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Ramones: a idade da pedra começou há 40 anos

De 1976 a 1978, gravaram quatro álbuns perfeitos, levaram o punk a Inglaterra, formaram um culto, nunca subiram aos topes. 20 anos depois do final – e 40 do primeiro disco – revivemos a história

30 de Outubro de 2007. Os obituários registam o falecimento de Linda Stein, antiga esposa de Seymour Stein (o patrão da Sire, o homem que assinou primeiro artistas como Madonna e os Smiths). Linda, ex-manager dos Ramones, terá sido assassinada no seu apartamento em Manhattan. A «maldição Ramones» começou poucos anos depois do desmembramento da banda, em 1996.

Joey Ramone, o esguio, desengonçado e inesperadamente cool vocalista da banda nova-iorquina, falecia em 2001, vítima de linfoma. Em 2002, Dee Dee o baixista «junkie», ex-prostituto e cantor rap frustrado não sobrevivia a uma sobredose de heroína.

Três anos depois era a vez do guitarrista Johnny (a face conservadora e controladora da banda), sucumbindo ao cancro da próstata. Já este ano, desapareceram deste mundo Hilly Kristal, fundador do CBGB's (clube onde os Ramones deram o primeiro de muitos concertos) e Charlotte Lasher, mãe de Joey. Sobrevivem à razia os dois bateristas (Tommy e Marky) que marcaram a era de ouro da banda, aquela que começa com três amigos do bairro nova-iorquino de Queens a tentar desgraçadamente sacar música dos seus instrumentos.

A primeira versão dos Ramones incluía Jeffrey Hyman (Joey) na bateria, John Cummings na guitarra, Doulgas Colvin (Dee Dee) no baixo e microfone. Dee Dee faz a reconstituição: «Tommy [no início, apenas manager], Joey, Johnny e eu vivíamos todos perto uns dos outros em Forest Hills. Johnny e eu falávamos e ambos concluímos que gostávamos dos Stooges. Era inacreditável porque nessa altura ninguém ligava aos Stooges. No princípio dos anos 70, rock'n'roll era os America ou os Yes e eu odiava isso. Foi quando comecei a ouvir New York Dolls».

Johnny chegou a Joey através do irmão deste, Mickey Leigh. «Johnny não estava interessado em conhecer o meu irmão. Joey dava-se a conhecer como Jeff Starship e andava com gente esquisita. Era um hippie, na altura. Andava por aí sem sapatos, chegou a ir a São Francisco encontrar-se com hippies. Joey era um hippie bizarro. E John odiava hippies».

O círculo de amizades de Dee Dee dependia de onde estavam as diferentes substâncias que consumia. «Comecei a sair com o Joey porque ele gostava de beber. Joey não conseguia tomar drogas. Tentava mas não conseguia. Passava-se. Uma vez vi-o a fumar erva e a começar a vomitar no chão, de cócoras, a dizer "Estou a passar mal!"».

Para sustentar o seu modo de vida, Dee Dee foi prostituto no cruzamento da 53ª com a 3ª Avenida (experiência que recupera em «53rd & 3rd»). Leigh lembra-se de «ver Dee Dee por lá. Tinha um casaco de cabedal de motociclista, aquele que usaria na capa do primeiro álbum. Eu sabia o que ele andava a fazer porque aquele era um poiso gay. Mas fiquei chocado por ver alguém que conhecia» O background dos Ramones era uma diversidade partilhada pela condição de vizinhança: Dee Dee, prostituto e separado da mãe; Johnny, o mais velho, trabalhador precário; Joey, o hippie desajustado e antigo «cliente» de uma instituição de saúde mental («Eu era um solitário, não conseguia relacionar-me com os outros putos»).

O primeiro ensaio «a sério» da banda resultou em frustração. «Éramos só nós os três. Eu [Joey] estava a tocar bateria, Dee Dee na guitarra-ritmo e a cantar. Quando Dee Dee começava a cantar, parava de tocar guitarra porque não conseguia cantar e tocar ao mesmo tempo». Os ensaios seguintes não foram mais animadores. «Eles tocavam cada vez mais rápido e eu não conseguia acompanhar».

