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Black Sabbath: Os pais da invenção

Voltam este ano à estrada para uma digressão de despedida. Em 2013, na altura em que regressavam aos discos, José Miguel Rodrigues recordou um percurso turbulento com um presente surpreendentemente vivo

Desde que o género surgiu, na transição da década de 60 para a de 70, muito se tem discutido em relação a qual terá sido o primeiro álbum de heavy metal de todos os tempos. Depois de ter sido usado durante séculos nos campos da química e da metalurgia na tabela periódica os elementos surgem divididos em metais leves e metais pesados, ninguém se atreve a refutar que o termo foi utilizado pela primeira vez na cultura pop pelo escritor norte-americano William S. Burroughs no seu romance de 1962 The Soft Machine, com o conceito a ser explorado mais a fundo em Nova Express, publicado dois anos depois. Musicalmente, o termo foi utilizado pela primeira vez para descrever os Humble Pie por Mike Saunders da Rolling Stone, sendo que a primeira banda a usar a expressão numa letra foram os Steppenwolf (em «Born To Be Wild»).

As certezas ficam-se por aí; durante muitos anos discutiu-se a génese do heavy metal enquanto estilo musical, com especialistas de vários quadrantes a «responsabilizarem» canções tão diversas quanto «Helter Skelter», dos Beatles, «You Really Got Me», dos Kinks, «Purple Haze», de Jimi Hendrix, «Wild Thing», dos Troggs, ou «In-A-Gadda-Da-Vida», dos Iron Butterfly. Todos esses temas assim como uma série de outros dos Grand Funk Railroad, dos Blue Cheer e dos Vanilla Fudge tinham, efetivamente, elementos em comum com aquilo a que, nos anos seguintes, se viria a chamar heavy metal. Nomeadamente, a guitarra elétrica e o poder sónico por ela projetado através dos amplificadores.

Hoje parece consensual que, musicalmente, o género só nasceu mesmo em 1968, com o lançamento do disco de estreia dos Black Sabbath. De resto, essa discussão faz pouco sentido porque o heavy metal, como o conhecemos hoje, esteve sempre ali. Mais uma sensibilidade antiga que outra coisa qualquer, apenas à espera que a tecnologia se desenvolvesse para se manifestar finalmente em toda a sua plenitude. De certa forma, antes dos amplificadores e das guitarras elétricas, Wagner e Paganini já eram de certo modo heavy metal, mas se falarmos em rock'n'roll... Aí sim, o quarteto de Birmingham formado por Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward criou, efetivamente, algo novo. É quase como se os Rolling Stones tivessem matado os anos 1960 em Altamont para os Black Sabbath darem início aos 70 no preciso momento em que gravaram a sua estreia homónima.

Não deixa, por isso, de ser curioso que «End of the Beginning», tema de abertura de 13, primeiro álbum de estúdio dos Black Sabbath com Ozzy como vocalista em 35 anos, comece com um riff bem marcado, até funéreo, cujas notas invocam sem ponta de vergonha o tema-título da estreia do grupo. Mais à frente, na mesma canção, surge a frase «Rewind the future to the past» e, provavelmente, seria extremamente difícil encontrar uma conjugação de palavras mais apropriada para descrever este muito aguardado e saudado regresso da lendária banda britânica ao estúdio mais de quatro décadas depois de se ter juntado.

Na verdade, este deveria ter sido o mote para todos os grupos que, nos últimos anos, não só voltaram a juntar-se para dar uns concertos mas que também arriscaram fazer e registar música nova. Sem recorrer à camuflagem habitual não há aqui quaisquer pretensões de progressão ou inovação. O trio fundador formado por Ozzy, pelo guitarrista Iommi e pelo baixista Butler contou com a ajuda preciosa do produtor/guru Rick Rubin para tentar recuperar uma vez mais aquela chama que o estabeleceu como «pais do heavy metal» e um dos nomes mais influentes de que há memória dentro do género.

No entanto, mesmo para «deuses» como os Black Sabbath, viajar até ao passado apresenta-se como uma tarefa tão, ou ainda mais, complicada do que para a maioria dos comuns mortais.

