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Rita Carmo

GNR fizeram o melhor disco português do ano para a BLITZ: leia aqui porquê

Caixa Negra venceu a votação de Melhor Disco Português de 2015 para a equipa BLITZ. Leia aqui o texto publicado na revista BLITZ de janeiro, ainda nas bancas (capa: Coldplay), onde destacamos os melhores álbuns nacionais e internacionais do ano que passou

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Há elogios que valem por dois. Terá sido assim que, ao editarem este ano Caixa Negra, os GNR encararam o comentário de Alexandre Soares, um dos fundadores da banda. Em 1981, Soares juntou-se a Tóli César Machado e Vítor Rua na criação daquela que é, ainda hoje, uma das instituições da pop portuguesa. Cinco anos mais tarde, e após o lançamento de Psicopátria, "casa" de "Efectivamente" ou "Pós Modernos", o músico abandonaria o barco. Mas, em 2015, rendeu-se aos encantos de Caixa Negra, o mais recente capítulo da singular e duradoura história dos GNR. "Às vezes os melhores elogios são de gente inesperada", disse Rui Reininho à BLITZ, em maio deste ano. "O Alexandre Soares deu-nos os parabéns pelo disco", partilhou, explicando: "Achei graça, porque é uma pessoa que já não tem nada a ver connosco e portanto dá-me a ideia que é uma opinião sincera. Não está a dar graxa".

Caixa Negra, 12º álbum dos GNR, encontra-os efetivamente (trocadilho involuntário) em ótima forma. Gravado com Mário Barreiros, figura discretamente central em boa parte da música que se continua a gravar no Porto e em Portugal, enquanto produtor e guitarrista, é um disco que consegue brilhar em registos aparentemente díspares: ágil e intenso, quase dramático; jovial e espirituoso, com os jogos de palavras de Reininho alcançando alturas vertiginosas. Atentemos, por exemplo, em "Honolulu", oitava faixa do conciso Caixa Negra, álbum que a própria banda apelidou de "EP longo com cheirinho a mini-CD": "Cheira um pouco a azedo o quarto do meu amor / talvez leite do seu seio, na jarra morta uma flor". Entre o lírico e o grotesco, o homem nascido na Maternidade Júlio Dinis, na Invicta, há 60 primaveras, saltita com uma elegância surreal que ainda não encontrou descendência exata. E talvez nem devamos desejar que outro alguém venha a escrever como ele: afinal, quem é que debitaria com convicção tiradas como: "Toda a gente diz que não há guerra, no Iraque era assim / até o rock and roll veio de Inglaterra, não foi de lá que eu vim?".

Nos GNR, mais do que na efémera carreira a solo ou nas aparições televisivas, Reininho cria a sua fantasia, vive a sua personagem, habita o seu mundo. Provando que cada vez menos o rock é coisa de miúdos, o recém-sexagenário dá o seu melhor em Caixa Negra, fruto do trabalho de um power trio em estado de graça. Com Jorge Romão, o "benjamim" da banda, no baixo e Tóli César Machado, um verdadeiro toca-tudo, no piano, acordeão e guitarra, os portuenses honraram este ano o seu cânone, na elasticidade pop de "Caixa Negra" ou "Cadeira Eléctrica", mas também na revisitação direta do seu património. "Desnorteado", originalmente incluído em Defeitos Especiais, de 1984, ressuscita em 2015 como tango sinistro, fazendo boa companhia a "MacAbro", que de forma sublime encerra o álbum.

Quando, em março deste ano, escutámos pela primeira vez Caixa Negra, escrevemos que, nesta altura do campeonato inventado por eles próprios, os GNR "não se propõem a inventar nada, oferecendo antes um álbum pop confiante, por vezes mesmo cintilante". Oito meses depois, continuam a soar-nos agilíssimos na forma como alternam entre micro e macro, no que toca às palavras reorganizadas pela mente de Reininho, e também nos ambientes (a funky "Triste Titan" abre, sem pudores, a porta a "Dançar Sós", delicada balada ao piano, e tudo faz sentido).

A própria banda terá noção de que Caixa Negra lhes correu bem. Em maio, quando com a BLITZ lançaram Afectivamente ao Vivo, sentaram-se a falar com Ana Patrícia Silva, no Theatro Circo de Braga, e abriram o livro sobre o mais jovem rebento. "Não há dúvida que foi conseguido e as canções funcionam muito bem ao vivo", confessou Tóli César Machado na majestosa sala onde o primeiro disco desde In Vivo, de 1990, foi gravado. "E o Rui também tem cantado bem, os tons agora estão certos. Este gajo às vezes parecia uma cabra de Miranda do Douro a cantar com aquilo muito agudo. Agora é que ele está com voz de homem", brincou. Sem filtro, sem moralizar: GNR 33 anos depois de Independança, mais livres que nunca.

Originalmente publicado na BLITZ de janeiro de 2015