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Estádio de Alvalade, 14.09.90

Arquivo A Capital/Gesco

Leia aqui a entrevista que David Bowie deu ao Expresso antes do concerto de Alvalade, em 1990

Antes do primeiro concerto de Bowie em Portugal, em 1990, o músico falou a Luís M. Faria, do Expresso. Leia aqui essa conversa

A UMA semana do seu concerto em Alvalade, David Bowie, o "camaleão do rock", falou ao EXPRESSO do passado e do presente, e referiu-se ao futuro. Se os seus projectos cinematográficos estão melhor do que há uns meses (Bowie, que em Março se confessava desempregado como actor, vai filmar uma comédia com Rosanna Arquette em Los Angeles), a aposta nos Tin Machine ainda tem algo a revelar. Um segundo disco vem a caminho; uma "tournée" acompanha-lo-á.

Bowie depois de Bowie

EXPRESSO—Que espectáculo vem fazer a Portugal?

DAVID BOWIIE — É um espectáculo de despedida. Nesta fase da minha vida, preciso de dizer adeus aos temas que sinto não irei querer cantar daqui a cinco anos. É muito importante para mim, enquanto escritor de canções, ter a maior liberdade possível. Uma das mais importantes liberdades é não ter de carregar a bagagem do passado.

EXP. — Certos críticos sugerem que esta sua «tournée» obedece a considerações puramente financeiras.

D.B. — Não é verdade. O dinheiro nunca me preocupou, pelo menos desde 1983, que foi quando fiz dinheiro pela primeira vez. Cada um dos meus três álbuns saídos desde essa altura — Let's Dance, Never Let Me Down e Tonight — vendeu mais individualmente do que os cerca de vinte que eu tinha feito antes, juntos. Não preciso realmente de dinheiro.

EXP. — Falou dos seus três álbuns a solo. E quanto ao álbum dos Tin Machine?

D.B. — Para um álbum "underground" tão radical como é, saiu-se particularmente bem em relação ao que eu esperava. O segundo álbum do grupo está gravado e sairá em Janeiro; regressarei aos palcos para o promover. O Tm Machine é a minha obsessão do momento.

EXP. —Porquê?

D.B. — Porque me agrada imenso estar numa banda onde existe mais do que a minha opinião. Há quatro pessoas dife rentes a criar aquilo que acontece. No passado era sempre eu, sempre a minha ideia particular. Pôr-me no contexto de um grupo é para mim, por assim dizer, uma técnica nova.

EXP. — Você sempre se rodeou de talento alheio — musical e outros.

D.B. — Penso que não gostaria de trabalhar com medíocres. Tive sorte de aqueles com quem quis trabalhar até hoje sempre terem querido trabalhar comigo. Há pessoas no "rock'n'roll" que gravitam à roda de gente desinteressante, e o resultado é, digamos,ouco especial.

EXP. -- Quem foram as pessoas com quem mais gostou de trabalhar?

D.B. — Musicalmente, Brian Eno. Visualmente, Edouard Lock, o meu último colaborador, da companhia de dança Human Steps La La La.

EXP. — Pode referir-se ao papel dele no seu espectáculo?

D.B. — Lock escreveu um guião em que o protagonista é o bailarino principal da sua companhia, Louis Lecavalier. Eu e Lecavalier contrastamos de modo brusco. A preto e branco. Tão simples como isso. Quanto aos movimentos de dança, correspondem ao que agora se chama "vogueing". A Human Steps La La La já os praticava há sete anos.

EXP. — Você nunca havia feito um concerto exclusivamente dedicado às canções do passado. E a primeira vez que se repete. No entanto, essa repetição é apenas musical. Visualmente, é tudo novo outra vez. O aspecto visual tem para si mais importância do que o aspecto musical? Assim parece, quando vemos as mudanças de personalidade ao longo da sua carreira

D.B. — Há que distinguir épocas. Quando comecei, o meu propósito era levar uma espécie de teatro para dentro do "rock'n.'roll". Queria escrever canções que fossem essencialmente personagens, como as personagens de uma peça. Ziggy Stardust era uma história vagamente mítica posta em música; e era interpretada nesse sentido. Até 75, todos os meus álbuns foram caracterizações. A última foi o Thin White Duke, e depois acabou.

EXP. — Quem eram os seus modelos visuais?

D.B. — Nenhuns em concreto. Tirei elementos do teatro japonês, da mentalidade ocidental tradicional, do teatro do absurdo. Fui bastante ecléctico a juntar ideias para o teatro do "rocle". Visualmente, sou um grande admirador de Marcel Duchamp. Sempre me fascinou o dadaísmo.

EXP. — A sua atenção à moda ou, em todo o caso, a sua sofisticação a vestir devem ter sido originais nos anos 70.

D.B. — Utilizar elementos de outras artes, fossem elas quais fossem — moda, teatro, pintura — era uma coisa relativamente original no "rock'n'roll" dessa época. Mesmo assim, havia alguns grupos que o faziam. Os Roxy Music, por exemplo, tinham consciência da influência da pintura.

EXP. — Você ia mais longe, pois modificava-se literal e totalmente de disco para disco, até 75. Acha que a criatividade tem de alguma forma a ver com sair da personalidade que se tem — que se é —e entrar noutra?

D.B. — Não forçosamente. Algumas das minhas melhores músicas são posteriores a 75. O que devemos é procurar criar condições que estimulem a imaginação. Para mim, nos últimos dez ou doze anos, a experiência mais compensadora tem sido viajar, viajar muito. Tentar gravar em locais dife rentes.

EXP. — Sente-se um sobrevivente?

D.B. — Somos todos sobreviventes, especialmente nesta fase da nossa vida.

EXP. — Que lhe dizem artistas como Michael Jackson e Madonna?

D.B. — À parte o facto de termos feito grandes espectáculos nos últimos anos, nada temos em comum.

EXP. —Os espectáculos deles são minuciosamente coreografados, tal como os seus.

D.B. — Sim. Uso o acaso muito mais na escrita do que na dança. Grande parte das minhas "performances" têm uma forma bem definida à partida.

EXP. — Na actual "tournée", você deixa o público escolher as canções através de uma votação prévia. Porquê?

D.B. — Porque é a única vez. E porque, como não voltarei às minhas canções do passado, achei que devia dar ao público a oportunidade de reunir, num único espectáculo, aquelas de que gosta mais.

EXP — Não é, então, por indiferença.

D.B. — Indiferença? Ir para o palco oferecer o melhor de mim mesmo duas horas por dia durante um ano não é indiferença.

EXP. — Pergunta inevitável: o que o faz correr?

D.B. — Quero ter a certeza de que continuo a ser um artista. É por isso que continuo. Não quero vir a descobrir que me deixei arrastar para uma situação na qual a música que faço, os espectáculos que dou, já não me excitam. Para evitar isso, aproveito cada desculpa, cada oportunidade de aventura que me oferecem.

Entrevista de Luís M. Faria, publicada originalmente no Expresso de 8 de setembro de 1990

A capa da edição do Expresso onde foi publicada a entrevista com David Bowie

A capa da edição do Expresso onde foi publicada a entrevista com David Bowie