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Bryan Adams

Tudo sobre a vida de Bryan Adams em Portugal: “Those were the best days of my life”

A voz de “Summer of 69” passou, de facto, esse e outros verões no nosso país

O cantor canadiano, em vésperas de mais uma passagem por Portugal, tem publicado no Facebook algumas memórias fotográficas desse passado. E nós recuperamos aqui parte de uma reportagem de 1991 em que Rui Miguel Abreu, então no semanário Se7e, procurou descobrir algumas das memórias desse passado português de Bryan Adams.

Entre meados de 1967 e finais de 1970, Bryan Adams viveu e estudou em Portugal. A futura estrela da cena rock internacional, que entretanto assumiu também carreira como fotógrafo, frequentou o Colégio Americano St. Columban’s e viveu em Birre, Cascais, numa moradia conhecida como Casa dos Três Choupos. Em Dezembro de 1991, em vésperas de uma dupla apresentação em Portugal, Rui Miguel Abreu assinou no semanário Se7e uma reportagem que procurava lançar alguma luz sobre o passado português de Bryan Adams. E é parte dessa reportagem que agora aqui se recupera, num momento em que o país se volta a preparar para receber e aplaudir a estrela rock canadiana que tem passagens marcadas para o Meo Arena e para o Multiusos de Gondomar nos próximos dias 25 e 26 de Janeiro, respetivamente. O músico, em jeito de antevisão da visita, publicou algumas fotos relativas à sua vivência no nosso país na sua página de Facebook. E nós regressamos ao seu passado por via dos arquivos do Se7e.

Bryan Adams em palco, nas páginas do Se7e

Bryan Adams em palco, nas páginas do Se7e

“O seu pai, o coronel Conrad Adams, tinha funções de adido para a emigração na embaixada do Canadá. Uma das suas comissões de serviço trouxe-o até Portugal. Com ele vieram a sua mulher e dois filhos, Bruce e Bryan”. Em 1991, o Se7e localizou Manuela Marques, funcionária da embaixada do Canadá em Lisboa que tinha memórias vívidas do tempo dos Adams no nosso país. “Lembro-me dos miúdos. Eram diabólicos entre eles, mas o Bryan era mais tímido quando estava com outras pessoas. Ele herdou a tez do pai que era muito ruivo".

A senhora Manuela Marques conviveu relativamente de perto com a família: costumava levar Bryan e o seu irmão, Bruce ("penso que é ele que agora toma conta dos negócios do Bryan"), ao dentista — "ainda me lembro — era o Dr. Gil Alcoforado" — e no histórico dia da aterragem na Lua, em 1969, presenciou a emissão televisiva em casa da família Adams, em Birre, Cascais, juntamente com o resto do pessoal da embaixada. A casa — conhecida em Birre como Casa dos Três Choupos — ainda existe e é habitada, mas a atual família residente não sabia que "o cantor do 'Everything I Do' lá tinha vivido”.

Em cima, à esquerda, a casa de Birre onde Bryan Adams viveu

Em cima, à esquerda, a casa de Birre onde Bryan Adams viveu

Em 1991, o Se7e estabeleceu contacto com Cristina Serrano que fora professora de Bryan Adams na St. Columban’s, escola conhecida como “Casa Branca”, e que guardava um Yearbook repleto de memórias fotográficas desse tempo. “Lê-se assim num texto assinado pelo diretor da St. Columban's para o Yearbook de 1970 (vocês sabem, aqueles livros que parecem existir apenas nos filmes americanos sobre os loucos anos 50): 'Este foi um ano feliz e St. Columban's esteve livre da agitação sentida em tantas outras escolas. Talvez parte disso se deva à tranquila atmosfera portuguesa; mas eu penso que, em vez disso, essa tranquilidade é resultado da cooperação e boa vontade da parte dos estudantes'". Nada de reações pós-Maio de 68, nada de alunos tipo Cohn-Bendit. Agitação ao largo.

"Existia alguma disciplina na escola, mas não o que se possa imaginar. Era uma escola com alunos de várias nacionalidades e onde não existiam choques de credos ou princípios", diz-nos a professora Cristina Serrano com quem eventualmente estabelecemos contacto.

Imagem de 1967 do Colégio Americano St. Columban’s, frequentado por Bryan Adams

Imagem de 1967 do Colégio Americano St. Columban’s, frequentado por Bryan Adams

Cristina Serrano entrou para a Casa Branca pouco depois de esta ter aberto as suas portas aos filhos dos diplomatas e outras entidades (a NATO, por exemplo) estacionadas em Portugal. "O Bryan e o irmão foram ambos meus alunos. O Bryan gostava especialmente de Inglês e de Estudos Sociais, mas não era muito inclinado para a Matemática. Também gostava de participar nos projetos que eu lançava. Como as peças de teatro: ele arranjava sempre maneira de colaborar trazendo de casa discos e enciclopédias para nos apoiarmos. Lembro-me de uma representação da Bela Adormecida em que o Bryan fazia um dos papéis e para o qual ele trouxe um disco que tinha uma rapsódia com temas de Mussorgsky e Tchaikovsky, entre outros".

