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Parabéns Xutos! No dia em que a banda celebra 37 anos, recorde uma das entrevistas à BLITZ

O primeiro concerto de sempre dos Xutos & Pontapés - nos Alunos de Apolo, em Lisboa - aconteceu há 37 anos. A BLITZ celebra recordando a entrevista de capa com a banda portuguesa, publicada em dezembro de 2006. Texto de Ana Ventura

Rita Carmo

Últimos anos da década de 70. O movimento punk é sinónimo de rebeldia e negação de um status quo. Em Portugal, atravessa-se o período de descoberta da liberdade pós-25 de Abril. E em Lisboa, dois amigos têm o sonho de formar uma banda. Uma banda que fizesse toda a diferença. Um deles passeia-se por Lisboa de alfinete espetado na boca. O outro conhecia um puto de Almada, cujo pai lhe tinha construído uma guitarra. Para tocar bateria decidem colocar um anúncio no jornal e há um outro puto, «tripeiro de gema», que responde. Liga-lhes duas vezes e ainda refila. Em 1978 juntam-se pela primeira vez na mítica sala de ensaios Senófila, o espaço ideal para quem dava os primeiros passos e precisava de um sítio para praticar. A 13 de Janeiro de 1979 sobem ao palco pela primeira vez, ao lado de um dos projectos punk mais relevantes de então os Faíscas. Eles chamavam-se Xutos & Pontapés.

Novembro, 2006. É indisputável: os Xutos são a mais unânime banda de rock nacional.

Há quem não goste da sua música mas, como os próprios reconhecem, mesmo esses acham que os Xutos devem ser uns gajos porreiros. E são.

Passaram um dia inteiro nos estúdios de fotografia que servem a revista BLITZ para quem trocaram de roupa, de adereços e fizeram pose à Sopranos. Abriram as portas da sua intimidade e deixaram-nos observar de perto uma cumplicidade familiar que apenas se alcança depois de, praticamente, três décadas de trabalho em conjunto. São 28 anos de altos e baixos, de sucessos em crescendo e de quedas a pique. E são essas três décadas a matéria-prima para Ai A **** da Minha Vida, o DVD-triplo que a banda se prepara para editar nesta quadra natalícia.
Em quase seis horas, os Xutos oferecem, mais uma vez, o protagonismo às suas canções. E deixam que sejam elas a contar as suas histórias. Mas à BLITZ - e às perguntas feitas por alguns dos seus leitores - não deixam nada por contar.

O Zé Leonel [um dos fundadores e primeiro vocalista] explica no DVD que a ideia-base para os Xutos era formar uma banda com atitude. A missão foi cumprida?
Zé Pedro Acho que sim. E logo desde o início. O punk-rock tinha muito a ver com essa atitude - e as bandas novas que apareciam nessa fase tinham sobretudo a ver com a exposição dessa atitude, que depois levavam para as canções. Esse era o conceito que tínhamos em mente.

Eram mesmo punks ou era só a atitude?
ZP
Falar em punk é um bocado relativo - sobretudo porque o punk, antes de mais nada, era uma atitude, a tal atitude que nós, de facto, tínhamos. A atitude punk tínhamos de certeza... E acho que éramos mesmo punks...

Só o Kalu é que vem parar ao grupo através de um anúncio posto num jornal - explicam vocês no DVD, numa entrevista da época, que foi o único a ligar duas vezes e ainda mandou vir convosco.
Kalu Ora bem!

O Kalu ficou na banda por causa do mau feitio?
ZP
(Risos)
K Acho que o melhor é perguntares ao Zé Pedro. Mas a verdade é que, se calhar, fui o único a tomar uma atitude (risos).
ZP Mas quando nos conhecemos na [Cervejaria] Trindade, tanto eu quanto ele, sentimos logo que havia uma química. Ficámos ali um bocado a falar. E criou-se logo uma boa cumplicidade entre os dois. Tanto que nem foi preciso ouvi-lo tocar.
K Depois de ter ficado meia hora à seca ao balcão! Porque vocês se tinham esquecido que iam ter comigo!
ZP (risos) Mas depois compensámos.

