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John Lydon já foi Johnny Rotten e hoje é um ser humano (e faz 60 anos!)

O agitador dos Sex Pistols celebra hoje 60 anos de vida. Em 2013, numa longa entrevista com a BLITZ, falou com Lia Pereira sobre a infância pobre mas afetuosa, as diferenças entre fazer música hoje e na década de 1970 e, acima de tudo, a sociedade que continua a observar de forma acutilante

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

No ano passado voltou a gravar com os PiL. É verdade que os problemas com a editora fizeram com que estivesse 20 anos afastado da música?

É verdade. Não me libertavam da editora mas, ao mesmo tempo, não me financiavam, o que me deixava numa situação de «preso por ter cão, preso por não ter». Foram tempos muito difíceis. Mas, ao contrário de muita gente, não caí em auto-comiseração ou numa paródia induzida por drogas. Para mim, a vida é uma atividade de longo curso.

O facto de terem editado este disco de forma independente fez com que tivessem de tratar vocês mesmo da promoção? Foi muito complicado?

Sim, tão difícil que quase ficámos danificados a nível mental. Tivemos de fazer tudo e controlar todos os aspetos, para nos certificarmos que as coisas ficavam bem feitas. Mas essa é a piada da coisa: o trabalho duro é muito recompensador. E sentimos que valeu muito a pena, pois estamos muito orgulhosos do álbum que fizemos. Claro que tive de angariar dinheiro de alguma maneira, já que não tive ajuda de ninguém. E então coisas maravilhosas aconteceram.

Refere-se ao anúncio a uma marca de manteiga, pelo qual foi muito criticado...

Ainda que me tenham acusado de todo o tipo de coisas más, não vejo que seja vergonha nenhuma promover produtos britânicos para o público britânico. Manteiga: as pessoas comem, eu adoro, basta olhar para o meu corpo para perceber isso! (risos) Não se pode fazer um bom caril sem manteiga! E não estava propriamente a publicitar pensos higiénicos. Na verdade, quis [promover] um produto que se relacionasse diretamente comigo. E [os representantes da marca] trataram-me com o máximo de respeito; deram-me toda a abertura para eu inventar o guião que quisesse... e eu inventei! Foi uma ótima experiência de trabalho e ajudou-me a arranjar dinheiro para voltar a juntar os PiL, da forma mais maravilhosa possível.

A participação nesse anúncio foi o pretexto para uma certa humilhação da sua figura nos media...

Hoje em dia gira tudo à volta dos paparazzi e do deitar as pessoas abaixo. Há muita inveja por aí e as minhas canções falam disso, dos sete pecados mortais, porque é isso que a natureza humana contempla além de coisas belas, também. Temos de ter noção que já não estamos no Jardim do Éden. E há canções no disco sobre isso, como a «Reggie Song». Tem a ver com regressar ao Jardim do Éden, a esse local e esse estado de espírito, onde não queremos mal a ninguém e onde tratamos da nossa comunidade e dos outros seres humanos. Onde ajudas os marginalizados e não te perdes com a ganância e o egoísmo. Estes são os princípios que eu sempre defendi, mas agora estou a declará-los na totalidade, porque encontrei as canções certas para ilustrarem a mensagem da melhor forma.

Em junho vai regressar a Portugal com os PiL, para um concerto no Porto. Esteve por cá em 2008, com os Sex Pistols, no festival Paredes de Coura...

Conheço mais ou menos bem Portugal - e é um país fascinante. Estou encantado por voltar e espero conseguir fazer com que as pessoas prestem atenção à importância da música ao vivo, face ao estado atual da música. Por ter estado afastado da esfera pública durante tanto tempo, sinto que estou a travar uma luta para que as pessoas percebam: eu estou a lutar contra o sistema e estou a ganhar! No geral, as pessoas não estão interessadas na verdadeira rebelião nem nos mistérios da criatividade humana. Hoje em dia, a maior parte da música é manufaturada para o download na internet. E por isso não é nada inspiradora - eu não consigo gostar de ouvir um robô.

Mas refere-se ao facto de muitos artistas pensarem mais em termos de singles do que em álbuns?

