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Janis: Little Girl Blue

Um diamante em bruto chamado Janis Joplin

Janis: Little Girl Blue, o documentário estreado no final de 2015, prova que a vida de um dos grandes ícones dos anos 60 continua a reverberar. Aquando da reedição de Pearl, Mário Rui Vieira contou as aventuras e desventuras de uma das primeiras artistas a ver o nome inscrito no famoso - e trágico - Clube dos 27

Quando, a 4 de outubro de 1970, Janis Lyn Joplin deu o último suspiro, ainda o mundo estava a recuperar do choque da morte de Jimi Hendrix. O músico de «Purple Haze» ascendera à categoria de mito apenas 17 dias antes. Ambos tinham 27 anos e rapidamente se juntaram a Brian Jones naquilo que viria a ser conhecido mais tarde como o Clube dos 27. Conhecida como Pearl entre os amigos, Joplin chegou a ver-lhe colado o epíteto de primeira rainha do rock and roll mas o facto de se ter tornado cantora foi uma mera coincidência. «Não estava assim tão interessada em cantar, para dizer a verdade. Tive algumas oportunidades mas não levava nada a sério. Era apenas uma miúda, só queria divertir-me».

Foi com estas palavras que a artista norte-americana assumiu a David Dalton, jornalista que escrevia para a revista Rolling Stone, em entrevista dada poucos meses antes da morte da cantora, que o seu percurso ao serviço da música não tinha sido o mais óbvio, nem sequer algo programado. «Ninguém esperava que eu me tornasse cantora», explicava em 1968 à revista britânica Melody Maker. «Os meus pais queriam que fosse professora de sociologia mas até há uns anos era uma completa falhada».

Se em palco era um verdadeiro portento, fora dele Joplin era vista no início da sua curta, mas fulgurante, carreira como uma rapariga tímida, pensativa e sem grande noção daquilo que o futuro lhe poderia trazer. Leitora compulsiva, a artista nascida e criada na pequena cidade de Port Arthur, no conservador estado do Texas, refletia na forma como se entregava à música a grande maioria das suas influências eram oriundas do campo da soul uma adolescência conturbada.

Segundo a mãe, na infância necessitava de mais atenção que os dois irmãos mais novos. E na escola, devido especialmente a problemas de peso e ao facto de se isolar num mundo pessoal sempre artístico, era alvo de chacota por parte dos colegas. «Fui criada no Texas, meu, e era uma artista e tinha todas estas ideias e sentia todas estas coisas que ia buscar aos livros e o meu pai falava comigo sobre isso e eu inventava poemas e coisas dessas. E, meu, era a única assim que havia na altura. Não havia outros. Não havia ninguém em Port Arthur», recordava descontraidamente Janis, no verão de 1970, a Dalton, que a acompanhou na estrada por diversas vezes e se tornou depois seu biógrafo.

«Havia duas senhoras velhotas que faziam aguarelas e pintavam naturezas-mortas. Eram as únicas». Do meio desta solidão, Joplin estendia a mão ao pai, a quem dizia dever muito. «Era um intelectual às escondidas, um leitor de livros, um conversador, um pensador. Ele era muito importante para mim porque me fazia pensar. É a razão de eu ser como sou, acho eu. Costumava conversar comigo mas quando fiz 14 anos deixou de o fazer, talvez quisesse um filho inteligente ou algo assim e não consigo perceber porquê».

Dois anos depois da morte de Janis, o pai, Seth Joplin, recordava a infância da filha ao jornal «underground» inglês International Times: «ela era muito reservada. Passou tempos difíceis no liceu. Insistia em vestir-se e comportar-se de forma diferente e os colegas odiavam-na por isso. Não havia ninguém com quem ela se pudesse identificar ou com quem pudesse falar. Foi uma das primeiras adolescentes revolucionárias de Port Arthur».

Uma paixão pela soul

Em 1968, Janis Joplin via em Tina Turner, então metade do duo Ike & Tina, um dos grandes exemplos a seguir. «Neste momento, a Tina Turner é a minha maior influência», confessava ao Melody Maker. «Vi-a há pouco tempo e percebi que é aquilo que tento fazer. Ela entra em palco e aaaagh, atinge-te em cheio. É isso que eu quero fazer. Não há qualquer outro significado, só quero tentar dar prazer às pessoas». Era a soul que vivia nela. A paixão nascera ainda durante a adolescência. «Aquilo que faço é produto da minha própria cabeça, não da minha cultura», explicava, «Não cresci de pés descalços a ouvir negros cantar nos campos de algodão ou esse tipo de coisas».

Foi por volta dos 15 anos que Joplin se deixou conquistar pelos dotes folk e soul de Lead Belly, lendário cantor do Louisiana falecido no final dos anos 40. «Pensei: ora aí está o tipo de música que eu quero, certo?». Ao longo do tempo apaixonou-se por outros nomes que a ajudaram a construir-se enquanto artista de palco.

