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Quando os Cure se vestiram de negro (outra vez)

De regresso a Portugal em novembro deste ano, os Cure em tempos juraram que Disintegration seria o seu último disco. Não foi mas, para muitos, é o seu último clássico. Lançamos lançou luz sobre um dos mais amados conjuntos de canções dos anos 80

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Excessivo, desenfreado e, simultaneamente, perfecionista e obcecado por controlar todos os passos da gravação de um disco: era assim que, no final da década de 80, o eterno líder dos Cure se apresentava, em entrevistas que deixavam desnorteada a imprensa que com Robert Smith chegava à fala. Entre depressões «combatidas» com o consumo de LSD e precoces crises de meia-idade, o músico que Tim Burton podia ter desenhado encontrava tempo para introspeções certeiras. Em entrevista à revista inglesa Q, no ano em que Disintegration foi lançado, comunicou a sinopse perfeita para a banda que criara em 1976: «Não quero parecer convencido nem nada, [mas] já estive em pelo menos cinco grupos diferentes desde que faço parte dos Cure. Fui de tudo punk, gótico, psicadélico, pop», enumerou então.

«Foi óptimo mostrar que os Cure sabem fazer singles pop. Agora regressámos àquele tipo de música atmosférica que fazíamos no Faith [1981]. Mas o que interessa saber sobre os Cure é que nós existimos isolados. Não estamos a competir com ninguém. Um dia havemos de parar. Mas nunca seremos substituídos».

Tímido crónico, Robert Smith não era poupado na forma como defendia o seu reino, nem que para tal tivesse de atacar a «vizinhança». Sobre os Smiths, por exemplo, confessava à revista Sky, em 1989: «Odeio os Smiths e tudo o que eles já fizeram. Têm uma noção de que são muito importantes, algo que não existe nos Cure. O Morrissey é caprichoso, afetado, superficial, desligado e um milhão de outras coisas que nem vou dizer». Os (já então) dinossauros Elton John e Dire Straits eram outros alvos a abater por uma banda que, na visão do despenteado líder, transportava consigo a atitude punk da época em que dera os primeiros passos.

«Ainda me sinto como quando começámos, no punk. O que fazemos é uma alternativa não aos Bros [boys band inglesa] mas ao Chris Rea e a esses sacanas que existiam então e ainda existem hoje. É tão embaraçoso ver essas pessoas a arrastarem-se, como os Dire Straits. São odiosos. Aposto que já devem ser pessoas diferentes, escondendo-se atrás de máscaras de látex».

Mais do que uma alternativa aos tubarões da indústria, porém, os Cure representavam, em 1989, uma alternativa a si mesmos, ou ao som que haviam cunhado nos últimos três discos. Entre 1984 e 1987, os álbuns The Top, The Head on The Door e Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me mostraram ao mundo uma versão mais exótica («Birdmad Girl», «The Caterpillar»), luminosamente pop («In Between Days», «Close To Me») e hiper-romântica («If Only Tonight We Could Sleep», «Just Like Heaven»). O mundo, que na altura ainda comprava discos com fartura, agradeceu, fazendo dos Cure uma banda de primeira linha.

Em 1989, o ano em que Disintegration desafiou a descrença da editora Polydor, a revista Q escrevia que, depois dos milhões de exemplares vendidos com Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me, os Cure eram «enormes, próximos do estatuto de Michael Jackson». Estavam reunidas as condições para um suicídio comercial, pensou então, com naturalidade, Robert Smith.

"Disintegration", 1989

"Disintegration", 1989

UMA OBRA-PRIMA ANTES DOS 30 ANOS

Fã de David Bowie e Nick Drake, Robert Smith vivia atormentado com uma ideia: e se chegasse aos 30 anos sem uma obra-prima digna desse nome? Em 1989, os Cure já tinham sete discos editados e, como pai da banda e único músico constante nas suas várias encarnações, Robert Smith teria motivos suficientes para se orgulhar da frescura pós-punk da primeira vaga de Three Imaginary Boys, do poço retinto de Pornography ou da incrível explosão pop do duplo Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me, só para referir alguns dos mais díspares pontos da sua discografia. Mas para alguém que desde os 13 anos dava por si «obcecado com o envelhecimento, a morte e a decadência», os 30 anos podiam muito bem ser o fim.

Disintegration seria, nesse caso, o último testamento de Robert Smith, um dos poucos ícones da sua geração que não conheceu, desde então, um fim trágico ou um apagamento mediático embaraçoso.