Espanta-me é que se lance o que quer que seja! Parece que está tudo direcionado para se fazer o mínimo, com o menor esforço possível. Eu adoro a criatividade dos concertos ao vivo; faço discos para poder dar concertos e, quer seja em formato single ou álbum, ideias não me faltam. Um concerto dos PiL é uma coisa muito orientada para a família, onde público e banda partilham um papel muito importante. É uma área só de amigos.

O concerto vai passar por todas as fases da vossa carreira?

Sim, vamos tocar músicas novas e antigas: um set variado, para mostrar o alcance da criatividade na minha vida. Porque a história dos PiL é a minha história, a história de como eu aqui cheguei. A minha vida já existia antes dos Sex Pistols e continua a existir depois deles. Pelo meio, houve muitas reviravoltas e histórias dolorosas para contar, mas também muitas histórias alegres, e todas elas se transformaram, de forma poética e maravilhosa, em música. Somos a banda mais interessante que há ou já houve. Musicalmente, em palco, não há quem nos bata.

NATUREZA SIM, RELIGIÃO NUNCA

Já disse que os PiL têm mais a ver consigo artisticamente, ao passo que os Sex Pistols eram mais uma expressão de rebelião juvenil...

Os Sex Pistols foram o começo. Foi aí que aprendi a escrever canções. E até o fazia bem! (risos) Foi um começo muito bom e saudável! Mas, hoje, entendo que o espírito da verdadeira rebelião não se alcança pela violência. É pelo coração e pela alma, e é isso que os PiL demonstram. Não podes mudar as outras pessoas, se não conseguires mudar-te a ti mesmo. E a mudança tem de ser sempre para o melhor. Os meus inimigos nunca foram seres humanos; os meus inimigos são todos os governos, todos os políticos, todas as instituições, todas as religiões, porque roubam a nossa identidade, tiram-nos a individualidade.

Todas as religiões, sem exceção?

Todas. São todas criações do Homem, logo, não têm interesse, porque respeitam muito pouco a Natureza. São todas máquinas de fazer dinheiro.

Mas é um fã da Natureza? Já apresentou programas sobre tubarões e insetos...

Da Natureza natural sou fã, sim senhor. Qualquer coisa que viva entusiasma-me. Do inseto mais pequenino à maior besta, tudo me fascina. Adoro a sua força de vida e sinto por eles uma ligação e uma identificação instantâneas. Enternece-me a sua força para viver e sobreviver. Se venerasse alguma coisa, seria a própria Natureza. E retiro muita inspiração dos seres vivos ao meu redor.

Sempre teve essa curiosidade toda, mesmo em criança?

Provavelmente não. Quando era miúdo, íamos muito à quinta, na Irlanda, e lá não havia eletricidade. Para uma criança que tinha crescido numa grande cidade como Londres, era quase tortura. Mas aprendi a desenvolver um interesse pela Natureza e a não afastar-me de coisas que estivessem fora da minha norma. A vida na cidade pode ser muito autodestrutiva. Eu continuo a viver na cidade, mas a minha alma e o meu coração estão nos bosques. Não quero viver lá, porque é aí que andam os animais e não quero roubar o seu espaço.

E agora vive numa grande metrópole, que é Los Angeles...

É verdade, há anos que a polícia correu comigo de Inglaterra. Mas não me sinto americano! Sinto-me um membro do Planeta Terra. Sou irlandês, fui criado em Inglaterra, vim para a América, a minha mulher é alemã, a minha família é muito inter-racial: os meus netos são da Jamaica, do lado do meu irmão há chineses... encontras todas as raças possíveis e todas as coordenações humanas possíveis. Gosto da piscina de ADN bem misturada, penso que funciona bem, para a raça humana. Sou contra o separatismo.

Contudo, já o acusaram de ser racista...

É ridículo. É tudo o que não sou! (risos) É muito estranho os meus alegados inimigos conspirarem e acusarem-me de coisas que são o completo oposto daquilo que sou. Funciona quase como um elogio, por ser tão absurdo. Se não conseguem lembrar-se de mais nada, então é apenas profundamente ridículo.