«Acredito fortemente na magia. Voaria de um lado ao outro do país para ver o Otis [Redding] nem que fosse apenas durante dez minutos. Iria ver o Little Richard a qualquer lado, iria ver a Tina onde quer que fosse, porque eles trabalham, eles acontecem, são elétricos, são excitantes, transpiram por ti. Caramba, são tão bons, meu. Adoro-os, simplesmente», diria a determinada altura ao International Times.

No final da adolescência, Janis, cada vez mais enamorada por Lead Belly e Bessie Smith, aprenderia a tocar guitarra e, já na universidade, começaria a tocar em troca de álcool. «Só queria ser uma beatnik. Apanhar mocas, ter sexo, divertir-me. Foi sempre isso que quis. Sabia que tinha uma boa voz e que conseguia sacar umas bebidas à custa disso», explicou em entrevista a Dalton depois de assumir que nunca quis «ser cantora quando crescesse».

Trocaram-lhe as voltas quando tinha perto de 20 anos. Devia estar a aplicar-se na universidade mas preferia atuar com a sua banda da altura, os Waller Creek Boys. «Costumávamos cantar num sítio chamado Ghetto e andávamos por aí a apanhar bebedeiras, a meter-nos em grandes confusões, a rebolar na lama, beber cerveja e cantar», contava a cantora antes de explicar que foi num bar chamado Threadgill, em Austin, que Chet Helms, fundador e agente dos Big Brother and the Holding Company, banda que anos mais tarde lhe traria a fama, a descobriu.

«O Chet ouviu-me cantar lá num fim de semana qualquer. Ele era famoso, era um dos loucos que conseguira escapar do Texas quando ainda era muito novo, aos 18 anos. Estava de volta à cidade a caminho da Costa Oeste todos os texanos voltam a Austin ouviu-me cantar e disse "aquela miúda é boa". Eu já queria desaparecer dali, mas não tinha coragem suficiente para me ir embora sozinha. O Chet estava de partida e disse-me que queria que fosse com ele para o ajudar com as boleias. Fomos de boleia em boleia até São Francisco». Não foi, no entanto, nessa altura que a carreira de Janis começou: continuava a não levar a música a sério e acabaria por se ver envolvida em problemas com drogas duras que a levariam de volta ao Texas.

A história da relação com os Big Brother and the Holding Company era contada pela própria com um toque de comédia, mas o biógrafo de Janis descobriria que o mito era apenas meio-verdade. «Uma noite depois de um concerto, estava em casa de alguém e um ex-namorado meu, o Travis Rivers, apareceu e pegou em mim. Atirou-me para a cama e fodeu-me até eu cair para o lado! Na manhã seguinte virou-se para mim e disse: "vai buscar as tuas roupas, parece que vamos para a Califórnia". E foi assim que me foderam até entrar para os Big Brother», contava Joplin.

À fala com Rivers, mais tarde, Dalton ouviria a verdade: «nunca questionei a história, mas encontrei o Travis e ele disse-me que a história como-eu-fui-fodida-para-entrarpara-os-Big-Brother era inventada como forma de lhe agradecer». Na verdade, a cantora terá telefonado a Rivers para lhe contar: «acabei de dizer ao David Dalton que tu me fodeste para eu entrar para os Big Brother. Portanto não me parece que tenhas grandes problemas em arranjar sexo agora, querido».

Janis: Little Girl Blue

E nascia uma estrela

Foi a viver novamente em São Francisco que Janis Joplin reencontrou Chet Helms, o manager dos Big Brother que terá enviado Rivers até Austin para tentar convencê-la a juntar-se à banda como cantora principal.

«Por acaso apanhou-me no momento certo e eu vim para cá, sem saber, para fazer parte de uma banda», confidenciou a artista a Dalton. A adaptação a um mundo que agora era dominado pelo rock and roll não teria sido fácil se a cantora não se tivesse deixado levar pelo som da bateria.

«Estava cheia de medo. Não sabia como cantar aquilo, nunca tinha cantado com bateria, só cantava com uma guitarra». A primeira experiência de palco com a banda aconteceu no Avalon Ballroom, em São Francisco, em junho de 1966, e foi ali que as estrelas se alinharam. «Eles tocaram algumas músicas e depois disseram: "agora queremos apresentar-vos..." e ninguém tinha ouvido falar de mim. Era apenas uma miúda, não tinha roupas da moda nem nada disso, usava aquilo que levava para a faculdade. Entrei em palco e comecei a cantar. Uau! Que trip! Uma trip de droga ao vivo, meu. Não me lembro de nada, só da sensação. Gostei tanto que acabei por dizer "acho que vou ficar, rapazes"», recordava.