Segundo nos revelou a professora Cristina Serrano, Bryan Adams era uma criança aplicada na escola, interessada e participativa em todas as iniciativas. "Era claro que ele era apoiado em casa pelos pais", adiantou. Mas isso não impedia que fosse extremamente tímido e, de certa forma, isolado. A sua ama da época, a senhora Marília Pedroso (cuja existência nos foi revelada por uma das funcionárias da embaixada do Canadá), hoje funcionária da embaixada da Austrália, afirmou-nos que Bryan não era o género de criança de brincar muito com colegas. A sua vida resumia-se à casa e à escola. "Lembro-me que quando ele chegou a Portugal trazia uma série de bonecos de pelúcia gastos de tanta brincadeira. Quando eu lhos consertei até os olhos brilhavam".

Em novembro passado, Adams partilhou nas redes sociais esta fotografia de 1970 da equipa de futebol que integrou quando estudava no St. Columban's

Em novembro passado, Adams partilhou nas redes sociais esta fotografia de 1970 da equipa de futebol que integrou quando estudava no St. Columban's

Portanto, o mito fica deitado por terra. Quem esperava que Bryan Adams tivesse passado a infância agarrado a uma guitarra e a compor canções pueris sobre os seus ursos de pelúcia pode deixar de alimentar esses mitos. "Música? A sua relação com a música limitava-se àqueles instrumentos que todas as crianças têm — a flauta e o xilofone. Depois havia os discos — os dos pais e os meus. Na época eu gostava muito do Tom Jones e como estava sempre a ouvir ele aprendeu a gostar", explicou Marília Pedroso. A professora Cristina Serrano confirma estas informações. Diz ela que nos anos em que o conheceu nunca suspeitou de que um dia Bryan poderia vir a ser um campeão de vendas de discos na área do rock. De gostos musicais só lhe conhecia os discos que regularmente levava para as aulas para ilustrar trabalhos coletivos, "mas era possível que ele em Cascais com a família fosse puxado para o campo da música".

Sobre uma possível disciplina "militar" em casa nada nos foi revelado. A professora de Bryan Adams recordou que quando começou a dar aulas a Bryan e ao seu irmão — que por ser um ano mais novo andava numa classe anterior à de Bryan – discordavam um pouco da sua orientação pedagógica, mas depois tornaram-se "os melhores dos amigos".

Bryan viveu em Portugal o intervalo que decorreu entre os 9 e os 12 anos de idade. Uma idade demasiado "verde" para se lhe conhecerem possíveis namoradas. Não deixou por isso de ser uma idade feliz. A sua ama afirma que a estada dele em Cascais foi feliz: "No Verão dávamos sempre longos passeios de bicicleta e passávamos muito tempo na praia". Não será portanto atirar muito alto supor que a canção "Summer of 69", em que se canta a dado momento "those were the best days of my life", tenha sido composta a pensar nos dias de Cascais”.

As fotografias das turmas portuguesas de Bryan Adams, publicadas no jornal Se7e

As fotografias das turmas portuguesas de Bryan Adams, publicadas no jornal Se7e

Em entrevista à BLITZ, em 2010, Adams recordou a sua vida em Portugal: "Vivia em Birre [perto de Cascais]. Era do melhor. Naquela altura, a Praia do Guincho não tinha nada, mas mesmo nada! Só um restaurante, julgo. O resto eram pinhais. Havia dias em que nem conseguias encontrar a estrada, porque estava tanto vento que levantava-se muita areia (...). Sinceramente, não consegues imaginar como era bonito".

"E as pessoas também eram diferentes, porque a pobreza era outra. Imagino que as pessoas agora estejam melhor do que no tempo de Salazar, mas como não vivo aí nem devia comentar. Lembro-me que havia sempre pessoas a pedir à nossa porta. Quando vou a Portugal já não encontro aquela imagem - quer dizer, nos anos 60 toda a gente tinha uma carroça puxada por burros! O meu cão ficava maluco, porque ouvia o sino dos burros ao longe".

Também em 2010, mas em entrevista à revista Up, o músico canadiano disse que a sua passagem por Portugal mudou a sua maneira de pensar, "tenho uma ligação muito forte com o país. Além de fazer parte da minha formação, foi o lugar onde comprei os meus primeiros discos, onde comecei a interessar-me verdadeiramente por música". Adams revela também que percebe português, apesar de não falar bem, e que regressa a Portugal todos os anos.