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Rita Carmo

Esta Lisboa que eles amam

A capital portuguesa já não é apenas um atrativo destino turístico. Começa igualmente a ser eleita como base para músicos estrangeiros como Panda Bear, Marcelo Camelo ou Sonic Boom, o ex-Spacemen 3

Peter Kember, que o mundo também conhece como Sonic Boom, membro fundador dos míticos Spacemen 3 e produtor, por exemplo, dos mais recentes trabalhos de Panda Bear, está neste momento a ultimar as questões logísticas que lhe permitirão mudar-se para a capital portuguesa. «Ainda estou à procura do local ideal em Lisboa e arredores. Um sítio para onde eu possa expandir as minhas atividades de estúdio», revela o produtor. «Estou muito interessado em tornar o equipamento que colecionei ao longo das décadas mais disponível para as pessoas», explica ainda Kember.

O músico inglês, que ao longo dos anos colaborou com projetos musicais como Stereolab ou Yo La Tengo, é a mais recente adição a uma crescente e variada comunidade de músicos estrangeiros que elegem Lisboa como local ideal para viverem. Outros artistas, como o norte-americano Noah Lennox, membro dos Animal Collective que grava como Panda Bear, ou o brasileiro Marcelo Camelo, artista a solo e parte integrante da luso-brasileira Banda do Mar, já se encontram estabelecidos na capital há algum tempo, assumindo Lisboa como base das suas operações internacionais e interagindo em diferentes graus com a realidade local.

Helena Espvall, violoncelista e vocalista suecoamericana que foi membro da banda folk Espers e cuja carreira tem ligações a gente como Vashti Bunyan ou, entre outros projetos, Damon and Naomi, é outro elemento da crescente comunidade de músicos estrangeiros residentes em Lisboa. «Mudei-me para Lisboa em 2012», conta a violoncelista. «Apaixonei-me pela cidade à primeira vista quando toquei na Galeria Zé dos Bois, em 2006, com alguns dos outros membros dos Espers, a banda em que me encontrava na altura. Regressei em 2007 e logo aí percebi que um dia haveria de me mudar para esta cidade. Demorou uns anos, mas cá estou eu».

Jerry The Cat, percussionista e vocalista de Detroit, que atualmente integra os Loosers e Gala Drop, é outro músico norte-americano que se encontra perfeitamente integrado na vida artística da capital. Essa vida artística, aliás, é invocada por Helena Espvall e pelo próprio Peter Kember como razões fundamentais para as suas opções de vida no que a local de residência diz respeito. «Penso que a cena experimental de Lisboa é fantástica», assegura Espvall.

«Tem músicos incríveis que são também boas almas». A violoncelista, que recentemente tocou com David Maranha e Norberto Lobo na Sociedade Guilherme Cossoul, refere ainda a variedade de locais para concertos: «a ZdB foi a minha primeira casa e sinto-me muito bem sempre que toco lá. O Desterro é um local novo, muito cool. E o Palácio Pombal é lindíssimo». Helena refere ainda a quantidade de espaços abandonados e revela alguma estupefação perante o facto de os mesmos demorarem a ser recuperados. «Não é fácil ganhar a vida aqui», prossegue a ex-Espers. «Tanto para músicos como para as pessoas em geral, tanto para os estrangeiros como para os portugueses. Escolhi uma altura difícil para me mudar para aqui», conclui.

«Os portugueses ficam sempre surpreendidos quando um estrangeiro manifesta vontade de se mudar para aí», explica Peter Kember que adianta razões para a sua opção: «a posição geográfica dá-lhe uma luz brilhante e espantosa e talvez os mais bonitos poresdo-sol que já vi. O campo e a costa são belíssimos e um pouco selvagens. E depois há as pessoas, simpáticas e cheias de charme». Kember conhece bem Portugal e revela que tem visitado o país desde criança, em viagens com os seus pais.

Mais recentemente, o trabalho com Panda Bear trouxe-o por vários períodos até à capital. «Parece existir aí uma cena vibrante e já temos ligações com o pessoal de Gala Drop e da produtora Filho Único».

Peter Kember admite usar essas ligações para interagir com músicos locais. Para já, no entanto, a sua principal ponte com a capital tem sido Panda Bear. «Ele já fala a língua», adianta o músico britânico referindo-se a Noah Lennox, que não se coibiu, aliás, de centrar as atividades de promoção do seu mais recente trabalho, Panda Bear Meets the Grim Reaper, na cidade de Lisboa, assumindo-a como a nova base da sua carreira. «Já estive em apartamentos na zona da Bica, Bairro Alto e Príncipe Real e é nessa área que tenho andado à procura. Pode ser que uma casa ou até um edifício interessante apareça».

Originalmente publicado na BLITZ de maio de 2015