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Arcade Fire no Super Bock Super Rock 2007

Rita Carmo

Arcade Fire: Pelos caminhos de Portugal

Estrearam-se entre nós no verde de Paredes de Coura e passaram duas vezes pelo Super Bock Super Rock. Em 2013, ainda sem saber que regressariam no ano seguinte para um concerto no Rock in Rio, recordámos as passagens de Win Butler e companhia pelo nosso país. O regresso está marcado para julho, no NOS Alive

Win Butler e Régine Chassagne casaram-se em 2003 e foi no dia a seguir ao segundo aniversário de casamento que a BLITZ encontrou o vocalista e líder incontestado do grupo, recém-chegado à Praia Fluvial do Taboão, em Paredes de Coura (no dia anterior, confessar-nos-ia Butler, o casal celebrarara com um passeio pelo Porto, viagem de barco no Douro e «uma das melhores refeições da minha vida»).

O calendário marcava 17 de agosto de 2005 e, dizia a BLITZ pela pena de Ana Markl, os Arcade Fire já não eram «um segredo cristalino contado entre dentes». Horas mais tarde, 20 mil pessoas aplaudiam a banda de Funeral, a que acresceriam outras milhares que, através da SIC Radical, acompanhavam o festival minhoto (pena que, logo no início, um promotor mais irado tenha - rezam as crónicas - cortado o som de palco para o «feed» televisivo).

Nesse início de noite de verão, num cartaz encabeçado pelos veteranos Pixies, os novatos foram reis e senhores. Arrancaram com «Wake Up» e só pararam ao fim dos quase 10 minutos de «Rebellion (Lies)», deixando para trás um alinhamento imaculado que já contava com a antiga (mas ainda por editar em formato longa-duração) e antológica «No Cars Go».

Já com Neon Bible no bornal, os Arcade Fire regressariam a 3 de julho de 2007, para um concerto integrado no elenco do festival Super Bock Super Rock, então realizado no Parque Tejo, em Loures. Cite-se a reportagem BLITZ: «dez minutos volvidos sobre a meia-noite, a numerosa banda do Québec (que incorpora metais e cordas, para além de baixo, bateria, teclados, guitarras e percussões diversas) dava início a uma actuação de quase uma hora e meia pontuada por um número elevadíssimo de pontos altos».

O primeiro ponto saliente deu-se logo a abrir: «uma notável rendição de "Black Mirror", um dos documentos mais enérgicos de Neon Bible». Win Butler e companhia tratariam depois de atacar «No Cars Go» («o tema antigo que, recauchutado, se tornou ex-libris do novo álbum»), Régine Chassagne tomou o microfone para «Haiti» e a bateria em «The Well & The Lighthouse» e «Ocean of Noise», passando a maior parte do tempo atrás dos teclados. «Rebellion (Lies)» suscitou «braços abertos em direcção ao céu e um ambiente incrivelmente tocante» e, em despedida, «Wake Up». Nesse momento dizia a BLITZ «banda e público do Super Bock Super Rock parecem uma só entidade».

18 de novembro de 2010 deveria ter sido a data da estreia portuguesa dos Arcade Fire em concerto de sala (a hoje denominada MEO Arena, com capacidade para mais de 20 mil pessoas, era o lugar), mas a coincidência da data com uma cimeira da NATO em Lisboa levou, depois de uma «novela» prolongada, ao cancelamento do espetáculo. O regresso dar-seia novamente no verão, a 15 de julho de 2011, novamente em regime festivaleiro, desta vez no relocalizado Super Bock Super Rock, agora fixado no Meco. A banda trazia o terceiro álbum, The Suburbs, e o estatuto indisputável de maior nome do festival. A enchente era inevitável, como reportava a BLITZ: «atravessar o recinto do festival minutos antes de os Arcade Fire começarem a tocar é uma experiência que imaginamos similar a alguns exercícios de treino militar».

Menos surpreendente que as experiências nacionais anteriores, a primeira aventura dos Arcade Fire abaixo do Tejo fez-se com volume de som pouco potente e definição aquém do ideal. Ainda assim, os quatro anos de ausência levariam a uma «comunhão impressionante de cânticos, palmas, letras decoradas e gritos de comoção» e Win Butler disse mesmo que Portugal «devia dar cursos de como ser um bom público» aos outros povos.

O deficiente aparato sonoro fazia, porém, alguma mossa e a reportagem BLITZ realçava que «para que o diálogo ecuménico acontecesse com sucesso, convinha ouvirmos mais do que a voz dos acólitos». Mais impressões de 2011: «Win Butler, Régine Chassagne e Richard Reed Parry, só para mencionarmos os principais "pregadores" dos canadianos, deixam o escalpe em palco e pouco ou nada lhes poderá ser apontado em termos de esforço ou empenho. Acontece que "Keep The Car Running", "Crown of Love", "Intervention", "We Used To Wait", "Month of May" e todas as "Neighborhoods" do saudoso Funeral se sucederam sem que alguém conseguisse (tentasse?) acertar o som de palco».

A despedida dos Arcade Fire do Meco fez-se ao som de «Sprawls II (Mountains Beyond Mountains)», mas foi com «Wake Up» e, dizíamos então, «o coro guardado nas gargantas tanto tempo, solto por fim, rumo ao céu sem estrelas do Meco» que os Arcade Fire levaram de vencida mais uma contenda em terras nacionais.

Publicado originalmente na revista BLITZ de novembro de 2013.

Os Arcade Fire regressariam em 2014 para um concerto no Rock in Rio-Lisboa.