É casado com a mesma pessoa há 30 anos. Um compromisso desses exige muito trabalho?

Exige, sim, mas sempre que te comprometes com alguma coisa, na vida, tens de honrar esse compromisso. Houve bons e maus momentos, mas se tomaste aquela decisão original [de te casares], então é porque sabes que foi o passo certo. Gosto tanto da minha Nora como no primeiro dia que a vi e isso nunca vai mudar. Já estamos a passar para o outro lado dos 50 anos, mas eu vejo-me como tendo 50 anos de juventude e não de idade [no original: 50 years young and not old]. Nós os dois temos a filosofia de viver o mais que pudermos, porque o céu é aqui na terra. Os anjos somos nós.

Voltando aos Sex Pistols, o que lhe parece que tem hoje, enquanto músico, que não tinha na altura?

Quanto mais vives, mais aprendes. E quanto mais aprendes, mais aberto ficas à sabedoria. Enquanto escritor de canções, acho isso muito entusiasmante, porque contribui para alargar o meu universo. É muito difícil ter uma visão completa da realidade aos 18 anos. Tens mais certezas, mas menos factos (risos). Nos meus verdes anos, inspirei as minhas canções nos marginalizados. As canções eram algo políticas e antigoverno. Hoje já consigo lidar com aspetos mais latos da humanidade. A vida é uma série de passos, e a cada passo ficas mais acima na escada. A sabedoria é isso.

Foi aprendendo mais sobre si mesmo, também...

Sem dúvida: eu sou o meu crítico mais severo. A autoanálise é muito importante. Não preciso de pagar a um psiquiatra para fazer isso; não sou assim tão americano! (risos) Aqui toda a gente faz terapia. Mas, se estás a pagar [por uma consulta], no fundo estás é a pagar para que os terapeutas te elogiem, o que é uma tolice. Ou para te ouvirem a desbaratar. Penso que é a solidão que te leva a isso - é a parte mais triste de viver na cidade. Muitas pessoas encaixadinhas, todas a viver no mesmo sítio, mas todas sozinhas.

HONESTIDADE, O PECADO DOS TEMPOS MODERNOS

Nos tempos dos Sex Pistols a banda causou uma grande polémica e agitação social. Hoje em dia, o que seria capaz de gerar um efeito semelhante?

A honestidade! Os media hoje respeitam o que eu faço, mas têm muito medo daquilo que o conteúdo realmente quer dizer. Em vez de lidarem com isso, como faziam, preferem ignorá-lo. Tenho uma mente muito aberta, mas estou muito atento àquilo que os meus inimigos são e sou bastante claro quanto a isso, o que significa que sofro muita tortura nos aeroportos. Quando viajo entre países, já sei que é a mim que me vão revistar e chatear. Mas já estou numa posição em que até desejo que isso aconteça. Se os agentes de imigração querem ver o meu rabo, força. É um rabinho muito jeitoso e estão à vontade (risos).

Já não sinto esse tipo de atividade como uma invasão pessoal. E, à luz das bombas e do terrorismo, percebo que faça parte. Não creio que alguma coisa que já fiz tenha prejudicado qualquer ser humano. Quer goste quer não, continuo a ser controlado pela Interpol, e no que toca aos media, penso que me tratam um pouco melhor porque sabem que sou destemido. Sou um guerreiro e não vou baixar as armas, mas não uso a violência as minhas balas são as palavras.

Sei que tem muito orgulho nas suas letras...

Adoro escrever e a oportunidade de colar palavras e música é a forma mais honesta que tenho para comunicar. É uma autêntica revelação: desde que comecei os PiL que adoro, honestamente, o meu trabalho. Nunca achei que a palavra escrita fosse suficiente, porque há certas experiências na vida que não se ficam pelas palavras. Há tons, sons e sequências dramáticas nas notas que podem ajudar a emprestar um rigor incrível à palavra escrita.

Teve o privilégio de nascer com esse dom?

