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PATRICIA DE MELO MOREIRA

Lisboa, capital de África

Uma ideia para Lisboa, ao cuidado do novo Ministro da Cultura, Dr. João Soares

Acabo de regressar de Grogenheim, na Holanda, onde decorreu a 30ª edição do Eurosonic, um evento que funciona como uma plataforma para a promoção da música europeia emergente, sobretudo no circuito dos festivais e das salas de concertos. E é espantoso pensar como é que uma pequena cidade do norte da Holanda conseguiu criar um evento que é hoje chave mestra para abrir as portas da Europa aos mais jovens projetos musicais. Se foi possível erguer a sexta ou sétima cidade de um pequeno país do norte europeu à condição de capital de uma realidade específica, porque não pensar numa dimensão idêntica para Lisboa numa outra vertente, diferenciada e que ainda por cima teria um forte amparo cultural e histórico?

Lisboa é uma cidade extraordinária, vibrante e, sobretudo, singular. Não é Londres, nem Paris, Madrid, Barcelona ou Berlim e deveria, sobretudo num momento em que tanto se fala de globalização, de normalização e do esbatimento de diferenças, procurar afirmar uma identidade própria que lhe garanta futuro. Por outro lado, a indústria da cultura é, todos os especialistas o dizem, um dos pilares de qualquer futuro que se tente construir de forma sustentada. Lisboa mereceria, por isso mesmo, ser o quartel general de um evento que lhe pudesse trazer mais valias – culturais e económicas, claro – e que ao mesmo tempo lhe sublinhasse a longa identidade histórica, construída ao longo de séculos. Lisboa é terra de fado, sem dúvida, mas de tanto mais.

As nossas relações históricas com Angola, Cabo Verde, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Guiné Bissau também se traduziram em fluxos migratórios que moldaram o tecido cultural desta cidade. Nem só de tinir de guitarras portuguesas se faz o ruído das nossas vielas: o semba, a rebita, a kizomba e o kuduro, o funaná, a morna, a coladera e o batuque, a marrabenta e outros modos também encontraram aqui casa. Um dos epicentros de um género prestes a explodir no mundo – o funaná – era, por exemplo, um pequeno estúdio de Campo de Ourique onde nos anos 90 se gravaram muitas das hoje mais procuradas pérolas do género. Muitos colecionadores de discos, aliás, já fazem de Lisboa um destino privilegiado das suas viagens precisamente por saberem que é mais fácil encontrar uma raridade da N’Gola ou da Rebita numa loja de discos ou casa de velharias da nossa capital do que em Luanda.

Mas há muitas outras Áfricas em Lisboa: do Senegal e da Nigéria aos países do Magrebe e daí ao Congo ou ao Quénia, há muitos outros sabores distintos a borbulharem nas ruas onde se concentram os migrantes que nos elegem como destino final. As nossas relações com este continente são longas, sólidas, distintas das de outros países. E com as pessoas vem a música.

Há muitos festivais de música africana na Europa (e até nem se compreende como não há um em Lisboa...), mas não é essa a ideia que aqui apresento. Antes um evento que pudesse fazer convergir nesta cidade editoras, agentes, managers, músicos e jornalistas e que promovesse Lisboa à condição de porta de entrada desta música na Europa, primeiro, e no mundo, depois. Um evento que fosse Eurosonic e Midem e Womex num só, mas focado apenas na música de África e em todas as suas variantes e misturas. Já há, como dizia, muitos festivais mais sintonizados com a música de África, já há eventos focados na indústria da música, outros até especializados nas chamadas músicas do mundo, mas nenhum – tanto quanto julgo saber – orientado exclusivamente para profissionais e que se foque apenas em África, que se proponha pensar, estruturar e organizar essa música para o resto do mundo. E que usufrua de uma localização geográfica privilegiada, com um estatuto histórico diferenciado, com pontes culturais funcionais e já estabelecidas. E onde os delegados que aqui viessem acorrer pudessem, colocando um pé na rua, comer com igual facilidade um pastel de nata e uma moamba, dançar ao som de uma lenda como Bonga ou experimentar os novos balanços da batida de Lisboa. Temos os espaços, temos os hotéis, temos o sol, o rio, as sardinhas em lata, temos salas de espetáculos, temos muitos artistas e agentes. Com um bocadinho de vontade não seria difícil fazer o resto...