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Heróis do Mar: uma lenda por contar

O futuro da música pop portuguesa começou há 35 anos quando os Heróis do Mar editaram o seu primeiro álbum e apareceram com a força de um conceito global. Recuperamos aqui um artigo sobre o início do grupo de Rui Pregal da Cunha, publicado em 2006

Ainda às voltas com a força das palavras que cantavam a revolução, Portugal só então começava a abrir os olhos para uma ainda imberbe cena pop. Desde aí foi forçado a admitir que, tal como a música, também as roupas, atitudes, poses e adereços representavam um papel importante. Os Heróis do Mar de Rui Pregal da Cunha, Pedro Ayres Magalhães, Carlos Maria Trindade, Paulo Pedro Gonçalves e António José de Almeida lançaram no início do Outono de 1981 aquele que é ainda um dos melhores álbuns de sempre da produção nacional. Heróis do Mar, com canções como «Brava Dança Dos Heróis» ou «Saudade», foi recebido com ferozes críticas e alimentou uma forte polémica feita de acusações de nacionalismo exacerbado. Rui Pregal da Cunha explica-se: «para mim aquilo era uma enorme mistura de referências que metiam no mesmo saco a História de Portugal, as sagas de aventuras japonesas que víamos no cinema e o Thor e o Balder não o da mitologia nórdica, mas o da Marvel Comics!».

A verdade é que tal atitude assegurou descendência: Armando Teixeira, o homem dos Balla e Bulllet apareceu durante esta entrevista com dois discos dos Heróis do Mar, o primeiro álbum e o máxi Amor, para recolher um há muito desejado autógrafo. Este episódio espontâneo que pudemos presenciar é mais uma prova de que, de facto, há uma geração devedora da música e das atitudes que os Heróis do Mar inventaram no Portugal de 80 que, explica Rui Pregal, «parecia em termos de mentalidades e estéticos estar ainda a viver nos anos 60». Daí o choque.

Nascido em Macau, mas a viver em Portugal desde os quatro anos, Rui Pregal da Cunha em 1980 já tinha visto ao vivo os Faíscas e os Corpo Diplomático bandas de Pedro Ayres e Paulo Pedro Gonçalves e começava ele próprio a aventurar-se em projectos musicais como os Colagem Urbana: «que não era bem um projecto. Havia era muita vontade de criar música, mesmo sem instrumentos. Com uma televisão, um rádio mal sintonizado e uns gritos por cima daquilo tudo». Rui admite que «vivia noutro planeta» com uma série de amigos que entre o Jamaica, no Cais do Sodré, o Yes, no Areeiro, o Rockhouse, no Bairro Alto, e o Trumps, na Rua da Imprensa Nacional, desenhavam o futuro de um sentir pop nacional recusando um Portugal congelado no tempo.

«Em 1980, havia uma enorme sede causada por todos os sinais que chegavam de fora. De tal forma», explica o cantor, «que quando um de nós recebia um disco levava-o consigo quando saía à noite para pedir ao DJ da discoteca onde fosse para o tocar para todos os amigos o ouvirem». A memória afina-se e Rui refere um sentido de comunidade, importante para os episódios que se seguiriam, que esteve na base da formação dos Heróis do Mar: «as pessoas partilhavam a música, mas também as ideias, iam a casa umas das outras para se vestirem para sair à noite, por exemplo. Havia uma vibração qualquer, uma apetência para a descoberta».

DA PISTA PARA OS ENSAIOS

Esta era a época em que ecos das revoluções de costumes já estabelecidas em Nova Iorque e Londres começaram, muito lentamente, a chegar até cá. Rui lembra-se, por exemplo, do espanto que foi descobrir o número 5 da icónica revista britânica The Face na loja Op de Paulo Nozolino «tinha a Soo Catwoman [antiga parceira de Sid Vicious] na capa» e de como cada uma dessas fontes era devorada com entusiasmo. Nesta altura já havia noites diferentes para pessoas diferentes - «o Pedro provavelmente parava mais pelo Brown's, ali perto do Centro Comercial Roma, mas acabávamos todos por nos encontrarmos ao fim da noite no Trumps» - mas certos lugares acabavam por funcionar como pólos magnéticos atraindo gente de todos os quadrantes e sensibilidades.

Local de culto da noite gay lisboeta, o Trumps, «o Studio 54 a que tínhamos direito», ironiza Rui Pregal, era no entanto frequentado por todo o tipo de pessoas, seduzidas pelos sons do Disco e de alguma new-wave de recorte mais electrónico que se começava a insinuar nas pistas de dança. «Eu estive para ser o primeiro DJ do Trumps», recorda Rui Pregal, «e até cheguei a fazer a primeira compra de discos para a casa, mas não era o que eles estavam à procura, eles queriam disco--sound puro e duro e eu tinha comprado algumas coisas de disco, mas também outras coisas que não tinham nada a ver». Rui Pregal acabou por sugerir o nome de João Vaz, hoje a voz dos finais de tarde da Rádio Comercial, que se impôs como seminal DJ a partir da cabine do Trumps acabando por ser importante para muitos nomes hoje estabelecidos na cena da música de dança portuguesa.

