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Pantera: A tempestade perfeita de Phil Anselmo

Entrou na banda aos 19 anos e desde então esteve várias vezes envolvido em polémicas. Aquando do 20º aniversário do clássico Far Beyond Driven, Phil Anselmo - que tem hoje a comunidade do heavy metal a condená-lo por repetidas atitudes racistas - recordou à BLITZ as glórias e as tormentas dos Pantera.

À medida que os anos 80 avançavam, o glam metal estava mesmo que não se soubesse condenado e os Pantera Metal Magic pareciam prontos a desaparecer. Em 1986, um disco mudou as regras do jogo: em Master of Puppets, os Metallica levaram o rock de peso a uma nova velocidade, fizeram-no sem lantejoulas, sem olhos pintados e sem qualquer misericórdia por instrumentos ou livros de regras. Os irmãos Abbott, Darrell e Vinnie, perceberam que estava na altura de mudar de registo.

Encurtaram o nome da banda e trocaram o espampanante vocalista Terry Glaze por um miúdo de 19 anos que encontraram num bar na Louisiana, Philip Anselmo. Se em Cowboys from Hell (1990) Anselmo ainda arriscou os falsetes que saíam de moda, em Vulgar Display of Power (1992) a voz já se tinham transformado numa inconfundível locomotiva e com Far Beyond Driven (1994) chegariam ao primeiro lugar da Billboard e tornavam-se na maior banda de metal do mundo. A celebrar os vinte anos do maior sucesso da banda, Phil Anselmo não tem dúvidas em afirmar: «os Pantera eram a tempestade perfeita».

Uma questão de velocidade

Darrell Lance Abbott para a família, Dimebag Darrell para os fãs de música de peso, cresceu fã dos Kiss. A primeira guitarra recebeu-a aos 12 anos e, enquanto lhe aprendia os segredos, rapidamente na família se habituaram a vê-lo vestido à moda de Gene Simmons e companhia. Ao mesmo tempo, o irmão mais velho, Vinnie Paul, escolhia a bateria como arma predileta e, aos 15 anos, os dois criavam a sua banda, os Pantera Metal Magic. Bem ao género do glam, entre a maquilhagem e as guitarras aceleradas, lançaram-se com Rex Brown no baixo e Terry Glaze na voz para as primeiras gravações. Editaram a expensas próprias Metal Magic (1983), Projects in the Jungle (1984) e I Am the Night (1985), mas nunca encontraram uma editora que os contratasse e, por isso, o sucesso era improvável.

Mas chegaram Master of Puppets e Phil Anselmo. «Percebemos no primeiro ensaio. Nunca tinha estado com uma banda tão coesa. Foi incrível», recordou o vocalista ao documentário que o canal VH1 dedicou à banda. A oportunidade não tardaria. Primeiro tornaram-se celebridades do underground texano e rapidamente mereceram a visita de Scout Mark, da ATCO Records, que foi a Dallas para os ouvir atuar numa festa de aniversário. Viu três músicas e saiu da sala. «No final perguntaram-me por que razão tinha saído ao fim de três músicas. Disse-lhes que estava ao telefone com o chefe a sugerir que assinássemos com eles imediatamente», contou no mesmo documentário.

Com Cowboys From Hell e o nome da banda já na sua forma mais curta e definitiva, dá-se a primeira verdadeira digressão na companhia dos Suicidal Tendences. «Chamamos-lhe a digressão de matar ou ser morto. E nós matámos», contou Vinnie Paul ao VH1. Mas se nessa altura os Metallica cimentavam a fama transgressora com o consumo de bebida à cabeça, também nos bastidores os Pantera se moviam a uma velocidade acima do normal e os comportamentos excessivos acompanhavam o ritmo da feroz guitarra da Dimebag, o maior animador das atividades extracurriculares da banda (e em pouco tempo alcoólico de pleno direito). Mesmo sendo o motorista de serviço durante a digressão, Dimebag impressionava pela capacidade de tocar o seu melhor quando o álcool já quase o impedia de falar ou andar.