No DVD, surgem em algumas actuações enquanto trio: durante quanto tempo foram um trio?
ZP Isso aconteceu apenas no período que antecedeu a entrada do João Cabeleira. O João, aliás, era «o» guitarrista para os Xutos & Pontapés. Não o tínhamos descoberto antes - tivemos o Francis e no início era só mesmo eu a tocar guitarra... Mas a verdade é que os Xutos & Pontapés tomaram forma, no sentido de as coisas irem para a frente, com um gozo enorme, com a entrada do João Cabeleira. Porque ele é um guitarrista diferente, original.
Tim Também teve a ver com uma mudança de som que decorreu no universo musical, no início dos anos 80. Quando nos formámos, em 78/79, e quem nos gravou pela primeira vez o António Sérgio, ainda todos tínhamos um conceito de guitarra muito diferente. Os solos típicos dos anos 70. Mas quando houve um abanão grande e quando se falou na morte do rock português, nos primeiros anos da década de 80, apareceram sonoridades diferentes e é nessa fase que aparece o João Cabeleira. A guitarra dele soava de forma completamente diferente e não apenas no universo dos Xutos. Nós gostávamos de determinadas coisas mas sobretudo porque não conhecíamos o que se estava a fazer de novo. As sonoridades mudam entre 82 e 84 e, mesmo em Portugal, essas correntes sentiam-se. Quase como se o punk, em Portugal, tivesse sido não um princípio mas um fim, porque foi daí que muitos outros projectos e muitas outras sonoridades apareceram.

O Francis afirma no DVD que o álbum 78-82 é, ainda hoje, o disco mais cru dos Xutos - concordam?
T Não! Não é possível! Então e o Cerco?! Deve estar a esquecer-se do Cerco, com certeza! O Cerco é uma coisa gravada com o auxílio de um Spektrum 48K, umas fitas manhosas.
K As baterias gravadas no Rock Rendez-Vous, sem ninguém.
ZP As guitarras gravadas num apartamento no Marquês de Pombal.
T Não, com isso não concordo nada!

Falaram no Rock Rendez-Vous: no DVD, aparecem a tocar lá quando ainda eram trio. No meio do público, mesmo à frente, junto ao palco, surge identificado o João Cabeleira. Que memórias é que esse concerto traz?
João Cabeleira Não sei como é que fui lá parar. Mas acho que nesse dia não estavam em trio.
T Estávamos. Tínhamos era uma série de convidados.
JC Mas lembro-me muito melhor de tê-los visto numa colectividade qualquer, onde arrasaram completamente.
Gui Exacto! Não tocámos com eles nesse?
ZP Não. Este foi na Sociedade Musical Ordem e Progresso [em Lisboa].
JC Nesse dia, sim, achei que eles foram mesmo muito bons.

Numa das primeiras entrevistas que fazem para televisão, perguntam-vos se se tinham encontrado na música. Na altura, responderam que se iam encontrando e agora?
ZP Continuamos a encontrarmo-nos. Hoje em dia, todos nós sofremos influências... E, não só tecnicamente mas também a nível criativo, continuamos a querer renovarmo-nos. Porque só assim é que o nosso contributo para o colectivo Xutos & Pontapés poderá ser apurado.

T Nunca houve um momento de descargo de consciência, em que algum de nós chegasse a um ensaio a dizer que tinha feito «a» canção...
ZP Sim, nunca nos convencemos de coisa nenhuma. Antes pelo contrário: às vezes há músicas que o Tim apresenta, com as quais não está nada convencido, e somos nós que achamos que a coisa pode realmente soar. Existe sempre este tipo de humildade e eu acho que isso é óptimo.
T Com o musical [Sexta-feira 13, encenação que utilizava o reportório dos Xutos num argumento original], quando ouvi canções antigas como o «Mãe», o «Dantes» com outras mais novas, todas a funcionar tão bem umas com as outras. Comparando o novo com o antigo, a malta nunca conseguiu olhar para trás sem ver o preto que ainda tem à frente. E acho que é muito importante que esse «preto» se mantenha sempre lá.