«Foi mesmo no meio da pista do Trumps que o Pedro me abordou e me perguntou se não queria aparecer na sala de ensaios deles em Benfica porque estava-se a formar um novo grupo», explica Rui Pregal que admite ter sido «pela pinta» que o convite surgiu: «nesse tempo eu levava a roupa muito a sério lembro-me de ir para as aulas vestido com um fato de três peças dos anos 40 comprado na loja da Madame Bettencourt num dia e no outro aparecer vestido de pirata das Caraíbas, com espada e tudo». «Quando cheguei à sala de ensaios eles pediram-me para eu cantar qualquer coisa e a verdade é que não me conseguia lembrar de uma única letra para cantar».

Fosse como fosse, por ter cantado «o "Sitting on the Dock of the Bay" ou qualquer coisa assim», Rui Pregal acabou mesmo por ficar com o lugar de cantor e em Maio de 1981 com Pedro Ayres Magalhães no baixo, Carlos Maria Trindade nos teclados, Paulo Pedro Gonçalves nas guitarras e António José de Almeida na bateria arrancaram os trabalhos que culminariam com a gravação do álbum de estreia dos Heróis do Mar.

POP À PORTUGUESA

A ideia mais forte que Rui Pregal da Cunha transmite sobre esses primeiros tempos dos Heróis do Mar é a de um colectivo muito unido e disciplinado que toma todas as decisões em conjunto: «éramos muito unidos, ensaiávamos oito horas por dia, íamos ao cinema juntos para ver coisas que achávamos importantes. O que nasceu ali, nasceu de nós os cinco».

A ideia dos Heróis era apresentar um projecto completo à editora PolyGram: «queríamos levar a música já gravada, as fotos de promoção já feitas, a capa já desenhada, a roupa já escolhida». O que demonstra que nada foi deixado ao acaso e quando chegaram ao estúdio já todas as canções tinham a sua forma final. «A nossa técnica de gravação era muito simples», recorda Rui Pregal. «Tocávamos todos juntos, depois escolhíamos o melhor take e a partir daí cada um de nós regravava as suas partes».

Para o cantor, essa primeira experiência de estúdio foi o equivalente a um empurrão para a água quando não se sabe nadar: «Qual técnica de microfone? Eu nem nunca tinha visto um microfone Neumann na vida». Rui Pregal recorda um tempo em que não se tomavam cuidados com a voz, «dançava por aí até às tantas e saía para a rua todo transpirado sem pensar no que isso fazia às nossas cordas vocais» e que, talvez por isso mesmo, gerou um episódio curioso: «dois dias antes de entrar em estúdio fiquei completamente sem voz e estava toda a gente aflita, o Tozé Brito ao telefone sem saber o que fazer. Houve então um cantor de ópera do São Carlos que recomendou uma injecção de um extracto qualquer de eucalipto que me devolveu a voz em cinco segundos. Só que, não contente com isso, fui sair novamente nessa noite e toda a gente me pedia um dos meus rebuçados porque a injecção deixou um fortíssimo hálito a eucalipto».

Todo o processo de gravação foi sendo acompanhado pelo círculo de amigos da banda, onde se incluía gente como António Emiliano, Paulo Borges ou Edgar Pêra, e o entusiasmo foi igualmente ganhando força. «Penso que a editora percebeu que tinha alguma coisa diferentes entre mãos», afirma Rui Pregal. «Na altura o best-seller da editora era o álbum dos Táxi e o nosso seguia claramente por um caminho diferente, por isso havia expectativa à nossa volta». E a expectativa resultava da antecipação das reacções do público e imprensa ao que Rui descreve como «aquela misturaça toda que tinha música africana, disco e pop e seja lá o que mais». Ou seja, existia excitação e expectativa, mas, como o próprio Rui Pregal da Cunha confessa, «não havia era nada que pudesse ter preparado aquela gente toda para o que se seguiu». E o que se seguiu foram meses de intensa polémica.

A QUESTÃO DO FASCISMO

«A minha memória, nem sei bem porquê, guardou daquele tempo sobretudo as coisas esquisitas e menos as coisas boas,» refere Rui Pregal. E a verdade é que muita coisa esquisita aconteceu de facto. António Duarte, autor do livro A Arte Eléctrica de Ser Português 25 anos de Rock n' Portugal (Livraria Bertrand, 1984), foi o primeiro a entrevistar o grupo e a interpretar política e negativamente toda a imagética dos Heróis do Mar nas páginas do muito influente semanário Se7e. Paralelamente, Belino Costa, outro jornalista do Se7e, assinou um texto que rodava em torno da estupefacção que um extra-terrestre sentiria ao aterrar em Portugal e descobrir um grupo de cinco rapazes com vestes militares. De repente, o grupo viu-se imerso numa polémica imensa em que acusações de fascismo eram quotidianas.

