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Charles Manson: o diabo ainda não morreu

Charles Manson, agora com 80 anos, continua a cumprir a sentença de prisão perpétua por homicídios bárbaros no final dos anos 60. 40 anos depois da condenação, relembramos o artigo que desmonta o complexo puzzle construído em torno da figura do homem que “matou” os anos 60

Há um lado sombrio na América. O mesmo país que através de Hollywood imprimiu na consciência de todo um planeta uma imagem de felicidade extrema - a terra das oportunidades e da liberdade, de planícies infinitas, de prédios que chegam ao céu e paradisíacas praias - continua a ser confrontado com os demónios da tensão racial (veja-se o caso de Ferguson), continua envolvido em múltiplas frentes de batalha e continua a tentar libertar-se do peso gerado por uma história interna de violência - da terra conquistada a Oeste à custa de sangue derramado ao assassinato de líderes em diferentes momentos do seu percurso.

E esse lado sombrio gera mitos, figuras amorais incompreendidas pela sociedade, quase sempre capazes de atos extremos que parecem ser a negação dos próprios princípios civilizacionais em que assenta a América. De Jesse James a Stagger Lee e Al Capone, a cultura popular americana nunca temeu abordar as figuras dos que se posicionaram do lado errado da lei e da rígida linha moral imposta no próprio tecido identitário de todo um país pelos puritanos «founding fathers». Romances, filmes e canções dedicadas a assassinos e ladrões compõem depois todo um complexo folclore que elevou a figura do «fora da lei» a um estatuto de culto. Charles Manson é apenas um dos exemplos mais extremos desse fervor.

Sentenciado a ser executado em abril de 1971 num caso mediático em que se deram como provadas 27 diferentes acusações, incluindo a orquestração do assassinato de Sharon Tate, casada com o realizador de cinema Roman Polanski, e dos restantes ocupantes da casa de Benedict Canyon onde a famosa atriz residia, Charles Manson viu a sua sentença comutada em prisão perpétua devido a uma suspensão da pena de morte no estado da Califórnia em 1972. Nestas quatro décadas, em vez de se desvanecer, o seu mito cresceu: livros, documentários e discos com a sua música têm alimentado a curiosidade de gerações até ao presente. Uma busca por «Charles Manson» num site como a Amazon revelará uma imensa lista de títulos de livros alguns, como Manson: The Life and Times of Charles Manson, com data de edição muito recente DVD, CD e até t-shirts, sinal claro do interesse que a sua conturbada história continua a gerar.

A notícia recente do «romance» entre Charles Manson, agora com 80 anos e a cumprir pena perpétua no estabelecimento prisional de Corcoran, na Califórnia, e Star (nascida Afton) Burton, de 25 anos, voltou a fazer correr tinta nos Estados Unidos conseguindo atenção dos mais importantes media. Ted Rowlands escreveu no site da CNN sobre a indústria erguida em torno da curiosidade mórbida que os assassinatos Tate-LaBianca ainda hoje suscitam: há visitas guiadas aos locais das mortes a troco de 65 dólares, uma ala dedicada a Charles Manson no Museu da Morte em Hollywood e, sublinha Rowlands, o livro Helter Skelter, co-escrito por Vincent Bugliosi, o delegado do ministério público que dirigiu a acusação contra Manson e os restantes membros do seu culto, vendeu mais de 7 milhões de cópias nos Estados Unidos, um recorde para livros dedicados a casos reais de assassinato.

A própria noiva de Manson, Star, está hoje encarregue de gerir a presença do seu futuro marido na internet, incluindo o site MansonDirect.com, a sua marca «oficial» no universo digital, mas longe de ser a única.

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O «monstro» apresenta-se

A história de Charles Manson, obviamente, não podia ser simples. Em 1967, quando foi libertado da cadeia de Terminal Island, Manson, contava então 32 anos e tinha passado mais de metade da sua vida em prisões e outras instituições correcionais. No livro de Vincent Bugliosi, Helter Skelter, refere-se mesmo que Charles Manson, não conhecendo outra realidade, terá pedido para não o libertarem.

Nasceu Maddox, em Cincinnati, Ohio, filho de Kathleen Maddox, de apenas 16 anos, e de pai incógnito. Foi William Manson, com quem Kathleen viveu brevemente após ter o seu filho, que deu o apelido a Charles, mas registos públicos indicam que o seu verdadeiro pai pode ter sido um cozinheiro afro-americano de nome Scott, algo que o próprio procurou negar de forma veemente mais tarde quando questionado sobre essa possibilidade em tribunal. Manson iniciou-se cedo numa vida de pequenos crimes, roubando mercearias e automóveis, factos que o levaram a entrar no sistema de instituições de correção para jovens quando contava apenas 13 anos de idade. Deu-se aí início a um tortuoso percurso por instituições de crescentes graus de segurança onde, segundo registos e documentos vários, Manson abusou e foi abusado.

