velhas os odiavam. Isso fazia com que os miúdos ainda gostassem mais deles.

Em 1967, o que é que vos fez trocar Detroit por Los Angeles quando toda a gente se dirigia para São Francisco?
Nós não éramos uma banda de jams, não éramos os Grateful Dead, éramos mais como os Doors, uma banda que também prestava atenção à imagem. As bandas de São Francisco soavam como se estivessem sempre pedradas e sempre a «jammar». Isso para nós não tinha grande interesse. Estávamos muito mais interessado em grupos como os Love ou os Doors. Era assim que nos víamos.

O nome Alice Cooper apareceu em 1968. Onde é que o foram buscar?
Foi simplesmente algo que me ocorreu, que me surgiu na cabeça. Pensei que se ia estar numa banda e se a banda tinha que ter um nome então teríamos que arranjar algo de que ninguém estivesse à espera, que soasse diferente. Podíamos ter chamado à banda algo do género The Vampires ou um nome qualquer realmente obscuro e assustador. Mas eu pensei: «Vamos antes na direção oposta. Quando as pessoas ouvirem este nome não vão saber o que pensar ou o que esperar, e quando nos virem irão perceber que não é nenhuma mulher chamada Alice Cooper e vão ficar confusos». Era o que nós queríamos: causar impacto.

Nessa altura, tudo em vocês era diferente: os gestos em palco, as roupas, a maquilhagem... Procuravam chocar as massas?
Há que lembrar que todos os membros da banda estavam em Artes - Artes e Jornalismo. Olhávamos para as coisas de uma forma mais artística. Pensávamos: «Musicalmente, podemos tocar belas canções, mas quando subirmos para o palco porque não dar às pessoas algo que se pareça mais com teatro?» Eu achava que ninguém na época explorava esse lado mais teatral, que as pessoas agiam muito normalmente em palco. Esse campo teatral dava-nos mais possibilidades para explorar. E depois pensei: «por que é que hei de ser um herói rock? Porque não ser antes um vilão do rock?»

O fim do verão do amor

O primeiro contrato da banda Alice Cooper foi conseguido junto de outro artista especializado na arte do choque, Frank Zappa, notório habitante de Laurel Canyon, «bairro» de Los Angeles habituado à excentricidade das estrelas de Hollywood que, ainda assim, nem na sua mais delirante imaginação poderia imaginar o que se passava na mítica Log Cabin.

Zappa, que se tinha estreado em 1966 com o clássico Freak Out!, contratou a banda de Alice Cooper mais por apreciar a sua singularidade do que propriamente por compreender o que esta pretendia fazer em termos musicais. Pretties For You, a estreia de Alice Cooper lançada em finais de 1969, ainda se apoiava na era psicadélica, mas já previa o futuro. Apesar do crédito de produção ter sido entregue à banda, o próprio Alice Cooper afirma que o disco foi produzido por Zappa e gravado no estúdio da Log Cabin, onde Zappa habitava com a família e um circo rotativo de «freaks». Em 1969, um par de meses antes de Pretties For You, o próprio Zappa editou o seu clássico definitivo, Hot Rats.

Em 1969, tocou no mesmo festival de Toronto em que apareceu a Plastic Ono Band de John Lennon. Lembra-se dele?
Nós tocámos entre John Lennon e os Doors. Quando olhávamos para o lado direito do palco víamos o John Lennon e a Yoko Ono e à esquerda tínhamos Jim Morrison e os Doors. E tanto de um lado como do outro ouvíamos palavras de encorajamento. Eles gostaram da teatralidade, da «freakiness». Foi fantástico receber um feedback tão positivo de dois dos nossos artistas favoritos.

Mesmo no final dos anos 60, regressaram a Detroit. Que rock encontraram?
Detroit tinha a melhor cena, sem dúvida. Porque era aí que se ouviam as bandas mais pesadas, mais hard rock. Iggy and the Stooges, MC5, Ted Nugent, Bob Seger, Mitch Ryder and The Detroit Wheels, os Brownsville Station. Estas bandas todas não eram apenas boas bandas de rock, eram igualmente excelentes performers de palco e nós encaixávamo-nos no lote porque éramos realmente bons em concerto. E começámos a tocar todos os fins de semana: umas vezes com Iggy e os Stooges, outras vezes com os MC5. De certa forma, fomos adotados por aquele circuito.

Não foi há muito tempo que afirmou que os Alice Cooper espetaram uma estaca no coração da Love Generation. Acha que o vosso tipo de rock, mais negro, se adequava melhor aos anos 70?
Nós nunca, mas mesmo nunca, fomos uma banda hippie a cena da paz e amor não era connosco. Andavam todos de mãos dadas a oferecer flores, mas nós estávamos mais interessados em Ferraris, loiras e navalhas. Em filmes de James Bond. Ou de terror.

O tema «School's Out», lançado em 1972, permanece um clássico até aos dias de hoje. Como se explica esta longevidade?
Penso que toda a gente da nossa era Elton John, David Bowie, Rod Stewart foi muito influenciada pelos Beatles. Acima de tudo, todos tentávamos compor canções realmente boas. E a verdade é que todos continuam a trabalhar e a tocar. Talvez porque sempre nos preocupámos com a qualidade das canções.

Em 1975, lançou-se a solo com Welcome to My Nightmare. Estava farto dos outros?
Não foi porque quisesse estar sozinho, mas porque queria ir ainda mais longe no lado teatral dos shows e a banda original não estava para aí virada. Eles cansaram-se das digressões e da excentricidade e eu, pelo contrário, achava que devíamos crescer mais, ir mais longe. Que os espetáculos deviam ter ainda mais produção do que os de Billion Dollar Babies ou School's Out. Na minha cabeça eu já estava a projetar o que haveria de ser Welcome to My Nightmare.

