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Vamos comer Buarque

Qualquer altura é boa para recebermos as canções de Chico Buarque nas nossas vidas. Eis algumas razões para descobrir ou revisitar este “culto”

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Em 2001, Adriana Calcanhotto propunha que nos banqueteássemos com Caetano. Metaforicamente, visceralmente, “pela frente e pelo verso” eram algumas das instruções deixadas pela cantora gaúcha cuja estrela brilhava, então, bem alto.

Hoje, Adriana é embaixadora da Universidade de Coimbra no Brasil, Caetano lança, não tarda nada, um novo disco ao vivo com Gilberto Gil e Chico Buarque continua a ser um ponto cardeal nos meus dias.

O homem de Construção, que com a certeza (im)possível considero um dos melhores álbuns de sempre, entrou tarde na minha vida. Enquanto referência distante existia há muito, mas como dono de um baú de canções a que recorro quando nada mais faz sentido só se materializou na minha vida adulta. Andei a perder tempo? Certamente, mas qualquer altura, por mais tardia, é indicada para o recebermos nos nossos corações (e é neste momento que me recordo que poderei ter escrito “BUARQUE” no campo que o Facebook nos manda preencher com a nossa religião).

Em Buarque, que há poucas semanas viu estrear no Brasil um documentário sobre a sua vida e obra, gosto de tudo e de cada coisa de formas sempre diferentes. Ainda que tenha guardados – numa caixinha especial; o atraso da descoberta compensei-o com um atípica febre colecionista – todos os discos do carioca, não saberia hierarquizá-los por valor intrínseco ou afeto pessoal. Em cada um se aninham tesouros, poemas, inflexões de voz, histórias e ambientes que não encontro nos álbuns de mais ninguém.

Gravado em 1980, por exemplo, Vida denuncia já alguns dos mal amados tiques de produção da década (slap bass, sintetizadores, saxofones), mas é o disco das imortais “Morena de Angola”, “Mar e Lua” ou “Eu Te Amo”, da dupla de sobre-humanos Jobim/Buarque. Eis o momento em que ele nos ensina, também, a gostar: pouco adepta de vozes vertiginosamente agudas, hoje aceito a voz de Telma Costa, que com Chico dá corpo a este dueto, como mais um instrumento ou personagem de uma história cujos significados e atmosferas me parecem uma coisa diferente praticamente a cada audição. O absurdo do mundano (“como, se na desordem do armário embutido, meu paletó enlaça o teu vestido, e o meu sapato inda pisa no teu”), o desespero do fim vertido na poesia do indizível (“Se na bagunça do teu coração meu sangue errou de veia e se perdeu”), o humor negro implícito num daqueles dramas domésticos que só o tempo curará. No YouTube terei visto dezenas de vezes o vídeo, “ao vivo em estúdio”, onde Buarque, Telma Costa – desaparecida precocemente, aos 35 anos – e Jobim provam com contenção máxima todo o drama deste teatro da vida.

Este é também o disco em que Buarque confere elegância e validade a funções corporais como “Foi um sonho medonho desses que às vezes gente sonha e baba na fronha e se urina toda e já não tem paz” (“Não Sonho Mais”) ou “Eu tenho tesão é no mar” (“Bye Bye Brasil”). Em que, com o génio habitual, veste a pele de uma mulher, escrevendo para a irmã, Cristina, a confissão de “Bastidores”: “Cantei, cantei, jamais cantei tão lindo assim / E os homens lá pedindo bis, bêbados e febris, a se rasgar por mim” (Marcelo Camelo chegaria perto deste eu feminino, em “Santa Chuva”). E em que me faz feliz por ter nascido portuguesa. Não, naturalmente, por qualquer orgulho nacionalista, mas porque, por mais possível que seja um “gringo” apaixonar-se pelo classicismo universal de Chico, dificilmente se arrepiará com a leveza, tão simples como deslumbrante, de um jogo de palavras como este:

“Não, acho que estás só fazendo de conta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir”

(Caso alguém ainda precise de uma razão para “comer” Chico, eis a derradeira justificação para este amor guloso: a sua hilariante reação ao ódio diariamente destilado na internet. Não há vez que não me faça chorar – a rir – com ele).