O heavy metal sofreu incontáveis mudanças desde que, em 1978, os Black Sabbath se juntaram pela última vez a Osbourne para gravar um disco; a banda até pode ter criado o género mas dificilmente poderia ter antecipado a forma como ele foi evoluindo ao longo das tempos. Dada a intensidade e a proficiência técnica que caracterizam o movimento hoje, esta decisão de reagrupamento com três quartos da formação «clássica» seria sempre, na melhor das hipóteses, ambiciosa; e, na pior, um redondo falhanço. Ouvindo os dois temas iniciais de 13 torna-se desde logo óbvio que o legado é algo que pesa na consciência destes músicos e não é difícil perceber porquê.

Além dos riffs ultragraves de Iommi e das letras obscuras de Butler, aquilo que mais destacava o grupo dos seus pares no início dos anos 70 era o desespero tangível que imprimia à música que escrevia e gravava.

Não é preciso detalhar sequer o currículo atribulado de Ozzy antes de integrar o quarteto para perceber que as suas opções em termos de futuro eram precárias, algo que era notório nos seus lamentos vocais. Em início de carreira, os Black Sabbath soavam como quatro tipos que estavam numa banda porque, bem vistas as coisas, não tinham outra opção. Mesmo no pico do sucesso, talvez porque a imprensa nunca lhes deu o devido respeito na altura, as suas canções ressoavam como se ainda tivessem algo a provar ao resto do mundo.

No início dos tempos

Grande parte da atitude lutadora que sempre caracterizou os Black Sabbath advém da sua proveniência. Os músicos são oriundos de Aston, uma área multicultural ocupada predominantemente pela classe trabalhadora de Birmingham, uma das cidades britânicas que mais sofreu com os bombardeamentos alemães durante a II Guerra Mundial. O quarteto cresceu rodeado de música e a indústria automóvel vivia tempos de expansão, mas as perspetivas em termos de futuro, apesar de não serem totalmente sombrias, eram limitadas. Ozzy, Tony, Geezer e Bill ocuparam diversos empregos sem grande saída nas fábricas da zona e a música acabava por ser o escape mais à mão para a realidade dura com que tinham de lidar no dia a dia.

Todos estiveram envolvidos em diversos projetos antes da formação dos Black Sabbath e Iommi acabou por ser o primeiro a estabelecer uma reputação, graças a uma banda de versões dos Shadows chamada The Rockin' Chevrolets. O guitarrista tocou pela primeira vez com Bill Ward nos Mythology e, após cumprir uma pena de três meses na prisão de Winston por furto, Ozzy, então com 20 anos, juntou-se a Geezer e Butler nos Rare Breed. Foi em agosto de 1968 que os quatro se reuniram para um primeiro ensaio que contou também com a presença do guitarrista de slide Jimmy Phillips e do saxofonista Alan Clarke com Butler, até então guitarrista, a tocar baixo pela primeira vez. Já sem Phillips e Clarke, mudam de nome de Polka Tulk para Earth, dão os primeiros concertos e atraem a atenção de Jim Simpson, que acaba por se transformar no primeiro agente do grupo.

Ainda a explorar a sua paixão pelos blues, os quatro músicos destacavam-se de toda a competição graças à abordagem muito própria de Iommi ao seu instrumento, adotada aos 17 anos, após um acidente de trabalho que o deixou sem as pontas dos dedos do meio da mão esquerda. Inspirado pela recuperação de Django Reinhart, guitarrista belga de jazz que tinha perdido dois dedos num incêndio, Tony criou um par de pontas de dedo falsas a partir do plástico de uma garrafa de detergente Fairy e continuou a perseguir o seu sonho com todas as forças.

Pelo caminho, adotou cordas mais finas e uma afinação mais baixa, métodos que lhe permitiram continuar a atacar as cordas de uma forma tão efetiva como antes do acidente, e ter um som muito mais pesado que qualquer outro guitarrista da altura. Com o timbre vocal muito próprio de Ozzy e com Iommi e Butler a criarem uma dupla rítmica de eleição, acrescido de um baterista pouco ortodoxo no contexto do rock as maiores influências de Ward eram Gene Krupa, Buddy Rich e Louie Bellson, os Black Sabbath estavam prontos para sair finalmente de Birmingham.