Foi na prisão, já no arranque dos anos 60, que o seu interesse pela música começou por se manifestar. Alvin «Creepy» Karpis, um assaltante de bancos com alguma notoriedade, ensinou-lhe alguns rudimentos na guitarra e Phil Kaufman, que haveria de se tornar famoso por roubar o cadáver de Gram Parsons para o cremar junto ao Monumento Nacional de Joshua Tree, passou-lhe contactos da indústria discográfica de Hollywood e haveria, mais tarde, de editar Lie: The Love and Terror Cult, o primeiro e mais conhecido trabalho musical de Charles Manson.

Apesar de testes efetuados pelas instituições por onde passou revelarem Charles Manson como um jovem com uma inteligência acima da média com um Q.I. entre 109 e 121, a sua educação formal era praticamente inexistente, o que encaixou na perfeição nos anos 60 mais alternativos.

Manson foi «despejado» na sociedade em 1967, precisamente quando o Verão do Amor professava uma via alternativa, procurando uma saída para um futuro que parecia negro para uma geração a braços com a Guerra do Vietname, com a resistência interna aos movimentos de integração da sociedade e com a muito séria possibilidade de confronto entre duas potências nucleares. As visões de Manson, que misturavam cientologia e satanismo aprendido na prisão, eram suficientemente psicadélicas para impressionarem algumas pessoas sobretudo raparigas da zona de Haight-Ashbury, o epicentro do cataclismo hippie que ameaçava fazer ruir a estrutura moral da América. Uma viagem de autocarro pelo deserto californiano e pelo México terá solidificado os laços que uniam Manson ao seu mais próximo núcleo de seguidores.

Um Beach Boy enfeitiçado

Na primavera de 1968, Charles Manson conheceu Dennis Wilson, talvez o mais torturado dos elementos dos Beach Boys, autor da obra-prima Pacific Ocean Blue. Wilson, que de acordo com um relato de David Dalton na revista Mojo, em 1999, tinha um fascínio pelo lado mais negro da alma humana e estava permanentemente a desafiar a morte, apadrinhou Manson e apresentou-o a alguns executivos da indústria de Los Angeles numa tentativa de lançar a sua carreira musical, pessoas como Gregg Jakobson ou Terry Melcher, que então vivia na casa de Benedict Canyon que em breve seria alugada a Sharon Tate, atriz de Valley of the Dolls e The Fearless Vampire Killers (este último um filme realizado pelo seu marido, Roman Polanski).

Aquartelado num rancho das imediações de Los Angeles, um velho cenário para filmes e séries de televisão de nome Spahn Ranch, e a viver em comuna - os estudos deste tipo de cultos indicam que o isolamento é sempre uma estratégia de controlo eficaz aplicada pelos seus líderes - Manson descobriu em dezembro de 1968 o então recentemente editado álbum homónimo dos Beatles (que viria a ser conhecido como White Album), desenvolvendo com esse trabalho uma relação quase obsessiva. Manson costumava dar palestras aos membros da sua «Família» doutrinando-os acerca do apocalipse que estava eminente e que resultaria de uma guerra entre raças, aproveitando as tensões que se viviam na América e o extremar de posições por grupos ativistas como os Black Panthers.

Depois de ouvir os Beatles, Manson passou a acreditar que os quatro de Liverpool escondiam mensagens em código especialmente dirigidas a si nas letras das canções e apelidou o armagedão próximo como «Helter Skelter», desenvolvendo uma complexa e delirante teoria que impunha aos seus seguidores por via da sua forte personalidade e de uma dieta rigorosa de sexo livre e drogas psicadélicas, sobretudo LSD. O plano de Manson passava por gravar um álbum que despoletaria a guerra, emergindo depois como um novo líder, uma espécie de mistura de Cristo e Satã, capaz de liderar os seus seguidores e de os impor como a classe vigente num Novo Mundo. Terry Melcher, executivo de renome na indústria, deveria ajudá-lo a editar esse disco.

Perante o desaparecimento de Melcher da sua esfera imediata, convencido já nesta altura de que as excentricidades de Manson não se traduziam em argumentos comerciais de peso, Manson terá procurado o executivo no que acreditava ser ainda a sua casa, no número 10050 de Cielo Drive, em Benedict Canyon, próximo de Beverly Hills, no limiar de Los Angeles. Melcher já não vivia aí, mas Manson terá conhecido então a atriz Sharon Tate e alguns dos seus amigos, antes de esta partir para Roma para rodar o seu último filme, uma comédia de título The Thirteen Chairs que contava com Orson Welles no elenco.

Dias de matança

Durante o período em que Sharon Tate esteve ausente, o delírio de Charles Manson aprofundou-se e os assassinatos começaram. Numa tentativa de apressar o apocalipse, em maio de 1969, Manson encomendou o assassinato de um dealer de droga negro, de nome Crowe, e em julho do mesmo ano ordenou a Bobby Beausoleil membro da «Família» que fez parte de uma primeira encarnação dos Love e que era para ter sido a figura central do filme Lucifer Rising de Kenneth Anger (cuja banda sonora é vista como uma obra-prima obscura do psicadelismo) que atacasse Gary Hinman, um professor de música, para lhe extorquir dinheiro. Beausoleil acabou por apunhalar Hinman até à morte sendo pouco depois preso e condenado a prisão perpétua, pena que ainda cumpre.