«A primeira vez em que fomos aos estúdios de televisão do Monte da Virgem, em Gaia, apareceu-nos no camarim o realizador do programa a perguntar se nós íamos usar braçadeiras. Respondemos, claro, "quais braçadeiras?". E depois perguntou-nos se sempre íamos trazer bandeiras com cruzes suásticas. "Cruzes suásticas? Não, temos é bandeiras com a flor de liz". E ele respondeu que era melhor não usarmos essas porque em televisão poderiam parecer cruzes suásticas». Rui Pregal da Cunha afirma que os Heróis do Mar falavam sobretudo de emoções, mas a verdade é que o nome, a exaltação de um certo espírito guerreiro nas letras e, claro, a estética marcial do visual da banda, caíram muito mal junto da intelectualidade de esquerda.

E os exageros não demoraram a acontecer: «O nosso primeiro concerto após o lançamento do álbum aconteceu, por mero acaso, no dia 25 de Novembro, no Rock Rendez-Vous, e chegou a circular o boato de que o Jaime Neves iria aparecer em palco». E o grupo tinha preocupações políticas? «Sei lá. Falávamos de política, claro, mas não havia posições definidas. O Pedro, por exemplo, se era alguma coisa era comunista, daqueles retintos».

COM OS ROXY MUSIC

A polémica teve, no entanto, um lado extremamente positivo que o próprio Rui Pregal reconhece: «foi a melhor publicidade que podíamos ter tido». O grupo reforçou-se com todas as críticas negativas e enfrentou os tempos de peito aberto chegando até a protagonizar um gesto hoje praticamente impensável: em resposta a todas as acusações que consideravam infundadas, os Heróis do Mar e a sua editora fizeram publicar no Se7e um anúncio de página inteira com uma célebre frase de Fidel Castro «A história nos absolverá» em grande destaque.

A história não demorou muito tempo a absolver os Heróis do Mar, de facto. Depois da estreia ao vivo no palco do RRV, a banda fez mais um par de espectáculos antes de se apresentar em Leiria perante alguns jornalistas franceses. O sexto concerto da banda foi em Paris e precedeu a edição do álbum em França, algo que aconteceria em 1982. O grupo haveria de regressar a convite dos Roxy Music depois de uma boa impressão causada numa primeira parte feita para a banda de Bryan Ferry em Portugal. A verdade é que ao sobreviverem aos agitados tempos iniciais, os Heróis do Mar acabaram por se transformar num dos marcos da década de 80, ultrapassando muito rapidamente as vendas mornas do primeiro álbum com o verdadeiro estoiro que foi o máxi-single Amor, um disco que vendeu tanto que criou a necessidade de se inventar o galardão Platina.

Os Heróis do Mar despediram-se do seu público em 1990, tendo deixado uma obra singular com momentos de diferente intensidade artística. O primeiro álbum, no entanto, destaca-se pela força das ideias que, curiosamente, já anunciavam o futuro dos membros da banda: Pedro Ayres Magalhães, primeiro, e Carlos Maria Trindade, mais tarde, fizeram carreira com os Madredeus, grupo que hoje em dia tem uma sólida carreira internacional; Rui Pregal da Cunha e Paulo Pedro Gonçalves voltaram a investir nos terrenos da pop sintonizada com os ventos internacionais com os LX 90 e, mais tarde, em Inglaterra, com os Kick Out The Jams. António José Almeida tornou-se um premiado realizador de documentários e Paulo Pedro Gonçalves regressou à Escócia onde continua ligado ao mundo da moda. E Rui Pregal da Cunha tornou-se um homem do universo da publicidade.

Já houve, como não podia deixar de ser, pelo menos duas tentativas de reunião dos Heróis do Mar. A primeira aconteceu há dez anos e, nas palavras de Rui Pregal, «se tivesse resultado teria levado o grupo a encerrar a Expo 98». A segunda foi no ano passado e teve como principal impulsionadora uma grande fã da banda, a mulher de Rui Pregal da Cunha: «ainda fizémos uns ensaios, mas descobrimos que tocávamos todas as músicas a metade da velocidade». «A verdade», conclui Rui Pregal, «é que é muito difícil voltarmos a funcionar porque sempre fomos demasiado perfeccionistas e para nos reunirmos hoje teríamos que voltar a ensaiar com o mesmo rigor e tentar usar tudo o que a tecnologia hoje nos oferece em termos de possibilidades de utilização de projecção de imagens, por exemplo, porque isso é que são os Heróis, um grupo que esteve sempre em sintonia com o seu tempo. E para fazer isso teríamos todos que abandonar as nossas carreiras durante uns seis meses no mínimo, coisa que se tornaria impossivelmente cara».

Publicado originalmente na revista BLITZ de setembro de 2006.