A maioria das actuações televisivas que surgem logo no início do DVD são claramente em playback que é uma técnica que de todo não dominavam.
ZP Acho que gozávamos mais com o playback do que falhávamos.
K A malta falhava de propósito, para se perceber como aquilo tudo era ridículo. Detestávamos aquilo.
T O som era muito mau, eram precisos 500 ensaios para uma coisa de nada. Ficávamos muito tempo à espera e isso, claro, tinha algumas consequências. (Risos)
K Aí é que tocaste na ferida! (Risos)

O RRV foi, durante a primeira metade da década de 80, a vossa segunda casa? Segundo o Mário Guia, um dos sócios do clube, no DVD, vocês foram os recordistas...
ZP Era «o» clube. E quando existe um clube na cidade, esse clube transforma a vida da própria cidade. Eu e o Kalu sentimos um pouco isso numa escala diferente claro com o Johnny Guitar [no qual partilhavam sociedade com Alex, dos Rádio Macau]. Há uma transformação: não é que as bandas vivam exclusivamente em função desses clubes, mas sabem que têm ali um espaço onde se podem mostrar. E isso é muito importante. Para nós, o RRV era um espaço onde adorávamos tocar. E onde podíamos ver outras bandas.
T E no RRV demos a volta toda tocámos com o Zé Leonel, com o Francis, como trio, com convidados.
K Tocámos no aniversário dos GNR.
ZP Não! Os GNR é que tocaram no nosso quinto aniversário. Com os URB, também...
G O RRV era um sítio onde se podia sempre tocar. Sabíamos que tínhamos ali um sítio para tocar.
ZP Nós compunhamos coisas a pensar em quando as íamos lá tocar.
K Era óptimo para sair da garagem! E depois o Pita [peça fundamental no funcionamento do clube da rua da Beneficência] ligava-nos a dizer que lhe faltava uma banda e lá íamos outra vez. 'Bora!
G Aliás, vocês vão abrir o RRV depois de ele ter estado fechado. Depois de a sala ter reaberto [em 1983].
T Nessa altura, o Pita quis logo marcar um concerto. E o Francis começou a dizer que para ele não dava, porque estava a trabalhar. Mas nós os três queríamos ir tocar. Nem que fossemos sozinhos.

E foram.
ZP
E foi assim que o Francis saiu.

O «X» como imagem de marca surge pela primeira vez na capa de Cerco... Essa imagética ainda tinha a ver com as tais raízes punks? Também é nessa altura que surgem os lenços, que ainda hoje são outra das vossas imagens de marca.

ZP Os lenços já apareceram na altura do álbum Circo de Feras.
T O Kit [amigo da banda] traz-nos os lenços já depois do Cerco. Perto do Circo de Feras. Mas não houve muito tempo de intervalo entre os dois discos.
ZP À volta de um ano. O Cerco é gravado no final de 85, depois gravamos o Ao Vivo no RRV e logo a seguir assinamos pela Polygram.
T Mas as distâncias não são grandes. E esse Verão entre os dois álbuns é um Verão cheio de concertos. Sempre tivemos muita saída na província - e tenho quase a certeza que estávamos numa terra, que se não era Campo Maior era lá perto, e é aí que o Kit nos leva os lenços.
G Foi cá? Não foi em Espanha? É que eu lembro-me de ele ir ter connosco a Barcelona...
ZP O «X» apareceu como sugestão do Marco Santos [um dos responsáveis pela capa de Cerco]. Como os Clash, que, desde o início, tiveram sempre uma estrela associada.
T Mas também acho que teve a ver com umas eleições, que houve nesse ano. Quer dizer, não tinha a ver com as eleições mas com o voto.