Em abril de 1969 o quarteto atuou pela primeira vez fora do Reino Unido, estabelecendo residência no Star-Club de Hamburgo, o mesmo bar agora numa versão bastante mais decadente em que os Beatles tinham «estagiado» uns anos antes.

Do alinhamento faziam parte originais de Elmore James, Robert Johnson e Eddie Floyd, mas o tema que mais inspirou a direção sinistra que o grupo adotou para o seu álbum de estreia foi mesmo «Warning», de Aynsley Dunbar. Depois de várias audições com editoras, assinam contrato com Tony Hall, que licencia o single de estreia (uma versão de «Evil Woman», dos Crow, com a original «Wicked World» no lado B) à Fontana, e o primeiro álbum gravado em 12 horas nos estúdios Regent's Sound, em Londres à Vertigo e à Warner Brothers, responsável pela edição nos Estados Unidos. Apesar da indiferença por parte da imprensa, Black Sabbath chega rapidamente à oitava posição da tabela de vendas no Reino Unido e ao vigésimo terceiro do outro lado do Atlântico, onde encetam a sua primeira digressão em outubro de 1970.

Se há uma certeza no universo do heavy metal é que 99 por cento dos músicos que praticam o género veneram os Black Sabbath e, principalmente, os riffs de Iommi; e muitos dos mais marcantes estão no segundo disco, Paranoid. Escrito em 20 minutos, o tema-título inspirado pela descoberta da cocaína por parte dos músicos só foi incluído no álbum por pressão na editora e, aquando do seu lançamento em single, acabou por transformá-los em improváveis estrelas pop. Agarrados ao sucesso vieram também todos os abusos de substâncias tão populares na altura, mas os músicos continuavam inspirados e, entre digressões contínuas, muita cocaína e heroína, gravam Master of Reality e Vol. 4, em 1971 e 72 respetivamente.

Acusando todo o cansaço acumulado ao longo de cinco anos de atividade ininterrupta, Tony Iommi desmaia no Hollywood Bowl, a 15 de setembro de 1972, levando ao cancelamento do resto da digressão em curso. Composto entre uma mansão em Bel Air e um castelo em Gloucestershire durante o verão de 1973, Sabbath Bloody Sabbath marca o início do fim da formação original dos Black Sabbath. Apesar do crescente sucesso, a falta de inspiração e a deterioração das relações entre Ozzy, Tony, Geezer e Bill tornam-se mais evidentes nos três álbuns Sabotage, de 75, Technical Ecstasy, de 76, e o desastroso Never Say Die!, de 78, sempre em rota descendente que gravam até ao despedimento de Osbourne, a 27 de abril de 1979.

A década seguinte começa com o muito talentoso Ronnie James Dio a ocupar a posição de vocalista e dois álbuns, Heaven and Hell e Mob Rules, recebidos de braços abertos pelos seguidores do grupo. Afogado no abuso de drogas e álcool, Ozzy acaba por erguer-se menos de um ano depois, dando início a uma muito bem sucedida carreira a solo que deu origem a títulos tão marcantes e icónicos como Blizzard of Ozz, Diary of a Madman, Bark at the Moon ou, já na década de 90, No More Tears, e que dura com enorme sucesso até aos dias de hoje. Para os Black Sabbath, por seu lado, as coisas começaram a descambar de uma forma por demais evidente pouco tempo depois, com Dio a abandonar o grupo em 1982 e Geezer Butler e Bill Ward dentro e fora da banda por diversas ocasiões.

O grupo inicia então uma autêntica travessia do deserto, pontuada por discos que não apresentavam predicados suficientes para ficar na história Born Again (com Ian Gillan atrás do microfone), Seventh Star (com Glenn Hughes), The Eternal Idol, Headless Cross e Tyr (todos com Tony Martin), Dehumanizer (novamente com Dio), Cross Purposes e Forbidden (novamente com Martin) e em que Iommi se manteve como a única «peça» constante. Após algumas reuniões esporádicas, nomeadamente no Live Aid, em 1985, e num dos concertos de «despedida» de Ozzy, em 1992, a formação original da banda só viria a juntar-se novamente mais de uma década depois, para concertos na cidade natal que deram origem ao álbum duplo ao vivo Reunion.