É um dom? Penso que é aprendido. Um ofício, uma coisa que estudei. Não nasci com uma auréola (risos). Eu venho das barracas, do mais baixo e mais pobre dos pobres. Mas não vejo isso como sinal de negatividade. Saí do meu gueto e decidi bem cedo na vida que não queria ser ladrão, não queria roubar. Quis ser honesto e aberto com toda a gente à minha volta. Não sou o Sting, a pregar-te uma treta qualquer. Sou um homem, com as suas experiências de vida verdadeiras.

Mas sei que aprendeu a ler e a escrever muito cedo, por exemplo...

A minha mãe prestava-me muita atenção, porque eu adorava desenhar, pintar e escrever. Adorava a forma das letras! E, quando via a minha mãe a ler uma carta, ficava fascinado: queria saber como é que ela fazia isso. E ela ensinou-me, por isso, antes de ir para a escola, aos cinco anos, já sabia ler e escrever. Acredito que, quando nascemos, somos todos esponjas, prontos a absorver conhecimento. Os maus pais é que podem atrofiar essa necessidade de crescimento e desenvolvimento.

E a sua mãe tinha tempo para prestar atenção a todos os filhos?

Sim, eu tinha três irmãos mais novos. A minha mãe olhava por mim e eu olhava por eles, porque ela esteve doente durante boa parte da sua vida. Eu adorava tomar conta deles; era das minhas tarefas favoritas. Quando era miúdo fui expulso da escola, por ser uma criança problemática, pois fazia demasiadas perguntas. Trabalhei nas obras para prosseguir a minha educação e, com essa educação, aprendi a tomar conta de crianças problemáticas. Aos 17 anos. Eu! E o meu emprego seguinte foram os Sex Pistols.

Onde também tomava conta de outras pessoas...

Sim! (risos) Passei de uns problemas para outros!

CONTRA O SISTEMA, MARCHAR MARCHAR

Já o vi dizer que acha os adolescentes de hoje mais cruéis do que no seu tempo.

São muito mais cruéis, hoje. Quando era miúdo, as crianças eram rijas e a vida era dura. Mas nenhum de nós tinha grande coisa e, por isso, não sofríamos com inveja ou ganância. Toda a gente tinha a mesma coisa, ou seja, bastante pouco. Seria um ambiente saudável. Ao crescer, vendo televisão, percebi que a publicidade passou a controlar tudo, e a publicidade é sempre dirigida aos mais miúdos, o que manipulou as crianças para serem incrivelmente egoístas. E esta é uma grande tragédia que vi desenrolar-se ao longo das últimas décadas. As crianças querem ser adultas antes do tempo, vemo-las a serem roubadas de nós. Será possível recuperar alguma sanidade? Sim, claro mas tem de ser feito de forma inteligente. Temos de ter programas infantis que sejam mais interessantes que os anúncios. Aliás, devemos analisar os anúncios para crianças e mostrar-lhes que estão a ser usados. Se os deixarmos perceber isso sozinhos, teremos um mundo melhor. Somos todos vítimas do pensamento «corporate».

E mais: quando eu era miúdo, nunca estávamos em casa enquanto os nossos pais não chegavam do trabalho. Andávamos todos malucos pelas ruas, mas não com o mesmo tipo de atitude violenta e confusa que hoje predomina. A mim, isto parece-me um retrocesso. Há uma canção no disco, chamada «One Drop», que fala disso. Sinto toda a solidariedade pelos adolescentes que estão a crescer, porque passei pelo mesmo e ainda não me esqueci do que é ser criança. Não os culpo a eles, mas sim ao sistema, que os vitimiza, adotando estas caricaturas da vida.

Acredita que muito disso passa pela importância do comércio e da publicidade?

Naqueles motins em Inglaterra, que inspiraram a canção, vias crianças muito jovens a roubar Samsungs e televisores de 16 polegadas, porque viram os anúncios e pensaram: porque é que eu não tenho um? Porque se calhar não precisas! (risos) Mas o seu pensamento limitado e a educação que têm de suportar atrofia-lhes o raciocínio. E o hip-hop tornou-se uma caricatura: os miúdos matam-se uns aos outros por sapatilhas, t-shirts com nomes de marcas, jeans de estilistas e bonés de hip-hop, e acreditam que isso fará deles pessoas mais espertas ou mais espetaculares. Depressa percebem, porém, que isso não é verdade, e aí tornam-se ainda mais violentos, porque descobrem que lhes mentiram. São vítimas! E, por isso, adoro-os e quero ajudá-los. Isto tem tudo a ver com quererem vender-nos coisas de que não precisamos.

