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João Ribas: o último dos moicanos

A edição de fevereiro da BLITZ oferece um CD acústico dos Tara Perdida. Há dois anos, Rui Miguel Abreu fez o currículo de João Ribas e Tim (Xutos & Pontapés) recordou um amigo

Obituário

«Punk até ao fim». Foi de forma unânime que João Ribas foi descrito pelos seus pares, que não duvidam que o líder dos Tara Perdida se manteve verdadeiro e coerente durante toda a sua carreira. A história de Ribas recua ao intenso período do boom do rock português quando, com João Pedro Almendra, criou os míticos Ku de Judas, colocando Alvalade como o terceiro vértice de um triângulo punk que, na zona da Grande Lisboa, poderia também passar pelos Olivais e pela Margem Sul. Os Ku de Judas deixaram material gravado na compilação Vozes da Raiva Vol. 3, só editada em 1997. Nessa altura, já os Censurados eram uma lenda. A banda nasceu em 1989 com João Ribas como vocalista (papel que assumiu ainda nos Ku de Judas, depois da saída de Almendra), Orlando Cohen, que vinha dos Peste & Sida, Samuel Palitos, dos Overdose, e Fred, dos Trip d'Axe. A estreia discográfica dos Censurados chegou a estar programada para a Ama Romanta, de João Peste, mas acabou por ser apadrinhada pela El Tatu, dos Xutos & Pontapés, que também editou o segundo álbum da banda em 1991, Confusão, título certamente inspirado no ambiente dos concertos que a banda costumava assinar em salas como o Johnny Guitar e que em muito contribuíram para o estatuto de João Ribas como showman.

Os Tara Perdida nasceram após a extinção dos Censurados, em 1994, no bairro lisboeta de Alvalade. O álbum de estreia desta banda chegou às lojas em 1996, editado pela Música Alternativa, selo que lançou ainda registos como Só Não Vê Quem Não Quer (1998) e É Assim (2002). Lambe Botas (2002) teve edição da Difference, e Nada a Esconder, de 2008, marcou a estreia da banda numa major, a Universal. Esta mudança levou alguns fãs a questionar a banda e, em 2009, numa entrevista concedida à BLITZ em que respondeu a perguntas dos leitores, João Ribas reafirmava a verdade do seu grupo: «continuamos a ser os mesmos, a fazer a música de que gostamos. As pessoas pensam que as malhas dos nossos primeiros discos são mais punk-rock, mas temos nesses discos coisas mais limpinhas do que algumas que andamos a tocar agora».

Os Tara Perdida despediram-se do seu vocalista com um comunicado oficial em que o descreveram como «um grande amigo, um grande parceiro, um grande coração». No último álbum que a banda lançou, Dono do Mundo (Sony Music, 2013), incluiu-se o tema «Lisboa» em que participa Tim. Aí, João Ribas canta «a hora está-se a aproximar» e «vou partir», palavras que adquiriram novo significado depois da sua morte, vítima de doença respiratória. João Ribas contava 48 anos.

Por Tim:

"Devo ter conhecido o João no Bairro Alto, já lá vai muito tempo. Nessa altura deveríamos andar a tocar com os Peste & Sida, com o Almendra, e foi por aí que conheci o João. Cheguei a vê-lo a tocar com os Ku de Judas, na margem Sul, mas foi já na fase dos Censurados que o conheci melhor. Penso que me dava mais com o Samuel (Palitos) e com o Fred (Valsassina), mas o João era uma presença constante e, depois, durante toda a fase do Johnny Guitar, tornámo-nos companheiros assíduos.

Fizemos muitos concertos juntos, bem como o disco de estreia dos Censurados, que o Kalú produziu - a nossa ligação era, por isso, muito direta. O João estava sempre presente nessa altura. O que era natural, porque revelou ser uma pessoa cheia de potencial, de energia e ideias, apesar de sempre ter carregado uma série de problemas que o faziam alhear-se ele tinha uma vida um bocado complicada, mas era sempre uma alegria estar com ele.

A criatividade do João manifestava-se muito na enorme facilidade que tinha em escrever canções, de falar de coisas concretas, sempre com um discurso coerente. Tinha esse enquadramento muito único, muito pessoal, foi uma coisa que me marcou. Sempre achei que ele tinha... como dizer? Talvez a melhor palavra seja mesmo «talento». Não há outra maneira para descrever essa qualidade que ele tinha e que se reconhecia. Esse talento manifestava-se na composição, nas opiniões, na maneira de estar.

Gostei muito de trabalhar com ele e com o resto da banda. Fizemos muitos concertos, algumas visitas ao estrangeiro. Lembro-me de estar com os Censurados em França, no festival Printemps de Bourges: foi a primeira banda que lá foi representar as novas tendências da música que se fazia em Portugal. Trabalhou-se muito e bem nesse tempo.

Eu achava que a música deles era fantástica, fizemos aquele primeiro disco, as primeiras tournées e divertimo-nos à grande.

O João era um verdadeiro militante e essa atitude também o ajudou muito ao longo da vida. Ele tinha um conceito pelo qual se regia e nunca se afastou. Foi sempre fiel à sua estética e foi isso que o ajudou a ser quem era. Penso que o reconhecimento generalizado dessas qualidades lhe valeu muito respeito. O João nunca abandonou a sua arte.

O percurso pós-Censurados, com os Tara Perdida, já foi por mim acompanhado de fora, com um certo distanciamento. Mas mesmo assim cruzámo-nos muito. Na Queimas das Fitas de Lisboa, por exemplo. O que me permitiu perceber que, com os Tara Perdida, o João estava outra vez no seu meio. E isso viu-se no percurso até este último disco, para o qual fui convidado gravei com eles o tema «Lisboa».

O Ribas era uma pessoa em que se podia confiar, tinha sempre boas ideias. Sentia uma grande familiaridade com ele, sentia-me seu igual: nunca discutimos; nunca foi necessário porque ele tinha os seus princípios, nunca tendo havido espaço para confusões.

O João tinha uma coisa fantástica: conseguia sempre aparecer numa altura qualquer com uma notícia boa para me dar. Mesmo naquelas fases mais difíceis dele. A última vez que estivemos juntos foi para fazer a gravação do vídeo do «Lisboa»... Toca-me pensar nisso. Gostei muito dessa colaboração e penso que ele também gostou. Ele tinha essa vontade de cantar alguma coisa comigo, por isso o nosso encontro foi muito bom. Lá está: o João voltou a aparecer com uma boa notícia para me dar. A última foi a banda que ele criou com uns miúdos, filhos de amigos, os Osso Ruído. Ele entusiasmava-se sempre muito com essas coisas. E esse entusiasmo contaminava-nos a todos.

Sempre que me via, o João fazia duas coisas: assobiava, com aquele trinado que só ele é que tinha, e depois mandava sempre uma piada - dizia que eu tinha uma nódoa na camisa, eu olhava para baixo, ele batia-me no nariz e chamava-me um nome qualquer. Eu caía sempre! Estávamos sempre nessa boa onda. Para acabar, importa dizer que o João cantava bem, tocava melhor, escrevia e interpretava muito bem e tinha uma presença ao vivo inesquecível. Era completamente dedicado à música" (depoimento recolhido por Rui Miguel Abreu)

Publicado originalmente na revista BLITZ de maio de 2014.