A transformação deu-se quando Joey largou a bateria para se dedicar, em exclusivo, ao papel de vocalista, com a concordância de Johnny (o «arquitecto» dos riffs de rebarbadora dos Ramones). Dee Dee derivou para o baixo, Tommy, o manager da banda, teve de pegar nas baquetas porque ninguém mais parecia interessado. O baptismo da banda é de Dee Dee: Ramone era o apelido fictício utilizado por Paul McCartney, dos Beatles, unicamente para dar entrada em hotéis sem ser reconhecido.

A banda começa a dar concertos no Max's Kansas City e CBGB's, inicialmente para audiências reduzidas. Em 1975, o Soho Weekly News regista uma dessas actuações e descreve, na perfeição, o método Ramones já cristalizado: «o grupo apresenta canção atrás de canção sem uma palavra falada. O intervalo maior entre canções é de 13 segundos. Cada canção é feita de acordes repetitivos, tecidos de forma pesada por Johnny Ramone. Dee Dee e Tommy formam a secção rítmica unificada que parece apostada em captar os três melhores riffs do rock e utilizá-los para sempre. Joey Ramone, um jovem vocalista em forma de vassoura, tenta debitar as letras com urgência enquanto os seus óculos balançam na cara».

Ainda sem disco lançado, os Ramones têm direito a um pequeno perfil no inglês New Musical Express. «Não são rainhas do glitter. Não são uma banda blues. O que eles fazem é disparar uma saraivada de acordes e ganchos poderosos ridiculamente comprimidos, "hit singles" ou o que chamaríamos "hit single" a haver justiça neste mundo cruel». Cada canção começa com Dee Dee a gritar «1, 2, 3, 4». Os Ramones «não tocam solos de bateria (graças a Deus) mas também não tocam solos de guitarra. Nada demora mais do que três minutos».

O burburinho acentua-se. A revista Punk, dedicada essencialmente às bandas que gravitavam em torno do CBGB's (Blondie, Television, Talking Heads) avista Lou Reed na audiência de um concerto dos Ramones na mítica sala de Bowery. O antigo guitarrista e vocalista dos Velvet Underground estava a «beber vinho e com uma mão levantada numa dança contínua à espera que o segundo set começasse». A fanzine define os Ramones com exactidão: «em palco, o que fazem não é violento, não é decadente, não é reciclado. É rock puro e simples e poderoso. Elegante, até».

Anarquia no Reino Unido

Podia não ser reciclado mas o punk dos Ramones tinha uma linhagem e Joey não o desmentia. Numa curta entrevista presente nos conteúdos-extra do DVD It's Alive 1974-1996, aponta para «todo o rock desde 1955: Elvis, Roy Orbison, Beatles, Buddy Holly, British Invasion, os The Who do início».

Numa entrevista em 1989 (publicada pela primeira vez muitos anos depois, no sítio online crushermagazine.com), Joey Ramone lembra o «deserto» do início dos anos 70: «ninguém estava a fazer aquilo [o som dos Ramones]. Os Television estavam a fazer uma cena à Velvet Underground. Os Stilletos, uma cena à Shangri-Las. Depois apareceram os Blondie. Mas ninguém fazia aquilo. Nós tínhamos o nosso som e a nossa visão». The Ramones, o álbum que o quarteto editou em Abril de 1976 (pela Sire, de Seymour Stein) e que moldou a face do punk, não passou do 111º lugar da Billboard. «Gravámos o álbum em apenas uma semana e só gastámos 6400 dólares toda a gente ficou espantada. Nesse tempo, havia muito dinheiro. Alguns álbuns custavam meio milhão de dólares e levavam dois ou três anos a gravar. Fleetwood Mac e coisas do género».