A estrela nasceu naquele preciso momento. «Eu não planeava nada disto. Não planeava sentar-me em camarins frios para o resto da minha vida, nem sequer sabia que isso podia acontecer. Mesmo quando já cantava nunca quis ser uma estrela. Só gostava de cantar porque era divertido», assumia Janis em 1970, num momento em que ainda não acreditava no sucesso. «Ainda não aceitei. Não posso dizer que sou uma estrela. Eu conheço-me, já ando por aqui há algum tempo. Era mais nova e mais inexperiente, mas era a mesma pessoa com os mesmos objetivos e com tomates e com o mesmo estilo. Era a mesma miúda, porque sou essa miúda desde sempre e conheço-a, ela não é uma estrela é solitária ou é apenas boa nalguma coisa».

O grande salto para o sucesso aconteceria um ano depois de pisar o palco pela primeira vez com os Big Brother. No mítico Monterey Pop Festival, Joplin e a sua banda atuariam ao lado de nomes como Jefferson Airplane, Jimi Hendrix ou The Who e conquistariam a plateia e a organização do evento, que os convidaria a repetir a dose no último dia do festival.

Um mês depois, o álbum de estreia, Big Brother and the Holding Company, chegaria às lojas (incluía os temas «Bye Bye Baby» e «Down on Me»). O sucesso do concerto no Monterey foi tal que em novembro desse ano Janis e os Big Brother and the Holding Company assinariam um contrato com a editora Columbia Records e entregar-se-iam nas mãos de Albert Grossman, que na época tinha Bob Dylan entre os seus agenciados. Em 1968, o projeto já respondia pelo nome Janis Joplin and Big Brother and the Holding Company e a atenção dada à cantora começava a causar um certo mau estar no seio da banda. Cheap Thrills, o segundo álbum do projeto, contaria com o afinco da cantora e o sucesso de temas como «Piece of My Heart» ou «Summertime» levá-lo-ia ao primeiro lugar da tabela de vendas norte-americana.

Em setembro desse mesmo ano, Joplin anunciava que estava de saída da banda.

A morte inesperada de Pearl

Depois de se separar dos Big Brother, Janis Joplin levou consigo o guitarrista Sam Andrew e reuniu uma série de músicos de estúdio para formar os Kozmic Blues Band. O novo projeto viajaria com ela até à Europa em abril de 1969 mas não duraria muito tempo: a imprensa considerava que os novos companheiros não estavam à sua altura e Janis voltava a ter problemas sérios com drogas duras, especialmente com a heroína. Um ano volvido e a banda separar-se-ia, pouco depois de o álbum I Got Dem Ol' Kozmic Blues Again Mama!, disco que albergava temas como «To Love Somebody» ou «Kozmic Blues», chegar às lojas.

David Dalton assume, num artigo publicado na revista Mojo em 2000, que não via Joplin há vários anos quando esteve com ela em Londres em 1969: «Da criança radiosa que eu conhecera em São Francisco, ela tinha passado a uma espécie de Rainha Vitória psicadélica. Esta era a Janis que o mundo conheceu como Pearl. As penas, os sinos e os sapatos altos sempre me pareceram demasiado maduros na Janis. A Pearl era a ideia que uma criança tinha de um adulto uma estrela de cinema».

Pearl ficaria para a história, ganhando uma personalidade própria, no derradeiro álbum de Joplin, gravado com a sua terceira banda, os Full Tilt Boogie. Captado entre 5 de setembro e 1 de outubro de 1970 sob a batuta do produtor Paul A. Rothchild (que trabalhara com os Doors nos primeiros cinco álbuns), Pearl seria apresentado numa extensa digressão. Os problemas pessoais de Janis pareciam ultrapassados quando, a 4 de outubro, o mundo era apanhado de surpresa pela morte da cantora.

Encontrada sem vida na sua casa em Laskspur, na Califórnia, Joplin deixaria o mundo de forma não só inesperada como enigmática, até hoje não se sabe bem se terá sido suicídio ou morte acidental. Na sua mão estavam quatro dólares e havia sinais de consumo recente de heroína, pelo que a autópsia concluiu que a morte de Janis tinha sido causada por uma overdose, possivelmente combinada com ingestão de álcool. Pearl, o álbum que inclui temas imortais como «Me and Bobby McGee», «Mercedes Benz» e «Cry Baby», veria a luz do dia a 11 de janeiro de 1971.

Pearl, um tesouro reeditado

Quarenta e um anos depois da edição original, Pearl, o derradeiro álbum de Janis Joplin, regressa às estantes das lojas numa versão intitulada The Pearl Sessions. Esta reedição especialíssima chega a Portugal no dia 16 de abril e junta material inédito descoberto recentemente, quando era preparada a edição comemorativa do quadragésimo aniversário do mítico álbum. Janis Joplin The Pearl Sessions inclui um primeiro disco com o álbum original reúne também alguns temas em mono, incluindo os singles «Cry Baby», «Get It While You Can» e «Me and Bobby McGee» e um segundo que junta gravações descontraídas de bastidores, com conversas sobre o disco, a maquetas e versões alternativas de algumas canções (ao todo, são nove faixas inéditas).

Publicado originalmente na revista BLITZ de março de 2012.