E o velho Johnny Rotten não embarca em modas, quer criar a sua própria cena...

Por isso é que eu era uma criança tão difícil - porque não usava o uniforme da moda corrente. Eu adoro roupa, não vou mentir, mas posso vestir-me de uma maneira hoje e de outra completamente diferente, amanhã. Gosto de misturar as coisas e divertir-me e não quero ser escravo de qualquer sistema. A arte do indivíduo: essa tem sido a minha mensagem consistente. Foi assim que comecei com os Sex Pistols, declarando: isto sou eu, ninguém se parece comigo, se veste como eu ou pensa como eu! Infelizmente muitas bandas colaram-se e tentaram fazer exatamente o mesmo que nós, imitando-nos, o que foi uma tontice. O único punk que resta é o Johnny Rotten e cá estou eu: diferente como sempre!

Acha que falta individualidade às bandas de hoje?

Sem querer denegrir o hip-hop, a verdade é que é um género que não cria a sua música, rouba os beats a outras áreas, quer ostentar riqueza e usar joias caras. Para mim, são só bazófias. O heavy metal e os outros géneros querem ser e soar todos ao mesmo. O punk moderno, como Green Day, não é punk, de todo, é «corporate» punk. Completamente manufaturado e construído para te roubar o dinheiro da carteira.

Há algum artista atual de cuja música goste?

Adoro muita coisa, nunca deixei de comprar discos. Embora as lojas de discos estejam todas a fechar, ainda me associo a elas, quando as encontro. Apoio-as e financio-as. Hoje em dia é quase um ato de caridade, mas penso que é muito importante fazê-lo, porque as bandas novas precisam de ajuda. Vão ouvir os discos delas! Caso contrário, a música vai tornar-se completamente manufaturada. De momento é semi-manufaturada, mas não quero viver num mundo onde só haja a Beyoncé e o Jay-Z. Gosto do que eles fazem, mas também gosto de outras coisas. Para mim, o melhor da vida é a variedade.

Sei que tem uma grande coleção de discos. Em vinil ou CD?

Mais vinil, mas também CD. O meu gira-discos é a única coisa em que alguma vez gastei dinheiro para mim mesmo. Não tenho passatempos caros. É isso e fazer música. Para mim, estar parado durante duas décadas, sem poder fazer música, foi de partir o coração. Por isso, a todos os detratores que agora vêm dizer mal dos PiL: onde estavam eles quando eu precisei de ajuda? Ninguém fez nada por mim. E eu não lhes tenho rancor, mas agora posso provar que isto pode ser feito, com um pouco de paciência. E, desde que não sigas a teoria do Pete Townshend de «espero morrer novo», podes mesmo sobreviver. Para mim, desperdiçar a dádiva da vida... isso sim, é um pecado.

Fala em pecado, mas é contra a religião...

É tudo uma batalha interna. O Bem e o Mal estão dentro da tua cabeça. Acredito que todos nascemos naturalmente bons, e depois aprendemos a ser maus.

Acredita em Deus?

Hum, acredito no pecado? (risos) Quando roubas alguma coisa a alguém, isso para mim é pecado. Não o vejo como conceito religioso, mas parece-me uma boa palavra para usar em termos de valor. E se valorizas a tua própria vida, não devias estar a retirar [nada] da vida de outrem, seja de que maneira for. Penso que isso se reflete na música que crio: as tapeçarias sonoras que uso são originais, não são baseadas no trabalho de outra pessoa. Penso que isso acontece porque arranjei uma forma de canalizar os meus pensamentos para a música, porque tenho a banda mais excelente do mundo para trabalhar comigo.

Atualmente é o único membro original dos PiL...