Só nós três

Apesar de todos os altos e baixos, atualmente é complicado ver os Black Sabbath como os marginais que foram em tempos.

Com a sua música a ser reverenciada em diversos quadrantes, é fácil pensar que seria sempre muito complicado para os músicos conseguirem recriar o contexto muito próprio que deu origem a álbuns como Black Sabbath, Paranoid ou Master of Reality. Puro engano. A conceção de 13 esteve bastante longe de ser o passeio idílico que se possa imaginar. Desde logo, por muitos elementos característicos da fase inicial da carreira do grupo que o disco reúna, e são vários, não há nada que consiga disfarçar a ausência de Bill Ward atrás do kit de bateria.

Brad Wilk, dos Rage Against The Machine e Audioslave, é um ótimo baterista, mas nunca ninguém vai conseguir recriar aquele swing muito próprio de Ward. Nem ele próprio, muito provavelmente. De resto, a posição do baterista no quarteto sempre foi tudo menos segura ao longo das últimas duas décadas.

Presente na primeira reunião da formação original para o Live Aid, em 1985, e novamente no concerto de «despedida» de Osbourne, em 1992, ficou de fora quando Ozzy, Tony e Geezer decidiram juntar-se de novo, cinco anos depois, para encabeçar o Ozzfest. O baterista volta a reaparecer para os dois espetáculos em Birmingham, em 1997, mas no verão seguinte durante um ensaio sofre um ataque de coração e já não participa, como planeado, no Ozzfest em Milton Keynes Bowl. Desta vez, quando tudo parecia bem encaminhado para que os fãs pudessem assistir finalmente à reunião de quarteto «clássico» em estúdio (depois de uma tentativa gorada em 2001 que deu origem a apenas dois temas incluídos como bónus em Reunion), surgiram questões, alegadamente financeiras, que o afastaram do projeto. A 2 de fevereiro de 2012, o músico divulgou um polémico comunicado no seu site oficial e, uma vez mais, optou por afastar-se.

Estranhamente, esta até acabou por ser uma das situações menos dolorosas com que o trio teve de se debater durante o processo de composição do novo disco. Jack Osbourne, de 27 anos, o filho mais novo de Ozzy e Sharon Osbourne, foi recentemente diagnosticado com esclerose múltipla e este foi só o último dos incidentes terríveis que se abateram sob os Black Sabbath desde que, no dia 11 de novembro de 2011, anunciaram a reunião e a intenção de gravarem um novo álbum de originais com Rick Rubin. Escassos dois meses depois, a 9 de janeiro de 2012, surgiu o anúncio de que Tony Iommi sofria de linfoma e que, com o guitarrista já a fazer tratamento de radio e quimioterapia, os Black Sabbath tinham sido forçados a cancelar a digressão planeada para o verão de 2012.

Uma situação de vida ou morte, que acabou por ter o seu impacto em 13.

Numa altura em que a nostalgia está, sem qualquer dúvida, na moda no que à música pesada diz respeito, o regresso dos Black Sabbath ao estúdio com o seu vocalista mais carismático afirma-se como uma piscadela de olho descarada aos álbuns icónicos que a banda gravou em início de carreira, mas com um toque de modernidade bem patente em «God Is Dead», o primeiro tema de avanço ao disco. Depois há uma série de canções com pequenos pormenores que, provavelmente, nunca ninguém pensou voltar a ouvir num disco do grupo e que vai, com toda a certeza, fazer o gáudio dos fãs: é o caso de «Zeitgeist» (numa toada acústica próxima de «Planet Caravan»), «Dear Father» (com direito a sons e trovão, chuva e badaladas de sino) ou «Damaged Soul» (em que a harmónica remete de imediato para «The Wizard»). Para músicos na casa dos 60 anos, os Black Sabbath de 13 soam mais vivos que nunca.

Texto: José Miguel Rodrigues

Publicado originalmente na revista BLITZ de julho de 2013.