Com Circo de Feras, em 87, entram numa multinacional [Polygram, que hoje faz parte do grupo Universal] segundo o produtor do álbum, Carlos Maria Trindade, com esse disco vocês «continuaram a ser uma banda de culto mas para um público mais vasto». Quando é que começaram a sentir que estavam realmente a chegar a mais pessoas?
ZP Acho que foi ao longo da carreira. Começámos a ir tendo cada vez mais gente - porque mesmo antes do Circo de Feras já tínhamos muitas pessoas nos concertos.
T Acho que foi no 88.
ZP Pois, talvez. Porque o Circo de Feras foi o primeiro trampolim, com a chegada a uma multinacional, o disco a passar na rádio, as sessões de autógrafos, a distribuição bem feita. Na altura, havia uma preocupação grande em vender discos e quando os discos saíam havia realmente campanhas fortes. Nós entrámos na Polygram ao mesmo tempo que os Mler Ife Dada, os Radar Kadafi, os Afonsinhos do Condado. Eram quatro apostas grandes da editora mas não sei se fomos os primeiros a editar.
T Não. Quer dizer: fomos os primeiros a sair mas não éramos a maior aposta.
ZP Mas quando o álbum sai, começa logo a passar na rádio curiosamente, o single que lançámos foi o «Sai P'ra Rua» mas as rádios começam logo a passar o «Contentores».
G E tivemos o «Contentores» a passar num programa do Adelino Gonçalves que só passava música estrangeira!
T Mas nessa época também acabámos por ganhar bastante com uma série de relações que tínhamos criado até então. Havia pessoal, que estava a começar na rádio, que estava muito habituado a ver concertos de Xutos e abriram-nos a porta imediatamente. Parecia que tinham estado à espera que aparecesse alguma coisa.

É por volta dessa altura que surge «Minha Casinha» - como é que nasceu a ideia de pegar numa canção do filme O Costa do Castelo?
ZP A editora queria que saísse o «Contentores» o single que acabou por sair e nós pedimos o fim-de-semana, para gravarmos uns temas novos. E foi assim que o single nasceu.
T Não é isso que ela está a perguntar.
ZP Ah não?
T Eu lembro-me disso. Eu tinha a «Casinha» de memória. Não tenho a certeza mas acho que foi usada pela primeira vez numa daquelas situações de aperto extremo, no RRV, em que já não havia mais nada para tocar. Mesmo. Já tínhamos tocado os temas mais antigos todos, as versões mais birutas, já tínhamos tocado o «É Tão Fácil», o «Frágil», o «Cão de Polícia, Cão», todas as canções possíveis e imaginárias, mas o público pedia mais músicas e mais. E eu lembro-me de começar a tocar a «Casinha» - arranco mas tudo o resto seguiu. E hão-de reparar que, mesmo nas primeiras gravações, no final eu praticamente já não canto. O pessoal ia continuando a tocar mas eu ficava por ali porque não havia mais nada. É o resultado de uma situação de exaustão.

No DVD aparecem canções inéditas, como o «É Tão Fácil»: onde estão essas raridades? E que outras canções têm vocês guardadas?
T Nós nunca desperdiçámos muitas coisas nos Xutos. Há umas palermices ou outras.
ZP Há algumas ainda cantadas pelo Zé Leonel, como o «Caso Arrumado».
K Ou o «Dilúvio». Que nasce por causa do autoclismo.
T (Risos) «Ó Zé Leonel, como é que se chama a música?»
K (Risos) E ele, que tinha ido à casa de banho, puxou o autoclismo e disse: «Dilúvio».

E nunca pensaram em editar essas canções?
ZP
Não. Porque nós temos um processo de trabalho muito engraçado: começamos com os esboços que temos na mão mas basta um de nós não alinhar ou não gostar ou não arranjar solução para a sua parte e esses fragmentos vão-se perdendo. No seu conjunto.
T E é engraçado porque, muitas vezes, passados uns tempos, voltamos a essas canções que, numa determinada altura, não resultaram - e mesmo assim elas continuam a não resultar.
ZP Houve uma altura em que deixávamos sempre uma canção pendurada, por álbum. Mas nunca voltávamos realmente...
K Porque eram canções de uma determinada altura.