Em estúdio, Robert Smith procurou criar «um ambiente ligeiramente desagradável», e acabou por não ter de se esforçar muito: Laurence «Lol» Tolhurst, que conhecia desde os 5 anos e pertencia aos Cure desde o primeiro dia, exasperou os companheiros de banda com a sua apatia e embriaguez.

«Estava sempre bêbedo e a ver a MTV», é a queixa mais comum nos vários relatos dessa época. Tolhurst acabaria por ser expulso da banda, para não mais voltar. E para o seu próprio bem, justificava-se Robert Smith ao St Louis Post Dispatch em 1989: «O Simon [Gallup, baixista] tê-lo-ia atirado de uma varanda [se não o tivéssemos despedido]. E aí ia ter o meu melhor amigo na prisão e o Lol morto. Foi bastante mais fácil para ele sair da banda».

Enquanto Lol Tolhurst se divertia com a programação da MTV e o fundo da garrafa, Robert Smith e comparsas (à época: o fiel Simon Gallup; Porl Thompson na guitarra; Boris Williams na bateria e Roger O'Donnell nas teclas) procuravam um som que devolvesse aos Cure a «profundidade» perdida. Explicava Smith à Sky, há 21 anos: «Não quis passar seis meses com a ideia de que éramos um grupo a fazer um álbum pop. Quis envolver-me em algo muito mais profundo, com muitas emoções, em vez de algo superficial como o Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me. Este álbum é um regresso ao lado mais atmosférico dos Cure, que temos vindo a negligenciar. É música que não há-de passar muito na rádio, música que não vais ouvir se entrares numa loja de roupa». Estava errado, claro, apesar de a editora ter tremido de medo com este prenúncio de fracasso.

A POP AO FUNDO DO TÚNEL

Fortemente assente no som de sintetizadores e com músicas de quase dez minutos, Disintegration não era o álbum mais amigável ou imediato que os Cure podiam fazer em 1989. Mas, graças a uma veia pop que Robert Smith nunca conseguiu, ou quis, aniquilar, o oitavo longa-duração dos Cure tornou-se o seu disco mais bem sucedido de sempre, transformando os ingleses num grupo de estrondoso sucesso nos Estados Unidos, o mais importante mercado do mundo, tradicionalmente vedado à grande parte das bandas britânicas. «Não obstante todos os meus esforços, acabámos por tornar-nos tudo aquilo que eu não queria: uma banda de rock de estádio», lamuriou-se Robert Smith, garantindo que o batismo do disco não foi acidental: «Chamar-lhe Disintegration [Desintegração] foi tentar o destino, e o destino retaliou. Depois de Disintegration, a ideia do grupo como uma família desabou. Foi o fim de um período dourado».

«Culpadas» pelo êxito de Disintegration - anos mais tarde presença regular em numerosas listas de melhores discos dos anos 80 - foram não só a devoção da base de fãs dos Cure como a fineza das melodias de «Pictures of You», sobre o dia em que Smith decidiu queimar todas a fotos do seu passado; «Lovesong», uma prenda de casamento para a mulher a seu lado desde a adolescência, ou «Lullaby», inspirada nas histórias sinistras que o pai do pequeno Robert lhe contava ao adormecer. «Para ser sincero», diria à Sky, «esperava que o álbum fosse muito mais inaudível do que é. Por muito medonha que tentemos que a nossa música seja, sai-nos sempre melodiosa. Fico sempre muito frustrado com a nossa incapacidade de escrever o que quer que seja sem uma melodia mas, olhando para trás, julgo que provavelmente foi isso que impediu que nos tornássemos insuflados».

Por muito distanciamento que Robert Smith tentasse ter do fenómeno pop, a música intensa e emocional que os Cure produziam em 1989 atraía a atenção de todo o tipo de fãs. «Gravitam em nosso redor pessoas que não estão bem e que me colocam no papel de terapeuta. Dão-me o diário de pessoas que se mataram, diários cheios de mim, mas não sou eu, é só uma fotografia ou uma canção (...). E depois os amigos acham que, se se matarem, eu também leio os diários deles», desabafava à Sky.

Ainda assim, e numa altura em que prometia que Disintegration seria o último álbum dos Cure (seguiram-se, até 2009, mais cinco), Robert Smith não negava o papel de aconchego e partilha que atraiu gerações para a sua música. «Numa situação mais emocional ou séria, as pessoas ou se juntam a ti ou se sentem desconfortáveis. Se alguém estiver a chorar num funeral, umas pessoas são capazes de ir confortá-lo, enquanto outras não sabem como lidar com aquilo. Penso que as pessoas que gostam dos Cure são o tipo de pessoa que iriam confortá-lo».

Publicado originalmente na revista BLITZ de agosto de 2010.