Bobby Beausoleil foi preso a 6 de agosto de 1969 e dois dias depois Charles Manson deu ordens a quatro dos seus seguidores Charles «Tex» Watson, Linda Kasabian, Susan Atkins e Patricia Krenwinkel para que invadissem a antiga casa de Terry Melcher e matassem toda a gente que aí encontrassem «da forma mais cruel possível», como se conta no livro de Vincent Bugliosi. Sharon Tate, grávida de oito meses e meio, Jay Sebring, um seu antigo namorado e cabeleireiro das estrelas de Hollywood, o amigo de Polanski e argumentista Wojciech Frykowski, a sua amante Abigail Folger e Steven Parent, um moço de recados que se encontrava na propriedade para fazer uma entrega, foram assassinados com requintes extremos de violência. A palavra «pig» [«porco»] foi escrita numa porta com o sangue de Sharon Tate.

No dia seguinte, Manson, acompanhado pelos quatro elementos responsáveis pelo massacre de Benedict Canyon, e ainda por Leslie Van Houten e Steve «Clem» Grogan, decidiu ele mesmo exemplificar o que seria um assassinato eficaz e levou os seus seguidores até ao número 3301 de Waverly Drive, na zona de Los Feliz, em Los Angeles, onde residia o casal Leno e Rosemary LaBianca, proprietários de supermercados.

Manson terá usado uma baioneta para desferir 12 golpes em Leno LaBianca. A sua mulher terá sofrido 16 golpes nas costas. No final, as palavras «Rise» [«Ascensão»], «Death to Pigs» [«Morte aos Porcos»] e «Healter Skelter» (assim mesmo, com uma grafia diferenciada do título da canção dos Beatles) foram inscritas a sangue nas paredes.

As investigações policiais foram rápidas e os vários membros da «Família» foram presos antes do final de 1969 tendo o julgamento começado em junho de 1970. Quando foi colocado no banco das testemunhas, Manson afirmou: «a música diz à juventude para se sublevar contra o sistema. Para quê culpar-me a mim? Não fui eu que escrevi a música...». Durante o julgamento, Manson rapou o cabelo e com uma lâmina talhou uma cruz na testa que mais tarde transformaria numa suástica. Tanto a Life como a Rolling Stone colocaram Charles Manson na capa...

O fascínio pop

A notoriedade de Charles Manson nunca se desvaneceu: deu entrevistas à televisão americana durante os anos 80 do século passado uma delas, concedida a Charlie Rose, da CBS, conquistou mesmo um Emmy na categoria de Melhor Entrevista, em 1987; foi alvo de vários documentários, um deles com o revelador título de Charles Manson Superstar; as televisões nunca deixaram de acompanhar a evolução do processo, as tentativas de obtenção de liberdade condicional, as mudanças de cadeia e o relacionamento com Star Burton que confessou à CNN ter-se primeiramente interessado por Manson por causa dos seus escritos sobre a ATWA (Air Trees Water Animals), alegada filosofia ambientalista. Star Burton diz-se plenamente convencida da inocência de Manson.

O importante em todo este caso, e na forma como a sociedade do espetáculo com ele se relacionou, passa pelo que o seu impacto tem de significado mais profundo. Produto de uma classe desprovida de raízes, primeiro, e de um sistema estatal de suposta proteção de jovens que não conseguiu oferecer uma resposta para os seus problemas, Charles Manson viu-se entregue ao mundo real numa época muito particular em que a sociedade se encontrava, muito literalmente, a ferro e fogo. Os atos por ele cometidos ou orquestrados são vistos como um ponto final num sonho technicolour que uma geração inteira não foi capaz de impor. E será isso que atrai músicos interessados em explorar essas sombras de que a América também se faz.

Henry Rollins afirma ter-se correspondido com Charles Manson nos anos 80 e os Sonic Youth, em colaboração com Lydia Lunch (que descreveu Manson como «o derradeiro poeta americano»), lançaram «Death Valley 69». The Downward Spiral, histórico álbum que os Nine Inch Nails de Trent Reznor editaram em 1994, foi parcialmente gravado no número 10050 de Cielo Drive onde se perpetrou o massacre de Sharon Tate e dos seus amigos. À época, Reznor desvalorizou o facto de ter escolhido o local para gravar, mas concedeu que a casa exerceu sobre si um estranho fascínio quase o aprisionando lá durante semanas. «Look At Your Game, Girl», tema de abertura de Lie, o álbum de Manson editado em 1970 quando decorria o seu julgamento, mereceu uma versão dos Guns N' Roses.

E os exemplos sucedem-se: Manson em South Park, Manson como personagem central de uma ópera, Manson como a inspiração das identidades artísticas não apenas de Marilyn Manson, mas também dos Kasabian ou dos Spahn Ranch.

Foi a cultura pop que gerou Charles Manson e é essa mesma cultura pop que se recusa a deixar o «diabo» morrer.

Publicado originalmente na revista BLITZ de janeiro de 2015.