Numa das entrevistas que surgem no DVD, perguntam-vos o que vão fazer se tiverem muito dinheiro e nessa altura respondem que vão «gastá-lo». Já ganharam muito dinheiro?
ZP Já gastámos! (Risos)

Alguma festa de aniversário foi tão enlouquecida quanto o concerto no Coliseu do Porto, que assinalou os vossos 15 anos de carreira?
ZP Não! Nem mesmo o quinto aniversário, que foi no RRV.

Dava para alguém se entender em cima daquele palco, com tanta gente a entrar e a sair?
G Sim, sim.
T O Fred Valsassina [dos Censurados] tinha o domínio da situação. Juntamente com o Fernando Cunha [dos Delfins] e o João San Payo [Peste & Sida] foram eles que organizaram todas as movimentações de palco. Mas fizeram-me um número, quando lá chegámos... Eu estava nervosíssimo com aquilo tudo e a primeira coisa que o Fred me diz, quando eu estou a subir as escadas do Coliseu do Porto, é que ele e o Fernando Cunha se tinham zangado, não falavam um com o outro, que tinham ido lá porque estavam à espera que houvesse cerveja! (Risos) E eu estava mesmo à espera que acontecesse uma coisa daquelas. Claro que era mentira! (Risos)

João: para quem raramente sequer fala, como é que surgiu a possibilidade de cantar o «Dantes», nesse concerto?
JC É pá, se queres que te diga, já nem me lembro como é que isso aconteceu.

Mas é bom que apareça no DVD?
JC Gosto muito daquele momento, de ter tocado com o Jorge Quadros [dos Sitiados] e com o Rui Fadigas [dos Delfins].

E acham que o Kalu consegue cantar sem acabar a fazer stage-diving?
K Então não consigo?!
T Desde que o agarrem!
K Mas é daquelas coisas que um gajo não pode morrer sem fazer! E bati muitas vezes com as costas no chão!

E ele chegou muitas vezes ao palco sem roupa?
K Totalmente, só uma vez. Cheguei ao palco só de cuecas. Nem os sapatos me deixaram foi em Praia de Mira [em 1998]. Tive que estar a pedir para me devolverem os sapatos! (Risos)

Ao longo do DVD vocês nunca aparecem a falar: acham que são as vossas canções os melhores documentos para a vossa história?
T Claro! Tudo o resto é acessório. Tudo o resto que aconteceu, aconteceu porque houve as canções. Sem elas, sem os concertos, não havia mais história nenhuma.

E a biografia do Zé Pedro dava para ser feita a partir dos seus cortes de cabelo?
ZP (Risos) Se calhar dava!

E há algum que, ao relembrar, a esta distância, provoque um imenso arrependimento? Porque, ao longo do DVD, vai-se percebendo o tempo a passar através dos cortes de cabelo do Zé Pedro...
ZP Não! Mas ainda bem... São coisas que acontecem naturalmente: neste momento está o Kalu a passar pela fase do cabelo comprido...
K Não estou nada!
ZP Às vezes temos a preocupação de ter os cabelos cortados, por exemplo, para começar uma digressão. Mas nunca foi uma coisa com a qual nos preocupássemos muito. Deixamo-nos mais ir...

