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Kendrick Lamar, o Salvador

Com To Pimp a Butterfly, Kedrick Lamar venceu a votação de melhores álbuns internacionais de 2015, pela equipa da BLITZ. Recorde aqui o texto de Rui Miguel Abreu sobre o álbum de «King Kunta», originalmente publicado na BLITZ de janeiro.

Dois sinais inequívocos do alcance de To Pimp a Butterfly, o álbum com que Kendrick Lamar subiu a já impossivelmente alta fasquia estabelecida com good kid, m.A.A.d city, de 2012: as primeiras notícias a indicarem que haverá um novo álbum de David Bowie no arranque de 2016 apontam a obra do atual filho pródigo de Compton como principal referência, ajudando muito provavelmente a justificar a opção do Camaleão de ir buscar músicos de jazz para a gravação o seu novo reportório; o movimento #BlackLivesMatter, que tem levado para as ruas da América graves protestos contra a seletiva repressão policial no país de Obama, escolheu «Alright» como hino oficioso, declaração clara da recusa de desistir do futuro num país que sempre vendeu a ideia do sonho a toda a gente, não importando a cor da pele.

Kendrick, portanto, marca não só a agenda do combate político nas muito reais ruas do seu país, como também impõe direções estéticas mesmo a quem sempre fez da reinvenção periódica uma marca pessoal. Em Kendrick não importa apenas o que se diz, mas também como se diz. E isso é sinal de génio. Claríssimo. A primeira ideia que resulta da audição de To Pimp a Butterfly é a da força da visão poética de K. Dot: «a minha paixão é trazer histórias e construir um corpo de trabalho completo e não apenas um verso de 16 compassos», explicou o rapper em entrevista no início do ano.

Quase nove meses volvidos sobre a edição deste trabalho, é possível dizer que o tempo só faz favores a Kendrick: as suas letras são um complexo mosaico de emoções, resultantes de uma visão das coisas introspetiva e crítica. Se good kid... era uma observação do passado, ... Butterfly é antes um agudo olhar sobre o presente, em que o rapper questiona o que lhe trouxe afinal a notoriedade.

Responsabilidade, antes de mais, parece ser a resposta encontrada: «sei que sou o mais próximo que muita gente tem de um reverendo», admitiu ao New York Times.

Lamar poderia ter optado por uma base musical mais transparente e linear para transportar as suas ideias de redenção, de superação, mas também de auto consciencialização, mas ao invés disso, e daí Bowie ter acusado o toque, preferiu buscar inspiração na música de uma época em que a América vivia outras convulsões e a mensagem libertária do som tinha ela mesmo uma dimensão política. Com cúmplices como Kamasi Washington (que marcou o ano jazz com o seu magnífico Epic), Thundercat ou, entre outros, Flying Lotus, Kendrick usou um complexo mosaico de free jazz, de soul libertária e de funk psicadélico, tudo com uma claríssima vocação experimental, para dessa forma encontrar o mais perfeito veículo para as ideias que fazem de temas como o já citado «Alright» ou de «King Kunta» verdadeiros manifestos da era moderna.

Com suficiente bounce para ressoarem no sistema do clube ou nos woofers do jipe, mas, ao mesmo tempo, com a espessura poética e ideológica certa para ecoarem nas consciências de toda uma geração.

Opinião quase unânime: com Butterfly, Kendrick decidiu muito simplesmente espraiar-se para lá das ainda apertadas margens do hip-hop, não apenas pela eleição do jazz como base estética para as suas explorações, mas pelo investimento na cadência spoken word aplicada em muitos dos temas. E há o discurso também: o rapper não se escusa a afirmar que gostaria de voltar à escola (disse-o à Rolling Stone), parecendo assim dizer que nem todas as lições válidas podem ser aprendidas nas ruas.

E que dizer do extraordinário vídeo de «Alright»? Kendrick Lamar percebe que esta é uma era de instantes visuais, mas o que tem para dizer não cabe num Vine e precisa de outra amplitude.

Este clip assinado por Colin Tilley é ele mesmo um manifesto. «Este vídeo mostra o estado de tudo o que acontece no mundo hoje», explicou o realizador à MTV. «É também sobre como um homem pode espalhar carga positiva no meio de toda a loucura que grassa nos dias de hoje».

Kendrick Lamar, 28 anos, pode muito bem ser o salvador. Da coisa hip-hop, claro, mas talvez até de muito mais do que isso.