Rapidamente a bebida de eleição ganhou uma alcunha: Black Tooth Grin, o nome de uma música de Countdown to Extinction, dos Megadeth, que designa uma mistura de aguardentes com Coca-Cola. Em 1992, um ano depois de os Metallica terem abrandado com o álbum preto, os Pantera voltaram a subir de tom com Vulgar Display of Power.

«Não havia quem nos conseguisse chegar. Continuávamos a ficar mais coesos e cada vez mais pesados», contava ao VH1 o baixista Rex Brown, sobre a escalada da banda ao topo da hierarquia do metal. Em palco, onde Dimebag começava a conquistar o estatuto de estrela e onde Anselmo não se cansava de incitar à violência entre o público, ou nos bastidores, os Pantera julgavam-se invencíveis. Um erro.

Um disco... tranquilo?

«Vivíamos um dia de cada vez e sabia que ao vivo atuávamos com todo o coração. Em concerto, demos sangue, suor e partimos ossos pelos nossos fãs. Mas nunca pensei que nos tornaríamos numa banda gigante, foi uma surpresa quando aconteceu», conta-nos Anselmo. Fã do black metal do norte da Europa, dos Black Flag ou dos Anal Cunt, Anselmo já tinha os I Hate God entre as suas bandas favoritas, um grupo onde «sempre couberam sons muitos diferentes, até punk e, seguramente, muito hardcore».

Hoje com 45 anos, considera que se mantém «basicamente o mesmo». «Sempre fui um explorador de música, era isso que fazia há vinte anos e é o que faço hoje. Estou é mais velho e sensato, mas cuidado... continuo bonito», refere, antes de assumir que também o gosto musical se tem tornado mais tranquilo. «Em miúdo ouvia tudo o que fosse progressivo. À medida que fui crescendo, as bandas foram ficando mais complexas e com um som mais complicado», recorda quem assistiu ao «crescimento do movimento hardcore, como o do heavy metal, que não parou de gerar subgéneros atrás de subgéneros». «Mesmo uma banda como os Slayer, ao longo dos anos foi tendo uma abordagem muito diferente à música.

Basta ouvir o Reign In Blood, que tem um som bem mais simples que outros discos. É preciso ter a minha idade para perceber, mas é giro porque no início ou se era hardcore ou heavy metal e não gostávamos de misturas." Anselmo, que hoje assume gostar de música calma «Gosto do bom pop dos anos 80. Na altura não ouvia porque andava nos Judas Priest, mas hoje oiço U2, Smiths e muito Bowie, adoro». Não se fez conhecido pelo temperamento amistoso. E nas gravações de Far Beyond Driven a máquina já estava muito próxima de sair dos eixos.

«Lembro-me de uma das ideias chave, o disco tinha de ser mais pesado do que o Vulgar.... Eu só não sabia como era possível fazer tal coisa», confessava Terry Date, produtor de serviço. Anselmo conta que tudo aconteceu com naturalidade. «Estávamos muito confortáveis com nós próprios, todos com o mesmo plano de jogo em mente e a cumprir o nosso papel muito bem. Aconteceu tudo muito naturalmente, a música era honesta, quase como tivesse de acontecer», diz quem usa o mais insuspeito dos adjetivos para descrever a gravação daquele que será, facilmente, o disco mais agressivo que pousou no primeiro lugar da Billboard para Anselmo, em estúdio foi tudo «tranquilo».

Maldita heroína

Cá por fora, o cenário avizinhava-se pouco animador. Além da explosão do grunge ter aparentemente condenado o metal à extinção, os Metallica tinham entrado, em 91, no seu período menos acelerado. «O resto da banda viu os Metallica de Black Album como uns vendidos, estavam macios e comerciais. Já eu achei o disco bom. Mas tínhamos a perfeita noção que muitas das bandas heavy metal de sucesso iam adotar uma postura mais comercial. Eu nunca iria por esse caminho e todos o sabiam. Tínhamos fãs muito fiéis que queriam sempre um disco mais pesado que o anterior e não os iríamos desiludir. Fizemos o oposto dos Metallica e ainda hoje, ouvindo o que está no disco, me surpreende onde chegou», conta.