Em «Estupidez», vocês dizem: «Antes quero ser um Velho do Restelo, do que um fascista sem cabelo» - tiveram sorte, não foi? Nenhum ficou careca...
ZP Pois não!
T Felizmente!
G Porquê?! Estás com isso a dizer que algum de nós é fascista? (Risos)
K É isso que estás a insinuar?! (Risos)

Um dos aspectos que a maioria das pessoas aponta aos Xutos é que, quem gosta de Xutos, quase se sente como fazendo parte de uma mesma família - como é a família Xutos & Pontapés?
T Acho que isso tem muito a ver com a forma como nos relacionamos com as pessoas dos sítios por onde vamos passando. No princípio, por exemplo, fizemos amigos porque as pessoas se sentavam à nossa mesa para explicar onde é que se saía à noite no sítio onde estávamos. Ou quando as pessoas se encontravam em sessões de autógrafos e partilhavam as canetas. Noutras viagens, com promotores ou organizadores, ganharam-se relações que são mais próximas de relações familiares do que propriamente de relações de trabalho mas é essa a nossa forma de lidar com as coisas que vão acontecendo. E com muita gente que vamos conhecendo.
Temos a nossa equipa de trabalho e essa equipa reflecte o nosso espírito e isto multiplicado por 15 ou 20 pessoas, que vão contactando com outras tantas, acaba por fazer com que tenhamos sempre muita gente à nossa volta. Estamos sempre disponíveis para passar tempo com as pessoas claro que, ao longo dos anos, isso vai criar uma imagem nossa quase de família. E isso faz com que as pessoas não nos queiram mal e sejam bondosas connosco.

Vocês abraçam-se muito? É que surgem vários abraços ao longo do DVD...
K Isso é aqui o nosso amigo! (aponta para Zé Pedro) (Risos) Até fizemos um vídeo em que só havia abraços!
G Mas eu acho que a cena da família também passa pelo facto de, mesmo as pessoas que não gostam da nossa música, acham que os Xutos são uns gajos porreiros.
T E nós também nunca tivemos uma atitude contra as outras bandas, por exemplo. Nunca houve rivalidades.

Ser comendador, é bom?
ZP
É óptimo!
G Bem, de manhã cedo, é muito bom. Mas tem que ser muito cedo! (Risos)

Sentem, como muitos disseram em 2004, quando vos foi atribuída, por Jorge Sampaio, a Ordem de Mérito, que são os rebeldes que viraram instituição?
ZP Não, não sentimos diferença nenhuma. Tenho muito orgulho em ter recebido a Comenda mas isso não vai alterar nem aquilo que sou nem aquilo que gosto de fazer na vida. A maior parte do tempo até me esqueço que sou comendador a não ser de manhã, não é, Gui? (Risos)

Segundo diz o Carlos Maria Trindade no DVD, «os Xutos significam o mesmo que os Stones a nível internacional: a banda que inventa um estilo e, mantendo-se fiel a esse estilo, aguenta uma carreira de 20 e tal anos». Há melhor elogio que vos possam fazer do que comparar-vos aos Rolling Stones?
ZP Errr. Não!
G Quer dizer, para mim há melhores. Mas agora não estou a ver! (Risos)
JC Ainda está a gravar?! É importante dizer que, pelo penteado do Zé Pedro, eu digo que neste momento são um quarto para as oito!

Voxpopuli
O mote foi lançado no site da BLITZ e os membros registados deram o seu contributo. Às perguntas seleccionadas, os Xutos dão as suas mais honestas respostas.

Muitas pessoas dizem que os álbuns dos últimos anos foram feitos em piloto automático - sem os rasgos de génios de 78/82, Cerco ou Circo de Feras. Qual é a vossa reacção a esses comentários? (RobertNaja)
ZP Que esses comentários são falsos!
G Olha, agora quando estivemos em Macau, estivemos com um gajo, que também é músico, que nos disse que adorava este disco.
T Claro que, quando se pega em discos antigos, percebe-se que a forma de fazer as coisas era completamente diferente, era mais crua e mais directa. E os resultados podiam parecer mais espectaculares porque nos atirávamos sem rede. E a coisa podia correr mal: houve muitas canções que correram muito mal. Por exemplo, quando gravámos o «Quero-te» achámos que aquilo era uma cena muito gira e depois não resultou. No Cerco isso também aconteceu: as pessoas hoje falam muito do «Homem do Leme» mas esse sempre foi o patinho feio do álbum. Mas a fase mais confusa e onde apareceram as coisas mais inovadoras, foi realmente no período em que andámos mais perdidos, mais ou menos na altura do Dizer Não de Vez. Porque nos últimos discos... O Dados Viciados é um disco muito enovoado...