The Ramones incluía os agora clássicos «Beat On The Brat», «Blitzkrieg Bop», «Judy Is a Punk» e «I Wanna Be Your Boyfriend», despachando em 29 minutos 14 temas em alta velocidade. A revista Creem (base de jornalistas como Lester Bangs e Greil Marcus) não podia ser mais efusiva: «o álbum mais radical dos últimos seis meses não é de Bowie, não é de Ferry, não é de Eno, não é de Reed. Os Kraftwerk não poderiam ter concebido tamanha conquista teutónica numa dúzia de anos-luz e não é certo que Bob Marley pudesse ter ingerido canábis suficiente para vislumbrar as suas raízes não-rasta. The Ramones, dos Ramones, é tão marcadamente diferente, tão deslocado de modas vigentes que é um rombo no estado de coisas». O álbum certo e a banda certa: «quatro gajos, 14 músicas de dois minutos, três grandes acordes. Proeficiência, poesia, gosto. A arte não quer nada com os Ramones» [Creem].

Linda Stein, que acumulava a gestão dos Ramones com Danny Fields, tinha grandes planos para os Ramones. «Tentámos ir para Inglaterra, especialmente porque parecia improvável que conseguíssemos ir além de Nova Jérsia. O nosso primeiro concerto em Inglaterra foi a 4 de Julho de 1976, o fim-de--semana do bicentenário da independência americana, o que achei metaforicamente apropriado porque ali estava o aniversário da independência da nossa liberdade, e estávamos a levar à Grã-Bretanha uma prenda que ia dinamitar para sempre as sensibilidades deles», revela Danny Fields.

A recepção no Reino Unido, onde o punk brotava do underground e preparava para fixar em disco as estreias dos Sex Pistols, Clash e Damned, superou todas as expectativas. «Tocámos num sítio chamado The Roundhouse [em Londres, com os Flaming Groovies] durante três noites para 12 mil pessoas. Toda a gente que era alguém estava lá. Sentimo-nos a realeza. Depois tocámos no Dingwalls e, no soundcheck, estava todo o tipo de putos a dizer-nos que nós éramos a razão pela qual eles tinham formado bandas. Gajos como o John Lydon e o Joe Strummer. Lembro-me que estava lá a Chrissie Hynde a escrever para o NME o sítio estava cheio de gajos de todas as bandas» [Joey, crushermagazine.com]. Arturo Veja (director de iluminação e responsável pelo logotipo da banda) recorda que «Johnny Rotten pediu-me para entrar pela porta de trás [do Roundhouse] para conhecer a banda. E perguntou-me "Se eles não gostarem de mim, vão bater-me?". Ele pensou que os Ramones fossem um gangue a sério».

Descrito como alguém que se fazia «propositadamente de estúpido» para nunca ter que assumir responsabilidades e «evitar sarilhos com a polícia», Dee Dee reconstitui o período inglês à maneira: «as coisas aconteceram rápido, foi incrível. A editora ofereceu-nos "room-service" ilimitado e eu pedi tantas garrafas de uísque que tínhamos uma conta de 700 dólares ao fim de dois dias. Quando viram aquilo, disseram "Pensámos que ias pedir umas sandes de queijo e Coca-Cola". Pensava que era uma grande estrela rock. Era o que era suposto eu fazer».

O estado de graça londrino apanhou a banda de surpresa. Mickey Leigh recorda-se de «toda a gente estar nervosa porque era a nossa primeira vez fora do ninho». Na porta traseira do Roundhouse, os Ramones encontraram os Clash «especados como se fossem um clã. Envergando cabedal negro, tentavam parecer duros a sério e nós ficámos um bocado assustados. Tommy estava a tomar Valium e as suas mãos tremiam de tão nervoso que estava. Quando entrámos, disseram "Somos os Clash, pá! Vamos ser maiores do que toda a gente". Não foi tipo "Ei, gostámos do vosso disco". Eles estavam a agir de forma punk, porque achavam que as bandas de Nova Iorque eram assim».

