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Cinco discos de Bowie que pode nunca ter ouvido

Apesar da vasta e reconhecida obra gravada, há peças na discografia de David Bowie que são verdadeiros tesouros esquecidos. Uns porque não tiveram sucesso maior, outros porque nunca chegaram a CD. E um deles nem figura sequer nos sites que enumeram os títulos que editou (mas existe)

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Em mais de 50 anos de discos (a estreia chegou em 1964 com o single “Liza Jane”), David Bowie editou 25 álbuns de estúdio. Podemos somar mais dois se aos que lançou a solo juntarmos o par que criou a bordo dos Tin Machine. Porém, a sua discografia não se esgota aí. Temos de juntar mais 120 singles (apenas nas contas “oficiais” britânicas, que definem o cânone), seis EP, nove álbuns ao vivo, uma meia centena de antologias e inúmeras colaborações. É vasta, de facto. E variada. Há porém entre todo este mundo, que está longe de ser desconhecido, algumas peças que frequentemente escapam à nossa atenção. E até mesmo alguns discos que, salvo os mais atentos admiradores, muitos podem nem sequer conhecer. E se para muitos pode ser surpresa dizer que a primeira banda de Bowie surgiu no mesmo ano em que os Beatles editaram “Love Me Do”, há certamente quem possa julgar que “Space Oddity”, em 1969, foi o seu primeiro álbum. E logo aí encontramos o primeiro dos cinco discos pe(r)didos de David Bowie que vamos aqui evocar.

  • 1967. A estreia com algo completamente diferente

Há um álbum de David Bowie antes de Space Oddity. Chamou-lhe simplesmente David Bowie e surgiu no mesmo ano em que os Beatles lançavam Sgt. Peppers, os Velvet Underground lançavam o disco com a banana na capa e os Doors cantavam “Light My Fire”. Era contudo um disco bem diferente não apenas dos vários singles dispersos que Bowie tinha já editado desde 1964, como revelava uma busca de caminhos pessoais bem longe das tendências pop/rock do momento, colhendo antes pistas nos universos do teatro musical e do cabaret. Passou a leste das atenções. Mas não só é uma primeira manifestação de uma certa personalidade alienígena, como na verdade é uma magnífica coleção de canções, experimentando sonoridades às quais nunca regressou.

  • 1982. Ao serviço do teatro de Brecht

Numa etapa em que, tendo já experimentado o cinema, Bowie ganhava alguma visibilidade como ator de teatro (encarnou, por exemplo, e com sucesso, a figura do Homem Elefante numa produção na Broadway em 1980), quando em 1981, a meio do hiato de três anos que separou Scary Monsters (1980) de Let’s Dance (1983), a BBC o chamou para trabalhar numa produção de Baal, de Bertolt Brecht. Além da sua presença no elenco da peça, Bowie compôs e gravou música para esta produção. Regressou com Tony Visconti aos estúdios Hansa em Berlim onde registou uma série de temas, todos de sua autoria salvo uma versão de “The Drowned Girl” (na verdade um original de Kurt Weill, que integra o Das Berliner Requiem). Uma seleção destas peças gravadas foi lançada em 1982 num EP de cinco temas dos quais só dois tiveram até hoje reedição em suporte de CD… O EP é assim um tesouro em vinil disputado entre colecionadores.

  • 1993. Uma banda sonora para televisão

Em finais dos anos 80, Bowie resolveu tirar uma pausa para reflexão, certamente ciente de que os caminhos que seguira nos recentes Tonight (1984) e Never Let Me Down (1987) seriam mais projeção do que dele se esperava após Let’s Dance do que uma partida para caminhos de maior desafio (tal e qual o seu padrão de edições até aí sugerira). Juntou músicos e formou os Tin Machine, com os quais gravou dois álbuns de estúdio e fez uma digressão. Correu mal. E ali nasceram os seus piores discos. O reencontro com caminhos mais interessantes e compensadores chegou em 1993 ao retomar a vida em nome próprio com Black Tie White Noise e um outro segundo álbum muitas vezes esquecido. Trata-se da banda sonora para a adaptação televisiva do romance de Hanif Kureishi The Buddha of Suburbia, um disco feito de canções e temas instrumentais nos quais abriu alas a uma pulsão experimental como não fazia desde os anos 70 e onde se revela pela primeira vez “Strangers Where We Meet”, uma das suas grandes canções dos noventas.

  • 2000. Um disco ao vivo para o clube de fãs

O renascimento criativo de Bowie em meados dos anos 90, que tem expressão maior no álbum de 1995. Outside (que assinalou o seu reencontro em estúdio com Brian Eno), motivou um regresso à estrada sob novos destinos sonoros (de que tivemos expressão na sua passagem pelo Super Bock Super Rock, em Lisboa). As intensas digressões que acompanharam esse disco e o seguinte Earthling (1997) não conheceram registo oficial editado depois em disco ou DVD. Há porém um disco que lembra esses tempos de palco. Trata-se de Liveandwell.com (não consta sequer das discografias no discogs ou wikipedia) e foi lançado pelo próprio Bowie, estando apenas disponível para os assinantes da Bowie Net. E o que era a Bowie Net? Era o seu site oficial, um dos primeiros a criar dinâmicas novas de comunicação e interação, e teve neste CD duplo (um dos discos é ao vivo o outro tem remisturas exlusivas) uma das suas mais interessantes criações.

  • 2001. Uma coleção de paisagens ambientais

Uma das mais interessantes novidades dos discos de Bowie que associamos à sua passagem por Berlim surgiu na forma de uma série de composições instrumentais que valorizaram sobretudo o trabalho com os sintetizadores e que traduzem o fruto de diálogos criativos então desenvolvidos na companhia de Brian Eno. Em 1993 David Bowie juntou algumas destas peças numa compilação (num duplo CD) expressamente feita para oferecer como presente de Natal a alguns amigos. Chamou-lhe All Saints e desse “presente” (que virou rara peça de colecionador) fizeram-se apenas 150 cópias. Em 2001 o alinhamento foi reduzido a apenas um disco, juntando aos instrumentas “berlinenses” um excerto da Low Symphony, a sinfonia que Philip Glass criara em 1993 com o álbum Low de 1977 como ponto de partida e que representara então a sua primeira incursão pelo formato (vale a pena acrescentar que, algum tempo depois, a quarta sinfonia de Glass teve génese semelhante, mas com o álbum Heroes como fonte de inspiração.