Onde chegou? «Quando o Far Beyond Driven apareceu no primeiro lugar da Billboard não acreditei. Pensei que me estavam a mentir, a falar de outro top qualquer ou de outra banda. Mesmo quando o manager me ligou a contar nem percebi bem o que significava. Foi mais de um milhão de cópias vendidas em menos de uma semana. Ainda hoje não sei o que pensar».

Com músicos e entourage entretidos entre consumos quase sobre-humanos de álcool, em 1995 Phil Anselmo começava a jogar num campeonato diferente dos companheiros de estrada. Queixando-se de dores nas costas, reforçou a dose de álcool consumido e rapidamente a heroína se tornou no analgésico de eleição. «Comecei a gostar muito. Descobri que a heroína me atordoava tanto que a dor desaparecia por completo. Foi como por um penso num cancro», contou ao VH1. Com um disco da coluna fraturado e com a lesão a alastrar, os prognósticos médicos apontavam no mínimo a um ano de paragem, algo a que Anselmo nunca se predispôs. Perdeu o controlo. Apagões em palco, lutas com seguranças, com polícias, espetadores e, em Montreal, discursos racistas.

Em março de 1995, na promoção de Far Beyond Driven, Anselmo perdeu-se num discurso de elogio à raça branca, onde acusava os rappers negros de apelarem ao homicídio de brancos. Não contente, ainda ofendeu o chefe da equipa de segurança, composta exclusivamente por negros («Diz aos pretos para pararem de olhar para mim»). A polémica instalou-se. Duas fãs da banda, negras, tentaram ir aos bastidores confirmar o teor das afirmações, mas não foram recebidas e acabaram por escrever uma queixa à Warner. Anselmo pediu desculpa publicamente e em entrevista à MTV teve de voltar ao tema. «Tenho amigos de todas as religiões e credos. E acredito que há anormais de todas as cores. É assim que penso e quem não pensar assim está enganado», dizia o vocalista que, sobre o facto de se ouvirem gritos a apelar à supremacia branca nos seus concertos, dizia apenas: «não sou eu quem grita, os miúdos gritam o que querem».

Anselmo estava a mergulhar numa espiral insondável. Nas gravações de The Great Southern Trendkill (1996), gravou em Nova Orleães enquanto Dimebag, Vinnie e Rex se deixaram ficar pelo Texas. Se em disco a engenharia de som disfarçou a disfuncionalidade da banda, em palco chegou o primeiro colapso num concerto em Dallas, no Texas, Anselmo sofreu uma overdose, tendo ficado cerca de cinco minutos sem qualquer batimento cardíaco.

Quatro anos depois seguir-se-ia Reinventing Steel, o último disco de originais dos Pantera, o disco que hoje considera ser o seu «favorito», mas que à época assinalou o fim do grupo. A digressão de promoção foi interrompida depois do 11 de setembro e nunca mais Anselmo se voltaria a cruzar com os irmãos Abbott. Começando por dizer que precisava de descansar e de recuperar as costas, o vocalista afastou-se, mas rapidamente começaram a surgir notícias e discos dos seus projetos paralelos: Down, Superjoint e Ritual. Em 2004, foi a vez dos irmãos Abbott voltarem ao trabalho, desta vez, como Damageplan e o primeiro disco de originais, A New Found Power. «Foi estranho para os fãs. Queriam osPantera», confessou ao VH1 Vinnie Paul. A história entraria, em pouco tempo, para as páginas mais negras da história da música.