O documento-charneira do punk britânico, Never Mind The Bollocks, Here's The Sex Pistols, estava a mais de um ano de distância. Sid Vicious ainda não era o baixista dos Sex Pistols, essa posição foi de Glen Matlock até Março de 1977, mas exibia-se pelos meandros punk aguardando uma oportunidade. Dee Dee lembra-se bem dele: «Sid Vicious seguia-me para todo o lado. Isto foi antes de ele entrar nos Pistols. Ele era simpático e muito ingénuo. Eu via-o a toda a hora. A pior altura foi numa festa. Foi num sítio chamado Country Cousin ou Country Club. Estavam a servir cerveja e vinho e toda a gente estava atestada. A casa de banho estava regada a vómito terrível. E alguém perguntou "Dee Dee, precisas de alguma coisa?". De repente, tinha uma enorme quantidade de speed na minha mão e comecei a inalá-lo como um maluco. Fiquei completamente "high". Então encontrei o Sid, que me perguntou "Tens alguma coisa?". E eu disse "Sim, tenho algum speed". O Sid sacou um punhado de speed, colocou-o numa seringa e espetou-o no braço na casa de banho, com todo o vómito e mijo à volta».

Punk e lobotomia

De regresso a Nova Iorque, os Ramones registaram em Outubro, nos Sundragon Studios, o seu segundo álbum. O manancial de canções anteriores à estreia em disco era tal que o alinhamento de Leave Home, editado em Janeiro de 77, não representou alterações estilísticas de maior. Foi uma actualização e muito boa. «Gimme Gimme Shock Treatment», «Pinhead» e «Commando» inscreveram-se, instantaneamente, no léxico Ramones. A revista britânica ZigZag, então imersa no turbilhão punk, destaca «canções mais orelhudas, toques de produção subtis, tempos variados e outras influências». O NME busca no baú das referências «girl-groups» como The Shangri-Las, The Ronettes «e até os Beatles» «se tivermos que traçar uma linha para encontrar o sítio de onde vêm os Ramones, vamos encontrá-lo lá atrás, na escola barroca de Shadow Morton e Phil Spector, da pop do início dos anos 60».

Lamentavelmente, o álbum não passa da 148ª posição do top americano. Ainda em 77, um terceiro volume dos Ramones confirma o talento da banda para o clássico instantâneo. Rocket To Russia é visto como um firme passo rumo ao maior reconhecimento. A editora gasta 25 mil dólares a gravá-lo e encontra o top 50 americano pela primeira vez, desfilando uma quantidade impressionante de canções que vemos hoje como marcos do seu catálogo: «Cretin Hop», «Rockaway Beach», «Sheena Is A Punk Rocker», «Teenage Lobotomy», «We're A Happy Family» e «I Wanna Be Well».

Em entrevista a Phil Sutcliff, da inglesa Sounds, os Ramones adoptam um discurso mais duro. «Somos gente má e zangada. Somos de verdade», avança Tommy directamente para o título do artigo. A New York Rocker sintetiza o furacão: «quatro personalidades diferentes que mal se entendem umas às outras, mas ainda assim juntam-se para formar uma equipa que se parece cada vez mais com a resposta dos anos 70 aos irmãos Marx ou, pelo menos, aos três (quatro?) Estarolas».

Gravado entre Maio e Junho de 78, Road To Ruin desvia-se para a pop mais clássica, pela primeira vez sem Tommy na bateria. O cansaço das digressões remeteu o quarto Ramone para uma posição de rectaguarda (apareceria como produtor). No seu lugar, Marc Bell (Marky Ramone), nova-iorquino de (então) 25 anos. «Don't Come Close», a versão de «Needles & Pins» (de Jack Nitzsche e Sonny Bono), e «I Wanna Be Sedated» colocavam o pé no travão e inventavam novas soluções que viriam a ser exploradas, com polémica, no álbum seguinte, End of the Century, gravado com Phil Spector (que chegou a ameaçar Dee Dee com um revólver).

Para trás fica um dos períodos mais fascinantes da história da música popular, um delicioso «apagão» do passado, um estilhaçar de fundações que resultou da combinação perfeita entre ingenuidade e intencionalidade. Nas palavras de Joey Ramone a Cristine Natanael, em 1989: «Nós esbofeteávamos as pessoas, como que dizendo "Acorda! És a porra de um ser humano! Sabes o que isso significa?"»

Publicado originalmente na revista BLITZ de dezembro de 2007.