Eu fui sempre o único membro original da banda! (risos) Fui eu que a criei, a financiei e a sustentei. Isto há quase 30 anos. Sou o papá! (risos) E tem sido uma experiência incrível, porque todas as pessoas eu já passaram pelos PiL lançaram carreiras a solo excitantes, o que é ótimo. Claro que algumas têm inveja, mas isso é da natureza humana, e o meu papel é tentar arranjar uma forma de os seres humanos se livrarem da inveja, o que é complicado, porque há muita gente que nasce para repetir sempre os mesmos erros o que considero ser a definição de insanidade.

Só me consigo dar com pessoas que têm bom coração, até perceber o contrário. Dos membros dos PiL, o Lu [Edmonds] e o Bruce [Smith] são aqueles que conheço há mais tempo. São os meus melhores amigos, naturalmente. E o Scott [Firth], o baixista, encaixa-se perfeitamente, de forma instintiva. Adora os filhos, adora a vida, é uma pessoa hilariante. E além disso sabe tocar, o que também é bom, mas para mim as outras coisas são mais importantes, porque a música boa vem de uma boa observação da vida e de uma atitude saudável.

Quando percebe que as pessoas afinal não têm assim tão bom coração, fica muito desapontado?

Sim, e também já escrevi canções sobre isso. Tento sempre adotar o ponto de vista de que posso tê-las despontado, que talvez seja um problema partilhado, [o que me parece preferível] a apontar o dedo a outros seres humanos. Essa é a forma mais saudável de lidar com isso. Neste mundo temos de dar e receber, e por muito que possamos acusar outro ser humano de ser portado mal, devemos perceber que somos capazes de ter exatamente o mesmo comportamento. Por isso, temos de julgar os outros com leveza. Mesmo que façamos os mesmos erros numa escala diferente, isso mostra o mesmo grau de desprezo pelos outros seres humanos. Temos de ter em mente que nenhum de nós é perfeito. Mas é engraçado, porque os meus melhores amigos discordam totalmente disto. E damo-nos muito bem precisamente por causa disso.

O HOMEM DOS SETE INSTRUMENTOS (INCLUINDO CHAVE DE FENDAS E MARTELO)

Sei que faz as suas próprias compras e arranja a sua própria casa de banho...

Mas isso é comportamento de senso comum! Como já disse, cresci a trabalhar nas obras. Tenho a ideia de «homem dos arranjos» inculcada na minha estrutura. Não quero isolar-me dos outros seres humanos. Espanta-me que as pessoas tornem as suas vidas tão complicadas, dissociando-se daquilo que faz delas aquilo que são, ou seja, a humanidade. Se abandonares a humanidade, tornas-te uma diva ou uma criatura desprezável. E até um inimigo público, porque te estás a separar dos outros e isso é um comportamento desprezível. Quando não estou a trabalhar, sou uma pessoa normal. Mas é claro que, quando estou em palco, temos de ter pessoas que impeçam o público de arrancar os fios do chão, porque os fãs ficam tão excitados que nem sabem o que estão a fazer. Parecem crianças malucas!

Dá para perceber que foi animada a digressão pela Ásia...

Na China, sim, porque nunca ninguém vai lá. E, se vão, chegam com um desprezo tão odioso por eles! Posso dizer-te que muita gente ficou furiosa com a Björk, porque queriam estabelecer uma indústria discográfica, lá, fora do alcance do Governo, e educar as pessoas quanto à música que se passa no estrangeiro, investigando também a sua própria cultura. E quando a Björk foi lá e se pôs a gritar: Tibete, Tibete!, no fim dos concertos, o Governo interveio, fechou a indústria discográfica chinesa e meteu muita gente na cadeia! Para ela está tudo muito bem, na sua sabedoria estrangeira, mas no fundo não entende o mal que fez. Estas pessoas estão a lutar pela sua liberdade mental, não só no Tibete mas em toda a China. Não podes escolher uns em detrimento dos outros; tens de saber quando e como usar uma causa, e não andar a atirá-la pelo ar, como quem atira um pano molhado a um touro. Ela não vive lá, não tem de lidar com as consequências. Temos de ter muito cuidado de forma a não fazer do público o nosso inimigo porque não o é.