E o XIII é um disco que não resulta...
T
O XIII teve um bom princípio e um mau fim. Mas estamos a chegar ao ponto que eu queria: estamos a deixar de observar as canções para analisarmos as questões que envolveram os álbuns.
G Mas estavas a falar do Dados Viciados no outro dia, o [Nuno] Várzea [técnico de iluminação da banda] pediu-nos para tocarmos o «Moeda ao Ar». Eu nem sequer estou a tocar nesse álbum mas é sempre agradável ouvir essas músicas antigas, das quais muitas vezes nos esquecemos. Eu gosto das músicas todas mas, para mim, o ponto alto, o álbum do qual gosto das músicas todas, do princípio ao fim, é o Dizer Não de Vez.
T Mesmo o XIII, tem músicas muito boas... Mas esse álbum teve um envolvimento muito chato: começámos a trabalhar com o produtor [Mário Barreiros], o trabalho arrastou-se um bocado mais do que estávamos à espera e, a certa altura, ele desligou. E, ele sim, esteve em piloto automático - ficámos todos à nora.
Eu fiquei agarrado às letras, o João ficou agarrado aos solos, o Zé às guitarras, o Kalu ao coros... Acabar o disco e fazer com que as coisas funcionassem, depois de ter tudo batido mesmo lá em baixo, foi complicado.
G E mesmo assim, logo na primeira digressão a seguir à saída, tocaste o disco todo! Não havia nenhuma canção que não tocasses.

Comparando com bandas mais recentes, os Xutos podem ser considerados a banda mais nacional de sempre. Não vos incomoda que mais de metade dos portugueses não reconheça tal facto por não terem canções nos Morangos com Açúcar? (tiagodabernarda)
ZP Não!
G A série ainda não acabou.

Após tantos anos de carreira, alguma vez puseram a hipótese de acabar o projecto Xutos e seguir cada um para seu lado? (squirr3l)
ZP Certamente cada um de nós já pensou nisso. E houve uma altura da nossa vida, depois de termos gravado o Gritos Mudos, que estivemos basicamente parados. Foi por iniciativa do Kalu que nos voltámos a juntar e a gravar. Mas, em grupo, nunca tivemos uma conversa nesse sentido.

Na vossa longa carreira, algum projecto ficou por fazer? E acham que ainda podem surpreender os fãs? (Tata_Comuna)
T Claro que sim. No dia em que deixarmos de achar que podemos fazer mais alguma coisa...

Quais são os ícones com os quais se identificam, inspiram ou simplesmente admiram? (Beatrix)
G De todos os que nos inspiraram no passado, a maioria já nem está a fazer nada de interessante. Mas não há problema: faz-se muito boa música hoje em dia.

Zé Leonel e Francis: que marcas deixaram na banda? (fred9)
ZP
O Zé Leonel deixou todas as raízes para que o projecto pudesse andar. O Francis deixou um álbum, o primeiro - o que é muito importante

Qual foi a experiência mais estranha que tiveram em digressão? (voidoid)
T Para mim, as situações das cadeias sempre foram estranhas, muito pesadas. A mais estranha foi quando fomos a Macau pela primeira vez, em 89, em que fomos tocar numa prisão chinesa, por obrigações das quais nem me lembro. E obrigaram os presos a ver-nos.
G Até havia quem dormisse...

Qual foi a maior barraca que já vos aconteceu? (marioJADER)
T
Para mim, continua a ser o concerto no Infante de Sagres, no Porto, com os Mano Negra, logo a seguir ao Gritos Mudos. Aliás, quando chegámos ao Porto percebi logo que a coisa não ia correr bem: os cartazes que estavam espalhados pela cidade ainda eram os mesmos da última vez que lá tínhamos ido. Estavam no pavilhão à volta de 300 pessoas...