Cinco tiros e um fim

Em dezembro de 2004 altura em que supostamente já estaria livre da heroína e em vésperas de ser operado às costas , Anselmo aparece na Metal Hammer a dizer que «Dimebag merecia ser violentamente espancado». Mesmo tendo-se defendido publicamente dizendo que a declaração havia sido tirada de contexto, o guitarrista respondeu-lhe, por carta, com um corte de relações. Dias depois, a 8 de dezembro, Dimebag era morto, com cinco tiros, no arranque de um concerto dos seus Damageplan.

No dia em que se se completavam 24 anos do homicídio de John Lennon em Nova Iorque e, alegadamente, por responsabilizar o guitarrista pelo fim dos Pantera, Nathan Gale, ex-militar de 25 anos, subiu ao palco do Alrosa Villa, em Columbus (Ohio), de pistola de 9 milímetros em punho, matando quatro e ferindo, com tiros no peito e pernas, um quinto membro da equipa da banda antes de ser abatido por um polícia. Nos dias seguintes, Anselmo ainda voou para Dallas para assistir ao funeral, mas foi Rita Haney, namorada de Dimebag, quem o proibiu de aparecer.

Se as famílias reais e as altas figuras de Estado têm direito a funerais com rituais distintos, também a realeza do rock assinala com brio a hora da despedida. No funeral de Dimebag Darrell não houve padre, nem cruzes no caixão. Na cerimónia fúnebre, falou Eddie Van Halen que, no caixão devidamente decorado com pinturas dos Kiss, colocou uma das suas guitarras mais carismáticas a utilizada em Van Halen II, com pintura negra e amarela. Outros amigos seguiram o exemplo e na altura de fechar o caixão já dezenas de garrafas de Crown Royal, uma das bebidas favoritas de Darrell, acompanhavam o corpo do guitarrista. Hoje, passados dez anos, as feridas continuam por sarar e a possibilidade de uma reunião não passa de uma hipótese remota.

«Nesta altura nem é possibilidade, não vale a pena falar nisso», diz o vocalista que não nega a «esperança» aos fãs, mas assume não saber «se algum dia acontecerá». «Seguramente, não seria o mesmo sem o Dimebag e às vezes penso que deveríamos deixar os Pantera em paz. Mas os fãs têm sido muito importantes no nosso crescimento e estamos a falar de 20 anos... há uma geração inteira que nunca teve a oportunidade de nos ouvir. Se quiserem muito, podemos ter de lhes fazer a vontade... Não sei, tenho sentimentos contraditórios», confessa o vocalista para quem a missão de um eventual substituto nunca seria fácil. «O Dimebag era mais que um grande guitarrista. Ao vivo tinha uma grande atitude, uma personalidade incrível. A sua presença em palco seria muito complicada de duplicar», diz quem tem a certeza que o final dos Pantera foi tragicamente precipitado.

«Havia alguma exaustão no final. Éramos uma banda de digressão, se não estávamos na estrada estávamos a gravar. Além disso, eu já estava metido em várias bandas e, por isso, sempre a trabalhar. Se o Dimebag Darrell estivesse vivo, acredito, com todo o meu coração, que ainda tocávamos e que, quem sabe, teríamos um novo disco». A celebrar vinte anos do seu maior sucesso, nenhuma outra banda de Anselmo se aproximou da casa decimal das vendas dos Pantera.

O dono da voz que cantou «Fucking Hostile», «Walk» ou «Five Minutes Alone» gaba-se de ter «os melhores fãs do mundo» e afirma gostar de Portugal «com uma ou outra banda, hei de voltar». Sobre os Pantera, «os músicos mais talentosos com quem toquei», revela o segredo da fórmula: «a musicalidade era de topo. Tínhamos culturas musicais muito diferentes, todos gostávamos de um estilo específico. Essa diversidade misturada e afinada num resultado que agradasse a todos fez algo de especial. Os Pantera eram a tempestade perfeita». De uma dessas nunca ninguém escapará ileso.

Texto: Filipe Garcia

Publicado originalmente na revista BLITZ de maio de 2014.