O que pensa da prisão das jovens russas das Pussy Riot?

Pff! Há gente que gosta de religião. (risos) E ir para uma igreja fazer malandrices mostra alguma infantilidade e tolice. Mas é a partir do momento em que pessoas como a Madonna começam a envolver-se que o Governo acha que tem de tomar medidas fortes. Como tal, elas são vítimas do apoio da Madonna. Ela pode continuar toda contente, na sua idiotice americana, enquanto as miúdas têm de cumprir uma longa pena de cadeia. Desconfio sempre quando as estrelas pop apoiam estas causas e radicalizam as questões de uma forma «nós contra eles». Não percebem o que estão a fazer nem investigam bem os assuntos. Ataquem os governos, façam-no diretamente, mas não usem outras pessoas para isso. E essa é a diferença entre Johnny Rotten e estes tolos.

E nisto uma das raparigas foi mandada para a Sibéria...

Por estranho que pareça, o nosso guitarrista vive na Sibéria, ofereceu-se para isso! (risos) Os PiL são assim mesmo, uma banda invulgar! Vivemos espalhados por todo o planeta e estamos sempre em movimento.

Cada vez há mais gente a emigrar, a abandonar a Europa.

Parece-me interessante que as pessoas andem a calcorrear o planeta. Claro que os racistas vão dizer que isso é negativo, mas eu acabo de chegar da China, de Xangai, onde há uma população europeia enorme. Vivemos tempos muito bons: intrigantes e interessantes porque, quanto mais mudamos de sítio, mais aprendemos a partilhar. E mais aprendemos sobre os outros: eu percebi que somos todos muito semelhantes. E podemos apreciar as diferenças culturais. Essa é a natureza aqui do Johnny: cresci num bairro com muita mistura. Nos meus primeiros anos de música, o cenário eram muitas culturas, e isso para mim isso resultou muito bem. Fez de mim uma pessoa de mente aberta, desde muito cedo. O pior é quando os pais não mostram às crianças o que está certo, e elas crescem com uma mente fechada. Isso depois, anos mais tarde, é muito complicado de abrir. Devemos sempre atribuir a culpa dos pecados desta geração à anterior.

Para terminar: o que lhe pareceram as reações à morte de Margaret Thatcher?

Nunca, mas nunca, concordei com uma palavra que fosse que a Margaret Thatcher tenha dito. Nunca na vida. Mas, depois de ela morrer, não vou dançar na sua campa. Não vou celebrar a morte de outro ser humano. Que mensagem estão estas pessoas a passar a quem ainda é vivo? Para mim, parece-me despeito infantil. Se não conseguiram derrotá-la quando era viva, não tentem derrotá-la depois de morta. É tão errado! Os vossos filhos estão a ver-vos a comportarem-se assim, e estão a passar esse ódio e esse desprezo aos outros seres humanos, só por diferenças políticas. Temos de fazer o sistema funcionar, e a violência e o ódio nunca vão resolver nada.

E eu já estou a sofrer as consequências disto, em Inglaterra sou acusado de ser fã da Thatcher, um disparate sem lógica, de pessoas que nunca cresceram. É patético. Por muito má que ela fosse, eu aprendi com os seus erros e gostava que a Grã-Bretanha também tivesse aprendido. O ADN diz-nos que, de uma maneira ou outra, estamos todos ligados. É importante manifestarmos estes sentimentos humanos em relação a outros. Não andamos nesta vida para fazer inimigos, muito pelo contrário. Planeta Terra: todos os membros aceites.

Todos os que têm bom coração?

Mesmo os que têm mau coração. Porque não existe a «maldade», só existem pessoas marginalizadas e sem opções. Se deres ao teu inimigo opções, ele há de escolher as respostas certas. Estou a ser otimista, eu sei, mas eu sou assim mesmo, tenho a mente aberta. Acredito em tudo o que me dizem, até que se prove não ser assim. E aí deixo de os ouvir. Tenho fé que toda a gente é capaz de acertar.

Publicado originalmente na revista BLITZ de junho de 2013.