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Bruce Springsteen, Lisboa, 01.05.93: 40 mil pessoas vestidas de ganga

O Boss regressa a Portugal este ano para um concerto no Rock in Rio, tempo para recordar a primeira passagem do músico norte-americano pelo nosso país.

«Uma sombra passa pelo palco, de guitarra acústica na mão. Assim, em plena luz do dia, sem avisar. 40 mil pessoas vestidas maioritariamente de ganga estavam nessa altura ainda à procura do melhor local para se situar ou a conversar com o parceiro. Até que os primeiros acordes de "Darkness On The Edge of Town" se fazem ouvir. A sombra não era um "roadie", era Bruce Springsteen "himself". E só passados alguns segundos, o povo reagiu. Bem, diga-se de passagem. E com um calor enorme. Tanto ou tão pouco que, para aí duas horas depois durante «Hungry Heart», no primeiro encore e com toda a gente a cantar em coro uma fã mais afogueada ofereceu um sutiã ao Patrão».

Assim começa o jornalista António Pires, nas páginas do então semanário BLITZ, o seu relato do final de tarde/princípio de noite de 1 de Maio de 1993, décimo nono Dia do Trabalhador do pós-25 de Abril, um Portugal já habituado a concertos de estádio aliás, um Portugal em pleno fulgor dos concertos de estádio, com Alvalade a tornar-se o teatro preferencial de Tina Turner, U2, Pink Floyd e outros figurões da música popular dos últimos 40 anos. Um ambiente fervilhante, com «charros diligentemente enrolados em casa a rodar pelos amigos», reparava Rui Monteiro em apontamento «comportamental» na mesma página.

Springsteen vinha a Portugal trazer aqueles que a história consideraria, provavelmente, os dois álbuns menos inspirados da sua carreira Lucky Town e Human Touch, editados de uma assentada na Primavera de 1992. Mas em 1993, o Boss já era o Boss e os (então) vinte anos de percurso discográfico faziam mossa nessa audiência de, sublinhava o BLITZ, ganga anil vestida.

Prossegue António Pires: «Depois de um intervalo de meia hora, e já com noite fechada sobre o estádio, Springsteen regressa, de farpela nova, e logo no segundo tema põe os espetadores aos pulos com "Because The Night", a canção que escreveu para Patti Smith. "Human Touch" [tema-título de um dos álbuns novos] aquece pouco. Ao contrário, "The River" é ouvido por entre milhares de silvos de isqueiro e transforma-se num dos momentos mais bonitos da noite». O que se seguiu tem contornos de consagração: passagens triunfais por «Glory Days» e «Born To Run» («espalha eletricidade») e, por volta da meia noite e trinta e cinco minutos, «toda a gente parecia satisfeita», saindo de cena um Springsteen transpirado - de novo Pires - «sempre com aquele seu jeito de guerreiro da guitarra e D. Quixote do rock'n'roll».

Horas antes, a reportagem da RTP assistia ao «sound check» e registava uma curta entrevista com o músico norte-americano que, assinalava o pivot do Jornal de Sábado, Henrique Garcia, «estava nervoso» - procure no Youtube por «Springsteen + Portugal». «Estou sempre um bocado nervoso», assumia Springsteen. «É mais ansiedade. O palco é o sítio onde, nesta fase, exponho a minha vida. Quem sou, o que tenho feito, por onde tenho andado. É sempre um bocadinho assustador», afirmava o cantor, óculos de sol postos, por entre imagens de correria desenfreada na altura da abertura de portas e um apontamento de três jovens em desafinada cantoria de «The River». «É que eu conheço-o desde pequenina», afirmava uma delas.

Publicado originalmente na revista BLITZ de setembro de 2010.