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Como pôde Bowie fazer-nos isto?

Mais do que uma surpresa, a morte de David Bowie, ontem, aos 69 anos, parece quase uma traição. Mas a forma como planeou tudo é apenas mais um sinal do seu génio

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Acordar numa segunda-feira de manhã e, ao ligar o telemóvel, levar com uma enxurrada de mensagens de amigos e conhecidos, todos batendo na tecla do "já soubeste?" ou "que tristeza", não só não pode agoirar nada de bom como causa uma angustiante confusão. Naqueles segundos entre a remela e o abrir do estore, cheguei a pensar que tinha morrido alguém que conhecia na vida real. E, depois de perceber que quem tinha partido fora David Bowie, não fiquei bem convencida do contrário.

Depois do choque, o rewind ensonado. Então mas o homem não tinha lançado um disco, ainda por cima dos bons, há poucos dias? Não estava "em exibição" no mural de metade dos meus amigos, encantados com a sua vitalidade artística e resistência à passagem de anos e modas, tão enamorados por “Blackstar” como outrora por “The Man Who Sold the World” ou “Ashes to Ashes”? Deve ter sido repentina, a sua morte, pensei. Não foi, claro, e se nas primeiras horas de confronto com a notícia a pergunta que mais me martelava a cabeça era “como pôde David Bowie morrer?", gradualmente a formulação passou a ser: “como pôde David Bowie morrer assim?”. E por assim refiro-me ao inacreditável controlo, criativo e não só, que, sabemo-lo agora, o britânico conseguiu manter até à sua última hora.

25º disco da sua carreira e o primeiro sem a sua imagem na capa, Blackstar está cheio de mensagens nada crípticas. Das letras e vídeos do tema-título e de “Lazarus” (Look up here, I’m in heaven, começa por cantar), ao facto de, no passado mês de dezembro, David Bowie ter “mandatado” Michael C. Hall, o ator de Dexter e protagonista do musical bowiesco Lazarus, para cantar o single do mesmo nome num programa da televisão norte-americana, tudo nos parece (agora!) apontar para o canto de cisne do homem que escreveu – e quebrou – muitas das regras do livro da pop nas últimas cinco ou seis décadas. Não vimos porque não quisemos ver, ou não acreditámos porque quem se mostrava (no vídeo de “Lazarus”) preso a uma cama de hospital fez da ilusão o seu ofício vitalício?

Tantas séries de crimes não nos prepararam para isto, ainda que com elas tenhamos aprendido que, por vezes, a melhor forma de esconder algo é deixá-lo bem à vista de todos. Resta-nos o espanto perante a grandiosidade do último ato de David Bowie (ao qual não é alheio o humor possível: a sua conta do Twitter regista que, na noite em que morreu, aquele a quem muitos chamavam Deus passou a seguir - o outro - Deus naquela rede social). Showman até ao fim, passou os seus últimos meses a preparar um trabalho monstruoso, deixando-nos não só um belo e estranho álbum, como um rasto de pistas sobre o seu fim iminente. Pode não ter sido capaz do derradeiro truque – enganar a morte, como Lázaro, personagem bíblica que Jesus Cristo consegue, ao quarto dia, ressuscitar – mas controlou ao máximo cada pormenor da via-sacra que, tudo indica, percorreu até 10 de janeiro, dotando-a de uma beleza tão arrebatadora como improvável. Como pôde Bowie fazer-nos isto? Sendo Bowie, claro.