Qual foi o álbum que mais prazer vos deu a compor, gravar e ouvir? E canção: qual é a que mais alegria vos dá por terem composto? (junix)
ZP Eu tenho muito orgulho no último disco [O Mundo ao Contrário].
T Cada um tem a sua importância.
G Para mim, continua a ser o Dizer Não de Vez.

Porquê Xutos & Pontapés? (radiohead)
ZP
(Risos) Porque sim!
K Porque não?!
T Essa deve ser a pergunta que mais vezes nos fazem! Olha, porque era melhor do que os outros nomes que tínhamos, tipo Beijinhos & Parabéns.

Qual destes momentos é o que vos dá mais gozo relembrar: serem agraciados com a Ordem de Mérito; terem tocado na primeira parte do concerto dos Rolling Stones; a comemoração dos 20 anos de carreira; a primeira parte do concerto dos UHF em 1980? (furs)
ZP Acho que foram todos... E mais alguns.
G Como eu não estava com eles em 1980, de certeza que o mais importante foi o concerto com o UHF! (Risos)

"Tive os Xutos a tocar só para mim", Henrique Amaro (Antena 3)
Estávamos em 1994 - e lembro-me bem do ano não só por causa do Mundial de Futebol dos Estados Unidos mas também porque foi o mesmo ano do bloqueio na Ponte 25 de Abril. Acompanhei os Xutos até Itália nesse Verão porque eles iam fazer um concerto inseridos no festival Arezzo Wave. O Tim tinha alguns contactos com a organização do Printemps de Bourges e como esse festival tinha antenas espalhadas por toda a Europa, acabou por surgir a oportunidade dos Xutos tocarem no Arezzo, em Itália. Esse festival era, na altura, uma coisa em grande, o equivalente ao Sudoeste lá do sítio e tinha nomes fortes no cartaz, como o MC Solaar. Eu acabo por ir, com o intuito de fazer reportagem, já para a Antena 3.
Depois de se ter confirmado a presença dos Xutos no Arezzo, o Tim acabou, através de outros contactos, por conseguir um outro concerto, numa outra localidade. Sinceramente, já nem me lembro se o Arezzo Wave ficava no Norte ou no Sul do país, mas sei que a distância entre os dois concertos que eles deram em Itália rondava os 500 quilómetros.

O concerto estava marcado para um sítio muito curioso, com um espírito meio de colectividade, um palco sem paredes, só com uma estrutura metálica. Era um espaço coberto mas muito interessante, muito informal. Não era bem nos arredores da cidade mas era num descampado próximo da vila e foi aí que nasceu todo o problema. O concerto dos Xutos & Pontapés estava marcado para dia 17 de Julho o que não teria importância nenhuma não fosse também a data da final do Campeonato do Mundo, que opôs a Itália ao Brasil. O espectáculo tinha que começar à hora marcada, para que o ruído não incomodasse as habitações próximas daquele local: e os Xutos acabaram por subir ao palco na mesma hora em que o Roberto Baggio jogava do outro lado do Atlântico. Ou seja, à frente do palco estive eu, a Marta [Ferreira, manager da banda] e o Cajó [técnico de som de frente]. O Cajó alinhou o som todo, veio para perto de nós, de vez em quando ia acertando o som e o concerto foi assim. Em cima do palco, eles tocavam como se o recinto estivesse cheio. E tocaram tudo! Sem qualquer capricho mas com muito instinto, de forma muito natural. O ADN dos Xutos revelou-se ali! Foi uma situação que deve ter acontecido muito poucas vezes na vida dos Xutos e, olhando para os últimos anos, pensando em todos os Pavilhões Atlânticos. Pensar que tive os Xutos a tocar só para mim. Foi impressionante e é algo incontornável!

Entrevista Ana Ventura
Fotos Rita Carmo

Os Xutos & Pontapés na capa da BLITZ nº 6, em 2006

Os Xutos & Pontapés na capa da BLITZ nº 6, em 2006