Começou a fazer vídeos como os da MTV antes de aparecer a MTV...
Foi um passo natural pegar numa canção como «Elected» e pensar «vamos filmar isto, vamos fazer um filme de três minutos». E quanto ao conceito, foi simples: «quem seria o pior presidente dos Estados Unidos? Levemos Alice Cooper à presidência». Para mim, era tudo muito ao estilo do Salvador Dalí, muito surrealista. E havia algo de Monty Python também.

Na segunda metade dos anos 70 teve problemas com os excessos do rock and roll. Não conseguiu evitar a queda?
Qualquer miúdo de 20 e tais anos que tem um sucesso, viaja por todo o mundo num jato privado e ganha montes de dinheiro vai ter problemas. Claro que vai abusar e festejar. É como se tivesse a chave da loja de brinquedos. As únicas coisas que levávamos a sério eram a nossa música e o espetáculo. O resto do dia era passado a arranjar o máximo de problemas que conseguíssemos. E até parecia que as pessoas queriam que nos metêssemos em trabalhos.

Apareceu nos Marretas e num filme ao lado de Mae West. Como é que isso aconteceu?
Sempre quis colocar Alice em locais onde ele não se encaixasse. Achei que era uma boa ideia colocar o Alice na América comum, em programas de televisão onde o Alice não pertence, pô-lo como peixe fora de água. Com os Marretas quase tentei enfiar o Alice pela garganta da América abaixo.

Uma questão de cabelo

A América do hair metal deve quase tudo a Alice Cooper, que começou por influenciar os Kiss, mas que também escreveu a cartilha seguida atentamente por bandas como Mötley Crüe ou Twisted Sister. Dee Snider, aliás, nunca negou ser «filho» de Alice Cooper, adotando muito mais do que a maquilhagem do seu mestre. Mas Alice Cooper confessa que para chegar triunfante à era da MTV e do hair metal, depois de ter visto os Kiss a carregarem a sua chama durante a década de 70, houve que ultrapassar um enorme obstáculo: o disco sound! O domínio do som que revelou ao mundo um John Travolta de fato branco e dedo espetado no ar tentou até bandas como os Kiss, mas em 1979 o movimento «Disco Sucks» nos Estados Unidos prenunciava a elevação do rock e a chegada da era da MTV e dos vídeos onde a teatralidade inventada por Alice iria ser levada ao extremo.

Os anos 80 apresentaram-se como uma época de transformação: computadores, videojogos, explosão eletrónica. Sentiu a mudança?
O final dos anos 70 e início dos anos 80 foi complicado. Foi a época em que o disco sound tomou conta de tudo e o hard rock teve que recuar. Havia os Bee Gees e tudo na rádio soava a «Saturday Night Fever». Bandas como Aerosmith ou Alice Cooper e até os Kiss tiveram que encontrar uma maneira de voltar à rádio e começámos todos a escrever baladas. Todas tiveram sucesso com baladas, mesmo se os álbuns continuavam a ser hard rock. Foi uma época de mudança em que sentimos que estávamos em guerra com o disco sound.

Quem venceu a guerra?
Bem, nós continuamos aqui e eu estou a dar esta entrevista, não estou?

A segunda metade dos anos 80 foi triunfal para si: o filme The Nightmare Returns foi um sucesso, estava a viver uma vida mais «limpa»...
Reinventei Alice. Olhei para Alice, para a época em que bebia, olhei para as fotos, e via-o sempre curvado. Parecia que a linguagem corporal do Alice nas fotos desse período dizia «estou derrotado, sou uma tragédia». E com o novo e sóbrio Alice, as coisas tinham que ser diferentes, ele tinha que ser mais uma espécie de dominatrix, devia ter uma postura diferente, ser um vilão.

Nos anos 90, Alice Cooper foi reconhecido por uma geração mais nova e elevado à condição de um ícone. É este reconhecimento que o mantém no ativo?
Não propriamente. Sinto que ainda estou a competir com toda a gente. Mesmo quando hoje subo a um palco e há outro concerto antes, do Rob Zombie ou seja de quem for, continuo a competir e a querer ser melhor do que a outra banda no cartaz. Com 62 anos, estou em melhor forma do que muitos tipos com 40. Por isso vou tentar sempre arrasar seja quem for no palco.

Prepara-se agora para o Rock and Roll Hall of Fame, tem a sua própria estrela no Passeio da Fama em Hollywood, recebeu títulos em Universidades. Esta aceitação não é contrária ao que buscava inicialmente?
No princípio dávamo-nos ao trabalho de chatear toda a gente e de perturbar a calma das pessoas. Queríamos ser o oposto daquilo que esperavam de nós. Mas chega-se a um ponto em que até quem segue esse caminho de oposição se torna na norma. Temos discos no primeiro lugar do top e há gente que quer ser igual a nós. Nos anos 80, bandas como Motley Crue e outras queriam parecer-se connosco. Foi uma época criativa e as bandas queriam ser teatrais. Nada de mal nisso. Desde que isso não nos desvie do nosso caminho.

Reuniu-se com membros da sua banda original. O que é que está a acontecer?
Estamos a gravar a parte 2 de Welcome to My Nightmare. Estou a trabalhar com o [produtor] Bob Ezrin, com quem fiz alguns dos meus melhores discos. Estamos a criar algum material que é tão sofisticado e, no entanto, tão anos 70, que mal posso esperar para que saia e para o levar para o palco. Penso que este vai ser um dos melhores álbuns que alguma vez fiz na vida.

Originalmente publicado na revista BLITZ de fevereiro de 2011.